Estrada

1 Um final de tarde em Cubatão


Coloquei a mochila na frente do corpo, pensando que assim ninguém poderia puxá-la por trás e me roubar. Também tirei um lápis afiado do estojo; era uma — talvez inútil — maneira de me proteger do perigo.

Depois dos preparativos, botei o pé na estrada.

Era um atalho: uma estreita estradinha de duas mãos em meio uma floresta, cheia de curvas; um minúsculo recorte ondulatório de asfalto que perfurava uma pequena fração de mata atlântica — já tinha passado inúmeras, centenas de vezes por aquele lugar, dentro da van escolar.

A paisagem sempre me trazia tranquilidade em todos os momentos que aquela angústia quase crônica fazia meu peito arder em chamas. E eu pensava, sempre durante a volta da escola — ora quando focava no caminho verde do outro lado da janela; ora quando observava meu próprio reflexo no vidro — , o quanto eu gostaria de chegar mais perto daquele lugar.

E aquele dia havia chegado.

Não houve preparativos ou planejamentos. “Vou voltar mais cedo de ônibus”, avisei por mensagem o motorista da van, para que ele não me esperasse. Foi num frenesi de loucura e em meio uma ocasião propícia que peguei minhas coisas, me despedi dos porteiros da escola e fui embora.

Virei a esquina e corri por toda a Avenida; desci ela voando, correndo desengonçadamente e pulando os buracos da calçada, quase gritando, rindo. Eu era livre agora, afinal.

Por muito tempo refleti se aquela minha atitude não era uma espécie de energia suicida inconsciente que o término recente tinha me proporcionado. Poderia ser? Talvez lá no fundo; mas não inteiramente. Ainda havia, por incrível que pareça, um senso de autopreservação dentro de mim. Não à toa, usava a mochila para frente e segurava o lápis afiado entre uma das mãos.

De qualquer forma, estava ali agora, encarando o começo do longo caminho sinuoso que finalmente percorreria.

Uma vez ouvi da minha própria mãe “Um passarinho que sempre ficou dentro da gaiola, não sabe para onde ir quando o libertam”. E era exatamente assim que eu me sentia naquele momento: sem rumo. A estrada era um caminho único, sem mistérios ou segredos — e eu mesmo já sabia de cor as curvas daquele lugar — , mas meus pés pareciam contraditórios sobre onde deveriam me levar. Para casa, é claro!, eu pensava; mas, no fundo, a resposta não me satisfazia nem um pouco.

Mergulhei na estradinha, seguindo pela pequena ciclovia que ficava lado a lado com a floresta que sempre me trouxe alívio. Talvez eu não devesse me importar aonde chegar, mas com o fato de que finalmente estava ali; pensava, enquanto sorria olhando para os arbustos de maria-sem-vergonha que contrastavam com aquele verde infinito.

Alguns cipós da floresta invadiam a ciclovia; passei por vários deles, contendo uma vontade intensa e genuína que tinha de pular para tocar suas pontas. Até que chacoalhei a cabeça com um sorriso irônico, negando, refletindo como meu maior medo tinha se tornado realidade: “Não sou mais criança”.

Pensava naquilo não como uma justificativa para não tocar os cipós, mas sim porque, analisar se deveria ou não tocar os cipós, apenas comprovava a perda da minha espontaneidade.

E então, como uma criança teimosa que se sente desafiada, pulei e toquei o cipó.

Ri; era um idiota.

Idiota por pular e tocar um cipó? Idiota por ter medo de tocá-lo? Idiota por se sentir idiota?

Continuei meu percurso; que era comprovadamente muito mais longo e intenso do lado de fora da van. Alguns carros e bicicletas chegaram a passar por mim; o que me despertava um momentâneo instinto de sobrevivência. Mas logo depois progredia calmamente meu caminho. Sentia, acima de tudo, que era protegido; talvez por uma força superior, talvez pela própria floresta.

Pensava que conhecia aquela estrada; já que há muito tempo a van escolar passava ali. Mas, na realidade, cada curva era um mistério. O cheiro de terra, o vento na nuca… Nunca mais deixaria o cabelo crescer! E o som do silêncio — havia algo quase que transcendental nele, como se eu pudesse ouvir uma frequência que emanava de dentro da floresta e me fazia companhia. E à medida que me aprofundava naquela estrada e meus sentidos mergulhavam naquele diálogo não-verbal, redescobria não só o mundo, como a mim mesmo. Não gostava da minha voz na época, mas me permiti cantar um ou dois versos de Garbage.

Não era só de bons pensamentos que eu me alimentava, no entanto.

Talvez eu fosse um egoísta mesmo, como ele havia dito. Talvez por isso pouco me importava se algo acontecesse comigo durante aquele percurso; era uma punição merecida. Sim, o inseto do melodrama também me mordia de vez em quando, e me exigia um pouco mais de pé no chão para apaziguar aquela doença. Afinal, com certeza não seria o meu vitimismo e os impulsos da culpa que nos levariam a algum lugar.

Quando cheguei ao final do percurso, estava sobre a ponte que interligava os dois municípios. Sorri inspirado enquanto observava o mar; eu era livre.

De repente, me abati novamente. Mamãe tinha razão, a liberdade era um fardo para um passarinho acostumado. De qualquer forma, ainda havia uma longa e desconhecida estrada a percorrer.

Quais rumos deveria tomar? Talvez, se eu me importasse em redescobrir a voz que emanava de dentro de mim— assim como a que vinha do interior da floresta; ou se eu reaprendesse a tocar nas pontas dos cipós; ou se eu, simplesmente, me permitisse observar o horizonte com toda a minha sinceridade, o final daquela longa estrada pouco importaria.

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