Notas iniciais
A ideia veio e eu simplesmente escrevi. Sei que alguns fatos não são verdadeiros no universo de Saint Seiya, mas só dessa vez eles podem ser. Boa leitura.

Numa fria noite de outono, enquanto todos no Santuário dormiam, Saori Kido estava acordada, vagando pelas Doze Casas. Passava a maioria de suas noites em claro e raramente dormia. As longas horas da madrugada viraram suas amigas e companheiras. Ela passara a conhecer cada canto de seu Santuário e, inevitavelmente, descobriu o ponto de encontro noturno de seu cavaleiro e sua amazona.

Aioria e Marin, todas as noites, se encontravam atrás das árvores da casa de Libra. Passavam minutos e minutos juntos, trocando juras de amor e carícias. Ele não a beijou, não tirou sua máscara, não viu seu rosto. Apenas a abraçava e embalava seus corpos numa dança sem música, às vezes, cantarolando algo. E antes de saírem de lá, ele sempre beijava sua mão.

Sentou-se aos degraus da casa de Libra. Ainda estava cedo para a chegada dos amantes, mas ela os esperaria ali. Sempre no mesmo lugar, sentada por entre as sombras, observando de longe. Sabia que estava errada ao fazê-lo, mas sentia que se não os guardasse, algo aconteceria e então não poderiam ficar juntos. Esperava até a hora em que os dois houvessem ido embora, então continuava seu caminho até a Primeira Casa.

Por vezes foi pega por alguns cavaleiros em seu passeio noturno. Rapidamente inventada alguma desculpa e subia as escadas até a próxima casa, e assim aguardava o cosmo do cavaleiro se acalmar para poder continuar com sua sina. Não quando o cavaleiro insistia em acompanhá-la até o salão do Grande Mestre. Nessas noites ela ficava quieta.

Saori ouviu vozes perto. Sorriu e embrenhou-se mais nas sombras. Aioria e Marin chegaram ao local de sempre e, como em todas as outras noites, ficaram juntos por longos minutos. O leão surpreendeu as duas moças, ajoelhando-se em frente à ruiva. Saori sentiu seu coração acelerar. Ela sabia o que iria acontecer. Não estava perto o suficiente para ouvir, mas conseguia ler os lábios. Dessa vez não. Aioria estava nervoso, falou rápido demais, não deixando brecha para o entendimento da deusa. Antes de Marin pular no colo de Aioria, Saori conseguiu ler as duas últimas palavras do cavaleiro da quinta casa, "Casa comigo?". Com os olhos cheios de lágrimas e um grande sorriso rasgando os lábios, decidiu deixá-los a sós. Daquela vez.

Desceu as escadas de Virgem passando as mãos pelos braços. O frio estava mais forte. Sentia seu corpo tremer, mas não desistiria. Chegaria até o fim e esperaria por ele. Como em todas as noites. Havia começado dois meses atrás, quando Saori e Julian se conheceram. As famílias Kido e Solo participariam de um evento de caridade e como previsto, eles deveriam ser acompanhantes. Apenas isso. Ninguém contava com o nascimento de um sentimento, nem mesmo os dois.

Passavam as tardes juntos, conversando e conhecendo um ao outro. Logo algo crescia entre os dois. Um amor tão puro e verdadeiro quanto as águas da Sibéria, lar de seu cavaleiro de Cisne. O tempo passou rápido demais, o evento se foi e Julian também. Ela sabia que ele ficaria, mas o jovem Solo estava noivo de sua prima, Tetis. Antes de partir Julian havia prometido que voltaria. Saori acreditou.

Chegou à casa de Áries e esperou. A lua tão alta no céu começava a descer, as horas se passavam, o frio aumentava e Saori continuava parada em frente as escadas, esperando por ele. Pensava se esta seria mais uma noite como as outras. A resposta era clara, não. Há uma semana havia recebido um pequeno envelope branco, com letras garrafais e douradas. Sabia exatamente do que se tratava, mas abriu mesmo assim. A dor que sentiu ao ler o nome dos noivos foi tamanha, que todo Santuário foi varrido por uma onda triste e fúnebre.

Não respondia as perguntas, deixando cavaleiros e amazonas cada vez mais preocupados. Nunca havia chegado a imaginar amar alguém. Sentia-se atraída por Seiya, mas não era forte como paixão, não passava de atração. A chegada de Julian Solo não bagunçou apenas o Santuário, como também sua vida e coração. Agora sem ele, ela continuava bagunçada, mas diferente do que pensavam todos, não era por estar tentando consertar as coisas, era porque o queria de volta.

