CAPÍTULO93

Camila queria sorrir, chorar, gritar, queria que o mundo soubesse

que ela realizaria um dos maiores sonhos de sua vida. Durante anos de

profissão, a enfermeira ajudou tantas mães a trazerem seus bebês para o

mundo, e se perguntou se um dia os papéis se inverteriam, se um dia ela

estaria do lado de lá. Ana Luísa ligou para sua secretária dali mesmo e

marcou a primeira consulta da amiga;; durante anos de profissão, a

médica jamais se sentiu tão feliz.

Jaraguá entrou silenciosa no quarto de sua mãe; a futura psicóloga

continuava com a mesma doçura de sempre. Viu sua sobrinha deitada na

cama e achou estranho:

— Mãezinha — murmurou ela agachada ao lado de Florianópolis -, o que

aconteceu? Por que Içara está aqui na sua cama?

— Um febrão, filha; Blumenau a trouxe pra cá e foi pra empresa, disse

que ela chamou muito por mim!

— Deve ser uma dessas viróses que está pegando todo mundo, mãe!

A pequena Içara abriu os olhos e espreguiçou-se na cama da avó:

— Tia! — disse a garotinha; Jaraguá se levantou, caminhou em volta da

cama e estava ao lado de Içara:

— Oi, princesa, bom dia, tudo bem?

— Eu fiquei com febre, tia!

— Eu sei, meu amor, eu sei! Está doendo alguma coisa?

— Minha cabeça!

— Vamos ver como está essa febre?

Florianópolis, que ficou o tempo todo deitada ao lado da neta, se

levantou da cama de vagar e ajeitou os cabelos com as mãos:

— Jaraguá, fica com ela, filha; eu vou até a cozinha, dar uma palavrinha

com a Márcia e já volto!

— Pode ir sossegada, mãe; eu vou medir a temperatura dela!

Florianópolis deixou o quarto, deixando Içara aos cuidados de

Jaraguá. Estava na cozinha conversando com a fiel escudeira de sua casa

quando Blumenau chegou com São Bento do Sul:

— Cadê ela, mãe? — perguntou a jovem advogada, soltando as chaves e a

bolsa na mesa da cozinha:

— Está no meu quarto com Jaraguá; dormiu desde a hora que você saiu até

agora a pouco!

São Bento jamais deixou de respeitar a ex-sogra durante todo esse

tempo; cumprimentou-a com um abraço:

— Pode ir ver sua filha, São Bento; ela está lá no meu quarto com a tia!

Sentada ao lado de Içara, Jaraguá esperava a hora de tirar o

termômetro de sua sobrinha; a pequena continuava deitada, um pouco

abatida, sonolenta:

— Olá, meninas! — Blumenau estava entrando no quarto; Içara ouviu o

cumprimento da mãe e levantou a cabeça para vê-la:

— Pai! — a garotinha tirou forças de algum lugar, deu um salto da cama e

correu para ele, desabando nos braços do pai. São Bento a recebeu,

abraçou, beijou, precisava dizer o quanto a amava. Sentou-se na cama ao

lado da mãe de sua filha, com a pequena no colo:

— Pai — Içara chorava abraçada a ele -, pai!

— Calma, meu amor, calma, está tudo bem!

— Eu quero falar com você, pai!

— Pode falar, filha, conta tudo o que você quiser!

Blumenau, sem dizer nada, observava a cena; seu coração gritava, não

podia ver sua menina sofrer:

— É verdade que você vai embora pra sempre, pai?

São Bento do Sul, pela primeira vez não soube o que fazer; olhou para

Blumenau por um instante, o rosto dela trazia uma expressão de espanto,

talvez de medo:

— Quem foi que te falou isso, filha? — perguntou a mãe pegando a mão

esquerda da pequena:

— A Luana falou, mamãe!

Luana era a babá que tomava conta de Içara desde o início daquele ano,

quando a garotinha passou a frequentar a escola só na parte da tarde.

São Bento levantou o rosto da filha e beijou-a levemente na testa:

— Conta, meu anjo, o que mais ela te disse?

— Ela disse que eu não podia contar pra ninguém, pai!

— Mas você não confia em mim? Você não disse outro dia lá em casa que

confiava no papai? Me conta, o que mais ela disse?

