— Aconteceu alguma coisa, gente? — perguntou Joinville enquanto se

ajeitava confortavelmente na cama da irmã caçula; foi Palhoça quem

respondeu:

— Aconteceu que não vai ter jeito; Jaraguá vai ter que enfrentar a fera,

maninha!

— Que fera, Palhoça? Que é isso?

— A sogra dela, ora bolas!

Os olhos de Joinville encontraram Jaraguá:

— Sério, mana? Você vai conhecer a mãe dele? Me conta isso direito!

— Ele me convidou pra ir lá no sábado a noite, Joinville; eu já estava

nervosa com essa história, e agora Palhoça me diz que a mãe dele é

simplesmente insuportável!

— Palhoça, eu mato você! — exclamou Joinville em tom de brincadeira

enquanto encarava a irmã:

— Eu tinha que prevenir a nossa irmã, Joinville, não me mata...

— Mas não é assim, criatura; Jaraguá vai conhecer a família do namorado,

é a primeira vez que ela vai passar por isso, é um momento especial!

— E se a mãe dele não for com a minha cara, gente?

— Jaraguá — Joinville pousou calmamente uma das mãos na perna esquerda da irmã -,

em primeiro lugar, calma; sofrer por antecipação não está com nada! E em

segundo lugar, não tem razão nenhuma pra mãe dele não ir com a sua cara

e você sabe disso! Você sempre se deu bem com todo mundo, sempre foi a

mais simpática de nós quatro!

Jaraguá deu uma olhada em volta como se procurasse algo; seus olhos

encontraram Palhoça, depois Joinville:

— Gente — declarou ela -, vocês duas são as melhores irmãs do mundo;

Joinville, você tem razão; não adianta eu ficar preocupada com isso

agora! Vamos conversar sobre o dia das mães que é a nossa prioridade!

E as três irmãs puzeram-se a conversar sobre o próximo domingo, dia das

mães. Ficou combinado que no sábado, as quatro meninas iriam no shopping

acompanhadas pelo pai para escolher o presente.

Palhoça, aos dezesseis anos de idade, sempre levou a vida com

alegria, não levava absolutamente nada a sério, nem mesmo os estudos.

Ficar dentro de casa com a cara enfiada nos livros nunca fez o tipo

dela, já havia passado por muitos sufocos por causa disso mas não abria

mão de sua vida de estudante repleta de sufocos e aventuras.

Era sexta feira; Palhoça entrou na sala de aula já sabendo o que

iria acontecer; sairia daquela sala sabendo o resultado da terrível

prova de matemática que fez no início da semana. A menina olhou por um

instante a professora, sentada atrás da mesa, Brusque; era linda, era

aquela de quem a escola toda tinha medo, e veio a ser a sogra de sua

irmã.

A classe toda estava em silêncio, ninguém arriscava um "pio" enquanto a

professora andava pela sala, entregando as provas. Palhoça pegou a sua e

respirou fundo antes de ver a nota; quase deu um grito de horror quando

percebeu a gravidade da situação:

— Um e meio — dizia a garota, baixinho para si mesma -, caramba, acho

que me ferrei de vez! Agora que minha mãe me mata!

O tempo parecia não passar; e quando o sinal finalmente bateu para o

recreio, Palhoça saiu correndo da sala, sem coragem para encarar a

professora. Logo juntou-se a um grupo de meninas da classe e começaram a

conversar; ela sempre fora popular, tinha muitas amigas na escola.

Já estava quase na hora de voltar pra sala de aula; Palhoça andava

pelo pátio meio sem rumo, quando foi abordada por uma garota que havia

começado a estudar em sua classe a umas duas semanas:

— Oi! — cumprimentou a menina meio tímida:

— Oi — ela respondeu sem demora e com um lindo sorriso -, tudo bem?

— Tudo bem; você é Palhoça, não é?

— Sou; e você é Itapema!

— Sim; você foi bem na prova?

— Pior que não, menina, tirei um e meio, é agora que minha mãe me

esfola viva; eu não tenho culpa se aquela professora é a insuportável das

insuportáveis! E por azar ela é sogra da minha irmã mais nova!

— Sua irmã namora o filho dela?

— Namora! Você conhece ele?

— Conheço; eu estudava em outra escola, ele também estudava lá até algum

tempo atrás!

