— Está mais calma? — perguntou Chapecó enquanto se agachava junto à

banheira redonda de seu quarto; Joinville parecia mais tranquila, estava

deitada, coberta de espuma:

— Estou; você não poderia ter tido ideia melhor!

— Deixei a água esquentando lá na cozinha pro nosso chá; daí eu trago

aqui pra cima, a gente fica ali na cama conversando até a hora que você

quiser! Mas e seu pai, como está?

— Se fazendo de forte; mas no fundo a gente sabe que não é bem assim;

meu pai sempre foi um homem sensível, um homem que não tem vergonha de

chorar, só que ele está se fazendo de forte por causa da minha mãe!

— Já tem alguma previsão de quando ela vai receber alta?

— Talvez amanhã, se tudo correr bem durante essa noite! Amanhã de manhã

ela vai fazer um ultrassom pra ver o bebê, e dependendo do resultado ela

vai ser liberada, ou a médica vai mantê-la internada até domingo!

— Já está dando tudo certo, meu amor! Se o sangramento já parou, se ela

fez o ultrassom hoje e o bebê estava bem, eu tenho certeza que tudo vai

acabar dando certo!

— Mas é Blumenau quem me preocupa agora; infelizmente, Chapecó; se minha irmã tirar algum aprendizado dessa

história, vai ser pela dor!

— Eu vou lá preparar o nosso chá, trago a bandeja com as xícaras aqui

pro quarto e te trago a toalha! Fica o tempo que você quiser

aí, daqui a pouco eu volto aqui com você!

— Eu deixei uma frasqueira outro dia aqui no seu armário...

— Já arrumei tudo pra você, deixei em cima da cama; camisola,

idratante, tudo o que você precisa está ali te esperando!

Na manhã seguinte, conforme havia prometido, Lages foi levar a

afiliada até o hospital com o namorado; o rapaz parou em uma

floricultura, comprou dois buquês de rosas, um para a namorada e outro

para sua sogra.

Florianópolis foi submetida a um ultrassom naquela manhã e foi liberada

em seguida. Precisaria tomar um medicamento durante alguns dias para

segurar o bebê e fazer repouso absoluto.

Quando chegou em casa naquela manhã de sábado, Joinville se encheu

de coragem e decidiu tentar conversar com a irmã mais velha. Bateu na

porta do quarto, chamou por Blumenau; e ficou surpresa quando a irmã

resolveu abrir. Ela estava pálida, sem se alimentar desde o dia anterior

e parecia não ter dormido. Joinville fechou a porta atrás de si e foi

com a irmã até a cama:

— Está feliz? — perguntou Blumenau com os olhos fixos na irmã; sua

revolta era visível:

— não, Blumenau — respondeu calmamente Joinville -, não estou feliz!

— Você deve estar feliz com essa descoberta; porque afinal de contas...

— Vamos parar por aí, minha irmã! Eu não sei se você sabe, mas a nossa

mãe acabou de chegar do hospital e está na cama dela em repouso

absoluto; ela teve uma ameaça de aborto!

— A mamãe?

— Sim; mas ela está bem, o bebê está bem! Eu só vim aqui te dizer duas

coisas! A primeira é que eu te amo muito apesar de tudo; e a segunda,

bem, eu quero te dizer que pra mim nada vai mudar com essa descoberta;

eu te falo isso em meu nome e em nome das nossas irmãs, eu sou a irmã

mais velha depois de você!

— Elas já sabem?

— Já, elas já sabem desde ontem a noite!

— E como é que elas reagiram?

— Jaraguá reagiu bem, disse que pra ela também não vai mudar nada; e

Palhoça, bem, sempre feliz, brincando com todas as situações possíveis,

reagiu bem também!

— Eu nunca imaginei uma coisa dessas, Joinville; eu sempre soube que ele

casou com a nossa mãe quando ela já estava grávida mas nunca pensei que fosse

assim, nunca pensei que ele não fosse meu pai!

— Ele te ama, Blumenau!

— Eu sei, mana, eu não tenho dúvidas disso! Eu só preciso de mais um

tempo; um tempo pra colocar a minha cabeça no lugar, sabe!

— Eu acho que no seu lugar eu faria a mesma coisa; se você precisar de

alguma coisa pode me chamar, eu não vou sair de casa, vou ficar com a

nossa mãe e com vocês!

— Joinville, diz pra ela que eu amo muito ela, que eu só preciso de

tempo!

— Eu falo, pode deixar que eu falo!

Joinville deixou o quarto da irmã mais aliviada; apesar de tudo,

Blumenau estava se mostrando forte.

— Seu chá, mãe! — Jaraguá entrou no quarto da mãe com o mais lindo

sorriso, um vestidinho lilás e os longos cabelos soltos deslisando até a

cintura; trazia uma xícara de chá, que entregou para a mãe:

— Está bem: — perguntou a menina:

— Estou, minha querida — respondeu Florianópolis sem perder o contato

visual com sua filha -, um pouco de dor de cabeça mas isso é só

consequência de uma noite no hospital!

— Eu vou deixar você tomar o seu chá e descansar; vou ficar lá na sala,

qualquer coisa você me chama?

— Chamo sim, filha; obrigada!

Jaraguá andou de vagar até a porta do quarto dos pais, e antes de sair,

ainda olhou pra trás e sorriu para sua mãe, que lhe sorriu de volta.

Era segunda feira; faziam três dias que Blumenau havia descoberto

que não era filha de São José, e aquele homem nunca precisou ser tão

forte em toda sua vida. Sua mulher ainda de repouso por causa da ameaça

de aborto que teve, a filha mais velha que desde o dia em que descobriu

a verdade que envolvia seu nascimento, não conseguiu mais olhar para o

pai que lhe criou.

Blumenau conseguiu abrir os olhos depois de muita luta; estava

chorando, ainda conseguia ver a expressão de fúria do homem que esteve

em seu sonho, ou melhor, no pesadelo do qual acabara de acordar. O homem que a jovem viu

seria mesmo seu pai biológico? Ela não sabia responder; só lembrava do

ódio nos olhos dele, do peso de sua mão; enquanto ele batia nela, dizia

que era seu pai biológico e que ela foi a pior coisa que lhe aconteceu.

Já passava de uma da manhã; São José, deitado ao lado da esposa,

velava seu sono enquanto mil coisas giravam em sua mente; a televisão do

quarto estava ligada em um volume baixo, transmitindo um filme

qualquer:

— Pai! Meu pai! — Blumenau entrou chorando desesperada no quarto dos

pais, de camisola cor de rosa, descalça e os cabelos desalinhados:

— Filha! — foi a única coisa que São José teve tempo de dizer, antes que

sua menina praticamente se jogasse na cama, abraçando-se a ele como se

quisesse esconder-se de algo ou de alguém. Ele a recebeu, tentando

disfarçar que também estava chorando; e percebeu que por mais que

Blumenau tivesse crescido e se tornado uma linda moça, ela ainda cabia

perfeitamente no colo do pai que lhe deu o nome, que lhe deu amor. Ela

já o havia chamado de pai por tantas vezes, mas naquela noite, bem,

naquela noite soou diferente das outras vezes.