Depois de ter passado dois anos praticamente isolada do mundo em uma

fazenda na casa de uns parentes, Itajaí estava de volta; reabriu a

matrícula na faculdade, seu sonho de ser advogada ainda existia, e mais

do que ser uma advogada, ela queria Chapecó de volta.

Logo nos primeiros dias de aula, a moça acabou fazendo amizade com

Blumenau; as duas se falaram pela primeira vez na cantina da faculdade,

perceberam que tinham muita coisa em comum, e em pouco tempo, Itajaí já

sabia que a irmã de sua melhor amiga era a atual namorada de Chapecó;

resolveu que só falaria com Blumenau sobre sua vida amorosa na hora

certa.

Na noite em que Chapecó esteve na universidade para a apresentação

do TCC, Blumenau saiu com Itajaí da universidade e foi deixá-la em casa;

ela estava morando em um apartamento pequeno, em um bairro longe do

centro mas estava procurando um lugar mais próximo.

E dentro do carro, em uma rua praticamente deserta, Itajaí revelou à

amiga que foi namorada de Chapecó e que pretendia reconquistá-la a todo

custo.

Blumenau nunca acreditou que sua irmã seria feliz naquele

relacionamento, por isso, se comprometeu a ajudar a amiga no que fosse

preciso.

Chapecó, por sua vez, se abriu com Joinville naquela noite; contou

sobre Itajaí, o relacionamento difícil que manteve com ela e que agora

ela estava de volta. Joinville deixou claro que acreditava em seu amor,

acreditava na felicidade que teria ao lado de Chapecó e prometeu ficar

ao lado dela caso alguma coisa acontecesse.

— Mana, começou um aluno novo na minha classe! — confidenciava

Jaraguá, na quinta feira de manhã com Palhoça; as duas estavam se

arrumando pra ir à escola:

— E é bonitinho? — interessou-se Palhoça:

— É; bonito, super educado, não é como os outros garotos da classe,

sabe! Tem gente que fica criticando ele só porque ele é educado!

— E como é que ele chama?

— São Miguel do Oeste!

— Jesus Cristo, o nome é grande!

— Ele é um pouco tímido, mana; prestativo, diferente dos outros garotos!

— Mana, impressão minha ou você está de olho no garoto? — a pergunta de

Palhoça veio acompanhada por um sorriso malicioso:

— Não estou de olho em ninguém; e vê se não espalha essa sua impressão

pra escola toda! Ele é tímido, tem caráter, e é filho de uma professora

lá da escola; só não sei direito de quem é!

São Miguel, realmente era diferente dos outros meninos que Jaraguá

conhecia; havia começado a estudar com ela a uma semana mais ou menos, era um

garoto um pouco reservado, prestativo, bem diferente da maioria dos garotos da

escola. Jaraguá foi a primeira colega que se dispôs a ajudálo no que

fosse necessário, e isso fez com que uma linda amizade nascesse entre os

dois.

Joinville desceu a escada que separava o quarto do resto do

apartamento; Chapecó ainda estava lá em cima:

— Vou preparar o nosso café! — avisou ela lá da cozinha:

— Sim, minha querida — concordou Chapecó -, eu vou tomar um banho e já estou descendo!

A campainha tocou, deixando às duas surpresas; quem estaria ali a uma

hora dessas?

— Eu vou abrir! — avisou Joinville já caminhando em direção à porta;

girou a maçaneta e deu de cara com uma linda moça com um vestido branco,

cabelos soltos, uma maquiagem bem leve e um sorriso discreto:

— Você deve ser Joinville! — deduziu a visitante:

— Sim, sou eu; e você é...

— Muito prazer, Joinville; Itajaí!

A moça não queria acreditar; estava ali, diante do passado de

Chapecó e tinha que decidir rápido como queria lidar com isso:

— Você vai me convidar pra entrar ou vai me deixar plantada aqui na

porta? — Joinville percebeu que Itajaí era ousada, sabia o que queria,

não tinha papas na língua:

— Eu não tenho direito de decidir se você vai ou não passar dessa porta,

Itajaí! Chapecó me contou de você essa noite, essa noite ela se abriu

comigo e me falou da relação de vocês!

— E o que foi que ela te contou?

— O que ela me contou não importa; eu só quero que fique bem claro que

eu acredito nela, eu acredito na felicidade que eu tenho e que vou ter

com ela!

— E cadê Chapecó?

— Está no banho! Eu acho melhor você voltar uma outra hora, Itajaí, numa

hora que ela estiver aqui e...

— Sua irmã me falou que você era assim; insegura, sensível...

— Eu não sou insegura, Itajaí; sou sensível mas não sou insegura; eu só

acho que eu não tenho esse direito, o direito de invadir uma história

que é de vocês! Chapecó está comigo, eu acredito no amor dela; mas isso

não me dá o direito de invadir a vida dela! Volta uma outra hora, por

favor!

O olhar de Itajaí, de sereno tornou-se ameaçador; ela agora segurava

as duas mãos de Joinville e a olhava firmemente:

— Eu posso até ir embora; sim, eu vou! Mas eu quero que você saiba que

eu vou lutar; eu ainda amo Chapecó, eu passei esses anos praticamente

isolada de tudo na casa de uns parentes mas ela nunca saiu do meu

coração! Mas eu vou lutar por ela, com todas as minhas forças eu vou

lutar por ela; com todas as minhas forças e com todas as minhas armas!

Joinville viu Itajaí lhe dar as costas; pela primeira vez o olhar de

alguém lhe causou medo. Ao vê-la desaparecer no elevador, Joinville

fechou a porta, caminhou até o sofá e se sentou; precisava pensar,

precisava decidir como queria enfrentar o que certamente estaria por

vir.

Ainda naquela semana, Florianópolis teve uma linda surpresa. Estava

chegando do super mercado com Márcia quando percebeu que a porta do

apartamento que ficava de frente para o seu estava aberta; achou

estranho, aquele apartamento pertencia a uma velha amiga sua, a melhor

amiga que passou pela sua vida. Não demorou muito para que ela

descobrisse que Lages, que passou cinco anos fora do Brasil, estaria de

volta dentro de alguns dias.

Faziam cinco anos que as duas não se viam, embora tivessem mantido

contato pela internet durante esse tempo. Lages estava voltando a o

Brasil, agora pra ficar; ainda não sabia que sua amiga de juventude

estava grávida do quinto filho.