Essências Divinas
5 Capitulo 05 - Rivais Destinados
Notas iniciais
Capitulo 05 – rivais destinados.
— — Jin — -
— Devo dizer, estou impressionado. – O homem, ainda envolto em sua esfera dourada protetora, começa a falar. – Eu tinha informações de que a carta Dragão era rápida, mas pensar que ela me alcançaria em uma perseguição aérea tão facilmente. Estou sem palavras.
— Você está falando muito para alguém que está sem palavras, não acha?
— De fato, defeito meu, sempre converso muito antes de surrar alguém. – A esfera dourada avança em velocidade para frente, tentando me acertar com o impacto de uma colisão. Reajo a tempo e seguro-o com as garras de minhas mãos, sinto um leve incômodo em minhas palmas. Devo presumir que elas estariam machucadas se não fosse o revestimento de escamas.
— Oscilação de Energia vindo. — Draco informa, mas devo admitir que foi desnecessário, meus sentidos de batalha não estão tão ruins quanto achava e consigo mover minha cabeça para a direita, desviando-me do raio de energia contra mim lançado. Tento fixar minhas garras contra seu corpo, mas a esfera é mais resistente do que eu pensava e repele minhas mãos, mas antes que ele pudesse usar isso a seu favor, bato as asas, me colocando acima dele. Junto as mãos sobre minha cabeça e golpeio com força a esfera, o arremessando dentro do oceano com violência.
— He, o que achou dessa? – Murmuro para Draco e ele instantaneamente me responde em seu tom sério e compenetrado de sempre.
— Creio que essa informação possa ser desconhecida para ti, mas quando a carta Cosmos adentra o que ele chamou de modo Meteoro, além da esfera protetora resistente e da capacidade de anular a gravidade sobre si, o usuário também passa a dispensar a necessidade de qualquer tipo de atmosfera.
— Basicamente, ele não precisa respirar debaixo da água, e, por não precisar de suas capacidades pulmonares, e se torna uma vantagem, então eu deveria simplesmente...
— Quebrar aquela esfera o mais rápido possível, mude para o modo de ataque. – Os dragões são seres realmente antigos e são citados em centenas de histórias das mais diversas mitologias e, nessas histórias, eles se apresentam de diversas formas diferentes, então uma delas teria que estar certa. Mas na verdade, todas estavam. Todas as formas que os dragões assumiam nas histórias contadas através dos séculos são, na verdade, variações da carta Dragão para melhor combater em diversas situações diferentes. Necessitei dessa forma mais delgada e sem cauda pois meu oponente estava em fuga e necessitava persegui-lo rapidamente, mas agora, devo mudar para algo mais apropriado em combate.
De imediato, minha transformação se inicia. Uma forte e robusta cauda começa a crescer no final de minha espinha, meu corpo aumenta exponencialmente de tamanho, minhas garras e dentes ficam ainda maiores e mais afiadas, as asas diminuem seu tamanho e aumentam sua grossura, as camadas de escamas sobre minha pele aumentam em quantidade, sinto meus pulmões esquentarem à medida que minha produção de fogo aumenta e grande e poderosos chifres nascem no topo de minha cabeça. Acho que essa é a parte mais difícil da carta Dragão. Alternar entre as centenas de dragões existentes e conseguir ser eficiente com cada um deles. Embora eu consiga sucesso com muitas formas, não domino todas e certamente essa versão robusta e humanoide é a que mais se adequa a um combate direto, muito embora não seja, necessariamente, a mais poderosa.
— Ele está vindo. — Com o anúncio de Draco, sinto meus nervos se atiçarem para a batalha, e eles respondem corretamente quando um gêiser irrompe do oceano em minha direção. Deslizo pelo ar, saindo da trajetória do mesmo enquanto a esfera dourada ganha velocidade pelos céus. Ergo minha cabeça, lançando uma poderosa labareda em seu encontro, por não ter aberto demais minha mandíbula, o golpe sai bem mais concentrado do que previ, mas ao mesmo tempo, cobre uma área menor, facilitando para que meu oponente desviasse. Ele movia-se em alta velocidade por sobre a água, disparando rajadas douradas contra minha couraça. A energia atingia minhas escamas com a mesma intensidade de agulhas se chocando contra concreto. Ele me rodeava em alta velocidade, insistindo nessa tática. Tsc, que incômodo.
