Notas iniciais
Este texto foi escrito em conjunto com um grande amigo meu, Gustavo Murayama. Créditos à ele, e muito obrigada. ♥

Inverno. Em pleno mês de Junho, olho os pequenos flocos de neve caindo na calçada, até então, coberta por quilos de cimento e folhas do salgueiro vizinho. O mundo perdera a graça, mas não acontecera tão repentinamente como aparenta. O problema é que só me dei conta quando era tarde demais e tudo que podia fazer era observar através da janela levemente empoeirada na minha casa maltratada pelo tempo.

No verão passado, vi o grande caminhão de mudanças do outro lado da rua, a alguns metros de distância de onde estava. Não dei muita atenção, ocupei-me a tarde inteira com afazeres domésticos e pessoais, pouco me importava com o barulho de novos vizinhos. Porém, o destino sempre segue o rumo que deve, mesmo que não seja agradável.

Nas semanas seguintes, o calor sufocante expulsava os moradores de suas casas abafadas, para fazer algo além de trabalhar e ver televisão. Comigo não foi diferente. Saí para caminhar e renovar os ares, apreciar o bom tempo e as crianças brincando nos gramados. Foi nesse dia que conheci meus novos vizinhos, ou, pelo menos, um deles.

Quando estava descendo as escadas de casa, vi uma garota do outro lado da rua. Ela era linda. Tinha longos cabelos loiros cacheados e olhos cor de mel. Não era muito alta nem muito magra, e tinha um jeito alegre, raro de se encontrar nos dias de hoje, em meio a tantos adolescentes com a juventude sugada pelo computador e pelos videogames. Ela não devia ter mais do que 14 anos; 10 menos que eu.

Aproveitando a oportunidade , fui me apresentar a ela. Ela estava sentada na grama, observando o movimento da rua. Quando cheguei ao seu lado, ela sorriu para mim. Seu rosto era delicado, e ela tinha uma voz doce. A convidei para caminhar comigo. Ela aceitou, e durante o caminho fomos descobrindo várias coisas em comum; gostos musicais, gostos por filmes, personalidades parecidas, e principalmente, sonhos e ambições. Assim, combinamos caminhar diariamente.

Durante o verão inteiro, fomos nos conhecendo melhor, e aproveitando as tardes quentes que insistiam em vir sem folga. Quanto mais tempo passávamos juntos, mais eu me impressionava e mais eu gostava daquela garota. Mais eu me maravilhava com aquela pureza surreal, aquele brilho que ela tinha no olhar e mais eu desejava tê-la junto a mim.

Chegou o outono. O tempo, aos poucos, ia esfriando. As folhas das árvores iam caindo, formando um tapete colorido em tons de amarelo, laranja e vermelho. A paisagem ia ficando cada vez mais bonita, seguida por dias chuvosos e calmos. Devido à mudança no clima, convidei meu anjo para ir à minha casa nos dias mais frios e solitários. Ela ficava sozinha em casa, pois seus pais trabalhavam, e se sentia incomodada pela falta de companhia. Ainda não tinha muitos amigos, pois as aulas haviam acabado de começar.

Aos poucos, fui me abrindo mais, mandando indiretas. Ela parecia não notar, ou pelo menos, não correspondia aos meus sinais. Imaginei que ela não soubesse se expressar, e fui me aproximando mais, aumentando contato físico. Mas ela não mudava. Permanecia pura, alegre, uma criança.

Quando a estação se aproximava do final, resolvi ser bem direto. Contei-lhe como me sentia, do fundo da alma, de todos os sentimentos e desejos que tinha. E ela recuou. Se afastou. Não quis mais ficar em casa, arranjou amigos e não respondia aos meus telefonemas. Eu entrei numa depressão sem volta. Comecei a me drogar, perdi as esperanças e a vontade de viver. As bonitas cores outonais se tornaram preto e branco, e me isolei do mundo.

Minha dor aumentou mais ainda quando, apenas algumas semanas depois, ela morreu. Tudo está acabado. Ela nunca mais vai voltar, e não há mais futuro para mim.

Na primavera, eu não estarei mais aqui. Não vou sentir o perfume das flores desabrochando. Não vou ver a neve derretendo, tornando novamente colorida a paisagem. Não vou ouvir mais o canto dos pássaros pela manhã, nem verei mais os casais apaixonados no parque.

Na primavera, vou ter o mesmo destino que a garota da minha vida. Infelizmente, não vou acompanhá-la ao paraíso. Sei que vou direto para o inferno, longe de meu anjo.

Sou um demônio, um pecador... Pois eu mesmo a matei.

Notas finais
Espero que não pensem que sou psicopata nem nada disso. O texto é uma experiência; queria ver como seria escrever do ponto de vista de alguém considerado doente. Afinal, ele poderia ser qualquer um.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!