Estilhaços
4 04 - Sonho de nuvem.
Notas iniciais
O entardecer. Ah, como era bonito! As nuvens cor-de-rosa flutuando lentamente naquele céu azul claro, caindo até seus leitos, desaparecendo delicadamente à medida que a escuridão ia cobrindo tudo ali em baixo. O ar tornava-se mais leve, mais respirável, ao contrário do ar da tarde, que era quente e pesado. Logo se poderia sentir o cheiro da noite, impregnado de solidão e liberdade. Porque à noite, ocultos pelas sombras, podemos tirar nossas máscaras e ser aquilo que somos de verdade. A grama rala, as folhas no alto das árvores, todo aquele verde ia sendo pintado por um tom gentil e terno de dourado. O último abraço do sol.
Sentada na beira da cama, abraçando os joelhos e descansando o queixo sobre eles, ela encarava as grandes nuvens rosadas através da janela do quarto. Boiando lá no alto como balões de gás que ninguém controla, as nuvens cheias, disformes, as nuvens-monstro. A maior delas se parecia com uma baleia – uma grande, muito grande baleia – de boca aberta, nadando no céu e fazendo espuma cor-de-rosa nas ondas que logo desapareceriam. Ela quis poder voar até a baleia-nuvem, acomodar-se dentro de sua grande boca sem dentes, e deixar que, lentamente, o sopro do vento a levasse para longe dali, para ele, com quem ela seria feliz.
Aquele ali não era o seu lugar. Ela não tinha amigos, não tinha motivos para sair do quarto, não sentia vontade de dançar, não sentia necessidade de acordar, e só dormia porque nos sonhos ela estava com ele. Ele, aquele com quem ela gostaria de estar em todos os momentos, com quem ela realizaria todos os seus sonhos, com quem ela sorriria e choraria, com quem ela se sentiria viva. Mas ele não podia estar ali, e ela também não podia correr para encontrá-lo. O caminho era longo demais para que ambos pudessem fazê-lo, a distância era imensa. E mesmo assim, não parecia impossível. Porque ela acreditava e confiava nele, mesmo que ele não soubesse como ser recíproco. Por que ela não desistiria nunca.
Ela fechou os olhos e imaginou que podia tudo. Imaginou ficar de pé na beira da janela e, sem se importar com a altura, saltar para o céu. Voar, como se existissem asas em suas costas, até a baleia-nuvem. Oh, como era macio! Ela poderia afundar suas mãos no corpo de algodão daquela criatura cor-de-rosa, poderia dormir sobre a língua fofa e doce da baleia. Então, alguém soprou lá atrás, e a baleia nadou no céu outra vez, fazendo espuma na água invisível, deixando rastros de nuvem que a noite apagaria. Ela podia ver os humanos e suas criações tão minúsculos lá em baixo, tão seguros com seus pés firmes no chão, tão certos de que estavam no lugar certo. Mas eles nunca voariam numa baleia-nuvem.
Ela imaginou o momento em que a língua da baleia projetou-se para fora, e como uma folha que despenca do galho, ela planou até o chão. Ele estava ali, esperando-a com os braços estendidos para ampará-la, para recebê-la depois de tanto tempo longe. Ela sorriria, e ele a apertaria junto de seu peito quente para sempre. Eles dariam as mãos e caminhariam para onde quer que fosse, porque nada mais os incomodaria. Eles nunca mais ficariam sozinhos outra vez, nunca mais conheceriam o gosto amargo da solidão.
Ele perguntaria:
- Quer comer um hambúrguer?
E ela responderia, faminta:
- Dois.
Eles ririam daquilo e iriam até a lancheria mais próxima. Ele com o braço por cima dos ombros dela, e ela sorrindo para tudo. Para a calçada, para a árvore, para o cachorro no portão de uma casa, para a lâmpada na rua, para os próprios pés, para o sorriso dele. Então, ela não teria mais nome, não teria mais idade, não teria mais passado, não teria mais família. Seria apenas ele e ela, para sempre. E mesmo que ele nunca lhe desse o beijo que ela sempre quis, ela seria a criatura mais feliz do mundo, de todos os mundos. Porque aquele sonho nunca acabaria.
À noite, ele a levaria para sua casa, lhe apresentaria sua mãe, e diria:
- Agora você mora aqui, comigo.
Seria tudo o que ela sempre quis. Ela dormiria com as camisetas grandes e surradas dele, brincaria com os cachorros dele, arrumaria a cama que também seria sua, conheceria os amigos dele, os amigos que agora seriam seus. Porque tudo o que ele tinha, ela teria também. E como ela não tinha nada para lhe oferecer além do amor, aquele amor seria dez vezes maior, e seria apenas dele. E assim, eles viveriam para sempre.
A baleia-nuvem nunca mais voltaria para buscá-la, e ela jamais lembraria que um dia pertenceu a outro lugar.
Mas a imaginação não pode durar para sempre, nunca dura.
- O jantar está na mesa! – alguém bateu na porta do quarto e gritou.
Ela abriu os olhos e deixou escapar aquele mundo imaginado, aquele mundo que era só dela, mas no qual ele sempre vivia. A baleia-nuvem não existia mais, era apenas um borrão cor-de-rosa no céu quase escuro. Ele não estava ali, e ela não podia vê-lo. Era tão triste, e aquele vazio ao seu redor era tão feio. Tudo o que ela queria era que ele viesse buscá-la, mas por algum motivo, aquilo nunca acontecia, e o tempo ia passando.
Ela olhou uma última vez pro céu, sorriu de si mesma, e abandonou o quarto.
Tola. Ela era tão tola.
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