— Pai! Pai! — era a única coisa que Blumenau conseguia dizer em meio

a os soluços de um choro de medo, aninhada no colo de seu pai; ele por

sua vez, não sabia se deveria dizer alguma coisa naquele momento, ou se

deveria simplesmente mantê-la protegida em seus braços; escolheu a

segunda opção, as palavras não saíam:

— Eu sonhei com ele, pai — relatou Blumenau depois de alguns minutos,

agora mais calma -, com o meu pai biológico!

Florianópolis, a essa altura, já estava sentada na cama ao lado do

marido, segurando a mão esquerda da filha:

— Ele era violento, pai — continuou a moça chorando novamente -, você

nunca levantou a mão pra mim, eu sei que eu mereci isso muitas vezes mas

você nunca levantou a mão pra mim! Ele invadiu os meus sonhos pra me

agredir, pai, pra me machucar, pra me dizer que eu fui a pior coisa que aconteceu na vida

dele!

Blumenau voltou a deitar a cabeça no ombro do pai como se quisesse se

esconder:

— Calma, meu amor — disse ele -, calma; você teve um pesadelo, foi só

um pesadelo!

— Era muito real, pai; eu vi o ódio nos olhos dele!

— Eu te amo muito, princesa, esse amor é maior do que qualquer outro

sentimento ruim, maior e mais forte do que qualquer sentimento ruim! Eu

te amo desde o dia em que eu descobri que você ia chegar, você já era

minha filha e ninguém podia me tirar esse direito! E quer saber de uma coisa?

Se um dia eu topar com aquele cara na minha frente de novo, eu sou capaz

de olhar pra ele e agradecer, porque ele gerou você pra ser minha filha!

A essa altura, a cama de São José e Florianópolis já estava rodeada

pelas outras filhas do casal; Jaraguá, Palhoça, Joinville e Chapecó, sim,

Chapecó, que nos últimos meses, tornou-se uma filha para eles:

Jaraguá se aproximou de vagar, sentou na cama e abraçou o pai e a

irmã:

— Mana — quis saber a caçula -, quer alguma coisa? Uma água, um chá?

— Não — sussurrou a mais velha -, obrigada, mana!

— Mana — agora era Palhoça, que se aproximou de vagar, com um sorriso

lindo, o sorriso que ela tinha sempre enfeitando seu rosto -, eu estou

aqui; com esse meu jeito meio atrapalhado mas eu estou aqui com você!

Joinville e Chapecó se mantiveram caladas, tanto uma quanto a outra não

sabiam se era o momento de dizer alguma coisa.

Quando as meninas saíram do quarto, restaram apenas Blumenau e os

pais; ela ainda estava aninhada junto a o corpo de seu pai, a mãe estava

sentada na cama ainda segurando a sua mão; a moça começava a sentir o

sono chegando novamente:

— Vamos lá pra sua cama, meu amor? — sussurrou São José;

Blumenau fez que sim com a cabeça, mas na verdade, daria tudo para

poder dormir ali mesmo, como fez por tantas vezes quando era criança:

— Você vai lá comigo, pai?

— Vou, minha querida; eu vou lá com você, fico lá do seu lado até você

dormir, como eu fazia quando você era criança e tinha medo de ficar

sozinha no seu quarto!

São José saiu do quarto levando a filha mais velha, enquanto era

observado pela esposa; levou-a até o quarto, colocou-a na cama como fez

por tantas vezes quando ela era pequena e acabou se deitando ao lado

dela:

— Pai! — sussurrou Blumenau antes de fechar os olhos:

— Oi, filha!

— Eu te amo!

— Eu também te amo muito — concluiu ele voltando a abraçar a filha -,

agora descanse; eu vou ficar aqui até você dormir!

Embora não quisesse admitir isso, Blumenau sentia que sua forma de

pensar estava mudando; nunca foi de demonstrar amor, chegava a

mostrar-se fria em certos momentos, mas saber que São José a assumiu,

lhe deu o nome por amor a fazia refletir.

