Estúpido cúpido.

1 Único ( Faria Lima)


Ah, aquele pequeno cupido

Como Hyoga queria pegá-lo e trancá-lo num pote de conserva. Chacoalhar até aquela criatura insolente virar uma geleia brilhante de glitter e purpurina.

Honestamente, ele aceitaria ser atingido por qualquer outra coisa naquele momento: um piano caindo do céu, um meteoro, uma carruagem desgovernada... E olha que eles estavam em pleno século XXI; era mais fácil o trânsito de São Paulo fluir do que aparecer uma carruagem na rua. Ou então um jatinho caindo do céu e o atingindo direto na cabeça, abrindo uma cratera fumegante bem no meio dos seus cabelos loiros, cuidadosamente hidratados. Seria menos doloroso...

Mas tinha que ser uma flecha. Uma flecha ridiculamente açucarada, lambuzada de mel, brilho e romantismo barato.

Porque aquela era a única explicação logicamente aceitável para o siberiano — o homem criado no gelo eterno (do ar-condicionado) — estar completamente encantado por aquele garoto.

Aquele maldito garoto....

E se alguém perguntasse: "Ah, mas qual é o problema do garoto? O que o coitado do cupido fez para Hyoga querê-lo tão mal só por fazê-lo se apaixonar?" a resposta seria simples.

O problema era que, perto dele, o siberiano simplesmente dava pane no sistema. O cérebro desligava, as engrenagens paravam e o homem que deveria ser uma estátua de gelo derretia no banco do carro igual açúcar refinado na panela, virando calda doce devagar.

O causador do colapso usava um boné virado para trás, uma camisa da seleção brasileira larga demais para o seu corpo magro e um short que parecia muito um samba-canção comprado em banca de feira. Nos pés, um par de Havaianas, tamanho 36...

Pensar naquele chinelo, inclusive, trazia memórias traumáticas. Hyoga ainda lembrava perfeitamente do dia em que os dois quase protagonizaram uma versão suburbana de Cinderela. O sinal tinha acabado de abrir, os carros começaram a arrancar e, no meio da pressa para atravessar o asfalto molhado da chuva, o chinelo do garoto simplesmente voou do pé, ficando para trás.

O que um homem sensato faria? Ignoraria. Mas Hyoga, completamente dominado pela pane romântica, puxou o freio de mão no meio da avenida. Ignorando a sinfonia de buzinas ensurdecedoras e os xingamentos de uma fila imensa de motoristas furiosos, ele saiu do carro, correu até o asfalto, resgatou a Havaiana fugitiva e, ajoelhado na poça d'água, calçou o pézinho dele. Igualzinho ao príncipe encantado, só que com cheiro de fumaça de escapamento.

Enquanto Hyoga se perdia naquelas memórias, o garoto se aproximava, andando entre os corredores de carros presos no engarrafamento...

Sentindo o ar ficar quente demais dentro do carro, ele afrouxou o nó da gravata. Estava praticamente sufocando naqueles poucos metros quadrados.

Em completo desespero, considerou seriamente a possibilidade de descobrir se o banco da Porsche comportava um homem adulto de um metro e oitenta escondido embaixo dele.

Claro que isso acabaria com o couro legítimo. Também destruiria os amortecedores. Sem falar no terno caríssimo que ficaria coberto de poeira.

E o pior de tudo: se dobrasse aquela coluna que, apesar dos míseros vinte e dois anos, já vivia acabada por horas de faculdade e reuniões no Zoom, provavelmente travaria ali mesmo. Hyoga passaria o resto da semana andando igual um idoso depois de limpar quintal, torto e segurando a lombar pelos corredores da empresa.

Ou seja…

Ele teria que aguentar aquele sorriso de novo. Isso, claro, se não sofresse um desmaio fulminante no exato momento em que aquelas grandes esmeraldas fixassem seu brilho nele.

Hyoga ainda cogitou uma última alternativa desesperada: ativar o modo turbo da Porsche e simplesmente passar por cima dos carros à frente, esmagando os sedãs populares como se fossem tartarugas deprimidas. Infelizmente, o Código de Trânsito Brasileiro ainda considerava o homicídio doloso e a destruição de patrimônio público um mero inconveniente legal.

