Estágios da Insanidade
1 Sussurros
I
Sussurros
Frente a frente, com vestidos idênticos Arya e Anna se encaravam.
Os olhos fixos uma nos da outra, realmente aquela cena era incomum e provavelmente qualquer um que visse indagaria o que estava ocorrendo.
Abraçaram-se.
Um tanto confuso, mas elas não precisavam de palavras, apenas precisavam estar perto uma da outra, apenas precisavam sentir por um momento antes de adotarem as mesmas posturas indiferentes, distantes que adotariam no dia seguinte.
E observando pela janela do quarto com sorrisos maliciosos e olhos brilhantes, Esther e Michael Muller, tinham seus pensamentos completamente focados naquelas garotinhas.
-Em breve receberemos nossa recompensa. –Sussurrou ele.
Na manhã seguinte quando acordaram abraçadas, ambas suspiraram sabendo o que se iniciaria naquele dia.
01 de Outubro.
Quase riram do quão irônico aquilo parecia já que provavelmente dois anos antes elas estariam contando os dias para que aqueles preparativos se iniciassem.
As coisas mudavam.
Crianças cresciam.
Algumas antes que outras, assim como fora com elas duas.
Arrumaram-se e seguiram para a extensa mesa do café da manhã. Oliver parecia quase tão mal-humorado quanto elas e mesmo assim mantinha um sorriso de canto na boca e Karen parecia ser pura animação.
Tudo se devia ao fato de que naquela manhã os preparativos para o aniversário de treze anos das gêmeas se iniciariam.
-Karen temos mesmo que fazer uma festa? –Perguntou Anna pela talvez milésima vez.
-Sim, no ano passado vocês não fizeram esqueceram, esse ano vocês têm que fazer.
-Mas...
-Sem, mas. Iremos até uma costureira hoje à tarde, deixarei vocês livres pela manhã.
-Certo, certo. –Suspiraram se retirando da mesa, Karen olhou para o caminho que elas tinham seguido um tanto triste e Oliver riu levemente.
-Querida tente entende-las...
-Eu sei, eu sei, mas eu queria que pelo menos elas parassem de associar essa data a coisas ruins.
-Tudo bem. –Ele beijou-lhe antes de sair.
As gêmeas se encaram por um instante antes de, um tanto incertas ordenarem que Michael e Esther procurasse mais pistas sobre o caso mais recente que fora parar em suas mãos.
Com o olhar perdido Anna pediu para que a irmã relesse o que já haviam conseguido.
“O assassino tem como vítimas crianças de dez a doze anos, todas têm em comum além da faixa etária: o fato de serem órfãos ou terem perdido um dos pais, de serem de classe social baixa.
O assassino aparentemente as atrai com algo como brinquedos ou comida, as prende. As crianças ficam por volta de duas ou três noites presas, antes dele enfim mata-las.
O assassinato em si acontece sempre do mesmo modo: ele faz com que elas pensem que está tudo bem, e quando elas menos esperam ele as mata as vezes com uma facada ou tiro, talvez a única cosa que varia...”
-Já fazem dois dias que o ultimo assassinato aconteceu, poderíamos... –Arya fora interrompida pela voz de Karen chamando ambas.
-Garotas, esta é Sophie Campbell.
-Olá...?!
Numa velocidade impressionante a mulher fora parar na frente delas e agora apertava as bochechas de ambas enquanto murmurava “Kawai” cada vez mais alto.
-K-Karen... S-soccorro –Suplicaram junta, tentando se afastar da mulher. Claro que aquilo se resumia a fingimento, já que poderiam simplesmente pedir para que Esther e Michael exterminassem a mulher.
-SOPHIE! –A mulher pareceu volta a sanidade soltando as duas, recebendo olhares raivosos de Esther e Michael, mesmo que ela não tenha o visto.
-Vamos ver! –A mulher com uma fita na mão, começou a, sem ao menos pedir, medir as garotas. Os olhos negros brilhavam de maneira indescritível ao tocar na pele alva delas.
-O que acham de vermelho e branco? –As garotas afastaram-se e Arya pareceu ficar tonta. Ela teria caído se Michael não tivesse sido mais rápido e a segurado.
