Estava Escrito - Cobrade
33 Capítulo 33 - Medo e insegurança
Notas iniciais
(Narração Jade)
As vezes nós mergulhamos em um novo mundo e esquecemos da realidade. Estar ali com Cobra, aproveitando aquele lugar incrível me fez esquecer da realidade, me fez esquecer da minha mãe, do projeto de cultura que eu tinha que conhecer, tinha esquecido de tudo. Mas infelizmente todo sonho tem um final, ele triste ou não, uma hora temos que voltar para a realidade, e ela as vezes não é nada agradável.
Um telefonema, apenas um telefonema. Esse foi o item que me arrancou bruscamente do meu sonho.
Minha mãe havia passado mal, e iria realizar uma operação de emergência. Ed estava com ela, e ele que havia sido o autor da ligação. Agora eu e Cobra estávamos dentro do carro, em rumo ao hospital.
O caminho de volta parecia tão maior. Eu estava mergulhada em meus pensamentos, que em volta, dentro daquele carro o silêncio era rei. Os únicos barulhos eram o do som do motor e do soluço do meu choro.
– minha dama vai ficar tudo bem. — Cobra disse quebrando aquele silêncio.
Não respondi, nem olhei para ele. Afinal responder era em vão, eu sabia que não ia ficar tudo bem, aliás não estava tudo bem.
– Jade, conversa comigo, desabafar é melhor. — Ele disse insistindo.
– como foi quando seu pai morreu? — perguntei com a voz fraca devido ao choro.
– horrível. Em apenas uma palavra, com certeza, horrível. Mas isso não vai acontecer com a sua mãe.
– como você sabe? — perguntei.
– ela é forte, está sendo tratada por bons médicos. Acredite em mim, ela vai sair dessa.
***
Havíamos chegado ao hospital. Ed estava na recepção com o semblante de preocupação. Eu não disse uma palavra, apenas o abracei, um abraço longo e apertado.
– como ela está Ed? — perguntei me soltando daquele abraço.
– ela está na sala de cirurgia meu anjo, até o momento tão tive nenhuma notícia.
– e a gente pode fazer alguma coisa para ajudar? — perguntei.
– creio que não querida.
– podemos sim. — Cobra disse chegando por trás de mim. — podemos rezar. O que nos resta agora é ter fé.
– não sabia que você era religioso vagabundo. — falei passando a mão em seu rosto.
– quando nos vemos nessa situação Jade, onde parece que não a mais luz no fim do túnel a gente se lembra que sempre teve alguém cuidando de nós, mesmo a gente sempre se esquecendo dele. — ele abaixou a cabeça dando uma leve pausa. — quando o meu pai estava internado, eu rezei e não fui atendido. Confesso que depois disse fiquei um pouco incrédulo, mas ele sabe o que é melhor, aconteceu o que tinha que acontecer.
– belas palavras rapaz. — Ed disse se aproximando. — então, todos juntos, vamos fazer uma oração?
Estávamos nos 3 em pé, demos as mãos e logo cada um fez a sua oração, no seu íntimo.
Religião, fé, Deus. Isso nunca foi algo presente na minha vida, mas Cobra tinha razão, no momento da dor as esperanças acabam e sempre corremos a ele. Confesso, eu não me sentia digna da benção que eu estava pedindo, afinal, eu era venenosa, trapaceira, mentirosa e muitos mais. Mas como o meu lutador havia dito, o cara lá de cima sabe o que faz, e o que for melhor ele vai fazer, eu sei.
– vocês são da família da Lucrecia Gardel? — um médico alto e com os cabelos castanhos se aproximou.
– sim somos. Como minha mãe está doutor? — perguntei dando um passo à frente.
– durante a operação ocorreu tudo bem, o quadro dela é estável. Por enquanto ela não corre nenhum risco.
– eu não disse que iria dar tudo certo?! — Cobra disse me puxando para um abraço.
– disse. Obrigado meu vagabundo.
– bom, eu vou deixar vocês. Creio que daqui umas 4 horas ela já possa receber visitas, se vocês quiserem aguardar. — o médico disse.
– sim, nós aguardaremos doutor. — Ed disse.
– tudo bem, então qualquer notícia que eu tiver eu retorno aqui. Passar bem. — o médico disse e se retirou.
– Jade minha querida, venha aqui. — Ed disse se afastando e eu o segui. — quem é esse rapaz? — ele falou baixo o suficiente para que Cobra não escutasse.
– esse é o Cobra, o rapaz que me salvou daquele terrível episódio com o Edu.
– há sim. E vocês estão tendo algo? Ele estava com você na viagem? — Ed disse olhando para Cobra por cima do meu ombro.
– a gente está namorando Ed. E não, ele não foi para viagem, ele apenas me buscou na rodoviária. — eu disse pensando rapidamente em uma mentira.
– há sim, e sua mãe já sabe desse namoro?
– não, ainda é algo recente. Eu pretendia contar quando voltasse de viagem. Você acha que ela vai aprovar?
– bom, ele te salvou daquele episódio, é bonito, parece ser um cara legal. Acho que talvez ela goste dele.
– tomara. Bom, vamos voltar para lá né?! Não quero deixar ele só, está cheio de enfermeira gostosa e safada por esses corredores. — eu disse com um sorriso ao rosto.
– ai Jade, só você mesmo viu. — Ed disse sorrindo.
***
Quatro horas já haviam se passado, o médico já havia nos chamado para visitar minha mãe. Deixei Ed ir primeiro e em seguida seria eu. Confesso eu estava nervosa e com medo, tinha medo de encontrar dentro daquele quarto uma mulher debilitada, frágil, uma mulher que não seria a minha mãe.
– Jade querida, sua vez. — Ed disse passando por mim.
Respirei fundo e fui em direção ao corredor. Aquelas paredes brancas, aquele piso de mármore que fazia ecoar os barulhos dos Meus passos, o barulho de choro de criança vindo de longe, aquele cheiro forte de remédio, aquele clima gelado, tudo aquilo contribuía para o meu medo. Eu passava pelas portas olhando os números dos quartos, e rezava, pedia a Deus para que não avistasse o número 313. Mas aquela oração era em vão, o quarto estava ali, e eu iria encontrá-lo, eu precisava ver minha mãe.
...311, 312, 313. Eu havia chegado ao quarto, respirei fundo antes de virar a maçaneta. Busquei em meu interior todas as forças, forças a qual a tempos atrás eu tinha de sobra. É engraçado como as pessoas mudam, como a dor nos transforma. Eu era Jade Gardel, a venenosa bailarina que adorava derrubar a todos. E agora, quem era eu? Realmente eu não me reconhecia, agora eu era uma menina frágil, cheia de medos e inseguranças, que não tinha coragem de girar uma simples maçaneta de porta para ver sua mãe. Eu era alguém caído ao chão, sem forças alguma para levantar. Mas eu não seria mais essa pessoa, eu sou Jade Gardel, filha de Lucrecia Gardel, e eu sou uma garota forte, de fibra, e de muita personalidade.
Então eu girei aquela maçaneta, a girei e a porta se abriu, e a primeira visão que eu tive foi um sorriso tímido estampado em um pálido porém lindo rosto, que me olhava com brilho nos olhos.
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