Um simples bater de asas é o suficiente para uma onda com dezenas de metros de altura se formar à minha frente, mas sua velocidade é o suficiente para que desviasse da mesma, exatamente como eu esperava. Previ sua movimentação e movi-me com antecedência, interceptando-o assim que ele se viu livre do tsunami que se formava.
Aumentando ainda mais a velocidade, a esfera se move para minha retaguarda, mas tudo ainda conforme o planejado, uso minha cauda para envolvê-lo em um poderoso aperto, embora a força da cauda não tenha sido suficiente para destruir a esfera, é suficiente para arremessa-lo vários metros acima, e é o que faço, após três rotações com a cauda, o cometa ascende metros acima do mar, mas o homem dentro dele não parecia pronto para desistir.
— Choque Planetário! – Clama de dentro de sua esfera de proteção e, de lá, sai uma esfera de energia do tamanho de um carro. Ela pode ser opaca, mas deve conter tanto ou até mais poder destrutivo do que tudo que ele usou até agora, então encho o peito, disparando minha mais forte chama até aqui. Nossos golpes novamente se chocam e explodem, gerando um estrondo ensurdecedor e uma nuvem de fumaça. Mas essa luta em nenhum momento saiu de meu controle. Embora eu tenho lançado meu golpe mais forte até aqui, só coloquei força suficiente para nossos golpes se igualarem e eu poder usar isso como distração.
Num piscar de olhos atravesso a cortina de fumaça em um único impulso com as asas e, após isso, desfiro um poderoso soco contra a esfera. Sinto-a estremecer contra minhas camas e vejo-a começar a se desfazer à medida que é arremessada para trás a dezenas de quilômetros por hora. Com o poderoso golpe, a esfera se desfaz e o corpo que dentro dela estava quica sobre as águas oceânicas como uma pedrinha sendo arremessada sobre um lago. O corpo bate quatro vezes contra a água antes de afundar na mesma.
— Devo lembra-lo que, quando você ativa uma das cartas, o corpo humano começa a emular o corpo de uma divindade, desta forma, não só são concedidos poderes, mas suas capacidades físicas também são em muito beneficiadas. – Relembra Draco, logo em seguida continuando. – Eu diria que, com o poder da carta Cosmos, esse homem poderia aguentar um tiro de um tanque de guerra à queima roupa e, ainda assim, estaria pronto para uma luta. Não baixe sua guarda. — Adverte o deus-dragão.
Aproximo-me cuidadosamente do local de impacto e vejo boiando sobre a superfície.
— Como esperei, eu não poderia vencer você se eu continuasse para sempre na defensiva. – O homem se pronuncia antes de, finalmente, conjurar seu próximo ataque. – Corpo Celeste! – Após fazê-lo, seu corpo novamente é envolto pela energia dourada do Cosmos, mas diferente de antes, a energia não se molda ao estado de uma esfera protetora, mas sim como uma espécie de aura ao redor de seu usuário. Após conjurar, ele começa a levitar novamente sobre as águas. Finalmente sou capaz de ver sua real aparência. Tratava-se de um homem alto, provavelmente em torno de 1,90m ou 2 metros de altura, seu corpo parecia forte e robusto, tinha cabelos loiros longos presos em um pequeno rabo de cavalo, suas orelhas possuíam dois ou três brincos, suas feições eram duras, possuía tatuagens tribais pela lateral esquerda de seu rosto, tinha um colar com a Cruz de Malta, usava uma camisa vermelha que deixava aparecer mais tatuagens tribais em seu peito, um casaco escuro e mãos enluvadas. Usava calças escuras e botas negras. – Então, podemos continuar? – Exibia em seu rosto um sorriso perverso.
O homem dá um impulso e, em um instante, está a minha frente. Ele ficou ainda mais rápido após se livrar de sua defesa. Que Sincronização Divina assustadora ele tem. Ergo minha defesa bem a tempo de parar sua joelhada, a primeira camada de escamas de meus braços é feita em pedaços rapidamente. Devo presumir que ele trocou sua defesa quase impenetrável por velocidade e poder de ataque assustadores. Perfeito. Não seria um combate de verdade se não fosse assim.
Com outro movimento rápido, ele logo está em minhas costas, giro meu corpo, tentando acertá-lo com minhas garras, mas vejo-o se esquivar enquanto deita-se no ar, logo em seguida acertando um poderoso soco na parte inferior de minha mandíbula. Minha cabeça é arremessada para trás enquanto ele voa para baixo e agarra meu pé, arremessando-me com força para baixo. Grande erro. Ele devia ter continuado usando sua velocidade para tirar vantagem em um combate corpo a corpo. Me arremessando para longe, ele só conseguiu me dar uma visão melhor de meu alvo.
Abro minha boca e uma chama colossal é cuspida para fora, fazendo os céus arderem e ficarem rubros. Sem a esfera protegendo-o, qualquer golpe de um King pode ser fatal a ele. Vendo isso, ele dispara rapidamente em direção aos céus, porém, ainda assim acaba sendo atingido, seu braço acaba por ficar bastante debilitado. Abro minhas asas e bato-as algumas vezes até alcança-lo no céu, encaramos um ao outro por algum tempo.
— Como pensei, os Reis realmente são oponentes formidáveis, não são algo que qualquer um pode enfrentar. – Afirma ele, tinha um sorriso satisfeito em seus lábios. Será que ver que consegue ter uma disputa relativamente igualada com um King o faz ter orgulho de si mesmo?
— Devo admitir, a tempos não tenho um combate tão interessante. – Escamas esfareladas ainda caíam de meus braços e mandíbula, os ataques e a velocidade dele não podem ser subestimados, após uma breve análise, noto queimaduras em seu braço e alguns ferimentos provenientes do momento em que seu corpo se chocou com força contra a água.
— É realmente uma pena que um Rei forte como você queira proteger a todo custo esse mundo, senhor Jin. – Ele abre os braços e exibe uma feição decepcionada. – Imagine o quão fácil poderia ser para nós dois se nos aliássemos e destruíssemos tudo.
— Não estou muito interessado, obrigado pela oferta. – Sinto uma inquietação percorrer meu corpo ao ouvir suas palavras. – Agora me diga, o que um homem com tamanha Sincronização Divina poderia querer ao destruir o mundo que o deus que lhe dá poderes se esforçou tanto para criar? E, afinal de contas, quem é você?
— Bem... Meu nome é Joseph. – Pronuncia-se o loiro, suas feições voltam a tornar-se duras. – O resto das coisas, você saberá em seu devido tempo. – Ele novamente volta a avançar velozmente contra mim, mas dessa vez estou preparado e retribuo ao gesto, também avançando.
Quando estamos prestes a nos chocar, ele ascende sua trajetória. Assim como previ. Minha robusta cauda já esperava para intercepta-lo nesse movimento. Ele, dotado de velocidade absurda, desvia por pouco do golpe, tomando uma rota lateral, mas assim como antes, ele dança conforme minha música. Experiência em batalha não é algo a ser subestimado. Giro meu corpo semelhante a um atacante realizando um chute de “bicicleta” e acerto-o com força, o jogando para baixo com força.
Ajeito minha postura e invisto novamente contra ele, mas ele recobra sua compostura á tempo. Tento perfura-lo com minhas garras, mas ele desvia, rotacionando para o lado e deslizando para dentro de minha guarda, logo após acertando um chute giratório na lateral de minha mandíbula. Minha cabeça é jogada para o lado e ouço as escamas se partida. Ele é muito forte. Quando percebo, suas mãos cobriam-se de energia dourada novamente.
— Betelgeuse! – Clama Joseph e uma esfera de energia avermelhada se forma em suas mãos, ele a arremessa contra meu peito e a esfera começa a crescer de tamanho à medida que me empurra. Seguro a mesma com a palma de minhas mãos e começo a sentir um forte formigamento, mas, antes de sofrer maiores danos, esmago-a com minhas garras, dissipando toda a energia, mas o custo foi alto. As escamas de meu peito foram bem deterioradas, meu corpo começa a se sentir fadigado e, subitamente, sinto uma forte pontada em meu estômago.
Notando minha dor, Joseph une suas mãos, logo em seguida retrucando.