Olhou para o céu que estava clareando. Suspirou. O casamento era hoje. O casamento já havia acontecido. Ele era um homem casado. Ele não havia aparecido. As frases corriam por sua cabeça, deixando-a cada vez mais cansada. O sono sempre chegava com o clarear do dia. Dormia apenas por algumas horas, mas quando a noite chegava, lá estava ela, esperando-o.

Tudo mudaria a partir daquela noite. Ele não havia voltado. Julian Solo havia destruído seu coração. Suspirou uma última vez e olhou para o horizonte. Deu as costas as escadas da Primeira Casa e começou a subir os degraus. Cada vez que seus pés tocavam o chão, ela sentia seu coração se contorcer. As lágrimas transbordavam por seus olhos e escorriam quentes e grossas por seu rosto. O vento bagunçava seu cabelo. Seu corpo tremia violentamente, a dor de não ser correspondida tomava todo seu ser. Os cavaleiros que estivessem por perto sentiriam a dor e tristeza presente em seu cosmo.

– Saori? — Parou onde estava. Seu coração pulava no peito, poderia sair por sua boca a qualquer minuto. Se antes seu corpo tremia, agora estava tendo convulsões. Virou lentamente para trás e se permitiu uma exclamação quando o viu. Julian estava lindo em seu terno branco. Os fios azuis contrastando com a cor da roupa, dando certa beleza no conjunto. A boca levemente aberta, os olhos confusos e surpresos. A expressão cansada. Sem sair do lugar, Saori abriu e fechou a boca várias vezes, até encontrar algo para falar.

– O que você está fazendo aqui? — A voz trêmula e sussurrada revelou seu nervosismo. Segurou o vestido para tentar esconder as mãos tremendo. Julian recebeu suas palavras e a confusão antes estampada em seus olhos tomou conta de seu corpo juntamente com a tensão. Ela não o queria ali?

– Prometi que voltaria. — Deu de ombros enquanto baixava o olhar para o chão. Ela estava linda. Fazia tanto tempo que não a via. Poderia morrer por tanta felicidade. Saori respirou fundo e desceu, pela segunda vez, os degraus da Primeira Casa.

– Você demorou dois meses, Julian. E agora não importa mais, você está casado. — O cansaço e a mágoa explícitos em sua voz fizeram Julian estremecer. O convite havia chegado, então. Ele não quisera mandar, mas fora obrigado a fazê-lo.

– Não me casei. — Saori franziu o cenho. — Depois de dois meses tentando convencê-la a não se casar comigo e não obtendo resultado, decidi que não me importaria com o que falassem de mim, eu voltaria para você. Por isso, alguns minutos antes de o casamento começar, Io e Sorento me ajudaram a fugir enquanto Isaak distraía os convidados e a noiva.

O alívio percorreu o corpo da deusa. Ele havia voltado. Ele não estava casado. Eles finalmente pertenceriam um ao outro. Sorrindo, Saori se aproximou do deus dos mares, mordeu o lábio inferior e olhou para baixo antes de dar voz aos seus pensamentos.

– Pensei que não fosse voltar. — Julian colocou os dedos gelados em seu queixo e levantou sua cabeça. Seus olhos se encontraram. E foi como se fosse a primeira vez.

– Como não voltaria para aquela a quem meu coração pertence? — Sorriu e passou a mão embaixo dos olhos da garota, limpando as lágrimas que escorriam por seu rosto delicado. Saori sorriu uma última vez. Julian se aproximou lentamente, roçou seu nariz no dela e encostou os lábios.

Mesmo depois de todo o tempo que passou o esperando, ela finalmente sentiu-se completa. O homem a quem amava estava com ela, era dela e nada mudaria aquilo. Os fortes braços dele rodearam seu corpo, puxando-a para um abraço cheio de saudade e sentimentos. Seus dedos se encontraram atrás de seu pescoço. Descansou a cabeça em seu ombro, respirando seu perfume. Ela o amava. Ele a amava. Nada poderia ser mais perfeito. Então ela soube que, não importava quanto tempo fosse necessário, ela esperaria, ele voltaria.

Notas finais
Espero que tenham gostado tanto quanto eu, pois adorei escrevê-la. Mesmo não tendo muito a ver, a música qual ouvi enquanto escrevia foi Therapy do All Time Low, se alguém quiser escutar depois. Desculpem-me por possíveis erros. Beijos.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!