O sinal bateu:

— Vamos? — convidou Palhoça puxando a nova amiga pela mão:

— Vamos! — concluiu ela.

Itapema estudava naquela escola a duas semanas e ainda não tinha amigos

por lá; conversou com a colega de classe pela primeira vez e simpatizou

com ela. Nunca foi muito estudiosa, mas não levava tudo na brincadeira

como sua nova amiga; as duas passariam a conversar todos os dias, se

tornariam confidentes em pouco tempo.

As duas últimas aulas passaram como um raio, e logo era hora de

voltar pra casa. Palhoça saiu da escola com a irmã, e seu pai estava ali, dentro do

carro à sua espera; ele parecia tranquilo, e a primeira pergunta que ele

fez a o colocar os olhos na filha foi sobre a prova, se ela já sabia

o resultado:

— Fui bem, pai! — foi a única coisa que ela conseguiu responder:

— Oi, pai! — agora Jaraguá entrelaçava os braços no pescoço dele:

— Oi, filhota, tudo bem?

— Tudo legal!

As duas entraram no carro, e enquanto São José dirigia até o prédio onde

vivia com a família, Palhoça pensava em um jeito de esconder dos pais a trágica prova

de matemática. As janelas do carro estavam fechadas, a manhã estava

muito nublada, havia chovido muito no dia anterior e durante a noite.

Enquanto o pai dirigia, a menina tirou a prova da mochila e começou

a ler; estava sozinha no banco de trás, Jaraguá estava no banco do

carona ao lado de seu pai.

Como teria que voltar à empresa dali a algum tempo, São José deixou o

carro estacionado em frente a o prédio, só que do outro lado da rua; as meninas

desembarcaram, Palhoça atravessou a rua correndo com a terrível prova de matemática na

mão, e quando chegava perto do meio fio, olhou pra trás:

— Cuidado, Palhoça! — Jaraguá gritou tentando evitar o que não podia

mais ser evitado; Palhoça ccaiu em uma possa d'água. Nunca ficou tão

feliz por ter levado um tombo; a prova que estava

dobrada em sua mão, ficou totalmente debaixo d'água.

— Filha, filha! — São José se aproximou da garota, ainda caída no

chão; e antes que o pai visse o papel debaixo d'água, ela usou a

primeira ideia que teve naquela hora:

— Pai, acho que torci o pé!

— Ela caiu de mal jeito, pai — observou Jaraguá, prestativa -, me dá sua

mochila, mana!

Na verdade, Palhoça não estava sentindo nada, mas precisava sair dali o

quanto antes e evitar que o pior acontecesse e seu pai visse o papel na

possa d'água e tivesse a temida ideia de pegá-lo; foi carregada por ele até

o apartamento.

— Você não está machucada, menina? — Jaraguá não entendeu nada ao

abrir a porta do quarto de Palhoça e encontrá-la em pé, minutos depois

de terem chegado da escola e almoçado:

— Fala baixo, criatura; entra e fecha a porta!

Jaraguá obedeceu; entrou, fechou a porta e caminhou até sua irmã:

— Eu não torci o pé, Jaraguá!

— Não?

— Não; eu só disse que tinha torcido o pé porque eu tinha que sair

rápido de lá!

— Agora que eu não entendi mais nada! Ah, Palhoça, o que foi que você

aprontou dessa vez?

— Maninha, seguinte! Hoje saiu o resultado daquela maldita prova de

matemática, que inclusive foi a sua querida sogra quem inventou! Eu tirei um e

meio na prova; quando a gente saiu do carro lá em baixo, eu estava com a

prova na mão mas o papai não viu; eu caí na poça e a folha ficou

totalmente debaixo d'água; eu tinha que sair rápido dali antes que ele

visse a prova lá!

— Palhoça — Jaraguá agora estava irritada -, você vai ter que levar essa

prova assinada na segunda feira, criatura!

— Eu sei; só que agora a prova não existe mais e ninguém vai descobrir!

— O que é que ninguém vai descobrir, Palhoça? — a menina quase caiu

dura no chão; a pergunta de sua mãe misturava-se a o barulho da porta do quarto

se abrindo:

— Eu te fiz uma pergunta, Palhoça; que prova não existe mais? O que é

que ninguém vai descobrir?