Estilhaça-me
16 Capítulo 15 - Maquiada Para Matar
Notas iniciais
Capítulo 15
Acordei antes dele. Fui ao banheiro. Lembrei-me da noite passada. Eu estava louca. Mas a minha mãe não me importava mais, nada mais me importava. Eu não tinha mais controle de quem eu era. No banheiro, encontrei as maquiagens dele. Num momento do mais puro desespero, passei a tinta branca no rosto, fiquei tão branca quanto ele. As minhas mãos estavam mais rebocadas do que nunca. Eu peguei o delineador preto e o espalhei em volta dos meus olhos, ressaltando o meu olhar tão negro quanto as trevas. Para que eu me igualasse a ele, só faltava o batom.
As minhas mãos tremiam como nunca. O meu estado era de torpor, como se eu estivesse em outra dimensão, como se eu tivesse me drogado. Se bem que o amor dele era como uma droga. Como se tivessem injetado o sangue da loucura em cada uma das minhas veias, fazendo-me viciar naquela sensação da mais pura insanidade que aos poucos se tornava praticamente incontrolável e deliciosamente prazerosa. Eu não conseguia controlar os meus movimentos, estava certamente enlouquecendo, algumas lágrimas escorriam sem motivo pelo meu rosto, borrando a maquiagem passada há tão poucos minutos. Eu não tinha mais ideia de quem eu era. O meu nome era Vanilla. Mas as minhas atitudes não eram de Vanilla. Eram de um monstro. Um monstro que eu desconhecia. O monstro da paixão obsessiva, o monstro do amor cativo. E eu me entregaria às entranhas daquele monstro, porque era aquela a minha escolha mais plausível, senão eu morreria e não seria mais nada do que as fagulhas de insanidade espalhadas pela impensável existência de um amor cruel e doentio...
O amor que eu queria que fosse meu...
E era realmente meu?
As minhas mãos encontraram o batom vermelho sangue na gaveta. No momento em que o segurei e o mirei na altura da minha boca, senti um par de mãos envolver as minhas costas. Era ele. A sua voz soava ao pé do meu ouvido, entorpecendo-me por completo:
_Então você quer ser como eu? Seja, querida, seja... – e pegou o batom das minhas mãos trêmulas, passando na minha boca de um jeito completamente desordenado. Eu via a minha face no espelho trincado em alguns trechos. O meu reflexo estava estilhaçado. Eu estava me vendo de uma maneira distorcida. Mas na verdade era daquela exata maneira que eu era por dentro:
Completamente estilhaçada.
_Então, o que você acha da maquiagem, Vany Vanilla? – perguntou.
_Eu estou... – fiz uma pausa para continuar. Engoli em seco com a imagem aterrorizante e quebradiça que eu via no espelho – Eu estou... Linda...
_Linda você sempre foi... – respondeu ele – Agora você está... Perfeita...
_Perfeita... Assim como você... – acariciei o rosto dele e o beijei na minha mais plena insanidade de garota apaixonada.
Nós éramos perfeitos.
Perfeitamente loucos.
Ou nem tanto assim... Será?
_Agora, fiquei com vontade de brincar! – exclamou.
_Brincar, como assim?
_Tenho te tratado muito bem nos últimos dias, não quero te deixar mal acostumada...
_Bem? Você matou a minha mãe!
_É, mas eu não estou te ferindo diretamente há um bom tempo. Eu estou sedento pelo seu sangue, Vanilla! Não estou mais suportando ficar desse jeito com você, sem te machucar...
_Sem me machucar... Tipo assim, como um casal normal?
_Você sabe que não há nada de normal em nós, Vany...
E usou uma corda para amarrar os meus braços magros à cabeceira da cama. Eu não lutei contra ele. Os seus motivos eram plausíveis. Nós não éramos normais, então por que ele deveria me tratar de um jeito normal?
Pegou a sua faca e olhou nos meus olhos:
_Com essa sua maquiagem... Você ficou perfeita... E inspirou o pior em mim...
_Tente não me machucar tanto... Eu posso não suportar, eu posso me quebrar.
_E é essa a minha intenção...
_Quando você não me quiser mais, você vai me matar?
_Cale-se, eu seria incapaz de te matar!
_Eu espero... – sorri.
_Eu só vou fazer uma tatuagem na sua escápula... Uma tatuagem para combinar com a maquiagem... Mas não uma tatuagem feita por agulhas... Uma tatuagem feita pela minha faca!
_Você quis dizer... Mais uma cicatriz? – perguntei um pouco assustada, pois me lembrei de quando ele rasgou o meu sorriso de orelha a orelha.
_Eu diria mais um símbolo do nosso amor, mas se você prefere chamar assim... – deu de ombros e começou o processo. Fez uma pequena linha curva na minha escápula e a alongou, fazendo com que aquela linha se dividisse e desse origem a mais três linhas curvas. Era um desenho bem simples. Doeu muito na hora, mas eu já estava acostumada à dor, mesmo que o corte tivesse sido profundo. Eu estava sangrando e incrivelmente não sentia quase nada. Praticamente nada.
Ele então beijou o meu corte durante um longo minuto, fazendo o meu corpo todo arder, ao sentir o contato dos seus lábios com a minha ferida recente. Incrivelmente me deleitei em prazer.
_Agora tente deixar a mesma marca de amor no meu corpo — ele ficou nu da cintura para cima – Vá e marque a minha escápula também. Tente deixar o mais parecido com a marca que eu te deixei – desamarrou-me daquelas cordas.
_Como assim? Você já me marcou tantas vezes e agora eu que terei que te marcar? Isso é meio... Estranho...
_Eu sei que existe uma parte de você que me odeia profundamente, Vanilla! Então está na hora de se vingar de mim! Marque o meu corpo também, use e abuse do ódio que você sente por mim, vingue-se agora, não hesite nem por um segundo!
Fui tomada pelo ódio naquele momento.
Lembrei-me de tudo.
E descarreguei nele.
Não tanto como uma vingança, mas como uma prova de amor.
O corte que eu deixei foi profundo e ficou praticamente igual ao que ele tinha acabado de deixar em mim. Ele gemia um pouco de dor, mas procurava não demonstrar, pois não era corajoso o suficiente para admitir que eu era tão capaz quanto ele de machucar alguém. Deleitei-me com cada suspiro que ele dava de dor, pois era daquele jeito que eu descarregava a minha própria dor. Do nada as lágrimas começaram a descer pelo meu rosto, estragando a maquiagem que eu tinha feito há alguns minutos. Eu estava amando aquilo, estava amando ferir alguém. Pelo jeito era aquilo que me mantinha viva, a vontade de ferir alguém, ferir alguém que eu amava.
Quando terminei o corte, fiz o mesmo que ele: Beijei o corte, provando pela primeira vez o sabor do sangue dele. Aquele sangue tinha um sabor diferente. Tinha gosto de morte, ou... De framboesa.
_Obrigado – essa foi a única coisa que ele disse.
E ficamos abraçados por longas horas, apenas olhando um nos olhos do outro, como se tivéssemos uma única certeza:
Estávamos maquiados da mesma maneira.
As nossas cicatrizes estavam lá da mesma maneira.
O nosso amor e a nossa loucura eram fortes da mesma maneira.
Sempre seriam.
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