Içara voltou a esconder o rosto no ombro do pai como se quisesse

esconder-se de algo, ou de alguém. São Bento ficou ali, segurando a

filha no colo, esperando que ela dissesse mais alguma coisa. Depois de

alguns instantes, que para os pais duraram uma eternidade, Içara quebrou

o silêncio:

— Ela disse que você ia embora pra sempre, papai; que você ia achar

outra mulher, ia casar com ela, ia ter outro nenem e não ia mais gostar

de mim! Ela disse que isso sempre acontece quando o papai e a mamãe da

gente não moram na mesma casa! Você não gosta mais de mim, papai?

São Bento sempre fez o que pôde para evitar qualquer sofrimento para

Içara, mas esse era um daqueles momentos em que as coisas fogem do

controle de um pai. O jovem advogado fazia o impossível para que sua

filha não notasse, mas estava chorando:

— Minha filha — ele a abraçou com mais força -, ah, meu amor, é claro

que eu te amo muito, você é a coisa mais importante desse mundo pra mim!

A gente vai estar sempre juntos, assim, sempre pertinho um do outro!

— Papai, não conta nada pra ela, tá!

— Pode deixar, meu anjo, esse vai ser o nosso segredo; meu, seu e da

mamãe! Agora descansa, tenta dormir mais um pouquinho, o papai promete

que nunca vai sair do seu lado, nunca!

Içara pegou no sono no colo do pai; Blumenau continuava ali, sentada

ao lado do ex-marido, chorando, não conseguia se quer imaginar o que sua

filha passou.

Quando a pequena dormia profundamente ainda no colo do pai, ela abraçou

os dois; choraram juntos ali, velando o sono da filha:

— Eu não consigo pensar que ela passou por tudo isso, São Bento, não

consigo! A nossa filha sofreu, isso é tortura!

— O que importa é que ela está bem, Blumenau; contou pra gente essa

história absurda, essa moça não tinha esse direito!

— Ela não vai chegar perto da minha filha de novo, São Bento! Eu vou

resolver essa história e é agora mesmo!

Ainda naquela manhã, Blumenau foi até o apartamento onde Luana

morava; disse tudo o que ficou engasgado, tudo o que uma mãe diria e

demitiu-a em seguida, ali mesmo.

Estava claro; a febre que Içara teve foi emocional, foi por medo de

perder o amor do pai.

Ela sempre foi forte, Florianópolis sempre foi forte; tornou-se a

melhor avó do mundo para seus dois netos, mas o que aconteceu com a

pequena Içara mexeu muito com ela.

A avó de família nunca permitiu que ninguém causasse sofrimento em seus

filhos, era capaz de tudo para evitar que isso acontecesse e nunca

pensou que o sofrimento de sua neta lhe faria sofrer em dobro.

Naquela tarde, Joaçaba foi visitá-la; as duas se sentaram, tomaram um

chá, e ali, diante da amiga, Florianópolis conseguiu chorar:

— Eu nunca pensei que fosse assim, Joaçaba! Eu sempre soube que avó é

mãe duas vezes, sempre fiz tudo pelos meus dois netos, e hoje, quando

Blumenau me contou o que aconteceu, eu tive vontade de matar, eu tive

vontade de fazer sabe-se lá o que!

— Eu sei, minha amiga...

— Que direito essa moça tinha, Joaçaba? Que direito essa moça tinha de

torturar a minha neta desse jeito, me explica, que direito ela tinha?

Joaçaba não sabia o que dizer, não sabia se deveria dizer alguma coisa;

estava diante de uma avó, que criou os filhos e era capaz de dar a vida

pelos dois netos. A professora de dança fez o que seu coração pediu

naquele momento; deixou a xícara na mesa, se levantou e caminhou até a

amiga, abraçando-a em seguida.

Depois da tempestade, veio a luz do sol; a atitude cruel de Luana

foi esquecida rapidamente pela notícia que veio ainda naquela tarde; São

José teria mais um filho; enviou uma mensagem repleta de emoção para a

ex-mulher e suas filhas.

São Lourenço e Içara não couberam em si de felicidade ao receber a

notícia; a garotinha encheu a mãe de perguntas, com sua pouca idade ela

ainda não conseguia entender direito como isso aconteceu, mas estava

feliz: