Estágios do Desespero
1 Medo
15 de Outubro de 1887, 15:25
Em meio as flores do imenso jardim, a garotinha de cabelos aloirados ria alegremente. Dançava e rodopiava, com flores vermelhas nas mãos e azuladas nos cabelos levemente cacheados.
Estava tão imersa em seu próprio conto de fadas que nem ao menos notara a expressão extremamente irritada da ruiva que chegara ali a pouco tempo, na verdade ela não notara nem a chegada da ruiva, nem na albina ao lado dela.
-ANNA MCCLAIRE.
Experimentaram o desespero irreal, o de quando sabiam que estavam prestes a ser repreendidos.
-Sim, Tia Amy?! -Perguntou, tratando em retirar o excesso de terra e folhas na saia azulada do vestido, não que tivesse adiantado alguma coisa, mas Anna via necessidade em demonstrar o quanto estava preocupada com a aparência, claro que apenas diante da tia.
-Para casa, sua mãe está doida atrás de vocês, esqueceram que precisavam se arrumar para festa?
Ao chegarem a Mansão McClaire, foram recepcionadas por uma muitíssima agitada, Sarah McClaire, a mãe de ambas as garotinhas, que repreendeu ambas por terem fugido, Anna para os jardins e Arya para a biblioteca.
Uma hora depois, a festa havia se iniciado, e todos os convidados apenas aguardavam as homenageadas naquela noite, Arya e Anna McClaire, em um canto do salão os pais das garotas conversavam, com uma mulher de vestes nobres e sorriso falso.
-Então está gravida novamente, não é Sarah?
-Sim, tivemos um intervalo curto entre Oliver e as garotas, dessa vez desejamos esperar mais tempo.
-Oliver já tem dezesseis anos certo?
-Sim! E hoje Arya e Anna completaram onze.
A mulher, Catherine Moore estava prestes a comentar algo, quando os murmúrios se iniciaram e todos os olhares focaram-se na grande escada. Oliver McClaire trajava um elegante terno negro, os cabelos negros estavam levemente bagunçados, e os olhos azuis escuros, quase negros na verdade, varriam a multidão, ele tinha o braço esquerdo junto ao da gêmea de cabelos brancos que trajava um vestido vermelho, e o direito ao da gêmea loira que usava um vestido branco.
Catherine Moore foi a primeira a parar, reparar num pequeno e perturbador detalhe perto da multidão e gritar.
Sentiram o desespero, de não saber o que estava acontecendo.
E vários outros gritos vieram.
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03 de Janeiro de 1888, 09:33
Naquela tarde o vento era muito forte, e a ruiva ria do efeito que este tinha em seu cabelo, Karen Andrews se tornara Karen McClaire, por conta de seu casamento com Oliver McClaire, há poucos meses e se via levando uma vida perfeita, com o adorado marido na mansão, o detalhe que eram realmente muito novos para tal não era importante
Na tarde anterior Oliver, havia precisado partir para uma viagem de negócios, e deixara Karen em casa. A mulher suspirou profundamente esperando ansiosamente a volta do marido. E riu, ao lembrar-se que quando mais nova prometeu a si mesma que nunca se apaixonaria ou tornar-se-ia dependente de um homem, mas isso foi antes de conhecê-lo.
Foi retirada de seus pensamentos por algo, na porta da mansão haviam quatro vultos. Correu até lá apressada, mas deteve-se ao não reconhecer nenhum dos rostos. Os primeiros que avistou foram um homem e uma mulher, o homem alto tinha cabelos curtos negros, e os olhos mel, tinha a pele extremamente alva, a mulher era pouco mais baixa que ele, compartilhavam a maioria dos traços, porém os olhos da mulher eram negros tal como suas roupas, e as do homem.
Mas o que mais chamou atenção da mulher foram as duas garotas na frente dos adultos, ambas tinham o mesmo tamanho, a em frente a mulher tinha longos cabelos loiros opacos, os olhos eram azuis escuros, a pele alva tinha algumas marcas avermelhadas. E a garota na frente do homem tinha os cabelos levemente cacheados ainda mais claros que os da outra, os olhos eram azuis também, mas ainda mais escuros que os da menina ao seu lado, arranhões e as mesmas marcas se evidenciavam em sua pele.
Pensando que as crianças poderiam estar doentes, Karen voltou a apressar o passo em direção aos portões.
-Precisam de ajuda?
