Estantes De Contos

1 Doce Imaginação


Notas iniciais
REPETINDO O AVISO: EU NÃO ME DROGUEI QUANDO ESCREVI ISSO!! Só estava meio louca por não ter conseguido escrever nada antes, então esse texto SÓ PARECE DROGADO, mas eu não me droguei, eu juro!!

Mais uma vez, o jovem garoto encarava o grande espaço que teria que limpar. Era uma tarefa muito complicada levando em conta a sua pequena estatura. Por todos os lados do ambiente, numerosas estantes de madeiras eram destaques. E em cada prateleira, inúmeros livros ficavam disponíveis.

O dever de Matthew era apenas limpá-las adequadamente, para que não prejudicassem as preciosas páginas de conhecimento que transbordavam daquele local. E sempre que podia, ele sentava em alguma daquelas enormes poltronas de veludo e escolhia um bom livro de contos para passar o resto do tempo.

Inúmeras vezes, ele se pegava tão entretido nas histórias que lia que se esquecia de limpar corretamente a biblioteca, e por causa disso, fora repreendido por esse descuido. Mas com o tempo, ele fora se policiando mais. Ele era jovem, e tinha em mente que agüentaria fazer tal trabalho sozinho. E fora esse trabalho que o tirara das ruas frias e perigosas daquela cidade.

Todos os dias eram rotineiros. Primeiro ele acordava, tomava um singelo café e ia trabalhar. De noite ele se exprimia entre aquelas estantes e pegava algumas obras para desfrutar. Isso perdurou por um tempo até perceber que outra pessoa também desfrutava do mesmo passatempo que ele.

– Vejo que curtes muito uma leitura medieval. – a nova voz se manifestava.

– Bem... eu adoro história com cavaleiros.

– É de se esperar. – o menino começara a rir – Sendo tão fraco e pequeno, adoras ler sobre como outros podem ser tão vistosos e poderosos... Talvez penses que algum dia seja desse jeito, não és verdade?

Matthew ficou em silêncio. Não gostava quando as pessoas o chamavam de fraco, mas nada poderia fazer, pois a realidade permitia que elas falassem tais absurdos sobre sua pessoa. Ele encarava o menino que estava relativamente perto. Era mais alto e um pouco mais velho, tinha cabelos loiros e presos por uma fita vermelha. A roupa que usava era semelhante a sua, pois lembrava seu uniforme.

Há quanto tempo ele estaria trabalhando na biblioteca? Por ser mais alto e robusto ele seria algum segurança? Bem, não importava, pois ele só queria saber como ele adivinhara tudo isso apenas por saber do seu gosto literário.

– Talvez seja. Mas o importante é que essas histórias me fascinam. Trazem-me uma felicidade que eu não sei explicar. – Matthew encarava as páginas que estava lendo – Elas me fazem imaginar.

O garoto mais velho encarou Matthew por alguns segundos antes de soltar uma gargalhada. Não se conteve em demonstrar o quanto achava que aquela situação era hilária para si, e isso fez com que Matthew ficasse com vergonha das palavras que tivera proferido.

– Você depende de livros para imaginar as coisas? – ele disse essas palavras após sua crise de risadas terminar.

– Não dependo... os livros só facilitam.

– Isso é dependência. – ele pegou um livro e se aproximou de Matthew – Escute essa história: “O bravo e mais temido de todos os cavaleiros do reino, Sir Francis, conseguiu destruir uma forte barreira feita pelos seculares rivais da sua cidade natal. Fez esse feito com apenas as mãos nuas. E por causa disso, ele impediu que o mundo fosse amaldiçoado”. Fim. Então, o que achou da história?

– Ela foi... curta demais. De onde você tirou essa história?

– Daqui. – ele apontava para sua cabeça – Mas você sabe que ela pode se transformar num livro se eu quiser, não é? – Matthew confirmou com a cabeça – Você leria?

– Acho que sim...

– Você imaginaria as cenas das batalhas?

– Lógico! Eu adoro imaginar o que está descrito nos livros.

– E por causa disso você depende da imaginação dos outros. – ele riu e apertou o nariz de Matthew.

O pequeno parecia confuso demais com aquela conversa. Francis era um ser estranho e misterioso. Ele não entendia o motivo dele começar a discutir esses assuntos. Ele apenas massageou o nariz que foi fortemente apertado por Francis e voltou a ler o seu livro.

– Vai imaginar agora?

– O que?

– Você depende dos livros para imaginar, e acabou de pegar esse. Suponho que você irá imaginar agora.

– Só me deixe ler.

Francis deu de ombros para aquela conversa e saiu daquele corredor para ir atrás dos seus livros para leitura. Enquanto isso, Matthew finalizava aquelas páginas de pura emoção e fantasia. Seus olhos brilhavam com os últimos parágrafos.

~~~

“O poderoso cavaleiro desembainhou sua espada e corria em direção àquela poderosa fera. O ser mais sanguinário que ele pudera testemunha a força e a crueldade. Os olhos eram ferozes e frios, e as garras sujas, porem, afiadas. Ela grunhiu para ele com tom de horror e violência. Mas um fator estranho o pegara de surpresa.

A linda donzela desaparecida, surgira por detrás da fera, e a acalmou. Ela sorriu para o bravo cavaleiro e começou a esclarecer aquela situação toda.

– Essa criatura foi dada de presente para a minha família, e ela tinha a responsabilidade de me proteger. E quando ela viu que o reino estava me fazendo mal, ela me tirou de lá. – ela sorriu – A violência bruta não é a única solução para se vencer uma batalha. Não dependa apenas disso para conseguir provar seu valor.

Confuso, o cavaleiro tenta raciocinar perante aquela situação. Sua missão era resgatar a donzela e matar a besta para trazer paz ao reino. Mas como proceder ao perceber que aquele monstro era precioso para aquela linda mulher? Ele precisava se redimir com o povo por todos os males que ele tinha causado no passado, mas ele não poderia simplesmente ignorar o que ela tinha dito. O que fazer?”

