Estágios da Insanidade
4 Noite
IV
NOITE
Maragreth Miller ainda se via perdida, confusa e chocada diante de tudo que aqueles poucos segundos com os sobrinhos haviam lhe proporcionado.
Andrew e Sarah estavam mortos, a mulher que servia a Anna lhe disse que havia morrido dois anos antes no dia do aniversário das gêmeas. E aquilo ficava se repetindo em sua mente de maneira incessante.
Srtª. Miller, uma recomendação. Se preza seu bem não se meta com os demônios.
Olhos azulados podem ser a última coisa que verá.
Era isso que dizia um papel em cima de sua cama, ela não conhecia a letra, mas pensava que deveria ser de um dos sobrinhos ou da esposa do sobrinho. Em momento nenhum ela desconfiou que os empregados da Mansão poderiam ter tantos segredos quanto seus metres. Ela abriu a sacada apoiando-se na grade que a impedia de cair e aspirou o ar gélido da noite, conseguindo avistar uma garota no meio do jardim.
— Ei! Você! Qual seu nome? — Duas orbes de um tom purpura se focaram nela, a garota tinha um sorriso incompreensível nos lábios avermelhados.
— Eu sou... — A garota estava prestes a dizer algo quando, um grito soou.
— Lilith, vamos entrar. Está frio aqui fora. — Um jovem pouco mais alto que a garota falou, os olhos eram extremamente azuis, e ele puxara o braço dela com tanto carinho, que Margareth se viu disposta a fantasiar o romance de ambos.
— Lucifer, não seja tão apressando. — Ela falou com doçura, dando um beijo na bochecha do garoto.
— Há quanto tempo vocês trabalham aqui? — Margareth perguntou, embora quando ela olhou novamente para o local nenhum dos dois estava lá.
— Começo a achar que quem está ficando maluca sou eu. — Falou, olhando ao redor, aos poucos percebendo que aquele cômodo era o mesmo que ficava toda vez que visitava a família, embora os tons róseos e avermelhados das paredes e do teto houvessem sido trocados por tons neutro como cinza, branco e negro, as únicas coisas que ela realmente percebera em comum fora a cômoda ao lado da cama, que fora um presente dela para os lideres anteriores da família McClarie,e o retrato abaixado da última vez que os visitara, ela e os três sobrinhos com sorrisos na face. O vidro que protegia a foto estava trincado e ela não precisou se pergunta muito sobre o porquê de eles não terem o arrumado.
Sarah estava morta, a garota com a qual crescera estava morta. Pensar nisso era difícil para ela, mas a única coisa que fazia com que as lagrimas descessem por seus olhos naquele momento era pensar que Sarah não lhe citara em seu testamento, que ela não tivera direito a nada de toda a fortuna que ela havia acumulado. Olhou novamente para a foto, onde ela sorria junto com os três, ela perguntou-se por que nunca pensara na possibilidade de Andrew e Sarah morrerem cedo, enquanto ela estivesse longe, e tudo caísse nas mãos dos três, porque nunca pensou que a distância de um exemplo poderia transformar aquelas três crianças doces e tolas nas pessoas frias e indiferentes que ela vira poucos minutos.
Não resistiu a tentação e abriu a primeira gaveta de cima para baixo, encontrou um objeto plano de textura macia e formato retangular, o tirou de lá deparando-se com um caderno de capa negra com letras de um vermelho vivo. A grande maioria das folhas do caderno estava rasgada, as que restavam eram incompreensíveis e estavam manchadas, mas na última havia algo bem visível, algo que mais aprecia um conto do que qualquer coisa.
“Durante uma tempestade infernal uma estrangeira nessa casa chegou. Casa, comida e trabalho ganhou, sonhava com a vinda do gêmeo para este país e por isso esforçava-se muito. Admirou os patrões, afeiçoou-se aos outros empregados, mas havia algo de especial nas três crianças da casa.