— Anéis de Saturno. – Logo após, uma forma elíptica de energia se forma entre suas mãos só para ser arremessada logo em seguida. Não tenho reflexo suficiente para desviar e sou atingido em cheio, mas tudo o que faz é envolver-me e me prender com força, limitando meus movimentos. – Devo admitir, foi uma boa luta. – Conclui Joseph. – Mas sejamos francos, eu não poderia vencê-lo agora nem que você estivesse preso. E não posso ficar perdendo meu tempo aqui. – Ele sorri debochadamente, acenando com a mão. – Isso é um até logo, Jin. – A energia dourada brilha mais intensamente ao redor de seu corpo à medida que Joseph dispara em direção ao horizonte.
Após alguns momentos, o anel de energia libera seu cativeiro e desaparece.
— Parece que você tem um novo inimigo, Jin.
— Embora não seja tão poderoso quanto os outros três Kings, ele ainda vai ser problemático.
— Não tão poderoso, mas te deu uma surra.
— Ei, eu estava vencendo. – Murmuro.
— Jin, acho que você está ficando velho. Começas a se esquecer de fatos que acabaram de acontecer.
— Silêncio, Draco. – Falo emburrado, iniciando o voo de volta a meu apartamento. Ainda bem que ainda era de noite. As pessoas podiam ficar um pouco espantadas de ver um dragão gigantesco se aproximar de um prédio e virar um humano. Pessoas assim não devem assistir muita tv, eu suponho.
— — July — -
Sento-me sobre a cama, tirando os sapatos e os jogando em algum lugar pelo quarto. Fora um longo dia. Mas minhas preocupações pareciam ainda tão longe de se acabarem. Não vi Ukyo o dia todo, depois que ele saiu para algum lugar quando chegamos na ilha, ele não voltou a dar as caras no REU, não atendeu minhas ligações, não respondeu minhas mensagens. Achei que o jogo do Tyler seria um ótimo lugar para encontra-lo, mas ele não veio, e se veio, não sentou nas cadeiras que o armador da Universidade sempre reserva para nós. Por falar nele, mal o jogo acabou, ele foi convidado a uma festa para comemorar a classificação. Devo admitir, ele merece, vi o quanto se esforçou nesse ano para conseguir uma vaga no time, o quanto se esforçou para ser titular e o quanto se esforçou para levar o time adiante. Não entendo muito de basquete, mas o Ukyo sempre comenta que, se nosso time está indo bem, grande parte disso se deve ao talento nato e a liderança do Tyler. Ele merece essa festa mais do que ninguém.
O jovem notou que eu estava meio abatida quando falei com ele após o jogo, então me chamou para ir também, mas me recusei. Acho que só preciso descansar um pouco e esquecer de tudo o que vem acontecendo desde noite passada. Mas por falar nisso, onde será que anda a Laila? Ela também não deu as caras o dia todo.
Solto um longo suspiro e me ergo da cama, planejando ir tomar um banho, mas algo capta minha atenção. A luz da lua refletia sobre a caixinha que estava sobre a cômoda próxima a janela. A caixinha que ganhei de Jin. Aproximo-me da mesma, sentando-me em uma cadeira e pegando-a entre minhas mãos. Jin e Ukyo falaram muito sobre essas cartas, mas não acho que tive a oportunidade de dar uma olhada nelas por mim mesma. Assim que abro a tampa da caixinha, uma voz invade minha mente.
— Finalmente resolveu aparecer, hein. – A voz era agressiva e despertava um ar selvagem e indomável.
— Você não deveria ser tão rude com a pessoa que escolheste para ser seu portador. — Uma segunda voz fala, esta, por sua vez, parecia mais meiga e infantil, como uma criança.
— Tanto faz. – Responde a primeira voz, bufando em meio a frase.
— Desculpe por nossa falta de modos, você deve ser July, certo?
— Sim... – Respondo em um misto de incerteza e confusão. – Vocês são...?
— Nós recebemos muitos nomes com o passar dos tempos. – Comenta a voz mais infantil. – Alguns deuses preferem certos nomes, no meu caso, não tenho essa preferência, podes me chamar como preferir.
— Então que tal... Tina? – A voz fica em silêncio por um tempo, até que finalmente responde.