-Quem é você? -A albina indagou, sua voz era fria, e seus olhos estavam céticos.
-Sou a atual dona da casa. E você seria? -Perguntou, um tanto irritada com a criança.
-Com licença... -O homem de trajes negros aproximou mais a criança de si antes de falar novamente. -Essas seriam: Arya e Anna McClarie.
Sentiram o desespero alheio, em ver algo impossível acontecer.
E antes que a ruiva pudesse falar algo novamente, uma carruagem apareceu e de lá, Oliver McClarie saiu.
18 de Outubro de 1887, 10:34
O cheiro de mofo impregnava o ar, e abraçando a si mesma num canto uma garotinha chorava audivelmente.
Profundas olheiras marcavam seu rosto, seus olhos vermelhos por conta do choro se encontravam marejados, a garota sabia que estava num estado deplorável, mas era apenas uma criança.
O medo atormentava-a profundamente, uma companhia sempre presente, com seus gélidos sussurros que apenas causavam leve inconsistências na sanidade dela.
Se perguntava há quanto tempo já estava ali, perdera a noção do tempo, desde que adentrara aquele lugar, não vira nada mais do que aquelas mesmas escuras e mofadas paredes, e eles, seus agressores tão temidos e odiados.
Sentiram o desespero, de serem apenas brinquedos nas mãos alheias.
Num cômodo distante dali gritos e lagrimas misturavam-se na voz infantil da albina, Dois homens fortes, ambos ruivos de ar maltratado, seguravam os braços da garota, um imobilizava-a enquanto o outro apalpava-a, um terceiro homem ria grotescamente, e por vezes calara a criança com seus lábios frios e rudes.
E quando horas depois aquela tortura enfim encerrou-se a garota se viu encolhida em um canto qualquer, temendo algo que ela sabia que não tardaria a vir. Era sua sina, chorar, implorar, gritar, aguentara aquilo incontáveis vezes desde que chegara no local.
E mesmo assim não era sua segurança que ela priorizava em suas orações e sim a da frágil irmã.
Um barulho, um chamado irritado, outro barulho e aporta de sua “cela” fora fechada novamente. Virou-se ligeiramente temendo ter errado nos cálculos e fosse apenas uma armação. Mas, não, um prato de comida e um grande copo de um liquido não identificado a esperavam.
A comida nem de longe se comparava ao que a garota comera por toda sua vida, aquelas refeições em nada se assemelhavam aos pratos finos e deliciosos que o chefe cuidadosamente preparava, mas era o necessário para sobreviver e Arya se contentava com tal.
05 de Fevereiro de 1888, 04:56
A grande mansão estava completamente escura, e a provável única pessoa acordada naquela hora era Arya McClarie.
Descendo cuidadosamente os degraus da longa escada, a garota relembrava com pesar o tempo em que corria por aquelas escadas num longo conto de fadas, um conto de fadas que teve um terrível e brutal fim acrescentou, balançando a cabeça, tentando afastar tais pensamentos.
Já estava há pouco mais de um mês em casa novamente, e aos poucos adquirira juntamente com a irmã gêmea um ritmo próprio.
A casa se tornava incrivelmente fria e escura a noite, e aquilo realmente irritava-a, talvez tanto quanto os olhares de pena que ela podia enxergar naquela casa durante o dia.
Bebericou a agua que segurava, sentiu o liquido frio descer por sua garganta, e olhou com frieza por um instante a mulher muito mais alto que ela, que surgiu na cozinha naquele instante.
-Olá Karen!
-O que faz acordada a essa hora Arya? -A mulher perguntou os olhos esverdeados transmitiam preocupação.
-Não lhe devo explicações. -Falara, sem nem ao menos dirigir o olhar novamente a cunhada.
-Arya, por favor...
-O que eu fiz de errado? -Perguntou, olhando para cima, os olhos azuis eram indecifráveis, mas sua expressão a fazia parecer prestes a chorar. Karen julgava a criança muito instável emocionalmente, talvez uma das sequelas do que passara durante os meses anteriores, quando na verdade, pelo menos naquele momento, era apenas fingimento por parte da mais nova.
-Nada, pequena, nada. -Afagou os cabelos esbranquiçados da garota, repreendendo a si mesma mentalmente, deveria ser dura com elas, deveria ser a mãe que Arya e Anna já não tinham mais.
-Tchau, Karen. -E saiu.