Pensava nas inúmeras vezes em que foi impaciente em casa, pensava na

forma preconceituosa como agiu com Chapecó e Joinville desde que elas

assumiram o relacionamento; Joinville, foi a primeira a dizer à irmã

mais velha que a amava apesar de tudo. Blumenau jamais pôde imaginar que

era tão amada.

Os dias passaram voando; Florianópolis já estava bem, recuperada do

problema que teve; estava grávida aos quarenta e dois anos de idade, sabia que

teria que tomar alguns cuidados, e cada dia para ela era uma vitória. A

mãe de família recebeu algumas visitas durante aquela semana, entre

elas, Criciúma. A jovem executiva esteve na casa do homem que amava,

tomou um chá com a esposa dele, conversou com as quatro filhas do casal.

Florianópolis estava chegando a o terceiro mês, e sentia que os enjoos começavam a dar

uma trégua.

O dia das mães estava chegando, e eram muitos os motivos a serem

comemorados; Florianópolis carregava no ventre o quinto filho, que já

estava sendo a alegria daquela casa, e estava se mostrando muito forte,

muito guerreira para que seu filho viesse a o mundo com saúde, perfeito.

Blumenau, Joinville, Palhoça e Jaraguá tinham planos para aquele fim

de semana; o dia das mães seria no próximo domingo e a ideia era

comemorar em grande estilo. Ainda na semana anterior, as meninas

começaram a pensar em tudo o que fariam, e Palhoça teve a ideia de criar

um grupo no whatsapp para que tudo pudesse ser combinado sem que

Florianópolis desconfiasse. Os integrantes do grupo, que recebeu o nome

de Operação dia das mães, eram as quatro irmãs, o pai e Chapecó, que

também ajudaria.

— Mana, coloca a Márcia no grupo! — sugeriu Jaraguá, sentada em sua

cama com a irmã, Palhoça, que com o celular na mão, havia acabado de

criar o grupo:

— Boa, mana; a Márcia!

— Claro; a gente pode precisar da ajuda dela!

— Vou adicionar ela aqui; aqui a gente pode combinar tudo sem a mami

poderosa desconfiar!

— Agora é só torcer pra ela não resolver mexer no celular do papai, se não dá tudo

errado!

— O celular dele é super seguro, mana; com aquele sistema de impressão

digital, só desbloqueia com o dedo dele!

— É mesmo, tinha me esquecido! E falando em mãe, pai, eu estou com um

problema, mana; não sei se é bem um problema, mas...

— Maninha, o que é que foi? Você sabe que você pode contar comigo, não

sabe? Eu sei que eu sou destrambelhada, atrapalhada, mas eu te amo e

faço qualquer coisa pra te ajudar!

— Acontece, mana... bem, é que São Miguel me convidou pra ir na casa

dele no sábado a noite; a mãe dele quer me conhecer!

— Essa não! — Palhoça deu um grito:

— Por que não, mana?

— Porque a mãe dele é simplesmente insuportável; ela é minha

professora! Pode ser que você já tenha visto ela lá pela escola, é minha

professora de matemática!

— É, se ela é sua professora pode ser que eu já tenha visto sim! Mas eu

estou nervosa com isso, Palhoça!

— Maninha, calma, relax, tá! A gente já sabia que isso ia acontecer, a

gente já sabia que uma hora ele ia querer que você fosse conhecer a mãe

dele! Eu e Joinville vamos te ajudar, você vai subir no salto, vai ficar

linda e maravilhosa e vai conhecer a sua sogra no sábado a noite; sem

medo de ser feliz!

— Oi, meus amores! — Joinville entrava no quarto da irmã mais nova;

usava um vestido longo azul, os cabelos presos em um coque, pouca

maquiagem e trazia um sorriso lindo:

— Joinville — alegrou-se Palhoça ao colocar os olhos na linda moça que

era sua irmã -, você não podia ter chegado em hora melhor! Senta aqui

com a gente, temos um probleminha pra resolver aqui!

Joinville deixou a bolsa que ainda carregava sobre a mesa do quarto da

irmã e foi sentar-se com elas; Jaraguá parecia meio confusa, enquanto

Palhoça se divertia com a situação.