-NÃO! –As garotas correram escada a cima, seguindo por lados contrários nas bifurcações.
-O que eu fiz de errado? –Perguntou a estilista em choque com a mudança repentina das garotas.
Karen olhou-a por um segundo, suspirou, e pegou algo semelhante a um quadro de dentro de uma gaveta. E mostrou para Sophie.
Duas garotas quase idênticas sorriam a de cabelos albinos usava um vestido vermelho e a outra um branco.
-Isso foi tirado primeiro de outubro, dois anos atrás, foi a primeira prova delas nestes vestidos. O vestido que elas usaram quando viram seus pais serem mortos.
-Oh. –Sophie pôs as mãos sobre a boca.
Sozinha num sótão empoeirado com vários lençóis encima de varias coisas, Arya se encolhia cada vez mais num canto qualquer e se repreendia por isso pelo simples fato que ela devia ser forte.
Devia ser forte por Anna, Oliver e Karen.
Devia ser forte por si mesma.
-Porque você simplesmente continua tentando? –Uma voz soou atraindo atenção da chorosa garota. –Você acabará ficando louca dessa maneira.
-Quem é você?
-Essa de vítima inocente não combina com você, não com a fria, não com a maligna Arya McClarie.
-Quem é você?
-Tudo bem apressada, sou Lilith.
-O que você é?
-Sou algo que vocês, humanos, considerariam uma fada demoníaca.
-E o que você está fazendo aqui?
-Pergunte para ele! –Apontou para um garoto quase do tamanho de Arya.
-O quão inconveniente você pode ser Lilith? Eu falei para não interferir.
-Quem é você? E o que você é?
-Sou Lucifer, sou seu nephilim.
Os três se encararam por um longo tempo antes de com um suspiro, os dois não humanos pegarem cada um uma mão da albina.
-Feche os olhos, não demorará. –O garoto de cabelos azulados sussurrou ternamente para ela, fazendo movimentos rotativos em sua mão. Em cima do símbolo do contrato.
A visão dela se tornou negra, mas em instantes voltou e agora ela se via num jardim amplo, onde por algum motivo havia ela mesma com cinco ou seis anos de idade.
-Essa foi a primeira vez que nos vimos. –Explicou Lucifer se pondo ao lado dela.
A pequena Arya chorava continuamente, com a cabeça entre os joelhos.
-O que houve pequena?
-Eu me perdi. –Falou olhando para cima vendo aquele desconhecido. –Quem é você?
-Sou Lucifer. –Ele sorriu-lhe gentilmente e estendeu a mão, ela aceitou, porém no segundo seguinte ao que ela se pôs de pé suas pernas tremeram e ela foi de encontro a chão novamente.
-Quando mais nova eu tinha certos problemas com a movimentos abaixo da cintura, por isso eu ficava mais em casa do que Anna.
Com um olhar semelhante ao de Sophie Campbel algum tempo antes, Lilith correu numa velocidade surpreendente para próximo deles.
-Porque você teve que crescer? –Indagava enquanto balançava o irmão de um lado para o outro. –Você era menos chato quando criança.
O azulado pegou-a em seu colo, no estilo princesa, ela um tanto temerosa agarrou-o pelo pescoço.
-Como você se chama, pequena?
-Arya.
-Belo nome, jovem lady. –Ele sorriu de canto. –Feche os olhos, não demorará. –A garotinha fechou os olhos e quando os abriu novamente estava no jardim da mansão próxima de onde os pais e Anna estavam.
-Tchau, milady.
-Tchau, Luc... –Ela se interrompeu ao receber um abraço de Anna, e perceber que ele já não estava mais lá.
-Com quem você estava falando?
-Com... –Ela viu algo semelhante a uma luz azul entre as arvores, e com um sorriso de canto respondeu. –Ninguém.
A garota focou seus olhos, no azulado que tinha um sorrisinho nos lábios.
-Quantas vezes você apareceu depois disso?
-Você nunca mais chamou. –A garota estava prestes a falar ela e Lucifer perceberam que com a cabeça baixa Lilith tentava sair de fininho da sala.
-Lilith.
-Certo eu sei que não deveria ter bagunçado seus compromissos, mas era importante.
