Ele era um garoto normal. Um pouco prodígio, talvez. Comandava a galera do fundão, mas tinha algumas das melhores notas da turma. Tinha aquela energia própria de criança e um sorriso de estrelas. E era em seus olhos que elas mais brilhavam quando ele via seu herói favorito na tevê. Um homem grande, grande, grande. Mas tudo é grande quando a gente é tão pequenininho. O menino adorava. Ver aquele herói tão incrível e forte salvando as pessoas com um sorrisão no rosto. Dava até um arrepio que subia pela espinha e eriçava os pelos dos braços. O menino queria ser aquele homem, aquele herói. Olha ele lá! Como ele é poderoso! Eu quero ser ele quando eu crescer!

Os anos foram passando naquele ritmo meio lento. Quando a gente é criança, tem todo o tempo do mundo. E o menino gostava demais de brincar. Ele só não gostava daquele outro menino de cabelo verde. Aquele menino sem individualidade. Ele era um pé no saco. Sempre seguindo seus passos e gritando, e rindo, e chamando. Kacchan! Kacchan! Cala a boca, Deku! E, já naquela época, ele sentia uma vontade... uma vontade louca de explodir tudo. Mas, tudo bem. Era só um moleque ainda...

Ele não entendeu quando o menino de cabelo verde parou de segui-lo. Tanta coisa acontecera. E ele trazia uma ferida, mas uma ferida que a gente não vê... porque ela fica lá dentro, sabe? Mas fica latejando, como quando você bate o dedinho na quina do móvel e vai para o Céu. Só que no caso dele era o Inferno. Porque só podia ser o Inferno ver o Deku ganhando uma individualidade do nada. Do nada, velho. O que aconteceu com a porra do mundo?

Ficou de olho, só espreitando de longe. Tentou puxar conversa algumas vezes. Quis bater, meter aquela surra, e a ferida só zumbido baixinho no ouvido. Especulava, especulava, mas as peças não estavam se encaixando. Achavam que ele tinha cara de bobo, é? À merda, vocês tudo! Não preciso de vocês! Preciso, sim. Que porra é essa? Que porra aconteceu aqui? Que porra aconteceu aqui, Deku? Conta pra mim, caralho.

O menino treinava. Treinava sem parar. Ele não podia ficar para trás. O Deku ia melhorar 50% em apenas algumas semanas? Pois ele melhoraria 1000%! É aqui, ô! Eu sou melhor! Eu sou mais forte! Então para com essa porra de querer ficar aprendendo com os movimentos dos outros. Eu tô vendo isso aí. Isso que tu pegou não é teu. De quem é?

Não estava pensando nele. Não estava se lembrando de quando eram crianças e o Deku sempre o seguia. Tinha coisa mais importante para pensar. Passou por tantas humilhações. A derrota naquele primeiro teste. A mordaça ao final daquela luta ridícula. Aquela palhaçada do Stain quase matar os moleques... Mas nada se comparou ao sequestro. Que porra, cara. Mas que porra! Não ouse vir atrás de mim, Deku.

Ele já não estava nem aí. Não tinha medo daqueles vilões. Tampouco se juntaria a eles. Tão pensando o que, hein? Tão achando que ele ia abanar o rabinho e dizer sim, sim, sim, eu quero me unir a vocês? Pensou e pensou errado! Ele só sabia explodir as coisas. E ia continuar explodindo tudo enquanto fosse preciso!

Só que ele apareceu.

Aquele homem grande com o sorrisão no rosto. Aquele homem vinha para ele. Vinha por ele. E o menino era menino de novo. Era criança. De frente para a tevê, olhando maravilhado seu herói favorito. Não era, não. Ele não era mais criança. Ele entendeu o perigo. Não era burro. Ficou com medo. Não podia deixar aquilo acontecer. Precisava ajudar seu herói. Ou ele nunca seria digno de ser um herói também.

Ouviu alguém chamar seu nome. Ergueu o rosto e viu aquela cambada de imbecis voando pelo céu e o que caralhos cês tão fazendo aqui? O moleque ruivo estendeu o braço. E o menino soube que não tinha escolha. Mas. Que. Porra! Ele explodiu tudo. Já deu. Estava em seu limite.

E, no final, ainda teve de ver aquela luta. Teve de ver aquele homem grande — grande — murchar em meio à fumaça. Virou um palitinho, mas continuou lutando. Porque ele era o herói que salvava todo mundo com um sorriso. Então, por que o menino não conseguia sorrir? Ele ouviu a mensagem. Viu o homem pequeno apontar para a tela. Na próxima vez, será você. E as pessoas urrando de alegria e vitória. Mas o Deku estava chorando.

Ele tentou de novo. Puxou conversa. Nada. Estava cansado, já. O limite do limite. Quem estava explodindo era ele. Tem uma hora que não dá mais. Ou ele estourava os miolos, ou estourava o Deku. Deku... Aquela ferida estava pulsando lá dentro. Aberta. Dilacerada. Não me olha com essa cara de molenga. Tem respeito por mim. Se você não vem cair no braço, Deku, então eu que começo com a porrada.

Os meninos lutaram. O físico e o psicológico. Uma confusão de mágoas, lembranças e dores. E ele criança de novo, abrindo o pacote e encontrando o cartão brilhante do All Might... Eu queria ser como você. Eu só queria ser como você! Então, me explica... por que eu?

Sentiu o ódio prender na garganta. Porra, Deku. Como tu me perde a luta assim? Dá mais vontade ainda de te bater... Mas foi aí que ele chegou. O homem grande, o homem pequeno. E ele finalmente entendia que precisava esclarecer as coisas. Porque o menino explodia em silêncio.

Bakugou ouviu tudo. E a ferida ainda latejava. Ele se conteve, manteve-se forte. Queria ser como o homem grande... precisava ser forte. Doía um pouco menos agora. Aos poucos, ele foi se acalmando. Botara tanta coisa para fora. Tinha coisa ali que nem ele sabia direito. A gente se descobre nesses momentos de raiva. E ele tinha muita raiva. Uma raiva imensa. Tinha raiva de Deku? Tinha raiva de si mesmo. Como deixara acontecer...? Se fosse mais forte... Se ao menos fosse mais forte... Ele ainda era um pouco criança. Uma criança que matara seu próprio herói. Se ele ao menos não fosse...!

Shiu. Não. Vem.

Você não tem culpa.

Você carregou isso sozinho nos ombros por todo esse tempo.

Perdoe-me.

Bakugou se acalmou. Explodira e agora observava a fuligem se dissipando. Havia tanta coisa ali que não sabia... Falou com a voz branda. Mantinha o tom e o olhar de quem recebe um segredo. Guardaria aquele segredo. Porque era o homem grande que o confiava.

No caminho de volta, conversou com o Deku. Era fácil conversar com ele. Ainda dava um pouco de raiva, mas era porque o Deku era um imbecil. E Bakugou não admiraria um imbecil. Não muito. E, oculto no silêncio do homem grande, um pensamento que ficaria apenas no inconsciente dos meninos. Eles agora eram verdadeiros rivais.

**

Faxina no dormitório inteiro como castigo. Ô, porra, nem o próprio quarto ele arrumava direito! E ainda tinha de suportar a companhia do Deku, que estava insuportavelmente quieto. Mas ele era o Deku, então é claro que faria uma pergunta. Bakugou pensou em não responder. A memória da luta ainda era vívida.

Quando você me deu o soco no rosto, eu fiquei puto.

E ele sentiu alguma coisa no peito, não uma dor, não um aperto. Era mais como uma cosquinha. Dessas que te irritam quando um ferimento sara.

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