Estilhaça-me
9 Capítulo 8 - Assombra-me O Sono
Notas iniciais
Capítulo 8
Hellen Parker.
Eu a vi mais uma vez.
Nós estávamos sozinhas, num escuro infinito. Não havia chão, tampouco paredes. Entreolhávamo-nos. Ela parecia desconfiada, não querendo trocar uma palavra sequer comigo. Fuzilava-me com o seu olhar predatório. Aqueles olhos verdes eram tão grandes e belos que me invejavam de certa forma. O Coringa estava certo, ela era uma mulher linda, era tão linda que nem parecia real, parecia impossível.
_Hellen, então é você! – pronunciei.
Ela sumariamente me ignorou, dando-me as costas.
_Por que está me ignorando? Preciso falar com você, o seu ex-marido está com problemas!
Ela finalmente resolveu falar algo:
_E por que eu o ajudaria? Ele me bateu tantas vezes, me impediu de me relacionar com as pessoas, ameaçou furar os meus olhos e incendiou a minha casa! Por que eu tentaria tirá-lo de um buraco no qual ele mesmo se enfiou por livre e espontânea vontade? Ninguém o obrigou a ser louco, eu não tenho culpa de nada! Nós poderíamos ter sido um casal feliz, poderíamos ter tido filhos, poderíamos ter formado uma família grande e feliz! Mas o que ele fez? Acabou com tudo isso! Se ele destruiu o meu mundo, por que eu o ajudaria a reconstruir o dele?
_Porque a verdade é que você o ama! – respondi, sem medo.
Ela voou no meu pescoço, contudo nada aconteceu. Ela me atravessou.
_Não tente me atingir pela força, Hellen Parker, você está morta! – bradei.
_E você não sabe o quanto me dói tentar conversar com as pessoas, tentar tocá-las e perceber que eu as atravesso? Não há dor pior do que não poder sentir a pele de quem eu amo, não há dor pior do que viver num mundo tão distante do mundo onde dei vida aos meus sonhos, onde criei quem eu sou hoje! Eu estou tão longe de casa, tão longe de casa... Salve-me, Vanilla, salve-me, Vanilla! – ela se atirou ao chão e ficou de joelhos para mim, chorando lágrimas de sangue, implorando por alguém que lhe proporcionasse qualquer fio de esperança que estivesse disponível.
_Eu não posso te salvar, Hellen Parker! Só você pode se salvar! Só você!
Ela se recompôs e se levantou.
_Você tem razão... – enxugou as lágrimas de sangue – Entretanto há algo que me prende a esse mundo...
_Ele. – interrompi-a.
_Sim, ele mesmo. Eu ainda o amo. E até hoje não consegui entender por que ele me fez aquelas coisas horríveis. Estive vigiando todos os passos dele desde que eu morri para descobrir mais sobre o homem que ele havia se tornado. E me decepcionei completamente. Eu não sabia que ele podia ser um homem tão mau. Antes ele era tão bom, tão altruísta, tão carinhoso... Eu não sei bem o que aconteceu, acho que ele deixou o lado mal dentro dele vencer. E eu paguei por isso, você pagou por isso, várias pessoas já pagaram por isso e muitas ainda pagarão se ele não for impedido!
_Você o vigiou? Por que não se libertou dessas coisas terrenas, por que não tentou esquecê-lo?
_Ah, você sabe... É simplesmente impossível esquecer alguém como ele... – ela fez uma expressão saudosista – Você mais do que ninguém sabe disso... Eu o vigio, porque sinto saudade dos nossos bons momentos juntos, ele é um homem apaixonante... E admito que sinto um pouco de ciúmes quando você está com ele...
_Ele é mesmo apaixonante... – suspirei.
_Pois é, e como ele não pode me ver, vigio-o todos os dias, não perco nada. Às vezes tento impedi-lo de matar as pessoas, contudo sempre o atravesso, infelizmente. Eu queria tanto fazer algo de útil... – ela fez uma pequena pausa e mudou de assunto — Olha, ele não pode me ver, mas você pode. Você tem uma grande sensibilidade ao mundo exterior. Algumas pessoas podem ver espíritos em certos momentos e essa característica é muito especial, pode ajudar a salvá-lo!
_Não adianta, ele não acredita que eu vejo espíritos, ele acha que eu estou querendo enganá-lo.
_Ah, ele sempre foi muito cético quanto a espíritos... E, bom, preciso te contar uma coisa muito importante, uma coisa sobre a história que ele te contou; a história do passado dele. Tem um detalhe que ele não sabia.
_Qual? – perguntei curiosa.
_Naquela época, eu... Eu estava esperando um bebê... Um bebê dele!
_O quê? – eu estava estarrecida.