— Tina, gostei. – Sua voz era alegre e empolgada, por algum motivo, consigo imaginar uma pequena garotinha sorrindo.
— Eu não tenho nenhum nome divino que me agrade, mas meu último portador chamava-me de Leone.
— Certo, Tina e Leone. – Engulo em seco ao perceber a pergunta que estou prestes a fazer. – Vocês são realmente deuses?
— Não, somos vozes dentro da sua cabeça. – Murmura Leone.
— Não seja tão rude. – Protesta Tina, parecia levemente aborrecida. — O que o Leone quis dizer, é que somos sim, parte de deuses, mas não somos eles em si.
— O que você quer dizer com isso?
— Basicamente... – Tina começa sua explicação, buscando ser o mais clara possível. – Nós somos parte da consciência dos deuses, mas não completamente. Nossos corpos descansam em algum lugar no infinito, e nossas consciências vagam entre nossos corpos reais e nossos corpos selados, no caso, essas cartas. Quando estamos em contato com nosso portador, a consciência flui entre nosso corpo e seu corpo.
— E essa consciência que você fala, seria ela que nos dá seus poderes?
— Mais ou menos. Bem, quando criamos os humanos, os fizemos à nossa imagem e semelhança, então, tecnicamente, vocês poderiam fazer tudo o que nós podemos, mas não sabem como. Quando nossas consciências estão conectadas, vocês descobrem como fazer uso dos poderes que vocês já tinham desde o início, mas quando vamos embora, o conhecimento vai junto de nós.
— Então é realmente possível para nós, humanos, fazermos coisas como soltar fogo pelas mãos, contanto que estejamos com essas cartas, correto?
— Foi isso que ela disse. — Murmura Leone. – Quanto mais compatíveis nossas mentes forem com nosso portador, mais conhecimento é repassado, assim sendo, mais poder é extraído de nossos corpos e emprestado a vocês, isso é o que chamam de Sincronização Divina. Mas não acho que eu precise lhe dizer isso, você já viu com seus próprios olhos, não é mesmo? – Ele parecia querer extrair algo de mim, como se esperasse que eu dissesse algo, mas antes mesmo de eu ter a chance de responder, alguém bate a minha porta.
— Volto já. – Murmuro baixinho e tampo novamente a caixa, me dirigindo até lá e girando a maçaneta.
Quando a porta se abre, encontro Laila parada a frente da mesma, ela parecia abatida, porém séria.
— July, posso falar com você? – Questiona a garota e assinto, abrindo espaço para que entrasse.
— Você sabe que pode, vamos, entre, por onde esteve o dia todo? – Vejo-a encolher os ombros e desviar o olhar.
— Aqui não... Se possível, queria que viesse comigo. – Fito-a por alguns segundos. O que há com essa atitude suspeita? O que ela quer me dizer?
Não confie em ninguém. Qualquer um pode ser seu inimigo.
As palavras de Jin ecoam por minha mente, será que posso realmente confiar na Laila? Um arrepio percorre minha espinha com o simples fato de duvidar de uma amiga. Eu não deveria fazer isso. Acima de tudo, essa é a Laila. Ela nunca faria nada para me machucar.
— Claro que posso, vou só pegar um casaco. – Ela assente com a cabeça.
— Vou espera-la lá em baixo.
Começo a vasculhar o guarda-roupas até achar um casaco verde-escuro que me cobria totalmente. Visto-o e dou uma última olhada para a escrivaninha onde a caixinha com as cartas descansava.
— Pode acontecer alguma coisa, é melhor eu levar. – Murmuro para mim mesma enquanto guardo a caixa em um bolso do casaco. Aquela frase era mais para me convencer de que eu estava sendo precavida com outros e não com Laila. Saio do quarto, trancando a porta e descendo as escadas.
Sigo-a em silêncio para o metrô. Passamos um tempo dentro dele enquanto a paisagem noturna marcava presença pelas janelas do vagão. Um silêncio desconfortável e sepulcral se fazia presente. Após algum tempo, descemos e continuamos a caminhar, até que paramos em frente a uma enorme estufa, tão grande que podia-se dizer até mesmo que era uma floresta, não fosse o imenso domo de vidro que a cercava, agora sei que estamos na ilha 22.
