Aya ficou na ponta dos pés e esticou o braço para colocar a estrela no topo da árvore. Precisou de quase três tentativas até conseguir e deixou escapar um pequeno gritinho de vitória. Mas, quando fez menção de se abaixar para descer a escada de três degraus, escorregou com as pantufas e caiu. Teria batido a cabeça no chão se não fosse pelo movimento rápido de Growlithe, que se atirou para servir de travesseiro.

— Ah, obrigada, Kiba — disse a menina.

Ela se levantou e ajeitou o vestido. Olhou em volta, apreciando a decoração da sala principal do laboratório. Arrumara tudo sozinha, um motivo de tremendo orgulho! Fez carinho em Growlithe e o chamou para retornarem a casa, onde sua mãe terminava de preparar o almoço. Pouco mais de quinhentos metros separavam as duas construções, mas uma densa camada de neve cobria todo o caminho. Aya cuidou de se aquecer direitinho com casaco, cachecol, gorro, botas e luvas e ainda ofereceu um casaquinho de lã que tricotara para o cachorro.

— Ei! — resmungou quando o viu se afastar. — É para vestir, ‘tá bom?

Kiba fez uma careta. Detestava vestir roupas! Mas acabou por ceder e logo estava correndo pela neve junto de Aya — ou quase isso, porque a menina era lenta demais, e Growlithe tinha de parar toda hora para ela conseguir alcançá-lo. Pareciam dois Yukis de neve quando finalmente chegaram a casa. Naomi arregalou os olhos e começou a rir. Puxou a filha para perto e beijou suas bochechas.

— Estou quase terminando o almoço. Pode esperar no quarto enquanto isso.

— Eu quero ajudar!

— Muito bem. Lave as mãos, então.

Mãe e filha posicionaram-se na bancada da cozinha. Aya tinha de subir em um banquinho para cortar os legumes do ensopado. Kiba deitou-se em um canto qualquer e esperou até que alguma boa alma se lembrasse de encher sua tigela.

— Mamãe, o Icaro vem quando?

— Ele ligou agora há pouco. Disse que já estava em Viridian. Deve levar mais dois ou três dias para chegar até aqui.

— Ah. O que vamos fazer para ele?

Curry, é claro!

A menina riu.

— É a comida favorita dele, não é?

— Com certeza. Ele mencionou algo sobre comer doces deliciosos. — Naomi abriu um sorriso malicioso. — Sabe onde podemos conseguir um?

Aya quase caiu do banquinho.

— Sei, sim! Deixa por minha conta!

Um homem de cabelos grisalhos entrou na cozinha e fez carinho em Growlithe.

— Do que as duas princesas estão rindo?

— Paul. — Naomi sorriu para ele por cima do ombro. — Não ouvi você chegar.

— Decidimos fazer uma pausa para o almoço. Do contrário, passaríamos o dia inteiro na floresta. — Paul abriu um dos armários e retirou o pote de ração. Serviu a tigela de Growlithe, que pôs a língua de fora, ansioso para comer. — Icaro mandou notícias?

— Estávamos falando dele agora — disse Naomi. — Ele já chegou a Viridian.

— Ótimo! Posso encontrá-lo na floresta se for preciso.

— Acho que não será necessário. Ele é um menino crescido agora. Não precisa mais de nossa ajuda para tudo.

— Ah, puxa! Se a Aya-chan crescer no mesmo ritmo, eu vou ficar chateado.

A menina riu.

— Você ainda vai poder cuidar dos Pokémons, Paul!

— É. Acho que tem razão.

Após o almoço, Aya saiu correndo até o mercado com Growlithe em seus calcanhares. Fez a festa na seção de confeitaria, escolhendo as melhores massas para doces e biscoitos. Enquanto ia de lá para cá, quase tropeçou em um menino ruivo.

— Aya-chan!

— Mako-chin, tudo bem?

— ‘Tô, sim. Oi, Kiba!

O cachorro latiu em cumprimento.

— Vai fazer doces de novo? — perguntou Makoto, apontando o cesto de Aya.

— Sim. O Icaro está vindo para Pallet.

— Que legal! Quero brincar com ele quando chegar!

— Está bem!

Aya bagunçou os cabelos de Makoto. Ele era dois anos mais novo, mas tinha quase a mesma altura que ela. Não que isso significasse muita coisa; os dois eram baixinhos para suas idades. Quando saiu do mercado, Aya não conseguia esconder o sorriso. Fazia quase um ano que não via Icaro. Ele estava sempre viajando e quase nunca ligava para dizer se estava bem ou o que andara fazendo. Por isso, a menina tomara como sua missão preparar os doces mais deliciosos do mundo. Talvez assim Icaro passasse mais tempo com ela.

O Professor Paul era conhecido em toda a cidade de Pallet por suas pesquisas sobre Pokémons. Naquele mês de dezembro, estudava o comportamento dos Rattatas durante o inverno. Sentia falta de seu fiel escudeiro Kiba, mas, desde que Aya começara a sair de casa sozinha para ir à escola e encontrar os amigos no parque, o cachorro seguia-a como se fosse sua sombra. Paul sorria só de pensar. Amava demais a menina. Sonhava com o dia em que ela seria uma pesquisadora como ele.

