Estilhaços de um Coração
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ema estava na casa daquela mulher e esse era o único pensamento em sua cabeça. Aurélio irritou-se com o amigo por ele ter permitido que sua filha fosse até a casa dela, temia que o segredo sobre a falência da família fosse revelado de forma repentina, Ema ainda não estava totalmente preparada para descobrir.
Antes que pudessem entrar no casarão foram obrigados a parar, atendendo ao pedido da empregada o advogado pegou uma máscara e estendeu a outra para o amigo.
— Não estamos aqui para festejar, Jorge. Pegamos Ema e vamos embora — avisou em tom repreensivo.
— Sim, mas sem as máscaras não podemos entrar. Faça esse pequeno esforço.
A contragosto Aurélio aceitou a máscara. Os amigos se dividiram para encontrarem mais rapidamente a neta do Barão. Jorge entrou no casarão enquanto do lado de fora Aurélio procurava pela filha.
Por um triz ele não esbarrou em alguém enquanto caminhava, deveria saber que a encontraria ali, não Ema mas sim Julieta Bittencourt, a mulher de preto estava distraída observando a imagem da lua cheia refletida na água da piscina da casa. Quase não tinha pessoas e ela parecia apreciar a solidão.
— Boa noite.
Sua voz a tirou de um tipo de transe e ela virou-se o encarando, com os braços cruzados e um olhar interrogativo.
— O que faz em minha casa? — Perguntou ríspida, não importava a situação ela sempre iria tratá-lo assim.
— Pode ter certeza de que não vim para sua festa, seria ridículo festejar em momentos como esse e mais ainda em sua casa.
— Então posso presumir que veio me dar uma resposta para a proposta que fiz ao Senhor e a seu pai.
— Eu sinto muito em frustrar as suas expectativas mas vim aqui apenas para buscar minha filha e a cumprimentei apenas por cordialidade.
— Eu deveria saber. Mas o prazo que lhes dei esta esgotando-se e pense bem se quer continuar em um barco quando ele está afundo, pois quando ele afundar o senhor irá junto assim como...
— Não — interrompeu Aurélio —, já que estou aqui talvez possamos conversar e sem a presença de meu pai talvez consigamos uma solução razoável para resolver essa situação.
Ela não precisou responder mais nada, em silêncio o guiou até seu escritório enquanto sentia o olhar dele observando, também em silêncio, cada um de seus passos. Ao adentrarem no escritório ela serviu-lhe um pouco de licor e sem permitir que o silêncio incômodo se perpetuasse por mais tempo ela retomou a conversa:
— Como disse, o prazo que lhes dei está esgotando e ainda assim não fui notificada de nenhuma decisão. Afinal, o que vocês querem adiando mais essa resposta? É tão difícil decidir algo que só tem uma saída?
— O que a senhora quer que eu faça? Quer que eu entregue de mãos beijadas o patrimônio de minha família? Minha dignidade e tudo que meu pai arduamente construiu ao longos dos anos? Quer que eu destrua os sonhos de um velho doente e de minha filha?
— Sonhos, eu acho que o senhor sabe que a vida não é baseada nisso e que uma hora ou outra os sonhos de sua filha seriam destruídos por irresponsabilidade de seu pai.
Aurélio buscou palavras, ela parecia indiferente a todas suas tentativas de comove-lá, em suas respostas ele podia perceber que ela não sonhava há muito tempo e não tinha mais ilusões. Ríspida, fria, indiferente, como todos sempre comentavam sobre ela, a Rainha do café não tinha mais sentimentos.
— Se ao menos a senhora honrasse o acordo que tínhamos com Alencar, nós teríamos tempo para saldar a dívida mas não é isso que a senhora quer, não é mesmo? É a fazenda, não o dinheiro. Eu havia ouvido falar sobre seu desejo de comprar as fazendas da região, será mesmo que sua ambição não tem tamanho?
— O senhor está em minha casa e ainda ousa me chamar de ambiciosa? É um disparate seu atrevimento.
— Então prove que estou enganado e nos dê mais tempo para que possamos pagar a dívida.
Ela silenciou-se por alguns segundos e uma pequena esperança cresceu dentro dele, mas foram rapidamente destruídas pelas palavras severas dela:
— Esse tipo de jogo não funciona comigo. No final das contas dizem que eu sou uma jogadora sórdida e fria, mas não sou eu quem está colocando a saúde do pai e as ilusões da filha no meio dos negócios.
— Não, com certeza nunca precisou disso, não é? Porque com certeza teve a complacência de alguns e nunca deve ter se deparado com adversários tão frios e impiedosos como está sendo comigo agora.
— Quer dizer que o senhor acha que tiveram pena de mim e por isso eu cheguei onde estou, ou talvez porque tive sorte?