-Mais importante que isso? –Com uma expressão fria no rosto e um sorriso maligno, Arya levantou a mão direita de modo que está ficasse do lado de seu rosto. A luva branca que usava estava jogada no chão. E a marca do contrato era bem visível.
Choque. Era o que o rosto dos dois seres de cabelos azulados demonstrava.
-N-não me diga que...
-Que firmei o contrato com um demônio. Sim eu fiz isso. –Falou como se não fosse nada já abaixando a mão.
-Quando? –Perguntou o nephlim, segurando a mão dela, com os olhos fixos na marca.
-Tenha as datas 15 de outubro e 29 de novembro, de dois anos atrás fixas.
-Como? –Dessa vez foi Lilith quem perguntou em tom baixo.
-Dia 15 de outubro no meu aniversário e da minha irmã foi talvez o dia que eu mais precisei de alguém, o dia em que nós duas conhecemos a palavra desespero. E dia 29 foi o dia que descobrimos juntas que tipo de coisas esse sentimento pode nos levar a fazer.
-Alguém comentou sobre o fato de ter havido um massacre, ele disse que nem ele nem nenhum dos nephlins que estava ali conseguiu salvar alguém.
-Então nem você, nem Raphael, nem Ariel estavam presentes neste dia.
-Realmente eu acho que agora, mais atenção será necessária.
-Oque? –Arya a mais confusa naquela sala perguntou.
-Ora, não é obvio? Eu e meu querido irmãos agora estaremos 24 horas por dia perto de você e seu demoniozinho.
-Feche os olhos, não demorará.
-Se você repetir isso mais uma vez perderei a compostura e pedirei para que Michael te cale. –Falou com um sorriso travesso Arya.
-Se tornou hostil em poucos segundos?
-Lilith, vá na frente. Ainda quero conversar algo com minha protegida.
-O que você quer?
Arya com onze anos estava mais uma vez sentada num canto do quarto, mesmo que as lagrimas escapassem dos seus olhos, ela não dava quaisquer outros sinais de fraqueza. Aquele era o início da sua fortaleza de gelo.
-Shh, pequena não chore.
Sim ela conhecia aqueles sussurros, que mesmo que fossem carinhosos, e de certa formam ela se sentisse protegida quando eles vinham, como se fosse abraçada por braços invisíveis, a sensação de quando ele partia ela devastadora.
-CALE-SE.
-Não desespere-se tudo ficará bem no final.
-APENAS VÁ EMBORA.
-Voltarei logo pequena. Fique bem. Nada lhe afetara enquanto eu viver. –E logo após esse sussurro ela sentiu uma sensação semelhante de quando seu pai lhe beijava a testa.
E quando ela sentiu o frio novamente, quando sabia que fora abandonada, novamente, ela gritou o mais alto que podia.
-ONDE VOCÊ ESTAVA QUANDO EU PRECISEI DE VOCÊ? ONDE TODOS ESTÃO QUANDO REALMENTE SÃO NECESSARIOS?
Um brilho semelhante ao insano brilhou nos olhos dela.
-Eu farei com que todos paguem.
-Como eu pude nunca ter desconfiado, mesmo nas vezes que te visitei, você não deixava transparecer, usava as luvas e eu nunca senti nenhuma aura demoníaca.
-Hunf. –A expressão de Arya estava em plena revolta, diante de ter que ficar assistindo tudo aquilo novamente. De fato bem diferente, de quando ela chegara.
Longe dali, no lado oeste da Mansão McClarie, Anna McClarie continuava tentando fazer com que as lagrimas que desciam de seus olhos parassem. Algo quebrara as barreiras das duas gêmeas naquele dia.
-Esther vamos sair um pouco. –Sussurrou cobrindo sua face com um capuz negro, não queria que ninguém a visse, nem mesmo Esther que por mais que, provavelmente, lhe consolaria, estaria morrendo de rir por dentro.
-Aonde vamos, milady? –Os olhos por um instante se tornaram vermelhos, enquanto ela observava as costas da garota.
-Leve-me até a floresta nos arredores do cemitério de lá pode ir para onde quiser, me encontre lá novamente as 17:30.