As mãos do loiro começaram a suar no volante. Os dedos apertaram o material com tanta força que ele quase conseguiu sentir o prejuízo de revenda do carro.

E ele respirou fundo, mas seu coração ignorou completamente o comando de calma. O órgão decidiu que aquele era o momento perfeito para ensaiar um solo de bateria da Sapucaí, com direito a paradinha e tudo.

E o pivô do seu colapso cardiovascular continuava ali, avançando pelo corredor de carros..

O garoto borrifava água com detergente no para-brisa dos outros e passava o rodinho com agilidade, enquanto se debruçava sobre o capô dos automóveis alheios... Tudo isso com um fone de ouvido de R$ 1,99 pendurado nas orelhas, mascando chiclete, enquanto perambulava de carro em carro.

A cada aproximação, Hyoga escorregava mais para baixo, quase afundando no banco. Se continuasse assim, iria atravessar o couro do estofado e sentar diretamente no asfalto. Ou quem sabe, se a física permitisse, ele se transformaria em estado líquido apenas para sumir pelos dutos do ar-condicionado antes que aqueles olhos o notassem ali dentro.

Ver o garoto parar no carro da frente com aquele sorriso radiante foi o prego que faltava no caixão da postura de executivo do Hyoga. Ele literalmente virou uma Maria mole!

Como alguém conseguia ser tão radiante debaixo de um sol de trinta e nove graus na sombra? O calor fritava direto a testa de Shun, o que explicava muito. Para Hyoga, aquela alegria suburbana em pleno engarrafamento só podia ser sequela de insolação. Os miolos do garoto já tinham virado meleca.

E quando o garoto finalmente, encostou perto de sua Porsche. Hyoga simplesmente esqueceu como se respirava.

O oxigênio sumiu. Ele foi transportado à força da realidade brasileira direto para o planeta mais brega do sistema solar: o Planeta do Amor. Seus olhos quase projetaram corações de desenho animado no para-brisa.

Ele jurava que conseguia ouvir harpas. Harpas! E pequenos anjinhos de fralda, com asas de purpurina, começaram a girar em órbita ao redor de sua cabeça no exato segundo em que o garoto de cabelos verdes parou diante da sua janela.

Antes que Hyoga pudesse empurrar o coração de volta para o peito — porque o órgão batia tão forte que parecia prestes a criar pernas e sair correndo sozinho pelo asfalto —, a realidade bateu à porta.

Tof, tof.

Shun bateu no vidro da Porsche com o cabo do rodo.

Sem saída, Hyoga abaixou o vidro.

Lentamente. Tão devagar que parecia estar abrindo uma fenda interdimensional proibida pela ONU. E talvez estivesse mesmo. Porque os olhos de Shun funcionaram como dois pequenos sóis verdes no instante em que o vidro desceu. Foi um clarão tão violento que as pupilas de Hyoga dilataram na hora, iguais às de um gato psicótico encarando um ponto de laser na parede.

Hyoga tinha quase certeza de que estava babando. Ele era um executivo bem-sucedido reduzido a um Golden Retriever ofegante.

Essa era a desgraça do amor: transformar homens de negócios inteligentes em completos idiotas funcionais.

— E aí, loirão, tudo na santa paz? — O garoto simplesmente apoiou os braços na janela da Porsche, inclinando-se para dentro, completamente alheio ao fato de estar cometendo um crime hediondo contra o sistema nervoso alheio.

O boné continuava torto. O cheiro de sol quente misturado com um shampoo de lavanda de mercado de esquina invadiu o carro, misturando-se ao perfume francês importado que Hyoga usava. E, por incrível que pareça, a fragrância barata da lavanda era inacreditavelmente mais agradável.

Na paz não estava não. O coração de Hyoga capotou no peito. Foi um tombo feio. O órgão despencou, ricocheteou no estômago e saiu rolando ladeira abaixo como um botijão de gás sem freio...