_Sim... Engravidei dele justamente durante o período em que ele me batia. Eu já estava grávida de dois meses e não sabia como contar a ele, pois ele estava a cada dia mais violento e eu não sabia como ele reagiria se soubesse que eu estava grávida. Eu me consultava com o ginecologista às escondidas, morrendo de medo de que ele descobrisse. Eu estava esperando o momento certo para revelar a informação, mas parecia que aquele momento nunca chegaria — algumas lágrimas escorriam pelos olhos dela – Um dia eu fui a última paciente na fila de espera do ginecologista. Como eu fui a última, o expediente dele acabou no mesmo momento em que a minha consulta acabou. A minha casa ficava no caminho para casa dele, então gentilmente o médico me deu uma carona. Quando nós chegamos à minha casa, eu desci do carro, ele desceu também e me deu um abraço e um beijo no rosto, despedindo-se educadamente. Ele voltou para o carro e foi embora. Quando eu vi, lá estava o meu marido, esperando-me na porta de casa.
_Ele achou que tinha sido traído, correto? – perguntei, já sabendo a resposta.
_Exatamente. Ele me fuzilou com o olhar, perguntando-me quem era o cara e o que eu tinha com ele. Aquela era uma ótima oportunidade de revelar a minha gravidez. Eu já ia contar que aquele homem era o ginecologista e que eu estava grávida, porém nem houve tempo. Puxou-me pelos cabelos até a cama do nosso quarto e me torturou como nunca havia torturado. Prendeu-me à cama com correntes, impedindo-me de fugir, amordaçou-me e me torturou com uma faca durante aparentemente intermináveis três dias, além, é claro, de me socar com toda a sua força em todas as partes do meu corpo. E o pior mesmo foi que ele me deixou sem água ou comida, deixou-me praticamente morrendo ali e só depois me libertou. Isso fez com que, com que... – as suas lágrimas se transformaram em cachoeiras e ela não conseguiu falar mais nada.
_Isso fez com que você perdesse o bebê... – completei a frase dela, permitindo que uma tímida lágrima escorresse pelo canto do meu olho esquerdo. Aquela história era muito triste, havia me sensibilizado de certa forma – Você sofreu um aborto, não foi? Foi exatamente isso, com certeza! – enxuguei timidamente a minha lágrima.
_Foi... Depois que ele me libertou e foi trabalhar, corri para o ginecologista e ele me deu a triste notícia de que eu havia abortado... O médico obviamente me perguntou se eu tinha alguma suspeita do que poderia ter causado o aborto. Pensei em denunciar o meu marido, contudo estava com tanto medo e tão traumatizada que preferi não dizer nada. Falei que não fazia a mínima ideia do porquê do aborto. E ele acreditou. Claro, como ele poderia desconfiar de que o maluco do meu marido havia me torturado durante três dias ininterruptos? Eu nem sabia como não tinha morrido durante aqueles dias de terror! Estava me sentindo vazia sem o meu filho. Estava me sentindo incompleta, estava me sentindo ainda pior do que estava me sentindo antes. Perder um filho já é uma dor terrível, agora imagine perder o seu filho por causa do seu marido? Por causa do cara que era o pai daquela criança? Isso é horrível, horrível! – mais e mais lágrimas escorriam pelos seus olhos. Eu também chorava, chorava copiosamente. Eu não tinha a mínima ideia do quão cruel poderia ser o Coringa. Naquele momento, eu até mesmo duvidava do amor que sentia por ele. Sentir aquilo era errado. Ele era um ser humano repugnante, então por que eu o amava? Por quê?
_Eu não deveria amá-lo... – falei.
_Ninguém deveria. Amá-lo é um erro.
_Então por que nós o amamos? – perguntei.
_Nós o amamos simplesmente por que... – ela hesitou por alguns segundos – Porque, não importa, ele é perfeito com todos os defeitos dele.
_Perfeito com toda a sua ultraviolência... Perfeitamente imperfeito...
Ela sorriu.
_Você realmente o ama! – os seus olhos reluziram – Então o salve, não o deixe se perder nas trevas, salve-o, Vanilla, salve-o...
_Mas como?
_Na próxima vez em que eu aparecer, será para te dizer o que fazer! Eu confio em você, eu confio em você! – segurou as minhas mãos.
_Como você segurou as minhas mãos? Você deveria ter me atravessado! – eu já não entendia mais nada.
_Isso é um sinal. Isso é um sinal de que as coisas mudarão, de que uma regra será quebrada!
_Ele ama quebrar regras... – sorri.
_E você terá que quebrar a sua principal regra se quiser salvá-lo!
_Mas eu já quebrei tantas regras por ele!
_Isso não é o suficiente. Quando se trata do Coringa, nada é o suficiente...
_E qual a regra que eu terei que quebrar?
Ela segurou as minhas mãos com ainda mais força.
_Você saberá quando terminar de quebrá-la.
E desapareceu em meio ao escuro infinito, deixando-me sozinha e completamente entorpecida pelo cheiro das dúvidas.
Despertei com o coração acelerado.
Olhei à minha volta. Não havia ninguém mais além do Coringa. A Hellen não estava ali. Era só um sonho, ou talvez um pesadelo. Contudo, mais do que nunca era um sinal. Um sinal que me dizia muito, no entanto me explicava pouco.
Um bom ou um mau sinal?
Eu só esperava que fosse um bom sinal.
Eu queria muito que fosse.
Seria, teria que ser.
E se não fosse?
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