A voz dela alterou-se significativamente e ele viu a raiva crescer rapidamente dentro dos olhos dela. Saindo detrás da mesa ela acercou-se dele, o desafiando com o olhar a repetir suas palavras.
— Para uma mulher na sua posição eu imagino que a generosidade e a complacência de alguns a favoreceram.
— Eu não admito que o senhor me ofenda debaixo do meu próprio teto.
— Eu não quis ofendê-la, apenas digo que se a admiração que desperta em mim atingiu a outros só teve a ganhar com isso.
Antes que ele pudesse pensar em outras palavras para justificar-se Aurélio sentiu as mãos pequenas porém firmes dela contra seu rosto. O tapa rápido e inesperado que pareceu surpreender até ela mesma. Ele levou a mão até a bochecha que começava a ficar vermelha.
— Eu não lhe dei intimidade e não permito que fale assim comigo. E deixo claro que não preciso de favores ou piedade alheia.
— Como teve coragem?
— É para deixar claro que nunca deve duvidar de mim.
Ela ergueu a mão novamente para acerta-lo mas desta vez foi contida por ele que segurou sua mão, rapidamente ela tentou erguer a outra mas Aurélio segurou também. Julieta tentou puxar as mãos novamente enquanto ele as segurava, tentando não machucá-la mesmo com sua luta para soltar-se, sabia que seria atingido por outro tapa assim que a soltasse e aproveitou enquanto ainda conseguia contê-la e a puxou para si. O corpo dela tão junto ao seu que poderia senti não só sua respiração quente e ofegante como também o cheiro que ela exalava.
Quando seus rostos se aproximaram ela cerrou os olhos com força e ele fez o mesmo, seus lábios estavam próximos e antes que pudessem usar a razão para pensar sobre o que poderia vir a acontecer em seguida, eles se beijaram. Os lábios se tocaram, ela sentiu o corpo vibrar, uma sensação há tempos esquecida e logo em seguida um temor que a assombrava a noite que lutava contra o desejo que ela sentia. Aurélio também mal podia pensar, os lábios dela eram tão macios que ele poderia passar toda a eternidade os beijando, na verdade ele poderia passar toda uma vida olhando para aquela mulher e repetindo o quão bela e misteriosa ela era.
A realidade a situação atingiu Julieta com a mesma intensidade do tapa que ela havia dado segundos atrás e o repeliu bruscamente. Sua boca estava vermelha pela intensidade do beijo e a dele não era diferente. Precisou se amparar na estende de livros para não descair, suas pernas a traíram e fraquejaram assim como todo seu corpo.
— O que você fez? — Ofegante tentou formar palavras mas era inútil.
— Não se bate no rosto de um homem.
— E como não pode revidar na mesma moeda.
Ele viu que ela estava presumindo coisas, distorcendo a verdade e rapidamente tentou corrigi-la:
— Não foi essa minha motivação para beijá-la. Mas não beijei sozinho, fui correspondido com a mesma intensidade.
Nem ele mesmo sabia qual foi sua motivação para beijá-la, apenas seguiu o que as batidas aceleradas de seu coração pediu e também não podia dizer que se arrependeu.
— Como se atreve, insolente? Eu exijo que saia da minha casa.
— Eu sinto muito, não quis deixá-la perturbada — Era visível o quão vermelha ela estava se tornando e uma fúria que ele nunca viu estava diante dos seus olhos, enraivada porém ainda furiosamente bela.
— Saia imediatamente, antes que eu some abuso e insolência a sua dívida comigo. Saia agora!
— Julieta, acalme-se, seus convidados vão ouvi-la.
— Saia. — Seu grito ecoou pelo escritório e ele estremeceu, temendo que ela tivesse sido ouvida por algum convidado, mas talvez a música os mantivesse distraídos o suficiente para não ouvir os gritos dela. — Saia imediatamente. Agora!
Ele apressou-se para deixar o escritório antes que fossem realmente ouvidos, mesmo que seu instinto implorasse para que ele ficasse mais um pouco, aquela voz interior que sempre pediu para que ele ficasse um pouco mais, todavia Jorge deveria estar o procurando e ficar ali a deixaria mais irritada.
Julieta ficou sozinha no escritório, sabendo que aquele homem tinha tirado o resto de sua paz. Suas mãos trêmulas passaram nervosamente por sua boca com força o suficiente para deixá-la ainda mais vermelha, esfregou o local onde ele havia beijado na tentativa de limpar algum resquício daquele beijo, como fazia quando seu finado marido a beijava. Limpou também as lágrimas que caiam contra sua vontade. Jogou no espelho um objeto qualquer que estava sobre sua mesa, o vidro estilhaçou-se e a refletiu como ela se sentia por dentro, estilhaçada, quebrada.
Fale com o autor