A Tina, ela é uma pessoa prestativa porém muito mentirosa, isso são coisas que estão atreladas umas às outras. A necessidade dela de mentir vem de uma compulsão, de uma necessidade de ter aquilo que ela não possui e atenção é uma delas. Não conheceu seu pai, sua mãe tendo que trabalhar bastante e ela tendo que cuidar de seu irmão. Ela com seus 16 anos, já não consegue mais reverter os quadros de mentiras dela, mas como ela poderia ser interessante falando a verdade?

O que a vida dela teria de interessante, é que ela sempre pensou. É um conflito interno para ser vista, notada, isso leva a desespero e aflição. Pois, constantemente ela se tortura com a ideia de que se não tiver nada a acrescentar, ela não é suficiente e que não teram pessoas ao seu redor que lutariam por ela.

Então nem ela mesmo sabe se o que ela diz é realmente mentira, ela já vive naquele mundo, sem ajuda, desamparada, se sentindo só e com medo de permanecer só pelo resto da vida.

Uma vez ela descoloriu o cabelo para arrancar elogios e quando não conseguiu, não pensou duas vezes em raspar ele. Isso chegou a um ponto que ela começou a ter que expor sua vida nas redes sociais, pois assim ela tinha atenção. Mas não como ela desejava. Mas isso pouco importava a ela, ela só queria ser vista, se a odeiam ou não, isso não faz diferença. Até porque ela mesmo já se odiava, não se via dividindo a vida com ninguém pois não se achava interessante, então passou a viver de migalhas.

Sua mãe logo descobriu, mas como não descobriria?

Ela era constantemente chamada na rua de péssima mãe, e que era óbvio do porque o marido ter ido embora; provavelmente não a surportava mais e que ela merecia tudo aquilo, sem mesmo saber dos reais motivos de tudo aquilo estar acontecendo.

Sua mãe a deixou de castigo, mas pouco importava a ela, ela dizia para mãe:

— Se eu mereço passar por isso, você merece bem mais do que qualquer outra pessoa! — rugiu enquanto apontava o dedo para a mãe que se debulhava em lágrimas.

Ela culpava a mãe por tudo, por não ter o pai, por não ter a vida que tanto desejava, por não ser feliz. Isso são conflitos que nem ela mesmo entendia. Ela queria ser vista, mas o que ela realmente queria era compreender tudo o que estava acontecendo. Mas era mais fácil depositar a culpa em outra pessoa, até porque você tem que lidar com ela.

Ela passou a se degradar e se machucar, postando isso em suas redes sociais.

Logo, chamou a atenção de órgãos como o conselho tutelar. Mal sabia ela que tudo estava para piorar.

Sua mãe já não sabia o que fazer, foi tirada a guarda dela com reforço dos vizinhos que alegavam que ela sempre foi uma péssima mãe, porém o que ela não pensou foi:

— Espera! Pra onde estão levando ele? SOLTEM ELE! — gritou desesperada enquanto assistia seu irmãozinho sendo levado pelos guardas.

Ele era apenas uma criança de 3 anos de idade que já estava imersa naquele ambiente desestruturado.

Eles cresceram formas separadas, foram jogados de um canto para o outro como bonecos, o menino já era mais fácil de adotar por ser mais novo. Sempre apareciam pessoas para adotá-lo. Mas ela era sempre colocada de escanteio até mesmo em salas fechadas, às vezes até sem luz ou banheiro.

Infelizmente isso só a fez ficar ainda mais brava com tudo aquilo, como se fosse alguma maldição…

—nEu odeio a todos. Se tiver mesmo um deus lá em cima eu mesmo poderia acabar com ele, isso é culpa dele! Da estúpida da minha mãe! DE TODOS VOCÊS! — berrou socando as paredes até os punhos sangrarem.

Tudo isso é bem lamentável, sendo que tudo começou com uma pessoa que só queria atenção. Foi se tornando algo tão machucado, ao ponto de não ver um lugar em canto algum. Ela cresceu ali, sendo adotada por muitos, as vezes não passava nem uma semana, até o ponto dela alcançar a maior idade e nisso ter que se virar. Ela nunca ficava em um emprego fixo, ela não tinha uma boa comunicação depois de tudo aquilo, ela passou a odiar a todos. Foi assaltada, esfaqueada enquanto tentava sacar seu dinheiro. Ali com seus 23 anos ela já nem queria mais nada, deixou aquilo ser doloroso e definitivo em sua vida.

Que descanse em paz.