Arya, sorriu para si mesma, por mais que Karen tentasse ocupar o lugar de uma mãe para ela e para Anna, ambas as garotinhas a tinham em suas mãos. Arya considerava-a apenas mais uma peça no terrível jogo que a vida se tornara, uma peça até então descartável.
Deitada na própria cama, encarava a janela, quando pequenas gotas começaram a cair, e ela fechou os olhos, e pode jurar escutar a mãe chamando ela, Anna e Oliver para dentro da casa, ordenando que os três saíssem da chuva, informando-os que ficariam resfriados se continuassem nela.
Sentiram o desespero, de confundirem a realidade com a ilusão.
Mas, quando ela os abriu novamente, apenas a escuridão a aguarda.
Nada mais que seu próprio desespero.
01 de Novembro de 1887, 03:21
O barulho de trovões era constante e Anna, que sempre temera tempestades, abraçava a si mesma procurando um jeito de se proteger de qualquer ameaça. E a loira sentia as lagrimas invadindo seus olhos novamente.
Não sabia que horas eram, não sabia que dia era, presumia que era noite, mas poderia facilmente estar errada.
Sentiu algo frio bater contra sua perna, e isso repetiu-se até que ela se encolhesse ainda mais, observando com a visão ainda turva pelas lagrimas, uma poça d’água, vinda de uma provável goteira.
Observou seu reflexo na agua, seus cabelos loiros antes tão vibrantes, dourados como o sol, estavam opacos e sujos. Seus olhos azuis tinham perdido o brilho animado que sempre os habitava, agora haviam apenas lagrimas. Sua pele parecia ter se tornado ainda mais pálida.
-When you're so lonely lying in bed
Night's closed its eyes but you can't rest your head
Everyone's sleeping all through the house
You wish you could dream but forgot to somehow -Cantarolava baixinho, lembrando da mãe cantando aquela música para ela e para irmã antes de irem dormir, e perguntou-se onde estava Arya.
Fechou os olhos, adormecendo em seguida.
-And if you are waiting, waiting for me
Know I'll be home soon darling I guarantee
I'll be home Sunday just in one week
Dry up your tears if you start to weep -Arya cantarolou, observando com cuidado tudo ao seu redor. Agarrou-se mais uma vez a esperança de que em breve acordaria, que tudo aquilo não passara de um pesadelo.
-Disse algo pirralha? -Mas, aquela voz fria, a fez perder suas esperanças. Tremeu involuntariamente sussurrando um rápido “Não”, e escondendo-se em meio ao pano velho e fino que haviam lhe disponibilizado.
-Sinto muito, mamãe eu não posso mais Sing this lullaby to yourself.
05 de Fevereiro de 1888, 04:11
-Arya, você está acordada?
-Sim. -Virou-se, encarando a irmã gêmea.
-Posso dormir aqui hoje?
-Sim.
Anna, foi até a cama, aconchegando-se juntamente com a gêmea na grande cama, os lençóis brancos cobriram ambos os corpos, e Anna não pode evitar abraçar-se a outra.
-Eu não consigo dormir. -Arya, sorriu reconhecendo tais palavras.
-And sing this lullaby to yourself
Sing this lullaby to yourself
Lullaby, I'm not nearby
Sing this lullaby to yourself
Don't you cry, no don't you cry
Sing this lullaby to yourself
Sentiram, por pouco tempo, o desespero e o medo esvair-se.
15 de Outubro de 1887, 21:16
O medo atormentava-a de maneira irracional.
Tudo começara bem, era seu aniversário de onze anos afinal! Até que o caos começou. Da primeira parte desse ela, Anna e Oliver haviam conseguido escapar, apenas para serem pegos por aqueles desconhecidos logo em seguida.
Foram separados, ela avistara quando Oliver fora carregado para uma carruagem junto com duas mulheres e um homem que se revelou o cocheiro. Agarrara o máximo possível Anna, e esta retribuíra, mas, não haviam conseguido se manter juntas.
O lugar onde estava era frio, úmido, pequeno e um cheiro que ela não sabia identificar era enjoativo.
Abraçou-se, tremendo de medo, de frio, e mal percebeu quando mesmo em condições tão precárias adormeceu.
“Um amplo salão com várias pessoas dançando estendia-se a sua frente, e estendendo-lhe a mão estavam seus pais, olhou para trás, estava escuro naquele canto, sua gêmea abraçava-se a Oliver e estes também lhe estendiam a mão.