Oliver era seu pequeno principezinho, adorava narrar para ele historias maravilhosas tanto de onde vinha quanto dos mais interessantes livros. Conforme o garoto cresceu sua proximidade continuava firme, era como dois irmãos que vieram se encontrar depois de muito tempo.
Arya e Anna eram seu tesouro especial, tratava-as como princesas, mimava-as de todo modo possível, brincava com elas de todo modo, dava tudo que ambas pediam. Se um prato era pedido, era feito no mesmo dia, e como crescimento das gêmeas tal carinho começou apenas a crescer.
Porém ela não conseguia enxergar, que por trás daquelas faces inocentes e fúteis alegrias havia o vazio, havia um espaço oco que aos poucos era consumido pela escuridão. As crianças já não eram mais crianças por dentro. Mas, vamos ignorar tão detalhe assim como Müller ignorou, ela finalmente conseguira depois de anos de serviço seu querido irmão retornaria para seus braços, estariam reunidos novamente.
Ele chegou no dia quinze de outubro, no dia que o aniversário das gêmeas ocorreu. Tudo começara bem, mas quando as crianças estavam no decimo quinto degrau da grande escadaria os gritos se iniciaram.
Lilith Müller viu tudo com horror, viu as crianças sumirem na multidão avermelhada que se formava ao seu redor viu todos se tornarem carcaças sem vida, viu seu próprio irmão morrer em seu abraço. Fugiu para o quarto, por muito chorou desesperada, sabendo que aqueles que fizeram tudo aquilo também a pegariam, e quando pegaram ela não teve nenhuma reação senão choque e descrença. Morrera negando aquela verdade, morrera para um destino no qual viveria invisível entre os vivos com o seu irmão, até que a verdade fosse enfim revelada. Lucifer e Lilith estavam juntos, o preço já não mais os importava.
Centenas de mortes e três desaparecidos, era um cenário horrível de se ver. A casa permaneceu abandonada e vista como um cenário de livros de horror por aproximadamente cinco semanas, quando Oliver McClarie retornou, olhos frios e ações nada comparáveis as de um adolescente de dezesseis anos. Casou-se com Karen Andrews em poucas semanas compartilhando tudo com ela. Mais um par de meses passou-se até que as gêmeas também retornassem. A família reergue-se das cinzas, o passado fora trancado a sete chaves.
O Legado McClarie permaneceria a qualquer custo, mesmo que laços se rompessem e crueldade fosse necessária. Sua união seria sua força, sua honestidade enganaria a todos. Um único segredo é mantido, um único segredo permanece.
Um único segredo será sua ruína. ”
Leu o texto horrorizada. Levantou-se da cama tonta, vendo uma figura cinzenta entre as páginas do livro, na parte de trás lia-se Lilith e Lucifer Müller e ao Margareth não pode ficar mais horrorizada do que quando percebeu que os dois jovens que vira a pouco estavam naquela foto, e que eles poderiam ser daquele aterrorizante conto. Saiu do quarto, andando aleatoriamente entre os quase idênticos corredores da grande Mansão.
Parou cansada, escutou risos e olho para cima. Haviam dois ares idênticos de olhos arroxeados, cabelos azulados que se não fossem pelo comprimento também seriam do mesmo jeito, haviam sorrisos frios, e corpos no mais avançado estado de decomposição. Roupas brancas esvoaçantes manchadas de sangue, e correntes sem seus braços e pernas nas quais cenas de seus assassinatos passavam continuamente.
Estavam cada vez mais próximos os braços estavam estendidos, e a mulher não teve nenhuma reação se nãos sair correndo dali gritando.
— Eles nos pegarão...
— Te pegarão também...
Falaram completando a frase um do outro, se fitaram e voltaram a flutuar pelos corredores da casa espalhando cinzas e diminuindo conforme andavam.
Maragreth parou na porta de um quarto o coração tão acelerado quanto possível.