~~~

Matthew parou de ler o livro e começou a pensar nas últimas falas da donzela. Será que era isso o que Francis quisera dizer com aquela conversa de início? Será que o tema “imaginação” era uma coisa maior? Ele ficou encarando o teto por alguns segundos até ter certeza do que acabara de refletir.

Ele logo se levantou e começou a correr pelos corredores de estantes à procura de Francis. Subiu as escadas, olhou nos cantos mais improváveis de se ler algum livro naquela imensa biblioteca. Procurou por algum tempo até achar o jovem na ala de literatura infantil com um livro simples e fino em cima de uma mesa.

– O que você está fazendo?

– Vendo as figuras. – Francis esboçou um sorriso.

– Francis... você sabe o que está escrito aí?

– Claro que não. – ele riu novamente – Mas eu imagino o que esteja escrito.

A situação estava estranha demais. Matthew estava mais confuso que antes, mas por alguma razão ele sabia o que deveria ser feito, e então ele pegou outros livros infantis e colocou em cima da mesa.

– Eu vou lhe ensinar a ler.

– Não preciso disso agora.

– Como assim?

– Eu leio do meu jeito. Veja! – ele pegou um livro qualquer que tinha um peixe vermelho na capa. – Esse é um poderoso peixe dos sete mares! E pelo que eu consegui descobrir aqui, ele vai juntar mais dois amigos para recuperar uma pérola sagrada. É bem provável que eles comprem toda a área onde eles moram depois de consegui-la.

– Mas Francis... Não é o que está escrito aí.

– Mas é lógico! Pra você essa é uma história diferente. – ele levantou o livro na frente de Matthew – Mas ambas tem esse peixe como protagonista, não és verdade?

– Sim...

– Estás vendo? Já são duas histórias diferentes de um mesmo livro! Quanto mais, melhor, não é?

Aquele jovem era surpreendentemente diferente dos que Matthew estava acostumado a testemunhar. E até aquele devido momento, ele não compreendia direito o que ele tentara lhe passar. Mas da única coisa que ele tinha certeza era que ambos gostavam de conhecer contos. Quanto mais fantasioso, mais eles se animavam.

Com o tempo, ambos foram usando os livros como pré-texto antes de contarem histórias absurdas e divertidas. Todos os dias eles se reuniam no final do trabalho e iam para a biblioteca contar suas histórias. Várias noites seguidas de gargalhadas e imaginação que saiam de suas cabeças e repousavam em seus lábios. As de Francis sempre eram as mais improváveis de se acontecerem, mas eram justamente as suas histórias que faziam Matthew criar as suas. Mas pela primeira vez, o tema de cavaleiros e batalhas mudou.

– Você pensou em alguma história nova hoje?

– Pensei... mas você pode não gostar.

– Eu vou gostar. Qual é o tema dela?

– Romance...

Francis encarou o menino por algum tempo até esboçar um sorriso. Fez um gesto com a mão para que ele começasse a falar. Matthew suspirou fundo, pegou alguns livros para fazer parte do cenário que ele iria usar e soltou as primeiras palavras.

– “Certo tempo atrás, Madeline, uma jovem faxineira limpava uma pequena biblioteca infantil. E mesmo sendo apenas uma faxineira, as crianças a adoravam. Ela sentava num pequeno banquinho de madeira e lia os contos das princesas que encontravam seus príncipes.” – ele suspirou, mas Francis pediu para que ele continuasse – “Até que certo dia, um homem de aparência elegante entrara na biblioteca”. Francis... posso usar seu nome para ele? Ainda não pensei num nome.

– Claro, eu não me incomodo. – ele fez um gesto com a mão para ele prosseguir.

– “Francis tinha adentrado pela primeira vez na biblioteca e encarava Madeline desde o momento que chegara. E parecendo um pouco aflita com a situação, ela logo voltou para seu serviço. Mas mesmo assim, Francis não parava de observa-la”.

– “Ele se aproxima dela, a abraça e beija-lhe os lábios”. Fim.

– Você adiantou a história!

– Mas eu queria que você chegasse logo nesse final. – ele riu.

– Mas se você sabia o final, o que me adiantou ter contado esse início?

– Que eu pude saber o que você pensa sobre mim, não é “Madeline”? – Matthew ficou vermelho quando Francis lhe chamou daquele jeito.

Por causa da vergonha que deixou Matthew naquele estado, Francis desenvolveu outra seção de risos que fizeram o menor ficar mais constrangido. E evitando deixá-lo pior, Francis se aproximou e o abraçou. Querendo que ele entendesse que os sentimentos de ambos eram iguais.

“Esse conto bobo... me trouxe felicidade.”

Notas finais
Não sei se fantasiar demais compromete o plot... mas tá aí, né? Saiu alguma coisa. Até uma próxima fic~~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!