Essência
1 Eu gostaria...
Notas iniciais
Gostaria de agradecer a Lara e AnaBBC, essa primeira por ler minha história e me ajudar em melhorar, a segunda menos importante (Brincadeira e.e) por ter betado minha histórias. Lindas do meu ♥.
Eu espero sinceramente que gostem, apesar de eu ter saído um pouco do death-fic, ainda mantive o meu jeito.
Nos vemos lá embaixo.
E novamente começou um novo dia, não tinha a mínima noção de dia e noite, mas quando era a vez da mamãe me visitar significava que era um novo recomeço. Eu não sabia o que dizer... Como você é irônico Eric, não pode falar nem mesmo que deseje. Uma triste realidade que por um tempo indeterminado estou, estar em coma e ter noção de tudo ao seu redor.
No primeiro dia assim minha mente estava um turbilhão, não sabia o que estava acontecendo tão pouco me mover e enxergar algo, somente eram meus pensamentos e eu. Somente depois de uns dias ouvindo conversas dos meus pais com médicos descobri que ao voltar do meu encontro com Nicolas, meu namorado, bati meu carro ao desviar de um motorista desatento que cortou minha frente.
Aqui estou eu, deitado em uma cama de hospital, conversando comigo mesmo relembrando aquela noite de novo. Algumas vezes tinha vontade de gritar, fazer uma força sobrenatural sobre meus músculos ou até mesmo piscar para dizer que eu estava ali. Mas só parado ligado à máquinas com olhos fechados.
— Bom dia, meu príncipe, mamãe está aqui – Ouço a voz da minha mãe, um pouco fraquejada – Como você está?
Bom dia, mãe. Mesmo que não me ouça ou não saiba que eu estou ouvindo, mas eu estou. Eu estou bem, não sei como está meu corpo, mas minha mente está bem, me sinto bem sozinho somente com meus pensamentos sem ninguém para ouvir. Sem nenhuma dor, forte como sempre disse para eu ser.
Sabia que muitas vezes ela segurava as lágrimas para vir todo dia me visitar, mas vinha todo santo dia não importando quem quer que fosse sua companhia. Ela sempre se pagou de forte na frente de todos e até mesmo para mim nessa situação... Mãe se permita ao menos uma vez fraquejar, eu sei que quer.
— Seu irmão veio junto— Sorrio mentalmente, era estranho saber que ele, meu gêmeo, não gostava de me visitar.
—Daniel aqui, ‘’antes tarde do que nunca’’, é esse nosso dilema, não? – Disse ele com uma voz estranha – Volta logo, cara, o quarto está um saco sem você para me criticar com minha bagunça.
Ainda é nojento pensar na quantidade de preservativos que esquecia no quarto depois de eu ter ficado o final de semana com Nicolas e você em casa com a Juliana. Antes tarde do que nunca, lembre-se, eu nasci primeiro e você foi depois. Também sinto falta da nossa bagunça e até mesmo da sua cara feia igual a minha.
— A casa anda muito vazia sem você, filho, tão difícil estar sem sua presença – A voz embargada da dona Rita.
Eu sinto falta de estar com vocês, mãe, sei que está sendo difícil sem mim e que estão tentando de tudo para se sentirem menos tristes... Desculpa por estar assim, eu deveria ter sido mais cuidadoso e não ter voltado tão tarde como sempre pedia para eu não fazer. Desculpa por causar problemas e estresse a vocês.
— Lembra que o pai não parava de implicar com o Nicolas dizendo que estava te corrompendo? – Concordei mentalmente sabendo que nenhum movimento faria. – Eles estão bem mais unidos e enfim está tudo entrando nos eixos, só falta você decidir acordar.
Dani, sua voz apesar de estranha e distante é um ótimo som aos meus ouvidos tão atentos. Como papai sempre dizia que nem tudo sempre é nos trilhos e muitas vezes temos de torcer o braço e fazer as coisas. Estou feliz que eles estão unidos mesmo que por um motivo triste, eu gostaria tanto de ver essa interação...
Senti uma mão sobre minha testa e parecia ser a da minha mãe, com uma voz baixinha só rezou perto do meu ouvido e só essa voz predominou sobre o quarto. Minha família era quieta era mais de atitude do que palavras, então eles só ficaram em silêncio fazendo carinho no meu braço ou rosto. Demorava uma eternidade esses momentos, porém não ligo.
E aquela sensação de leveza e mente pesada, que depois de muitos dias tentando compreender descobri que era apenas meu cérebro avisando que me faria dormir. Nunca imaginei que isso era possível, mas aqui estou eu aos poucos me desligando da minha audição entrando no mundo dos sonhos... Eu gosto de sonhar, ao menos lá, mesmo que ilusoriamente, eu posso ver as coisas ao meu redor. Somente fui acordar com o toque da mulher que me deu a luz.
— Nós temos que ir, Eric, mais tarde seu pai e o Nicolas passam aqui – Ela beija minha testa e se afasta segurando firmemente minha mão.
—Eu volto, só não sei quando – Ele bagunça meus cabelos e também se afasta.
Tchau, mãe e Dani, eu sei que não podem ouvir o que eu penso, uma simples lógica. Mas eu ficarei bem até amanhã enquanto vocês voltam para casa.
Era a pior parte do dia a hora que as enfermeiras entravam, assim que minhas visitas saíam, elas me davam banho. Pior do que as pessoas não saberem que eu tenho noção, sim, do que se passa ao meu redor, é elas desmotivarem a minha melhora e que um dia eu saia da cama. Todo santo dia...
— Novamente dando banho nesse menino, haja pique para essa família para ter esperança — Comenta a enfermeira enquanto me limpava.
— Até os médicos estão hesitantes na hora de dizer os diagnósticos – Essa era a outra que ajudava também.
Eu sei que estou em coma, sei que todos os dias dão banho em mim, sei que não me movo, sei que não falo nada, sei que muitos já desistiram de alguma melhora minha. Mas eu estou aqui ouvindo tudo, tudo mesmo, eu estou vivo mentalmente. Não precisam dizer na minha cara que sou um caso sem esperança. Deveriam ouvir o que estou pensando, eu não sou um vegetal, ainda tenho minha essência.
— Uma pena, tão jovem e tão descuidado, tem boatos de que ele estava bêbado quando voltou e até de que ele é gay – Diz uma delas.
Gay não me faz uma pessoa desalmada. Só apenas amo alguém do mesmo sexo, prefiro ser isso a vocês pessoas desalmadas falando na frente de uma pessoa em coma esses tipos de coisas. Eu estou em coma, mas ninguém sabe o que se passa na minha cabeça ou tão pouco poderiam. Mas eu estou ouvindo, não sou um bêbado, sou somente um rapaz com um azar dos infernos, mas não sou tudo que vocês dizem. Não quero pena, não quero.
Mas como todo santo dia era o mesmo, elas apenas continuaram a fofocar entre si ignorando a minha pessoa. Não importa o quanto eu diga nos meus pensamentos essas coisas, meu corpo não acompanha nada disso... Eu tento de tudo para que algo em mim se mexa, porque é tão difícil, cérebro? Eu tenho 18 anos e aqui estou em coma.
O intervalo entre as visitas era a parte essencial para mim, não que as visitas fossem inúteis, sinceramente, iria enlouquecer sem elas. Porém... Eu estava sozinho boa parte do meu tempo nesse hospital e não era todo tempo que estava dormindo. Como agora, sem um pingo de sono e no puro tédio, comecei com meu ritmo.
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Primeiro: Uma matéria por dia. Hoje era biologia.
Tenho medo de esquecer-me das matérias que tinha estudado na escola até antes do acidente, então todo dia por x tempo tentava relembrar tudo que tinha estudado da matéria que escolhi nesse dia. Não sou o aluno mais dedicado, essa função eu deixava para Nicolas que vivia me ensinando umas coisas, entretanto conseguia manter uma nota acima do normal.
Segundo: Lembrar das sensações que sentia ao praticar esporte.