E tudo piorou porque os cotovelos de Shun estavam a poucos centímetros de seus braços, que continuavam paralisados, agarrando o volante.

— Vai querer a limpeza completa ou tá economizando trocado? Juro que faço um preço camarada para você, chefia. — O garoto continuou, ignorando olimpicamente o colapso mental do loiro engravatado... enquanto uma única pergunta vinha à mente de Hyoga:

Você pode juntar meu coração? Porque ele acabou de capotar no asfalto por sua culpa.”

Ele poderia ter dito aquilo... Poderia. Mas o problema era que o siberiano tinha se perdido completamente naquele sorriso e no jeito que a bochecha de Shun mexia devagar enquanto ele mastigava o chiclete.

Hyoga reconheceu o cheiro imediatamente quando o vento quente da Faria Lima entrou pela janela.

Tutti-frutti.

Um aroma doce, juvenil e perigosamente incompatível com a estabilidade de um homem emocionalmente reprimido.

E o pior de tudo? Hyoga começou a se perguntar se os lábios de Shun tinham o mesmo gosto. Provavelmente a língua do garoto estava pintada de azul-metileno ou rosa-choque por causa daqueles corantes baratos. E aquele maldito e açucarado detalhe atiçou a curiosidade científica de Hyoga, fazendo-o querer verificar a informação na prática.

Hyoga tentou articular alguma palavra, mas sua mandíbula parecia ter sido colada com Super Bonder.

Shun arqueou uma sobrancelha, encarando o rosto estático do motorista.

— Ih, qual foi? Tá chapado, é? Uma hora dessas da manhã e você já tá em Nárnia, tio?

Hyoga piscou, tentando processar o "tio" e o "chapado". Na verdade, ele já deveria estar acostumado com o vocabulário exótico do rapaz. Só na semana passada, ao recusar a limpeza do vidro, tinha recebido um: “Coé, mó boiadeiro você, hein, paizão?”, seguido de um inesquecível “Cê é louco, cachorreira, mó pão-duro” e um enigmático “Tá moscando, é, meu consagrado?”. O tal do "tá moscando", inclusive, ele tinha recebido logo após ter se perdido completamente na cor intensa daqueles olhos verdes.

— O-o quê... — A voz de Hyoga saiu fina. Tão fina e flutuante que faria inveja a um falsete da Pabllo Vittar. — Não... Não estou chapado. Estou perfeitamente... limpo. Só... pensando.

— Pensando em quê? — Shun tombou a cabeça para o lado, curioso.

“Na sua boca.”

“Na sua língua azul de corante artificial.”

“Em como eu faria para te transferir metade dos meus bens por Pix agora mesmo.”

“No fato de que eu aceitaria ser sequestrado por você.

Mas Hyoga era um homem civilizado, com um diploma de MBA para defender. Então, ele limpou a garganta, empertigou a postura no banco de couro e respondeu a primeira bizarrice macroeconômica que veio à sua mente:

— No aumento do dólar... e na instabilidade da taxa Selic.

Shun ficou em silêncio, piscando devagar enquanto tentava digerir aquela informação macroeconômica. Então, soltou uma risada limpa e gostosa, balançando o rodinho no ar.

— Tu é muito estranho, sabia, loirão? Na moral.

Hyoga respirou fundo. Pelo menos ele tinha dropado o "tio" por um instante. O rapaz tinha dezoito anos e ele tinha vinte e dois! Uma diferença ridícula de quatro anos! Hyoga não tinha culpa se vestir um terno sob medida e carregar o peso de ser o principal herdeiro da filial da empresa dava a ele a aura cansada de um aposentado do INSS que joga damas na praça às duas da tarde. Ele não era velho!

Mas, no fundo, ele sabia que era estranho. Especialmente porque, naquele exato momento, Hyoga estava considerando seriamente largar sua carreira de sucesso, seu patrimônio acumulado, sua sanidade mental e, se bobear, até sua cidadania russa... só para continuar ouvindo aquele garoto de Havaianas rir por mais cinco minutos no meio do trânsito.

