Era uma linda manhã de sexta feira; Florianópolis e São José

sentaram-se à mesa de café da manhã, posta com muito zelo por Márcia,

com três de suas meninas; Blumenau, Palhoça e Jaraguá, que iriam em

seguida para a escola acompanhadas pelo pai. Blumenau passaria aquele

dia em casa, só teria que ir a noite para a universidade como fazia

todos os dias.

— Bom dia, família! — o cumprimento de Joinville veio acompanhado de

um lindo sorriso; todos responderam ao mesmo tempo mas a surpresa veio

em seguida. Chapecó surgiu na sala, ao lado da namorada, usando a mesma

roupa da noite anterior:

— Bom dia, gente! — ela disse com um sorriso discreto; Blumenau, sentada

ao lado de seu pai, soltou a xícara na mesa, agora sua expressão era de

espanto, quase de fúria:

— Você dormiu aqui? — a futura advogada agora encarava Chapecó, parecia

devorá-la com os olhos:

— Dormi! — ela respondeu com serenidade, como quem fala sobre a coisa

mais natural do mundo.

O olhar de Blumenau encontrou Joinville:

— Joinville, eu só não quero que você se esqueça de uma coisa; nós somos as

irmãs mais velhas aqui nessa casa, Jaraguá e Palhoça precisam de

exemplo, de bom exemplo!

— O que é que você está querendo dizer com isso, minha irmã?

— Eu não posso impedir que vocês duas deitem e rolem na rua, no flat,

dentro do carro, no elevador, aonde vocês quiserem; mas aqui dentro de casa, se eu

puder impedir essa pouca vergonha eu impeço!

— Pouca vergonha por que, Blumenau? Porque nós ficamos conversando ontem

até tarde e Chapecó resolveu passar a noite aqui comigo?

— Meu amor, não descute — tentou Chapecó nervosamente -, olha, eu vou

pro flat, depois a gente conversa...

— Você não vai pra lugar nenhum enquanto não ouvir tudo o que eu tenho

pra te dizer! — Blumenau agora estava em pé, furiosa, olhando a cunhada

nos olhos:

— Filha, para com isso! — interveio Florianópolis, sem sucesso:

— Olha aqui, Chapecó! Eu já te falei isso uma vez na universidade e vou

falar de novo! Eu conheço a fama que você tem, eu sei que Joinville não

deve ser o único caso que você tem por aí; e se alguma coisa acontecer com a

minha irmã, eu juro que eu destruo a sua vida, eu movo céus e terra mas

varro você das nossas vidas...

— Chega, Blumenau! — a ordem agora veio de São José; a moça se sentiu

totalmente desarmada pela voz autoritária do pai. Parou o que estava

dizendo e olhou para ele:

— Você não vai fazer esse tipo de cena aqui em casa — continuou o pai

—, a gente já falou sobre isso, Blumenau; você não tem o direito de

decidir o que vai ou não vai acontecer aqui dentro porque o chefe dessa

família ainda sou eu!

Ela se sentou novamente, ao lado do pai:

— Você nunca falou comigo nesse tom, pai...

— Pode ter certeza que dói mais em mim do que em você; mas eu exijo que

você respeite a sua irmã e a sua cunhada aqui dentro! Agora termine seu

café, e quanto a vocês, Joinville, Chapecó, sentem-se e fiquem a

vontade; Chapecó, essa casa não deixa de ser sua também!

Em cada rosto que estava ali, era possível perceber uma expressão de

preocupação. Blumenau agora estava sentada novamente, as palavras de seu

pai a desarmaram completamente.

Depois daquela discussão, Chapecó tomou café ao lado da namorada e da

família dela, depois decidiu que era melhor voltar ao seu

apartamento; São José saiu minutos depois levando as filhas para a

escola, Blumenal decidiu andar um pouco na praia, e Joinville, bem,

Joinville permaneceu ali, sentada junto à mesa ainda posta com sua mãe.

Chapecó entrou em casa e deixou as chaves do carro e o celular na

bancada; ainda estava com a bolsa, mas ao prestar atenção à sua volta

percebeu que havia alguma coisa errada. Não lembrava de ter deixado uma

xícara suja em cima da pia, a cafeteira na tomada. Percebeu que alguém

havia estado ali, ou será que ainda estaria?

Subiu a escada caracol que a levaria até seu quarto, e quase caiu de

costas quando viu o que viu, ou melhor, quem viu:

— Itajaí! — a voz de Chapecó era de espanto, seu rosto agora tinha uma

expressão assustada, uma ex-namorada em sua cama, envolvida nos lençóis

e sorridente como estava era tudo o que ela não precisava naquele momento:

— Bom dia, meu amor!

— Como é que você entrou aqui?

