“Honestamente

Eu quero ver você ser corajoso

Com o que você tem pra dizer

E deixe as palavras se espalharem”

— Brave (Sara Bareilles)

As ruas estão vazias e sem movimento, fica mais fácil pilotar e chegar mais rápido onde eu quero. A única coisa que consigo ouvir é o estampido da moto e a batida do vento contra o capacete.

Frio, estava frio. Sinto alguns pingos de água caírem na viseira e em partes descobertas do meu corpo.

Viro em algumas esquinas e vejo a Igreja de São Bento.

Estou perto. Já consigo até sentir o cheiro do rio.

Chego na ponte que atravessa o rio. Vejo o carro de Leonardo estacionado entre duas árvores e paro minha moto um pouco mais atrás.

De longe, consigo vê-lo apoiado na ponte e suas costas subindo e descendo. Ele está chorando.

Começo a andar sem fazer barulho. Um passo de cada vez, silenciosamente. Um passo a mais. Só mais um.

— As pessoas vão te dizer quem você é a vida toda – Digo com a voz mais elevada para chamar sua atenção. Ele toma um susto e olha para mim com um semblante de medo. Quando me vê, limpa as lágrimas rapidamente e fica sério. – As pessoas vão te dizer quem você é a vida toda e às vezes concordamos com ela.

Nunca foi tão difícil falar com Leonardo.

— Às vezes tomamos decisões baseadas nas opiniões alheias e isso pode ser um grande erro.

Ele cruza os braços.

— As coisas que conquistamos internamente mudam a nossa realidade exterior, não adianta nada ter tudo no mundo e não ter amor. A felicidade não sei compra, se conquista. – O choro insiste em voltar e eu não o impeço. – Sempre terá uma crise em nossas vidas e talvez devêssemos considerar viver entre essas crises para não correr o risco de morrer e ver que não vivemos como queríamos. A vida é curta demais para tudo isso.

Lágrimas caem sem limites.

— Todos temos medo de alguma coisa. Mas quando esse medo atinge a pessoa que amamos temos que dar um jeito de cortá-lo pela raiz, como uma erva daninha, para não voltar a nascer.

Ele descruza os braços e percebo seus olhos marejarem. Pingos voltam a cair do céu.

— Leonardo Castro, eu sinto muito por deixar minha ambição e meu medo envenenar nosso relacionamento, eu não deveria ter deixado. Esse demônio foi sendo alimentado por mim sem eu perceber e ele se tornou grande e malvado demais para suportarmos juntos. Na noite de hoje, brigamos e eu senti que meu coração foi esmigalhado em mil pedaços.

Uma lágrima percorre seu rosto. Eu me ajoelho.

— Tudo isso por minha causa e eu não consigo viver – Soluço um pouco mais alto. Isso é mais difícil que eu imaginava. – Eu não consigo nem imaginar viver sem ser ao teu lado. Você me faz bem, é meu porto seguro. Você é o que me protege do tempo ruim. Aquele que sempre me trouxe alegria para o meu coração.

A chuva começa a ficar mais forte.

— E, dois anos atrás, nessa mesma ponte, naquela noite de maio, nos conhecemos bêbados depois da festa de São Bento. Giovanna me apresentou para você e conversamos até não poder mais. Bebemos e nos beijamos aqui. Nosso primeiro beijo. Eu me lembro como se fosse ontem.

Ele tenta engolir o choro.

— E, desde daquela noite, eu sabia que minha vida não seria a mesma. Você chegou e mudou tudo. Não posso mais negar.

Não consigo mais enxerga-lo nitidamente por conta da água em meus óculos.

— Depois vieram mais encontros, mais beijos, mais lembranças felizes que construímos juntos. O pedido de namoro, nossa primeira vez.... Cada acontecimento que foi construindo e moldando nossa história. E eu me nego a colocar um ponto final nesse livro por conta do meu orgulho e medo bobo.

Eu me levanto e chego mais perto. Perto o bastante para ficarmos apenas algumas polegadas de distância. Um passo a mais e nossos narizes poderiam se tocar.

— Se meu coração se partiu em estilhaços pequenos e cortantes de vidro eu nem imagino como está o seu. Eu peço perdão por todo esse tempo com medo. Por todo esse tempo – Mais soluços vem – Por todo esse tempo tentando esconder quem eu sou de verdade e....

Ele me beija. Um beijo profundo e quente, cheio de sentimentos. Urgente, sinto como se tudo estivesse se reconstruindo aqui dentro.

Ele segura meu rosto e olha profundamente nos meus olhos.

— Eu te perdoo. Eu sempre te amarei.

Mais lágrimas rolam. É incrível como algumas palavras são capazes de nos arrumar em segundos.

Um sorriso surgiu em meu rosto. A chuva decidiu chegar e brilhar com toda a sua força.

— Chuva – Disse ele – Como naquela noite de maio depois da festa de São Bento. A noite em que decidi que eu tinha encontrado alguém que valia a pena lutar. A noite em que te conheci.

Ele me puxou para mais um beijo.

— A noite em que eu consegui descobrir o que é o amor para, mais tarde, vivencia-lo com toda a sua força. Sofrer, chorar, sorrir e gritar de alegria ao seu lado, Arthur. Você é mais que um rei para mim, Art.

Sorri com aquela referência. Rei Arthur, como ele sempre me chama.

— Meu reino entrou em crise quando saiu naquele carro horas atrás. Tivemos brigas piores mas pense que, dessa vez, seria para sempre. Que você não ia voltar. – Disse – Fiquei com medo de te perder.

Colei minha testa na dele.

— Por um momento, pensei em desistir de tudo.... Você se lembra do que me deu de um ano de namoro? – Perguntou ele.

Pensei por um momento.

— Um boneco de alguma série, não é?

— Sim. – Ele sorriu, o melhor sorriso do mundo. – Um dos personagens de “Once Upon A Time” que me lembra muito de você, o Henry, lembra-se?

— Sim.

— E você lembra o que me disse quando me deu?

Pensei por mais um tempo. A chuva estava forte.

— Algo parecido como...

Me esforço, mas não consigo lembrar.

— “Para você carregar e nunca se esquecer de mim”, certo?

Concordei mesmo não lembrando.

— Mas o que o boneco tem a ver com tudo isso?

Não era surpresa que eu estava confuso. Ele sorriu.

— Eu carrego no espelho do carro, pendurado. – De fato, ele deixa o bonequinho lá. – Foi vendo ele que eu pensei que eu fui grosso com você também. Que eu também errei. Mas meu orgulho não me deixava voltar e consertar tudo. Ele não deixava...

Coloquei o indicador em seus lábios e indiquei para ele parar de falar.

— Pare.... Nós dois erramos, okay. Mas agora ta tudo bem, não é?

Ele assentiu. Sorri.

Os sinos da Igreja de São Bento ecoaram em meio a chuva torrencial, com certeza eu pegaria uma gripe, mas tudo bem, teria o melhor namorado do mundo para cuidar de mim.

— Já é Natal. – Disse ele. – Feliz Natal.

Sorri. Acabei de ganhar o melhor presente do mundo.

— Feliz Natal, Leonardo.

Trouxe-o para mais perto ainda e o beijei. A chuva caindo entre nós, mas não deixaríamos mais nada nos separar: nem orgulho nem chuva.

Chega de estilhaços de vidro.

Amor, seja bem-vindo, novamente.

— Eu te amo, Arthur.

— Eu te amo, Leonardo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!