Era exatamente por isso que Hyoga nutria um ódio profundo, pessoal e completamente justificável por aquele estúpido cupido. Porque não existia explicação lógica. Nenhuma.

Como um homem sério, formado, preso em uma rotina de executivo premium, reuniões intermináveis e planilhas complexas no Excel… podia estar absurdamente encantado por um garoto que limpava vidros no sinal? Um garoto que mastigava chiclete às oito da manhã, e falava girando metade das palavras, inventando outras no caminho e cometendo pequenos crimes contra a gramática portuguesa com a confiança de quem jamais temeu a professora de redação.

E, ainda assim… Shun sorria. E pronto. Acabava ali qualquer chance de raciocínio lógico sobreviver. O garoto tinha uma simpatia quase criminosa. Daquelas perigosas, que desmontavam a estrutura de uma pessoa aos poucos, sem precisar fazer esforço nenhum.

— Já que você tá aí sofrendo pelo bolso dos gringos, deixa eu dar um talento na sua nave, chefia — Shun disparou, sem esperar autorização, já se afastando em direção ao capô. — E relaxa, o serviço hoje é por conta da casa.

Antes que Hyoga conseguisse formular uma frase com sujeito e predicado, Shun virou a garrafa pet e jogou um jato generoso de água com detergente direto no para-brisa da Porsche.

Plat!

O siberiano deu um sobressalto no banco.

O garoto simplesmente apoiou um dos pés na roda dianteira do carro de luxo e esticou o corpo inteiro sobre o capô polido. Ele estava, literalmente, quase subindo na Porsche para alcançar o meio do vidro com o rodinho. A camisa larga do Brasil subiu um pouco com o movimento, revelando uma linha fina de pele bronzeada na cintura, e Hyoga esqueceu instantaneamente como funcionava o sistema respiratório humano.

“Ele está riscando a pintura. Ele está amassando o capô. Aquele carro custa o PIB de uma pequena nação”, o cérebro corporativo de Hyoga tentou gritar. Mas o coração, embalado pelo ritmo de um pagode sofrido, respondeu: “Deixa ele amassar, deixa ele quebrar. Se ele quiser, eu dou a chave e o documento agora mesmo.”

Shun puxou a água com o rodinha e pronto.

Vruup.

Olhou pelo vidro limpo, bem nos olhos de Hyoga, e deu uma piscadela charmosa enquanto estalava o chiclete de tutti-frutti.

— Aí, chefia, tá precisando dar uma espairecida, hein? — Shun falou mais alto para o som passar pela janela aberta, mudando o rodo de mão. — Tu tá com uma cara de quem vai infartar antes do almoço. Bebeu água hoje?

— Eu... eu bebi. Café. — Hyoga gaguejou. — Quer dizer, não tomei café. Eu... o carro está bom. Não precisava limpar...

Shun deu uma risadinha, descendo do capô com um pulo leve e se apoiando de novo na janela.

— Precisava sim, tava cheio de poeira de obra e cocô de pombo... E outra, cortesia da casa pro meu cliente mais VIP do engarrafamento. — Shun piscou e começou a se afastar, dando alguns passinhos para trás enquanto olhava para o sinal, que já estava quase ficando verde. Mas, antes que ele sumisse entre os carros, Hyoga o chamou. O garoto ergueu as sobrancelhas e se aproximou de novo.

Hyoga começou a tatear o paletó de grife à procura da carteira, torcendo desesperadamente para o sinal não abrir nos próximos dez segundos... Ele puxou uma nota de cem reais.

Olhou para a nota. Olhou para Shun, que continuava com os braços apoiados na janela, mascando seu chiclete com os olhos verdes brilhando de expectativa...

Cem reais por duas rodadas de rodo de espuma é um péssimo retorno sobre o investimento”, pensou o Hyoga economista.

Dá tudo para ele. Dá o cartão de crédito. Dá a Porsche”, gritou o Hyoga apaixonado.

Ele estendeu a nota de cem.

Shun olhou para a garoupa impressa no papel e seus olhos quase dobraram de tamanho. Ele recuou a cabeça, surpreso.

