Lages voltou para o Brasil; havia ido para o esterior a cinco anos

atrás, depois de dez anos de casamento e uma separação dolorosa e com

muitas desavenças.

Tornou-se uma mulher decidida; durante os anos em que foi casada, Lages

viveu para o marido, sonhou em ter um filho mas isso não aconteceu.

Superou o fim de seu casamento, transformou seu sofrimento em

aprendizado, e hoje era uma mulher realizada.

Quando chegou ao Brasil, o maior desejo de Lages era voltar para seu

apartamento; mas algumas coisas ainda precisavam ser resolvidas para que

ela pudesse se instalar em sua casa, por isso, Florianópolis a acolheu

em casa durante alguns dias.

— É muito bom ter a casa de uma melhor amiga pra poder voltar; se teve uma coisa que eu senti falta nesses cinco anos foi da

hospitalidade brasileira! — desabafou Lages na mesa de café da manhã,

com Florianópolis sentada à sua frente:

— Eu posso imaginar!

— Nos Estados Unidos é tudo muito diferente; parece que os americanos

não tem o carinho, o afeto, o calor que a gente tem aqui, pra ser sincera eu não

via a hora de voltar pra casa! Eu me separei, acabei indo pra lá mas

tudo o que eu queria era voltar!

— Eu me lembro que quando você foi, disse que ficaria pouco tempo até se

refazer!

— O plano era esse, Florianópolis; mas fui ficando, no fundo acho que eu

tinha medo de voltar e ter que lutar contra tudo o que aconteceu! Eu não

tive filhos meus, mas quando eu embarquei, tinha a sensação de ter deixado

um pedaço de mim!

— Você acabou sendo a segunda mãe das minhas meninas; Jaraguá tinha dez

anos quando você embarcou, não foi nada fácil pra ela!

— E vou adotar mais esse que você tem aí! Como é que foi isso, amiga?

Quer dizer, veio sem querer mesmo, ou sem querer querendo?

— Foi sem querer mesmo! Ter um quinto filho estava totalmente

fora de cogitação pra gente, imagine, as nossas meninas já são moças, a

gente não planejou mesmo! Mas ele veio; e se ele veio a gente recebe com

amor, o mesmo amor que nós recebemos as meninas!

— E por falar em meninas, Blumenau nunca soube que...

— Não, Lages; ela não sabe! A algum tempo atrás nós pensamos em contar,

depois repensamos e achamos que não tem por que ela saber!

— E não tem risco nenhum dela ficar sabendo de outro jeito?

— Não; somos só nós três que sabemos disso; eu, você e meu marido!

Lages foi madrinha da filha mais nova de sua amiga na igreja, e

também do casamento dela com São José, a vinte e um anos atrás. As duas

sempre dividiram tudo uma com a outra, e a convivência das duas só foi

interrompida quando Lages foi embora para os Estados Unidos depois de

sua separação.

Jaraguá chegou da escola a o meia dia; ainda não havia visto sua

madrinha já que ela chegou de madrugada, e a emoção foi forte.

Ao sair do elevador ao lado de Palhoça e de seu pai, Jaraguá percebeu

que a porta de seu apartamento estava aberta; lhe bastaram apenas alguns

passos para que ela visse ali aquele sorriso do qual sentiu tanta falta,

o sorriso que ela não via pessoalmente desde que tinha dez anos de

idade:

— Madrinha! — foi a única coisa que a garota conseguiu dizer; as

lágrimas vieram implacáveis; Lages fez a primeira coisa que teve

vontade, envolveu a afiliada em um abraço, e por mais que quisesse

mostrar-se forte, não conseguiu.

Depois de um tempo abraçadas, ainda no corredor do prédio, madrinha

e afiliada olharam-se nos olhos:

— Meu Deus — dizia Lages, emocionada, admirada -, durante todo esse

tempo a gente trocava fotos, mensagens, eu via a moça linda na qual você

estava se transformando; mas eu não imaginava que fosse tanto! Você se

transformou na moça mais linda que eu já vi!

— Você também está linda, madrinha, muito linda! Eu senti tanta falta de

você, dos seus conselhos, do sorriso que você sempre tinha pra mim...