— Você lembra de uma vez, aqui mesmo nesse quarto que você me deu a

cópia das chaves do seu apartamento? Eu sempre guardei essas chaves

comigo, eu tinha certeza que eu ia precisar delas um dia! Eu passei a

noite aqui, te esperando! Joinville não veio com você não?

— Itajaí, eu não posso permitir que você...

— Você não vai me colocar pra fora da sua vida de novo...

— Você disse bem, eu não vou te colocar pra fora da minha vida porque

você já está fora dela desde o dia que resolveu colocar um detetive

atrás de mim!

— Eu fiz por amor, tudo o que eu fiz foi por amor e você não pode me

condenar por isso!

Chapecó deu alguns passos à frente e se sentou na cama; ela agora

estava muito próxima da ex-namorada, que continuava deitada na cama:

— Itajaí — sua voz agora era calma, reconfortante -, eu já te falei isso

várias vezes e vou repetir! Isso que você sente não é amor, não pode ser

amor! O amor acalma a gente, faz a gente sossegar, serenar; por isso que

eu acho que o que você sente não pode ser comparado a o amor!

— De engenheira civil virou psicóloga agora?

— Eu estou falando sério, Itajaí; eu estou falando sério quando digo que

o que você sente...

— E eu também estou falando sério quando digo que eu amo você; que eu

voltei pra reaver aquilo que eu perdi a dois anos atrás e eu vou reaver,

pode ter certeza que sim! Eu fiquei a noite toda aqui nessa cama,

assisti o mesmo filme na minha cabeça milhões de vezes, o filme da nossa

vida, Chapecó; e eu sabia o tempo todo que enquanto eu estava aqui,

sozinha nessa cama, você estava lá, na casa, no quarto dela! E falando

em Joinville, me diz uma coisa, ela veio depois de mim?

— De certa forma sim! Faz pouco tempo que a gente está namorando; claro

que depois que você foi embora eu curti, aproveitei muito, mas ela foi

meu primeiro relacionamento sério depois de você!

— Eu aposto como ela nunca tinha namorado antes!

— Acertou; ela nunca tinha namorado!

— Ela tem cara de inoscente! Mas deve ser só a cara mesmo; porque pra

segurar uma mulher como você, tem que ter muita disposição! Eu duvido

muito que ela, com aquela cara de inoscente, tenha a disposição que eu

tinha!

— Você está sendo vulgar, Itajaí; vulgar e incoveniente!

— Tá bom, desculpa; esqueci que você é super discreta; esqueci que agora

o seu alvo são as moças de família, de preferência que nunca tenham...

— E agora, se você me der licensa, eu estou muito cansada, preciso tomar

um banho, trocar de roupa...

— Você, cansada? — Itajaí deu uma gargalhada ao fazer a pergunta:

— Eu já te falei que você está sendo vulgar; a gente não tem mais nada,

você não tem o direito de invadir a minha vida desse jeito e muito menos

a vida de Joinville! E eu vou te avisar só uma coisa; eu te conheço

muito bem, eu namorei nove meses com você e sei perfeitamente do que

você é capaz! Se eu souber que você aprontou qualquer coisa pra cima de

Joinville ou da família dela, eu não vou passar a mão na sua cabeça como

sempre aconteceu! Eu acho que o meu maior erro foi esse, Itajaí; eu

sempre te tratei como um cristal, fiz todas as suas vontades, passei a

mão na sua cabeça; mas agora chega!

— Você é feliz com ela?

— Como nunca fui antes! Eu agora tenho uma família, o destino foi tão

generoso comigo, mas tão generoso que me deu um amor e uma família, as

duas coisas ao mesmo tempo!

Itajaí se levantou, agora estava em pé diante de Chapecó, com uma

camisola azul:

— Você pense o que você quiser, Chapecó; eu voltei pra retomar a minha

vida de onde eu parei e vou enfrentar o que for necessário pra

conseguir os meus objetivos!

— E um dos seus objetivos sou eu?

— É, exatamente! Eu vou me vestir e vou embora, tenho umas coisas pra

fazer, tenho prova na faculdade hoje a noite, você chama um taxe pra

mim?

— Chamo, chamo sim! E vou chamar também o chaveiro, que fique bem claro

isso! Na minha casa agora você avisa que vem e pede licença!

— Eu imaginei que você fosse fazer isso!

O que Chapecó mais temia aconteceu; Itajaí estava pouco a pouco

adentrando sua vida novamente, e ela sabia que isso não seria bom.

Depois que a ex-namorada saiu do flat, Chapecó pegou o celular para

avisar Joinville que já estava em casa; ela não pegava o aparelho desde

a noite anterior, quando saiu de casa e esqueceu-o no criado mudo; encontrou ali duas chamadas de Camila. Ligou os

fatos na mesma hora; a enfermeira provavelmente viu quando Itajaí entrou

no apartamento.