Uma das poucas coisas que conseguia me vangloriar pro meu irmão é o meu físico, anos de natação resultaram em um abdômen, braços e pernas definidos. Nem gosto de pensar em como estaria meu corpo depois de todo esse tempo em coma. Apenas relaxa minha mente e me levava por um tempo imaginando meu corpo se movimentando com destreza em uma piscina.
Terceiro: Relembrar meus momentos com a família e Nicolas.
Essa era o melhor momento do meu dia, eu brigava muito com a minha família ainda mais depois de ter assumido ser homossexual e tudo virou um cabo de guerra sem fim, não gosto desses momentos e, sim, todos os sábados assistindo filmes ruins no Netflix e comendo uma pipoca feita em casa. Agora estou aqui, me perguntando que dia é hoje da semana.
E o dono do meu sorriso mais sincero, Nick, todas as vezes que ficávamos só nos olhando na cama grande dele sem falar ou fazer algo, só olhando um para o outro. Ou quando me dava peteleco por responder estupidamente uma pergunta que fazia enquanto estudávamos. Ou principalmente quando nos beijávamos. Como eu sentia falta desse ser.
~.~
Normalmente quando termino o terceiro item dessa rotina está próximo da visita da noite, essa vinha meu pai e Nick. Hoje não foi diferente, ouço o barulho de vários passos de pessoas entrando na UTI e se dirigindo a áreas diferentes daquele recinto. Alguns desses passos se tornaram mais nítidos a minha audição. Eram eles.
Meu pai, Henrique, como sempre ao entrar no que deveria ser meu quarto, ligou a TV em um canal qualquer, mesmo não sabendo que eu estou ‘’acordado’’, ele me ajudava porque mantinha minha mente mais calma o som do eletrodoméstico. E também passa um pano por minha testa logo em seguida um beijo sobre ela.
— Oi, filho, pai chegou – Ouço a voz grossa dele perto dos meus ouvidos – Nunca deixei de vir e hoje não seria diferente.
Oi, pai, fico realmente feliz que esteja aqui novamente, sei que gosta de aproveitar essa hora da noite descansando em casa, porém aqui está. Obrigado, senhor Henrique, por se esforçar para vir todo dia e ter esse mesmo costume... Pai, sempre disse que eu e o Dani somos o brilho dos seus olhos, eu estou aqui, ok? Ainda sou eu, mesmo tendo te decepcionado tanto, seu filho, Eric.
— Oi, meu poste – Esse era o Nick se aproximando e dando um breve beijo sobre minha bochecha. – Tive que acertar umas coisas para vir te ver, não poderia te deixar de ver.
Oi, meu amor, desculpa ter te submetido a essa mudança no seu ritmo para vir me ver, eu sempre te trouxe problemas e não seria agora que não traria... Sempre soube disso quando aceitou namorar comigo, aceite apenas porque ama um garoto que é um incrível azarento que cada vez mais se supera.
— Amor, é complicado ter sua cópia andando pela sua casa, algumas vezes sinto que é você, mas quando olho de novo vejo o sorriso do seu irmão – Comenta ele, se sentando num espaço vazio da minha cama.
Como ousa confundir minha beleza estonteante com a da vagabunda do meu irmão? Decepcionado com você, Nicolas de Oliva. Não ouse desistir de mim, se não desistia de mim me ensinando Química, porque desistiria agora? E olha que até o professor particular dessa matéria desistiu. Você sempre acreditou em mim, acredite em mim agora...
—Eric, você conseguiu uma nota boa no vestibular, se você melhorar agora, eu prometo que farei de tudo para que esteja numa faculdade ano que vem – Pai diz chamando minha atenção.
Eu vou sair dessa, dono Henrique, estou aqui nessa bosta por causa de um idiota, mas ainda vai me ver passando na faculdade com o Daniel seja lá qual for nossa opção de curso. Bom, ‘’se não assim, vai ser arrastado’’ é o que sempre disse para mim e para ele... Você é muito mandão e meu orgulho é ferido em admitir que sinto falta até disso.
— Verdade, poste, seu irmão sem você está sofrendo nas mãos do seu pai – Ouço a voz do Nick divertida como se fosse agora íntimo da família.