— Sua madrinha nunca deveria ter saído daqui, minha querida; quando eu

embarquei naquela tarde, eu tinha a impressão de que um pedaço de mim

tinha ficado aqui, e ficou, realmente ficou porque você é um pedaço de

mim, você e suas irmãs são um pedaço de mim!

Palhoça, que até então se manteve calada, se aproximou e abraçou-se

à Lages:

— Oi, tia! — disse a menina:

— Oi, minha querida — a mulher correspondeu -, você está linda também,

eu acompanhei cada fase da sua vida por foto, mas você é muito mais

linda pessoalmente! Agora vamos entrar; a Márcia está colocando a mesa

pro almoço, eu quero muito conversar com vocês, saber de tudo o que

rolou por aqui...

— Jaraguá já está até namorando! — revelou Palhoça com o sorriso mais

malicioso que conseguiu:

— Eu mato você! — reagiu Jaraguá:

Lages não conseguia acreditar; finalmente estava de volta, e nos dias

que se seguiram, ela quis apenas saber como estavam as coisas e retomar

sua vida no Brasil.

— Eu estou gostando dele, mana; eu estou gostando muito dele! -

Jaraguá abria o coração com a irmã, Joinville, enquanto as duas

caminhavam lado a lado na calçada, bem próximas ao prédio onde moravam;

era uma linda noite de sexta feira, e a caçula da família convidou a

irmã para andar um pouco, precisava falar e tinha que ser com Joinville:

— E por que esse desânimo todo, hein, maninha?

— Porque eu estou meio confusa, sabe! Eu gosto dele, eu sei que ele

também gosta de mim, mas nenhum tem coragem de chegar no outro e falar!

As duas falavam sobre São Miguel do Oeste:

— Mana, é normal; não seria normal se isso não acontecesse em algum

momento da sua vida! Eu não tive um amor de colégio, nunca me interessei

por nenhum garoto! Eu jamais imaginava que... bem, que o meu destino

fosse outra mulher; eu precisei conhecer Chapecó pra descobrir isso! Eu

só quero que você saiba que eu estou do seu lado, pro que der e vier!

— Eu fico com medo de tomar a iniciativa, mana; sei lá, eu sempre ouvi

que a iniciativa deve ser do garoto, eu tenho a impressão de que se eu

chegar nele vou parecer oferecida, entende?

— Mana — a voz de Joinville era calma, amiga -, hoje em dia já não tem

mais isso; infelizmente o mundo ainda é muito machista! Mas não tem por

que você se sentir assim, vocês dois são amigos, tem que arriscar, minha

querida; eu aprendi que quando a gente gosta realmente, vale tudo!

— Você fala isso por causa de Chapecó?

— Também, minha irmã! Quando eu descobri que... em fim, quando eu

descobri o que eu queria realmente, eu achei que eu fosse enlouquecer;

tive medo, tive dúvidas, mas a cima de tudo eu amava ela, eu já amava

ela! E é por isso que eu te falo que quando a gente gosta de verdade,

nada mais importa!

— Palhoça também está me dando a maior força com isso! Sabe, mana, eu

acho que se a nossa irmã não tivesse esse jeito destrambelhado que ela

tem, como você mesma disse outro dia lá no meu quarto, ela não seria tão perfeita!

— Ela é a mais descolada de nós quatro! Brinca com tudo, não leva

absolutamente nada a sério, mas com a gravidez da mamãe ela tem se

mostrado muito responsável!

Jaraguá estava começando a criar coragem para abrir o jogo com

SãoMiguel e dizer finalmente que o amava. Mas o rapaz a surpreendeu ao

enviar uma mensagem para o celular dela, alguns dias depois,

convidando-a pra sair. Caminhou com ela de mãos dadas até a praia,

conversaram muito, e ali, olho no olho, o garoto se declarou para ela; a

paisagem era deslumbrante e o jovem casal tinhao mais lindo pôr de sol à

sua inteira disposição.