— Laila... Por que nos trouxe aqui? – Pergunto, levemente assustada.
— July, tem algo que preciso te falar. – Seu tom era sério e seus olhos não me encaravam, parecia procurar algo dentro da redoma transparente. – Mas não direi agora. Peço que olhe para dentro da estufa e veja o que está prestes a acontecer. Após isso, falarei.
Meus olhos fixam-se na mesma e sinto meu coração vacilar uma batida. De um dos lados da redoma, havia um homem de cabelos cinzentos e olhos verdes, sua feição era séria e me dava arrepios. Do outro lado...
— U... – Murmuro, mesmo que saiba que ele não pode me ouvir daqui. Afinal de contas, o que está acontecendo?
— — Ukyo — —
— Olha, você realmente veio. – A voz de Seth ecoa em meus ouvidos à medida que me aproximo. – Bem, pelo menos posso dizer, coragem você tem.
— Não que você tenha me dado uma infinidade de opções. – Seth limita-se a um sorriso sem emoção.
— Deveríamos começar então.
— Espere, eu ainda não vejo sentido em lutar contra você. – Protesto e ele dá de ombros.
— Muitas coisas nesse mundo não fazem sentido, algumas simplesmente não foram feitas para fazer. – Ele põe a mão no bolso, pegando uma caixinha igual aquelas que Jin nos mostrou. – Não me leve a mal Ukyo, não tenho nada contra você.
— Então posso ir? – Seus lábios contraem-se em um sorriso de canto.
— Da mesma forma que você, eu também perdi alguém que amo. – Ok, ele também sabe da minha mãe. Será que alguém colocou isso na minha identidade? Ou é tipo um título? Ukyo, aquele que a mãe morreu. Isso já tá me irritando. – Assim como você, também quero tê-la de volta. Mas o desejo só é concedido a uma pessoa. – Ele abre a caixa e sinto a ressonância começar a incomodar seus ouvidos. – Às vezes, para conseguirmos o que queremos, temos que ser um filho da puta na vida de alguém. Você só deu azar de que eu vou cumprir esse papel na sua. – Ele saca a carta de dentro da carta e faço o mesmo. – Permita-me demonstrar, a diferença entre nós. – Ele faz a conjuração da carta em um idioma que julgo ser sueco, faíscas começam a voar da carta, atingindo-o. Logo após isso, pequenos raios amarelos e faíscas começam a emergir de seu corpo. Um poder elétrico.
Conjuro minhas chamas e assumo posição de batalha. Só de olhar para Seth, posso dizer que vai ser uma luta difícil. Vi que sua carta é um número 8 de Paus, então é naturalmente mais forte do que a minha. Além do que, ele deve ter muito mais experiência em batalha do que eu.
Como esperei, é Seth quem assume a ofensiva primeiro, avançando em velocidade contra mim. Seu braço esquerdo visa acertar meu rosto com as costas da mão, por reflexo, afasto a parte superior do meu corpo e vejo um sorriso se formar em seu rosto.
— Primeira lição! – Exclama ele, acertando um poderoso soco em meu estômago, não consegui me mexer a tempo, meu corpo se curva ante a potência do golpe, agarro minha barriga, caindo de joelhos. – Quando se desvia de um golpe por cima da maneira que você fez, suas pernas travam para sustentar o peso do corpo, e aí você fica exposta. – Minha respiração ofegava, o ar entrava com dificuldade nos pulmões. Que porcaria de força é essa. – Segunda Lição! – Um poderoso chute me acerta no queixo, tão forte que me faz ficar novamente em pé, cambaleio dois passos para trás antes que Seth me acerte um poderoso soco no lado esquerdo do rosto, arremessando minha cabeça na direção oposta. – Ficar no chão só te faz um alvo ainda mais fácil.
Que merda. Não posso ficar apanhando desse jeito, preciso revidar. As chamas tomam conta de meu braço esquerdo e tento acertá-lo com um cruzado, ele recua um passo, girando seu corpo.