— Professor, encontramos uma toca — informou um dos pesquisadores. — Está vazia agora.

— Ótimo! Instalem as câmeras imediatamente!

Os Rattatas tinham hábitos diurnos. Logo retornariam às suas tocas para dormir. Por falar em dormir, já estava anoitecendo. Era melhor voltar logo para casa, ou Naomi faria um de seus famosos beicinhos. Paul ajudou os pesquisadores a guardar os equipamentos depois que as câmeras haviam sido instaladas. Conversaram animados no caminho pela trilha. Rostos jovens e velhos sorriam. Era um grupo heterogêneo, formado por homens e mulheres. Alguns vinham de outras regiões de Kanto, mas todos compartilhavam o mesmo amor pelos Pokémons.

— Chegou tão tarde — disse Naomi, fazendo beicinho. — O jantar já esfriou.

— Felizmente, temos uma tecnologia muito interessante chamada micro-ondas.

Naomi revirou os olhos.

— Está rindo.

— Não estou, não.

— Está, sim. Olhe esse sorrisinho discreto.

Ela balançou a cabeça.

— Tente não chegar tão tarde amanhã, querido. A Aya passa o dia inteiro te esperando no laboratório.

Paul esfregou a nuca.

— Eu sei. Eu sei.

De fato, a menina ainda estava lá quando ele apareceu para guardar alguns relatórios. Sentada perto da árvore, parecia lutar para manter os olhinhos abertos. Tinha apenas doze anos e estava acostumada a acordar cedo para ir à escola. Suas baterias não duravam muito além das onze da noite.

— Paul! Você demorou demais!

— Desculpe, meu amor. Acabei passando na casa do Ian para pegar uns relatórios, e a irmã dele estava em casa. Aquela que foi morar em Lavender há alguns meses. Ela ofereceu um café, e eu aceitei. Não vi a hora passar. Conversamos tanto sobre os Pokémons fantasmas!

— Não gosto de Pokémons fantasmas! — bradou a menina, abraçando o Growlithe. — Gosto de Pokémons fofinhos como o Kiba!

— O mundo não é feito só de Pokémons fofinhos. — Paul sentou-se ao lado dela. — Se você algum dia se tornar pesquisadora como eu, terá uma infinidade de Pokémons para estudar. Existem muitos outros além dos que encontramos aqui em Kanto, sabia?

— Muitos mais? — Ela arregalou os olhinhos.

— Sim, muitos! Quem sabe algum dia você não viaja pelo mundo e me conta sobre eles?

Aya riu.

— Fechado! Menos sobre os Pokémons fantasmas, ‘tá bem?

— Menos sobre os fantasmas. — Paul ergueu as mãos, diplomático. — Venha. Está tarde. Vamos para casa. Sua mãe vai me matar se eu atrapalhar seu ciclo do sono.

— Mas eu não estou com sono — resmungou Aya, bocejando.

— Está, sim. — Ele a pegou no colo junto com Growlithe. — Vamos. Eu te conto uma história para dormir.

A menina sorriu e aconchegou o rosto no peito do padrasto.

Makoto apareceu no dia seguinte para fazer uma visita e riu ao ver Aya toda coberta de farinha. Ela estava praticando sua arte favorita: fazer doces. Usava um lenço vermelho sobre a cabeça para afastar os cabelos do rosto. O menino gostava de olhar. Eram cabelos curtos e castanho-claros. Formavam um contraste interessante com os vívidos olhos âmbares de Aya. Kiba aproximou-se de Makoto e cheirou seu rabo de cavalo, perguntando-se que cauda esquisita era aquela.

— Que fôrmas legais!

— Gostou? — perguntou Aya, erguendo a fôrma de Pikachu. — Foi o Paul que comprou. Ele disse que achou a minha cara.

— Tudo relacionado a doces tem a cara da Aya-chan!

Naturalmente, Makoto esperou até que os biscoitos ficassem prontos. Os dois sentaram-se à mesa com seus copos de leite e passaram horas conversando e comendo. Até Kiba teve direito a um biscoito. Estava tão gostoso, que ele lambeu os farelos do chão.

— Makoto-chan — cumprimentou Naomi, entrando na cozinha. — Sua mãe ligou. Quer que você vá para casa.

— Ok. Tchau, Aya-chan! — Ele pulou da cadeira.

— Tchau, Mako-chin!

— Quer que eu leve você? — perguntou Naomi enquanto ele vestia o casaco e o gorro e apanha a mochila.

— Não precisa, oba-san. Obrigado por me deixar ficar!

— Imagina! Você é sempre bem-vindo.

Makoto saiu, e Naomi sentou-se à mesa para comer os biscoitos que haviam sobrado. Fechou os olhos, apreciando o sabor.

— Acha que o Icaro vai gostar?

— Se foi feito pela Aya-chan, tenho certeza de que sim.