Se viu tentada a seguir com os pais, mas correu abraçando-se aos irmãos, e nesse instante... uma chuva forte iniciou-se, apenas dentro do salão, e ela viu as gotas de agua se tornarem sangue.
Gritos.
O sangue espalhava-se e aos poucos aproximava-se deles três. E então ele alcançou-lhe e tudo ficou negro...”
Acordou assustada, lagrimas escapando dos olhos azulados.
Anna percebeu que realmente tudo ocorrera, não, não falava do confuso e assustado sonho que acabara de acordar, mais do que vivia naquele momento, de cada um dos acontecimentos que levou-a a estar naquele lugar, naquele momento.
Se perguntou, onde Arya e Oliver estava, se perguntou se seus pais ou qualquer outro haviam sobrevivido ao dia anterior.
Fechou os olhos por um instante, tentando mais uma vez imaginar que estava em casa em meio as cobertas quentes, talvez tivesse dormido com os pais ou com Arya naquela noite, ou até mesmo ela, Arya, Oliver o pai e a mãe poderiam ter feito um acampamento improvisado no grande salão e dormiriam os cinco juntos em meio a cobertores e almofadas.
Sorriu minimamente ao imaginar essa cena. Seu primeiro sorriso naquele lugar.
E aos poucos ela adormeceu novamente, ainda com memorias alegres em mente.
“Pessoas dançavam em volta de si, vestidos belos, tecidos elegantes, mas todos usavam máscaras, máscaras que carregava uma expressão triste.
Tocou o vestido de uma das damas, e quando esta se virou, era sua mãe, mas havia uma expressão de tristeza enorme em sua face.
-ELES ESTÃO VINDO -Alguém gritou ao longe, e ela sentiu o impacto de ser empurrada para trás.
Se via agora agarrada fortemente a Oliver e a gêmea, quando assistia todos ali se desfazendo em sangue. E aquele sangue aos poucos adquiria a forma de pessoas, pessoas sem face.
Jogou a máscara, que antes habitava a face da mãe em uma das pessoas.
E a pessoa parou, se desfazendo em sangue novamente.
Mas, as outras pessoas continuaram se aproximando, e tudo se tornou negro...”
Seu coração batia acelerado, seus olhos abriram-se e ela não pode evitar analisar tudo ao seu redor, fora um pesadelo, era o que ela deveria pensar, mas não, em sua mente ela apenas lamentava-se por descobrir que não fora só um pesadelo.
Sentiram o desespero, de perceberem estar no meio de um pesadelo eterno
15 de Novembro de 1887, 02:25
Lagrimas começaram a escorrer por seus olhos, ela suspirou.
Estava escuro.
“Mamãe, tem um monstro nas sombras!”
Estava frio.
“Mamãe, acho que vou congelar!”
Ela estava com medo?
“Mamãe, estou com medo!”
Mas, não havia mamãe ou papai para lhe proteger naquele momento.
“Vocês vão estar sempre comigo, certo?”
Certo?
“Sim”
O silencio, a pior resposta foi a única que ela obteve.
-MENTIROSOS.
“Nós nunca mentiríamos para vocês!”
-COMO PUDERAM?
“Nunca, vamos abandona-los.”
-Espero que estejam sofrendo. -Sussurrou dessa vez, com um brilho diferente nos olhos azuis, mexendo levemente nas mechas esbranquiçadas.
“Espero, nunca ver medo em seus olhos.”
-Espero ver medo em seus olhos.
Sentiram o desespero, de verem a realidade e a ilusão se misturarem
“Eu te amo”
-CALEM-SE.
15 de Fevereiro de 1888, 20:30
Os dedos das garotas entrelaçavam-se, o sangue que os manchava se misturavam.
-Deveríamos ter feito isso? -Falsa inocência recheava tal fala.
-Quem poderia nos impedir? -A outra deu um sorriso de escarnio, sorriso que foi retribuído.
-Os que já matamos! -Riram juntas. -Estaremos sempre juntas?
-Sempre.
-Tem certeza?
-Eu mentiria para você?
-A última pessoa que nos falou isso mentiu.
-Não me compare a eles, eu não lhe machucaria como eles nos machucaram.
E sorrindo novamente ambas as garotas, selaram seu contrato com o sangue alheio.
Sentiram o desespero misturar-se ao medo...
...E à loucura.
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