— Lição Três. – Um soco acerta em cheio minhas costelas, me fazendo contorcer-me de dor. – Ataques muito abertos sem prévia preparação deixam sua defesa exposta e lição quatro. – Seth prossegue seus movimentos com uma sequência de socos um-dois em meu rosto. Minha cabeça é jogada para trás e ele junta as mãos em frente a meu abdômen. Uma forte descarga elétrica é disparada e sou arremessado longe. O choque percorre todo o meu corpo à medida que sou empurrado longe. – Sequências de golpes são muito úteis na hora de encaixar um golpe aberto como esse.
Caio sobre um dos joelhos, usando a mão para não ir com a cara de encontro ao solo. O golpe dele me empurrou alguns metros para trás, deixando até mesmo um rastro por onde meus pés passaram. Que merda. A diferença entre nós é muito grande. Eu não consigo fazer nada contra ele.
Ergo-me cambaleante. Meu corpo clamava descanso, mas minha mente ainda não se rendera. Chamas começam a serem produzidas em ambos os meus braços. Giro-os a frente de meu corpo, fazendo um minitornado de fogo em direção a Seth, posso ver o cinzento soltar um longo suspiro e fechar os olhos, faíscas amarelas recobriam seus braços.
— Lição Cinco. – Ele junta seus braços e se concentra, quando as chamas pareciam prestes a acertá-lo, ele abre os braços, disparando pequenas faíscas de eletricidade que, ao se chocarem contra meu golpe, espalham as chamas em todas as direções, acertando várias plantas a nosso redor, essas começam a entrar em combustão. – Perder a cabeça e atacar sem pensar são o início de uma derrota. – Seth tinha um olhar frio e compenetrado. – Lição Seis. – Ele se agacha, colocando a mão no chão, uma descarga elétrica sai de seu braço e adentra o solo, vindo em minha direção. Ao tocar em mim, sinto meu corpo sendo eletrocutado e todas as minhas forças indo embora. Caio de joelhos e sinto minhas costas fumegarem. – Controle é mais importante que tamanho. Ataques enormes sem controle são tão úteis quanto facas sem ponta. – Seth se aproxima a passos lentos, parando bem à minha frente. Não tenho forças nem para erguer minha cabeça. – Vamos lá, Ukyo. Não me decepcione. Somos rivais destinados. – Do que diabos esse cara tá falando numa hora dessas? – Passamos por coisas parecidas nas nossas vidas. Essas cartas nos tiraram tudo que tínhamos e agora queremos usá-las para recuperar isso. Tenha um pouco mais de garra, ok? – Ele coloca a mão sobre minha cabeça e, ao iniciada a descarga elétrica, perco a consciência.
Não sei por quanto tempo desmaiei, provavelmente segundos, mas é a voz odiosa a me acordar.
— He, que bela surra você tá levando lá fora, hein? Ele te pegou de jeito.
— Cala a boca. – Murmuro dentro de minha própria mente, se é que isso faz sentido. – Se não vai me ajudar, não me atrapalha.
— Não preciso, você já se atrapalha sozinho, mas se quer ajuda, sabes o que fazer.
— Pro inferno você e sua ajuda. – Grunhi e ouço a risada maligna ecoar em minha mente.
— Vamos lá, você lembra, né? O que você precisou fazer para aquele incêndio que matou sua mãe parasse, hein? É só dizer meu nome, vamos, eu te darei mais conhecimento do que pode fazer assim que você o disser.
— Eu não vou me rebaixar a isso.
— Para trazer sua mãe de volta, você tem mesmo escolha?
...
Sinto lentamente a força voltando a mim. Meu corpo recobra as forças, mesmo que um pouco, e um calor agradável invade meu peito. Levanto-me com dificuldades e vejo Seth a me encarar.
— Eu estava te esperando. – Afirma ele, mas tudo o que faço é me concentrar. Me concentrar em todo o fogo que nesse momento queimava as plantas da estufa. As chamas lentamente retrocedem em minha direção, juntando-se e acumulando-se sobre minha mão até formar uma esfera do tamanho de um pneu de carro, só que de fogo. Tipo um pneu de carro pegando fogo.
— Ok, está na hora de virarmos isso, Efreet.
— Demorou, garoto.
— Muito bem, Ukyo, superou minhas expectativas. – Fala Seth, um sorriso brotando em sua face. – Agora, vamos dançar.
— — Continua — -
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