-Yes, my lady.
E em poucos segundos Anna se viu em frente ao Cemitério em que seus pais estavam enterrados. Passou direto por todos os túmulos chegando a parte mais escura onde uma arvore seca e com galhos entortados dava abertura a uma estrondosa floresta.
Adentrou mais a floresta, conseguindo desviar de todos os galhos e plantas rasteiras que pareciam obstáculos para ela. Em algum tempo considerável chegou a uma campina que várias arvores distribuídas em formato circular em volta dela, flores azuladas e avermelhadas se estendiam por toda campina, e Anna nem ao menos tentava não pisar nelas, era uma missão impossível.
-Vamos apreça, eu sei que você está aí. –Aumentou o tom de voz, mesmo não gritando.
Em cima da, talvez, árvore mais alta da campina, uma sombra ria.
-Não seja tão impaciente.
-Não seja tão covarde e venha até aqui agora!
-Então você não trouxe o demônio, interessante.
-Diferente de você eu cumpri minha parte. Agora desça logo.
-Com uma condição. –Ela pode vê-lo levantando um dedo e jurou avistar um sorrisinho sarcástico na face encoberta pelo negro.
-Fale logo! –Se controlou para não gritar, se perguntou por um instante como Arya era tão calma, naqueles momentos queria ser como a irmã.
A pessoa pulou. E Anna pensou seriamente em tirar aquele sorriso enorme da cara dele.
-Quanta pressa da sua parte Anna McClarie.
-Quanta prepotência da sua parte Soren.
O de cabelos castanhos sorriu maliciosamente para ela, com uma das mãos levantando o queixo da garota para que ela o encarasse.
-Você é tão baixinha.
-Preciso ressaltar que você tem mais de meio século de vida enquanto eu estou prestes a fazer treze anos.
Soren sorriu falsamente para a garota, dessa vez soltando o queixo dela, ajoelhando-se com os olhos focados nos dela.
-Jovem demais para o posto que carrega.
-Solte-me.
-Não. –Cantarolou, acariciando uma das bochechas dela.
-Soren, me solte.
-Acalme-se Anna.
-ESTHER FAÇA COM QUE ESSE SHINIGAMI MALDITO ME SOLTE. –A garota gritou, em segundos Esther surgiu ao seu lado. –É uma ordem.
-My lady. –O demônio se reverenciou, dirigindo seus olhos vermelhos para a face do shinigami..
-Milady perdoem-me por meu palavreado, mas quem diabos é ele?
-Ora, eu sou Sor...
-Um shinigami qualquer. Arya me pediu para falar com ele alguns dias atrás.
-Você e sua irmão me assustam. –Falou o shinigami, desviando-se de uma arvore que Esther arremessara.
Retornou ao cemitério sem preocupar-se com os dois seres. Andava aparentemente indiferente a tudo até, dois túmulos chamarem sua atenção.
“Andrew & Sarah McClarie
Que viveram em plenitude até seu último suspiro”
Sentiu as lagrimas começarem a cair de seus olhos, lembrando de cada dia ao lado deles. Pensando na vida plena que tiveram durante onze anos que passaram rápido demais, pensando na vida que poderia ter se nada daquilo tivesse acontecido.
Abraçou-se mais uma vez sentindo que poderia explodir a qualquer momento.
-Porque vocês nos deixaram? –Perguntou em meio ao choro, com os olhos fixos naquelas palavras que pareciam nem ao menos ter significado agora. –Porque? –Sua visão embaçada pelas lagrimas escurecia aos poucos, e em algum tempo ela estava inconsciente.
-Não devia se exaltar tanto, Anna. –Sussurrou alguém, em meio ao vazio do lugar.
Dormindo lado a lado com faces cansadas, as gêmeas McClarie estavam pela primeira vez alheias a tudo que acontecia na Mansão.
Os cabelos brancos e loiros embrenhavam-se e ambas tinham as mãos dadas, e mesmo que estas estivessem em plena inconsciência o símbolo do contrato brilhava de maneira inimaginável.
Elas haviam sobrevivido aquele 1 de Outubro.
Mas aquele era apenas o começo.
E elas sabiam disso
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