Ainda naquela semana, São Miguel esteve no apartamento da família de

Jaraguá; pediu a mão da garota em namoro para seus pais, queria que tudo

acontecesse nos conformes, da maneira certa. Com seus dezesseis anos, o

jovem já sabia exatamente como agir, era bastante maduro para a idade

que tinha:

— A nossa menina já está namorando! — comentava São José com sua

esposa; ele trazia um olhar um pouco preocupado, deitado ao lado dela na

cama:

— É; e parece que foi ontem que a gente descobriu que ela ia chegar, que

ficamos sabendo que era mais uma menina, que a gente saiu pra

maternidade as duas da manhã porque a bolsa rompeu!

— Achei bacana a atitude do rapaz, minha querida! Ele fez questão de vir

aqui, pedir a mão de Jaraguá pra gente como manda o figurino!

— Também achei lindo, sincero; apesar de tudo nós temos milhares de

motivos pra agradecer! Blumenau tem aquele jeito impaciente que só

vendo, Palhoça levada como ela só desde pequena, em fim, nossas quatro

filhas, cada uma com seu jeito de ser, estão se encaminhando aos poucos!

— E tem mais esse aqui a caminho! — lembrou São José pousando

carinhosamente a mão na barriga de sua mulher:

— As vezes eu custo a acreditar que aí tem mais um; e vai acabar sendo o

nosso companheirinho fiel! As nossas meninas vão se encaminhar na vida,

vão se casar, vão nos encher de netos, aliás, outro dia eu me peguei

pensando nisso, sabia?

— Espero que demore um pouco ainda, mulher; eu ainda não estou preparado

pra ser chamado de vovô não!

— Meu amor, não se preocupe; quando isso acontecer você certamente vai

ser o vovô mais charmoso do mundo!

São José ajeitou-se na cama e abraçou sua mulher, unindo seu corpo a

o corpo dela:

— E Joinville? — ele perguntou com uma expressão de preocupação:

— O que é que tem?

— Você já parou pra pensar que ela não vai... ah, minha querida, eu

estou pensando bobagem!

— Você está querendo dizer que ela não vai ter filhos, que a gente não

vai ser avós dos filhos dela?

— Eu me peguei pensando nisso outro dia, sentado atrás da minha mesa lá

na empresa! Longe de mim condenar a nossa menina por isso, mas eu pensei

nisso!

— Eu também pensei, meu amor; no dia em que Joinville me contou sobre

Chapecó eu pensei nisso! Mas ela está feliz, meu marido, nossa filha

nunca esteve tão feliz; ela encontrou o caminho dela, a felicidade dela

é ao lado de outra mulher e isso a gente não pode negar!

— E quem sou eu pra duvidar de você, meu amor? As vezes na correria do

dia a gente acaba esquecendo de algumas coisas, mas eu queria te dizer

que eu te amo, e que se eu tivesse que nascer, que crescer, namorar,

casar, eu ia querer casar com você e ter quatro filhas com você!

— Cinco! — florianópolis sorriu:

— Cinco, é verdade!

— Dessa vez é um menino,, meu marido, eu sei que é; essas coisas a gente sente, eu não sei como explicar mas a gente

sente!

São José estava com quarenta e cinco anos de idade e se considerava

um homem realizado em todos os sentidos; tinha uma família feliz, os

negócios iam muito bem, tudo parecia perfeito. Mas essa realidade estava

começando a mudar, e o pai de família teria que decidir como iria lidar

com tantas mudanças ao mesmo tempo.

A alguns meses, quando a jovem executiva Criciúma começou a

trabalhar na empresa, os dois acabaram se tornando amigos; em pouco

tempo ela já sabia tudo sobre a vida do chefe, já conhecia suas quatro

filhas por foto e o viu ao lado da esposa por algumas vezes. Não demorou

muito para que Criciúma percebesse o que realmente se passava com ela;

estava apaixonada pelo chefe, nunca havia sentido nada parecido antes e

jurou a si mesma que lutaria por aquele amor. Criciúma sempre fora

decidida, não tinha escrúpulos, era capaz de ir até onde fosse preciso

para conseguir o que queria.

Pensou por alguns dias, qual seria o melhor caminho para conquistar de

vez São José; achou que seria melhor se conseguisse se aproximar das

filhas dele antes de qualquer coisa, e não mediria esforços para isso.