A menina sorriu orgulhosa.

— Paul está no laboratório. Quer te mostrar uma coisa. Mas voltem antes do jantar, está bem?

— ‘Tá bem!

Aya entrou no laboratório como se fosse um furacãozinho. Largou o casaco e o cachecol em um canto qualquer e se dirigiu à sala principal. Paul estava debruçado sobre uma bancada. Já posicionara uma cadeira ao seu lado para que a menina pudesse subir nela.

— Mostra! Mostra! O que descobriram hoje?

— Aya-chan! — Ele afagou seus cabelos. — Hoje trocamos o filme da câmera que instalamos no Pidgey Pg002. Quero lhe mostrar as imagens que conseguimos.

— Legal! Legal!

Ela assistiu às gravações com imenso fascínio. Ver a floresta de cima, ainda mais quando estava coberta de neve, era mágico! Fez infindáveis perguntas a Paul, que ria do entusiasmo da enteada. E, é claro, a pergunta previsível:

— É por essa trilha que o Icaro vai vir?

Aya nunca saíra de Pallet desacompanhada. Ainda era muito nova. Sua viagem mais longa fora a Cerulean, para assistir a uma apresentação de balé aquático com a mãe.

— Sim. É por essa trilha. Talvez os Pidgeys vejam Icaro quando ele estiver viajando.

— Talvez eles façam cocô nele — disse Aya, cobrindo os lábios.

Paul deu risada.

— É, talvez. Vamos. — Ele pegou a menina no colo. — Vamos jantar.

Aya tinha acabado de assar os biscoitos. Correu para tomar banho e vestir uma roupa bonitinha. Escolheu um vestido rosa, um par de botas de camurça, um casaco e um gorro brancos. Fitou seu reflexo no espelho do quarto e torceu os dedos.

— Está muito esquisito, Kiba?

O cachorro ergueu a cabeça, entediado. No primeiro andar, a campainha tocou.

— Ele chegou! Ele chegou! É o Icaro!

A menina debandou escada abaixo e quase derrubou uma mesinha decorativa na sala. Ajeitou o vestido uma última vez e abriu a porta. Um garoto de cabelos castanhos e olhos cinzentos sorriu para ela.

— Aya-chan!

— Icaro-kun!

Ele a abraçou e rodopiou com ela pela sala. Aya era só risos, agarrando-se ao garoto como se não desejasse soltá-lo pelo resto da eternidade. Naomi saiu do escritório e abriu um sorriso largo.

— Naomi-san!

— Icaro-kun! É um prazer revê-lo.

Icaro pousou a irmãzinha no chão e abraçou Naomi. Ela tinha o cheiro de que ele se lembrava.

— Olhe só para você! Como cresceu durante esse tempo. — Naomi afagou seus cabelos por cima do gorro. — E olhe só esse nariz todo vermelhinho.

— É. Está muito frio lá fora. — Ele esfregou o rosto. — Achei que meu nariz ia congelar e cair.

Aya gargalhou.

— Ia ser engraçado! Você ia ficar parecendo aqueles personagens de desenho que não têm nariz!

— Não seja por isso. Eu roubava o seu! — Ele brincou, apertando o nariz de Aya com os dedos.

— Ai! Seu malvado!

— Está com fome, Icaro?

— Um pouco. Posso preparar um lanche na cozinha?

— Mas é claro! A casa é sua. Ah. — Naomi pousou o indicador no queixo. — A Aya-chan fez alguns biscoitos. Talvez você queira comê-los.

Os olhos de Icaro faiscaram.

— Biscoitos?! Isso é o que eu chamo de recepção! Já volto, Aya — disse, beijando sua bochecha. — Vou ao banheiro.

— Pode deixar sua mochila no quarto de hóspedes! — avisou Naomi, enquanto ele subia as escadas.

— Está bem. Obrigado.

Aya tremia da cabeça aos pés quando se sentou à mesa. Só então percebia o quanto sentira saudades de Icaro. Em um passado não muito distante, o garoto costumava passar muito tempo em sua casa ou no laboratório de Paul. Até frequentara a mesma escola que ela durante quase dois anos. Raramente falava sobre sua própria casa. Não se dava muito bem com a mãe.

— Biscoitos! — Icaro entrou na cozinha erguendo os punhos. — E aí, Kiba?

O cachorro latia e saltava, tentava de todas as formas sentir os cheiros nas roupas de Icaro.

— Também senti saudades. — Ele estendeu a mão para pegar um biscoito, mas recebeu um tapa. — Ai! Por que fez isso?

— Você lavou as mãos?

— É claro que lavei! ‘Tá pensando o quê? Que eu sou sujinho?

— Quando a gente era mais novo, você brincava na floresta até ficar todo sujo de terra e lama e queria comer os biscoitos assim mesmo.

— Isso foi há milênios! Me dá um desconto.

Icaro pegou um biscoito e o mergulhou no copo de leite antes de provar. Fechou os olhos, apreciando o sabor.

— Ficou bom?

Ele abriu um sorriso nostálgico.

— Tem gosto de lar.