Estações
1 Verão
Notas iniciais
História também postada no Social Spirit e no meu perfil do Facebook :)
Verão —
Via a paisagem passar como um borrão, embora em cada curva que o trem fazia, era possível contemplar um esplendor inigualável. Florestas, campos, cidades. A viajem até Magnólia estava quase chegando ao fim e Lucy suspirou, perdeu-se em pensamentos a partir do momento que embarcou para começar uma nova vida. Dessa vez, longe de qualquer resquício da que vivera até dias atrás. Estava agora em Hargeon e o pôr-do-sol trazia lembranças longínquas dos tempos que se considerava feliz.
As lembranças da mãe, que muito cedo a deixara, vieram tão rápidas quanto se foram, contudo, Lucy tratou de segurar uma pequena e saudosa memória.
Sua mãe sempre fora seu porto seguro, a pessoa que mais admirou e amou. Confiava nela com a própria vida e se sacrificaria mil vezes somente para salvá-la. No entanto, jamais imaginou que a perderia para algo que não poderia controlar: o tempo.
Layla Heartfilia possuía uma saúde fragilizada desde que nascera e todos sabiam que, a qualquer momento, daria seu último suspiro. A consideravam uma guerreira, pois foi capaz de lutar por tanto tempo e ainda constituir uma família, a qual amava de todas as maneiras possíveis e era correspondida na mesma intensidade.
Quando seu tempo, enfim se findou, Lucy imaginou que jamais seria capaz de amar alguém como amou a mãe. Seu amor era genuíno, puro e sincero. Já em relação ao pai, não conseguia sequer olhar em seus olhos. Nunca chegaram, de fato, a se dar bem, mas amavam Layla da mesma maneira e isso bastava para que convivessem. Jude era um homem impiedoso, orgulhoso e de maneiras severas, porém, quando estava com Layla, toda rudeza se desfazia e acabava por ceder a cada desejo da mulher que amava. Lucy jamais entendeu como alguém como Layla amou de forma tão intensa uma pessoa como Jude e, da mesma maneira, jamais entendeu como Jude poderia amar.
“ Lucy, você ainda não compreende, mas um dia, tenho certeza que entenderá. ”
As palavras soaram como sinos em seu subconsciente. Lucy não entendia o que a mãe queria dizer. Lembrou-se quando perguntou a ela o porquê de ter se casado com Jude. Layla apenas sorriu. Aquele sorriso que desfazia qualquer armadilha que, tanto Lucy, quanto Jude insistiam em armar.
“ Há pessoas que se apaixonam de várias maneiras e vivem intensamente cada momento, outras se fecham para isso, mas existe uma parcela, uma pequena parcela, que encontra o amor de uma vida inteira em apenas um instante. Em apenas um olhar. “
Suspirou. Isso fora a tanto tempo e, até então, ainda não entendia o que a mãe tinha lhe dito. Lucy não compreendia em absoluto o amor mútuo por outra pessoa que não fosse sua finada mãe, mas por algum motivo, jamais esqueceu suas palavras.
O trem apitou indicando que logo voltaria a se mover e Lucy olhou pela janela uma última vez.
Ele estava ali, gesticulando e gritando palavras desconexas para um pequeno gato azul alado. Lucy não conseguiu entender palavra alguma, mas a coloração rosada do cabelo do jovem foi o suficiente para instigá-la. Observou atentamente cada gesto do garoto e a forma como ele ria para o companheiro felino, sendo acompanhado com uma gargalhada fofa e encantadora. Se surpreendeu quando o gato também falou, mas logo acabou por rir também. Estavam em um mundo onde magia era possível. Ela mesma possuía chaves que podiam invocar espíritos de outra dimensão, então, um gato falante não deveria ser surpresa.
Ouviu o rosado chamar o felino por Happy e, de certa forma, entendeu o porquê. Ele trazia felicidade. Ela também gostaria de sentir tal sentimento. Happy o chamou pelo nome e Lucy, inconscientemente, repetiu.
— Natsu...
Verão. Como a estação em que estavam. Uma doce e encantadora tarde de verão.
Natsu parou abruptamente ao ouvir seu nome sendo proferido por outra voz que, definitivamente, não pertencia a Happy. Ele começou a procurar a sua volta e, como ímãs sendo atraídos por suas metades, olhou para a janela do trem encontrando o olhar doce de uma Lucy surpresa.
Três segundos. Não durou mais do que isso. Os olhos verdes musgo encararam os achocolatados. No primeiro segundo, o pensamento de Lucy foi de simplesmente desviar o olhar. No segundo, Natsu deu um passo em direção a janela e no terceiro, Lucy havia se apaixonado.
Estranho, não é? Nada mais do que instantes e, tanto Natsu quanto Lucy, desejavam ver um ao outro. Mas então, o trem partiu. E com ele o momento que ficaria enraizado eternamente na vida de ambos. Quem sabe não se encontrariam outra vez? As vezes o destino nos presenteia com uma dessas.
“ [...] existe uma parcela, uma pequena parcela, que encontra o amor de uma vida inteira em apenas um instante. Em apenas um olhar. “
E então, pela primeira vez, Lucy compreendeu.
Fale com o autor