Estava Escrito - Cobrade

26 Capítulo 26 - Fatalidade


(Narração Cobra)

– ei cara, Ta ligado que nós somos os favoritos das apostas né?

– Luiz disse ofegante.

– estou sim. — eu disse sorrindo. — é bom ser campeão.

– ô se é.

– ai o chopp está de pé ainda? — eu perguntei enquanto tirava as luvas.

– está sim. Geral da academia vai: eu, você, Lobão, Diego, o Negão, Felipe.. Enfim vai todo mundo, menos as meninas claro. — ele disse sorrindo.

– essas meninas da academia são sem graça mesmo, nem rola de sair com elas, vai acabar estragando os esquemas.

– justamente Cobreloa.

Nós estávamos na academia, era dia de treino. Mais tarde teria um choppinho básico entre os lutadores da Khan.
Nesse primeiro mês que eu estava lá já tinha feito amizades, a galera era legal mas ninguém ali era como o Luiz.
A gente conversava muito, e eu conseguia me abrir com ele. Era engraçado em com tão pouco tempo a nossa amizade já era tão forte.
O Luiz era do interior de São Paulo morou lá até os 10 anos com a sua mãe que era prostituta, ele era o mais velho de 3 irmão, um de cada pai. A 13 anos atrás sua vó paterna o buscou para vir morar no Rio com ela. E aqui no Rio ele construiu uma nova vida, começou a praticar esportes, a frequentar boas escolas. Porém infelizmente o Luiz não teve uma base boa, como sua mãe era uma responsável horrível ele cresceu rebelde se achando o dono do mundo, e a sua vó mesmo com todo amor e educação que o dava não conseguiu mudar muito o garoto.
A 5 anos atrás Luiz foi preso por ter roubado uma moto, ele tinha 18 anos. Aquela teria sido sem dúvida nenhuma a maior decepção da vida de dona Carmem. E um dia ainda atrás das grades o garoto descobriu que sua vó havia sido vítima de uma parada cardíaca, que teria levado a óbito.
Luiz agora com 23 anos era uma pessoa sozinha na vida, ele não tinha contato com sua mãe, pois ele tinha enormes mágoas por ter sofrido tanto quando morava com aquela mulher. Seu pai tinha outra família, o se contorcia toda vez que escutava o nome de Luiz. Então a única família do jovem era a Khan, ele não tinha mais ninguém, só a gente.

***
Já eram dez horas da noite, estávamos no bar como havia sido combinado.

– ai galera, é o seguinte vai ter uma luta amanhã. Posso contar com vocês né ? — Lobão disse enquanto comia um pedaço de frango.

– mas já teve luta essa semana, agora outra? — eu perguntei confuso.

– Ta reclamando? Isso quer dizer que você vai faturar mais moleque.

– não estou reclamando mestre.

– pode contar com a gente mestre, eu e o Cobra vamos detonar nessa luta. Não é parceiro? — Luiz disse me dando um leve soco no ombro.

– claro, essa já é nossa.

(Narração Jade)

Era nove horas da manhã, e lá estava eu novamente passando por aquela porta do QG. Ver meu vagabundo era um vício, eu precisava ver ele, sentir aquela sua boca, sentir o calor do seu corpo.

– nossa, que corpinho em. — eu disse mordendo meu lábio inferior.

– oi minha dama. — ele disse sorrindo. — não vou te abraçar, e nem te beijar por que estou todo suado.

– relaxa, depois do treino a gente se diverte.

– Ok então, enquanto isso fica ai babando pelo meu corpo. — ele disse com aquela sua cara lerda que me deixava louca.
Mas realmente era isso que eu iria fazer, eu iria ficar ali babando por aquele corpo gostoso. Todos os detalhes daquele corpo me excitavam, aquele seu cabelo bagunçado, sua barba mal feita, seus ombros largos, seu peitoral e sua barriga definida, o suor que escorrida sobre sua pele, a sua pele morena, a sua tatuagem com letras estranhas, o hematoma roxo em sua costela... Peraí, o hematoma não.

– vagabundo o que é isso em sua costela? — eu perguntei cruzando os braços.