— Caraca, loirão! Eu disse que fazia um preço camarada, mas tu extrapolou no conceito de gorjeta. Não tenho troco para isso tudo nem se eu trabalhar até o Natal, juro por Deus.

— Não precisa de troco — Hyoga conseguiu dizer. — Fique com tudo. Pelo... pelo excelente trabalho no capô.

Shun olhou para a nota e depois para Hyoga, um sorriso de canto nascendo nos lábios. Ele não pegou o dinheiro de imediato. Em vez disso, inclinou a cabeça, observando as bochechas do loiro, que começavam a ganhar um tom sutil de rosa.

— Tu tá me dando cem contos porque gostou do meu rodinho ou porque tava com pena de mim, loirão? — Shun perguntou, o tom de voz amolecendo, perdendo um pouco daquela malandragem do farol e virando algo genuinamente doce.

— Eu não sinto pena — Hyoga respondeu.. — Eu apenas... aprecio a sua dedicação. E você disse esses dias que o movimento estava ruim. Não quero que passe o dia no sol sem... sem comer.

Shun piscou. A empáfia de menino de rua desmoronou ali, dando lugar a uma expressão tão absurdamente fofa que Hyoga sentiu o próprio cérebro derreter como gelo no micro-ondas.

O garoto esticou a mão e empurrou a nota de volta para os dedos de Hyoga.

— Pô, loirão... — Shun falou baixo, os olhos verdes fixos nos azuis do siberiano, com um brilho sincero. — Tu é todo engomado, todo sério com esse terno de defunto rico, mas no fundo tu tem um coração de manteiga, né? Valeu mesmo, de verdade. Mas não posso aceitar tudo isso não.

— Por favor — insistiu, a voz mansa. Ele empurrou a mão de Shun de volta, fechando os dedos do rapaz ao redor da nota de cem. — Fique com o dinheiro. É sério. Considere um adiantamento pelos próximos vidros que você vai limpar.

Shun olhou para a nota na própria mão, depois para Hyoga, e o orgulho cedeu espaço a um sorriso misturado com alívio.

— Caraca... Valeu mesmo, chefia. Na moral — Shun agradeceu, coçando a nuca, meio sem jeito. — Com esse bônus aqui, eu vou finalmente conseguir aposentar essa Havaiana de guerra e comprar um tênis novo. Meus dedos já estão quase virando carvão nesse asfalto.

Aquilo tocou Hyoga de um jeito profundo. A ideia de que uma nota de cem reais — algo que ele gastava sem nem piscar em um almoço executivo rápido — significava a proteção dos pés daquele garoto contra o chão em brasas fez seu peito apertar de um jeito estranho.

— Não precisa agradecer... Shun. — O nome escapou pelos lábios de Hyoga antes que ele pudesse conter.

Shun abriu um sorriso enorme, aquele que fazia seus olhos virarem dois risquinhos e trazia de volta a covinha criminosa na bochecha.

— Ih, gravou meu nome? Que chique. Olha só, para compensar sua generosidade... — Ele enfiou a mão no bolso do short de samba-canção e revirou uns papéis até puxar algo. — Toma.

Ele estendeu a mão para dentro do carro e deixou cair na palma de Hyoga um tablete fechado de chiclete de tutti-frutti. O plástico estava um pouco quente por causa do sol, mas para Hyoga parecia que ele tinha acabado de receber uma joia da coroa britânica.

— É do melhor sabor — Shun garantiu, orgulhoso, dando tapinhas de leve no teto da Porsche. — Pra adoçar essa tua cara de trabalhador sofrido.

Hyoga olhou para o chiclete rosa na sua mão e depois para o garoto.

— Obrigado. Eu... vou guardar com muito cuidado.

— Guarda nada, ! É pra comer! — Shun riu, achando graça da formalidade dele. Ele deu dois passos para trás, segurando o rodinho. — Vê se não morre de estresse nesse trânsito, hein, paizão? Até amanhã!

Um coro de buzinas começou a ecoar atrás da Porsche. O sinal tinha acabado de ficar verde.