Lembro do primeiro jantar em casa, você estava nervoso e meu pai a toda hora te dando fora, deixando-o totalmente envergonhado. Daria risada de você presente, tão próximo do meu pai, quando antes fazia de tudo para evitá-lo. Eu aproximei vocês dois, um problema a menos nesse caos.
— Tenho que te pedir desculpas, filho, porque paguei com a minha língua – Surpreendo-me com a revelação deste – É um bom menino mesmo, esse Nicolas.
Pai, eu sei disso... Como eu sempre disse a ele, meu coração escolheu somente esse ser chato e inteligente. Posso dizer que também tenho um bom gosto, ele não tinha um porte forte, mas seus olhos castanhos esverdeados combinando com seus cabelos escuros como a noite... Sou um homem com gostos refinados.
E assim foi essa visita, eles sempre mantinham um tom mais neutro comigo apesar de eu perceber umas falhadas em suas vozes, mas se mantinham forte. Foi uma visita cheia de risadas de ambos e, para minha sorte, constantemente Nick fazia carinho nos meus braços e manteve nossas mãos entrelaçadas. Mas ele tinha se esquecido que dia era hoje...
— Meu amor, eu não esqueci que dia é hoje – Suspiro mentalmente aliviado que ele não tinha se esquecido dos nossos dois anos de namoro – Decidi fazer um presente para você...
Oh... Eu tinha me esquecido do doce som da sua voz toda vez que cantava... E dessa vez cantando minha música favorita.
‘’Loving can hurt
Loving can hurt sometimes
But it's the only thing that I know
And when it gets hard
You know it can get hard sometimes
It is the only thing that makes us feel alive
We keep this love in a photograph
We made these memories for ourselves
Where our eyes are never closing
Hearts were never broken
And time's forever frozen still
So you can keep me inside the pocket
Of your ripped jeans
Holding me close until our eyes meet
You won't ever be alone
I’ll wait for you to come home’’
‘’ Amar pode doer
Amar pode doer às vezes
Mas é a única coisa que eu sei
Quando fica difícil
Você sabe que pode ficar difícil às vezes
É a única coisa que nos mantém vivos
Nós mantemos este amor numa fotografia
Nós fizemos estas memórias para nós mesmos
Onde nossos olhos nunca fecham
Nossos corações nunca estiveram partidos
E o tempo está congelado para sempre
Então você pode me guardar no bolso
Do seu jeans rasgado
Me abraçando perto até nossos olhos se encontrarem
Você nunca estará sozinha
Esperarei por sua volta para casa’’
A música era Photograph do Ed Sheeran e era uma das minhas músicas favoritas. É quase impossível não sorrir com a última mudança do último verbo de ‘’Espere por minha volta para casa’’ para ‘’Esperarei por sua volta para casa’’. Ali está o ser romântico que eu tanto amo e gosto.
— Eu sei que bem no começo do namoro dizia que nunca mexeria um dedo por mim brincando – Ouço sua voz agora chorosa e sinto meu peito doer – Não brinque assim comigo, mexa-se por mim... Agora tenho que ir, deu a nossa hora.
Sinto seu corpo se aproximando do meu e pela primeira vez nesses dias em que estou assim, sinto uma leve pressão sobre meus lábios, ele está me beijando. Eu gostaria de mostrar para ele o tanto que estou aqui e feliz por esse nosso toque. Tanto... A pressão sobre meus lábios aos poucos foi desaparecendo.
Por um instante, cérebro, ele ainda esta com a mão entrelaçada esperando uma resposta minha, eu sou capaz disso. Sou forte o suficiente para ao menos mostrar que estou aqui ainda. Ouço sua respiração falhar como se estivesse em choque e enfim percebi. Eu consegui segurar um pouco sua mão...
Notas finais
Agradeço novamente quem me incentivou a escrita dessa fic e a você, leitor, por ter lido até o final.
Qualquer comentário, favorito ou até recomendação é bem-vinda :3. Receberei elas com todo o carinho.
Vejo vocês nas próximas fics.
Beijundas da Nahu.
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