Olhos dourados reluziram atrás dela.
— Ora, o que temos aqui? Uma convidada desrespeitando o toque de recolher? — A voz suave de Michael fez com a que a mulher pulasse de susto.
Olhos negros também se fixaram na a mulher que agora olhava para o homem.
— Ou talvez uma convidada que esteja curiosa demais sobre o passado? — A mesma reação veio de Margareth quando a voz de Esther soou.
Esther segurou um braço dela, Michael segurou o outro e antes que pudesse perceber Margareth se via no escritório dos McClarie, Oliver estava sentada na cadeira que por muito ela vira Andrew usar, Karen estava sentada ao seu lado e cada gêmeas estava do lado de um deles. Olhos que eram pura frieza se focaram nela.
— Certa vez papai e mãe disseram que você tinha um coração congelado... — Arya iniciou fechando o livro que segurava num baque.
— Complementaram dizendo que manteriam você longe de nós, ressaltando o quanto a influência familiar conta na criação... — Anna falou esmagando uma flor arroxeada com a mão antes de joga-la pela janela posicionada ao seu lado.
— Mas, esqueceram que por mais que tentassem negar seu sangue também corre por nossas veias. Que o sangue cruel que inundava todos os McClarie anteriores também nos compõe... — Oliver falou o anel que herdara do pai reluziu no mais vivido rubi.
— Que cada história narrada sobre essa família está nessa biblioteca, e que crianças não pensam muito antes de fazer algo que julgam que vão achar prazeroso. Para meu marido e minhas cunhadas a ideia de trair a própria família e matar pessoas surgiu naturalmente... — Karen falou, o anel que ela sabia ter pertencido a Sarah brilhava em seu dedo.
— Dinheiro para contratar os melhores assassinos profissionais não faltou. Contatos também foi algo com o que não precisaram se preocupar. O que apenas deixou mais fácil para eles imaginarem tudo como um jogo infantil. — Esther falou, apertando com ainda mais força o braço da mulher.
— Nós logo chegamos a esse lugar e fizemos como nos foi pago. Por um tempos pesquisamos nos escondendo nas sombras, ensinamos alguns truques para nossos contratantes e naquele dia tudo correu perfeitamente, o sumiço forjado os ajudaria a ganhar fama e faria com que ninguém desconfiasse. — Michael falou torcendo o braço da mulher.
— No final tudo foi fácil demais. Faltara emoção naquele jogo. — Os três irmãos pronunciaram juntos.
— Nós fomos mantidos aqui... — Estehr e Michael falaram juntos.
— E eu fui procurada por atender todos os requisitos necessários, principalmente ter experiência em atuar e em matar. — Karen falou.
— E agora que sabe tanta coisa... — As quatro mulheres e Michael falaram juntos.
— Matem-na. — Oliver ordenou, com um sorriso frio, enquanto saia da sala acompanhado da esposa e das irmãs. Assim que os mesmos chegaram no quarto dele e de Karen os gritos iniciaram-se.
— Eu só me pergunto de onde todo esse teatro saiu. — Karen falou rindo divertida.
— Nós queríamos brincar com alguém e fazer ela pensar que estava louca pareceu interessante. — Falaram as gêmeas, dando um beijo em cada bochecha dor irmão e abraçando Karen antes de seguirem para seus próprios quartos.
— E Soren precisava de alguma alma para se manter aqui. — Anna falou.
— Exatamente. — Arya concordou entrando em seu quarto. — Boa noite.
— Para você também.
Quando acordaram na manhã seguinte a primeira notícia que receberam foi que Oliver e Karen teriam que fazer uma viagem, por isso ambas ficariam sozinhas por três dias, mas ambos prometeram que voltariam para o aniversario delas.
Quando o casal saiu, os olhos azuis se encontraram por um minuto antes de ambas subirem correndo as escadas até a biblioteca, o diário de Andrew fora pegado novamente e elas retomaram a leitura.
“Promete-las em casamento fora mais difícil do que eu imaginara.
Saber que um dia os três se distanciaram de mim, olhando as três crianças a minha frente torna tudo mais difícil. Mas situações como essa exigem as piores das medidas.
O segredo foi descoberto, eu tive que dar o que ele queria, e logo parecia inviável eu apenas dois tivesse casamentos arranjados.
Espero que mesmo com isso eles continuem no caminho certo, que os sentimentos negativos não se acumulem ao ponto de tornarem-se desespero.
Andrew Thomas McClarie.”
O diário acabou caindo da mão de ambas quando Esther e Michael adentraram o ambiente, deixaram uma carta sobre a mesa e retirara-se do ambiente sem qualquer palavra.
“Caras Senhoritas McClarie,
Soube que o aniversário de vocês se aproxima, e como temo que eu e minha família estejamos ausentes na data convido-as para passarem os próximos dois dias em minha casa. Podem vir acompanhadas de seus mordomos particulares, caso desejem.
D. Ryans”
Os olhares se encontraram as dúvidas começaram a surgir e as suspeitas aos poucos aumentavam em seu íntimo.
Pediram para os demônios arrumarem suas malas e a deles próprios, quando já estavam na carruagem, Arya olhou com calma para a irmã.
— Lembra do nosso último dia naquele lugar?
— São memorias que por mais que sonhe em esquecer sempre estarão por perto.
— Pois bem, eu conheci uma garota lá. Se chamava Helena Ryans, e você se surpreenderia se visse a quão parecida com o Theodor ela era.
— Você acha que...
— Teremos que descobrir quando chegarmos lá.
Um longo tempo de silencio se fez, as gêmeas fitavam as janelas, de repente o ambiente dentro da carruagem lhes parecia muito claustrofóbico.
Pensamentos demais habitavam suas mentes. Eram apenas crianças que não deveria ter aquele tipo de coisa em mente.
Anna não deveria imaginar milhões de formas de fazer um homem adulto falar.
Arya não deveria imaginar milhões de formas de matar seu próprio noivo.
Porque havia algo nelas que ainda gritava que tudo aquilo era o oposto do que deveria estar fazendo, mas elas faziam questão de calar essa voz, e esconde-la do mundo. Qualquer infantilidade que ainda restasse nelas era além de indesejada algo que elas consideravam tão errado quanto possível, embora elas não pensariam assim se aquele quinze de outubro de dois anos antes nunca tivesse acontecido...
Logo que a carruagem parou e ambas desceram com ajuda de Michael e Esther ordens foram dadas em voz baixa, para que apenas os ouvidos apuados dos dois seres fossem capazes de identificar o que diziam.
Deram as mãos fitando-se nos olhos, para logo em seguida olhar para o céu ensolarado acima delas, sorrisos idênticos tomaram suas faces.
— Quer realmente fazer isso?
— Se essa é nossa chance de vingança... eu não poderia estar mais certa.
— Vamos. — Falaram juntas, os demônios sorriram com os olhos avermelhados brilhando tal como os símbolos idênticos e ao mesmo tempo opostos na mão de cada garota brilhavam imperceptivelmente por baixo das luvas.
Ao adentrarem a casa os negros corredores vazios foram tudo que encontraram por um bom tempo, até que enquanto vagueavam em busca de alguma ajuda depararam-se com uma porta aberta, adentraram o ambiente vendo um homem de face seria, um homem que sabiam já terem visto muitas vezes...
— Eu estava esperando-as, senhoritas McClarie. Sabia que não me desapontariam atrasando-se. — A voz de Derek Ryans era fria e quando seus olhos se focaram em ambas pareciam ser apenas duas fendas negras, Arya imediatamente lembrou do “ataque” que sofrera por parte de Theodor dias antes. — Querem ouvir uma história?
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