– minha tatuagem.

– eu estou falando disso vagabundo. — eu disse colocando o dedo sobre o roxo e apertando.

– AI JADE! — ele gritou ao sentir eu apertar o local.

– além de roxo esta dolorido? Que diabos você estava fazendo?

– acidente de treino apenas, e não faz mas isso. — ele disse enquanto suas mãos estavam por cima do hematoma.

– acidente de treino? — eu perguntei arqueando uma sobrancelha. — esses tempos você estava com um corte na sobrancelha e você disse que foi acidente de treino, semana passada você estava com um corte na boca e você disse que foi acidente de treino, agora você está com um roxo na costela e foi acidente de treino? Conta outra vagabundo essa desculpa já está velha.

– não é desculpa Jade. Eu luto muay thai, esqueceu? É óbvio que eu iria me machucar. — ele disse dando as costas enquanto ia para os fundos do QG.

– não dá as costas pra mim. EI, EU TO FALANDO COM VOCÊ. — eu disse puxando o seu braço.

– me diz qual o motivo desse escândalo todo? É só um roxo, para de drama.

– Ricardo Cobreloa, eu te conheço. Para de mentir pra mim. Eu sei que é só um roxo, mas se você está mentindo é por que esse simples roxo não é um simples roxo.

– eu vou tomar banho, se quiser esperar ou se quiser ir embora fique a vontade. — ele disse pegando sua toalha e entrando para o banheiro.

Eu contei de um até três em meu pensamento, pedindo a Deus para que ele me desse paciência e que eu não colocasse fogo naquele QG. Então eu peguei minha bolsa e sai dali batendo portas.
Eu sei, talvez (eu disse talvez) eu estivesse fazendo tempestade em copo d'Água. Mas aquele vagabundo estava escondendo algo de mim, eu sei disso. Todo mundo falava que o Cobra não prestava, e se isso realmente fosse verdade?

(Narração Cobra)

Eu tinha acabado de desligar o chuveiro, abri a porta no banheiro cm esperança de encontrar minha dama me aguardando. Mas ela não estava lá. Eu sei que eu havia pegado pesado, mas se eu contasse a verdade talvez ela não entendesse. E se ela me julgasse um marginal como todos os outros me julgam?

Vesti minha roupa e fiquei ali aguardando Luiz e Lobão para mais um dia de luta. E com 20 minutos de atraso eles chegaram.

– pensei que não vinham. — eu disse entrando no carro.

– tive um problema com a Nat. — o mestre disse com o semblante fechado.

– ela negou fogo, agora o mestre está magoadinho. — Luiz disse cochichando em meu ouvido. Ri baixo para que o mestre não escutasse.

Chegando ao local foi como sempre, nos trocamos, apresentamos, foi feito o sorteio, lutamos, e vencemos. Porém dessa vez teve uma coisa que mudou não somente essa luta, não somente esse dia, essa semana, esse mês, e sim nossas vidas.

– ei você, eu estava te procurando. — um homem alto e com aparentemente 45 anos puxou Luiz pelo ombro.

– tira a mão de mim, Ta louco? — Luiz disse o empurrando.
Nós já estávamos fora do galpão de luta, estávamos perto do carro. A rua estava deserta, e já beirava as 3 horas da madrugada. Eu e Lobão ficamos observando a poucos metros, o mestre falou para deixar Luiz se virar. Afinal era um problema dele, e ele sabia se defender. Porém algo dentro de mim discordava do mestre. O ódio nos olhos daquele desconhecido homem estavam de dar medo, ele fuzilava Luiz de um modo assustador.

– eu vou falar um nome, apenas um nome.

– você é louco. — Luiz disse dando as costas.

– Rafael Arão. — o homem disse.

– lutei com ele na última luta, idai?

– lutou? Você quase o matou. — o homem disse alterando o tom de voz.

– ele saiu do ringue desacordado, nada demais.

– ele está numa cama de hospital, perdeu os movimentos da perna. Por que um maldito lutador deu um maldito chute na cabeça do meu filho. — eu gelei ao ouvir aquilo. E senti que Luiz também havia gelado.

– ele lutou por que quis, isso foi uma fatalidade. Eu não tive culpa.

– TEVE SIM! — ele gritou. — VOCÊ VAI PAGAR PELO O QUE FEZ, SEU MARGINAL!

– cara, vai pra casa. Por que se você continuar gritando desse jeito comigo, além do filhinho o papai também vai ficar sem andar. — Luiz disse dando as costas e vindo em rumo a mim e o Lobão.

No rosto daquele homem eu vi uma lágrima escorrer, o ódio era gritante em sua face. Suas mãos que estavam paradas junto ao corpo logo foram para dentro de sua calça, e em um movimente rápido porém lento eu vi aquele homem pegar uma arma apontar para o meu amigo e atirar.

– LUIZ! — eu e o mestre gritamos junto correndo em direção a ele.
O homem havia fugido, e meu amigo estava ali, jogado em uma calçada que estava banhada de sangue.

– cara fala comigo. — eu disse o sacudindo.

– Cobra sai da frente. — Lobão virou o corpo de Luiz que até então estava de bruço, ele colocou a cabeça sobre o peito do jovem que estava desacordado.

– eu não estou ouvindo o batimento cardíaco. — ele disse arregalando o olho. — me ajuda a pegar ele, vamos levá-lo para o hospital.

Meu corpo estava anestesiado pelo medo, parece que tudo acontecia em flashs, eu estava assustado. Eu sabia que ele estava morto, ou morrendo. Mas tinha que haver algo que os médicos pudessem fazer.

Mas não houve.

Luiz morreu, com 23 anos. Deixou ninguém, ninguém para lembrar da pessoa alegre que ele era, ninguém para chorar perante seu túmulo, ninguém para jogar uma rosa enquanto os coveiros jogavam terra sobre seu caixão, deixou nada. Sua única marca foi o sangue que ficou impregnado naquela maldita calçada.

Os médicos não puderam fazer nada, afinal ele chegou morto ao hospital. O tiro foi certeiro, pegou em seu coração.
Eu sai daquele hospital arrasado, deixei Lobão mexendo com a burocracia. Fui embora imaginando os momentos que havia passado com o meu único amigo. Imaginei que no lugar dele poderia ter sido eu, e se na última luta em vez de pegar o número 5 eu tivesse pegado o número 3, número que o Luzi saiu. E então tivesse lutado com o Rafael. Eu teria levado aquele tiro, eu estaria morto. Porém ao contrário de Luiz eu deixaria algo aqui, eu deixaria sofrimento. Minha mãe em Goiânia sofreria em saber do horrível acontecido, meus irmãos iriam ficar arrasados, minha dama... Ela iria sofrer tanto. Quem iria ser o ponto de equilíbrio dela?

Em passos rápidos eu fui para casa, quando cheguei ao QG já era dia. O sol já estava alto, as pessoas me olhavam com espanto. E foi só então quando Tawik me perguntou o por que minha roupa estava assim que eu percebi que estava banhado pelo sangue do meu falecido amigo.

– é sangue. — eu disse com a cabeça baixa. — de um amigo da Khan.

– mas esse sangue todo, ele está bem?

– ele Ta morto. — eu disse e meus olhos se encheram de lágrimas. — ele se envolveu numa briga e acabou sendo baleado, eu e o Lobão tentamos socorrê-lo, levamos para o médico e tudo. Mas foi em vão, ele morreu antes de chegar ao hospital.

– meus pêsames cara. — ele disse colocando a mão em meu ombro. — faz o seguinte, abre o QG, mas pode deixar que hoje eu tomo conta. Toma banho e vai dormir, mais tarde o dia vai ser longo, com velório, enterro e essas coisas.
Eu assenti com a cabeça e fiz o que ele havia dito.

Notas finais
Aposto que ninguém imaginava que seria o Luiz haha. Bom tudo que acontece na fic tem um por que, afinal o nome da fic é "estava escrito", vocês entenderão mais pra frente porque isso teve que acontecer. Espero que tenham gostado do capítulo.. Não esqueçam de comentar, favoritar, recomendar, e acompanhar. ❤️