Hyoga engatou a marcha com e acelerou devagar, olhando pelo retrovisor o garoto de boné torto acenar para ele no meio do asfalto quente.

Definitivamente, o cupido era um estúpido. Mas Hyoga nunca esteve tão grato por aquela flecha açucarada. Eles eram a definição viva de que os opostos se atraem — e de que o mundo adora brincar com as distâncias.

Enquanto a Porsche se afastava a passos de tartaruga no trânsito, os olhos de Hyoga continuavam hipnotizados pelo retrovisor. Shun já tinha voltado para o canteiro central da avenida, rodinho apoiado no ombro como se fosse um cetro de realeza suburbana, esperando pacientemente o sinal fechar outra vez.

Era um choque de realidade incômodo. Eles tinham quase a mesma idade, dividiam o mesmo oxigênio da cidade, mas o destino os havia arremessado para extremos opostos do espectro social.

Hyoga estava a caminho de um arranha-céu espelhado, blindado por um ar-condicionado congelante, onde pessoas de terno tomavam café caro de cápsula e discutiam metas e números grandes demais para fazerem sentido antes das nove da manhã. Shun estava na rua, encarando o asfalto, esperando o próximo farol vermelho para garantir a sobrevivência do dia debaixo de um sol de trinta e nove graus.

Os dois respiravam no mesmo planeta, mas parecia que tinham recebido mapas de mundos completamente diferentes.

Hyoga foi treinado com aulas de inglês, planilhas macroeconômicas e a arte de apertar mãos importantes sem demonstrar fraqueza. Shun foi alfabetizado pela rua. Aprendeu o momento exato de correr entre os carros antes que o fluxo arrancasse; aprendeu a ler o olhar de um motorista arrogante; aprendeu quem fecharia o vidro fumê na sua cara e, acima de tudo, aprendeu a sorrir mesmo quando a sola do chinelo quase derretia no chão.

Era injusto. Terrivelmente injusto.

E era exatamente essa disparidade que apertava um nó estranho dentro do peito de Hyoga. Porque, apesar de tudo, Shun continuava leve. Continuava brilhando, como se o mundo não tivesse passado os últimos dezoito anos tentando endurecer e quebrar aquele garoto à força.

Hyoga olhou para o chiclete de tutti-frutti na sua mão por alguns segundos. Depois, buscou o retrovisor uma última vez.

Lá longe, Shun dava uma risada alta, dividindo alguma piada com outro rapaz que vendia água no sinal.

O restante do caminho até o escritório foi um borrão automático de marchas e avenidas cinzentas. Quando Hyoga finalmente estacionou a Porsche na sua vaga privativa no subsolo do prédio corporativo. Ele desligou o motor. O "Modo Sibéria" do ar-condicionado finalmente se dissipou, e o calor sutil da manhã paulistana começou a invadir a cabine.

Ele olhou para o terno sob medida. Olhou para o reflexo sério e engomado no espelho retrovisor. O executivo impecável de vinte e dois anos estava de volta.

Mas aí, sua mão direita tocou o bolso do paletó de grife.

Lá dentro, o tablete de chiclete de tutti-frutti parecia pesar uma tonelada de puro açúcar e insolência. Hyoga o tirou do bolso, observando a embalagem barata e colorida.

Lentamente, ele abriu o plástico, levou o chiclete à boca e mastigou.

O gosto artificial e absurdamente doce invadiu suas papilas gustativas, fazendo o siberiano fechar os olhos. Era exatamente o gosto daquele sorriso. O cheiro daquela testinha frita pelo sol.

Hyoga pegou a pasta de couro com as planilhas do Excel, abriu a porta do carro e caminhou em direção ao elevador espelhado que o levaria para mais um dia de reuniões intermináveis e números frios.

Ele ainda odiava o mundo e suas linhas injustas. Mas, enquanto subia em direção ao topo daquela torre de vidro, mastigando um chiclete rosa-choque, Hyoga percebeu que havia um lado bom em toda aquela humilhação emocional.

Amanhã, às oito da manhã, o sinal da Faria Lima fecharia vermelho outra vez.

E ele estaria na primeira fila.


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