Essência

16 Prioridades


Notas iniciais
Agilizando o processo nas férias pra não deixar ninguém sem!

Vitor saiu do apartamento ainda confuso, o que só piorou ao ver quem saía pela porta à sua frente. Lia e Dinho, sempre eles, como se mais uma vez estivesse sonhando. A roqueira estava desarrumada, e mechas soltas brigavam por espaço em seus cabelos. Adriano tinha a camiseta recém posta, ainda meio torta, e cacho irregulares, constantemente bagunçados ainda mais pela mão de Adriano. Era claro para qualquer jovem da idade de Vitor, vacinado e experiente, o que havia acontecido. Já esperava, inclusive. Sabia que Lia não suportaria a fachada de inimiga pública do ex por muito tempo, principalmente depois do beijo no casamento, mesmo se, por acaso, não tivesse notado os olhares que o ex-casal havia trocado na cerimônia de Bruno e de Fatinha, mas esteve lá, e presenciara de camarote o reencontro tenso entre ambos, seguido por um olhar que ainda não havia visto em Lia em quase um ano de namoro. Um olhar que ela tentava esconder como podia, mas que, para quem nunca havia visto, era facilmente perceptível.

Suas conclusões foram seguidas por pensamentos que ainda não havia aceitado, porém que, de certa forma, sempre soube que ali estiveram.

– Não é o que você ta pensando, Vitor, eu fui... Eu queria conversar com a Fatinha e a gente se encontrou.

–É, foi só isso. – Dinho concordou hesitante. Como Lia podia ser tão cara de pau?

–Não precisa se explicar. – Vitor respondeu sem rodeios.

Haviam saído de mãos dadas do apartamento, contudo as mãos agora apenas se encostavam. Próximas demais, e não tão próximas quanto estiveram. Típico de Dinho e Lia. O que demonstravam era sempre a ponta do iceberg. E Vitor já havia entendido o tamanho daquele iceberg há algum tempo. Notou que Lia levou a mão à boca disfarçadamente, e que Dinho molhou os lábios de leve com a língua. Devia beijar bem... ”Não! Não me interessa se ele beija bem ou não, foca na Lia! Na Lia! Ele que é sortudo, não ela.” Brigava contra sua própria consciência. Voltou a reparar nas mãos da dupla. Adriano tinha mãos grandes, ombros largos... A calça estava preenchida na medida. “Chega! A Lia... A Lia tem um corpão, não tem?”. Devia ter uma pegada... De certa forma, tinha inveja de Lia. Inveja por ter estado com o cara de quem gostava, por ter se entregado ao que sentia, por conseguir agir de forma quase natural logo em seguida. Perguntava-se se realmente conseguia esconder sua confusão sentimental ou se mentia tão bem quanto Lia, cujos reais sentimentos eram de conhecimento público no Botafogo, por mais que tentasse escondê-los. Enquanto Lia parecia enfim vencer o orgulho, Vitor ainda negava sua vontade de estar com ele, ainda fugia de seus beijos. E ainda assim, ainda que fugisse, voltava àquele apartamento. Voltava teimosamente para os braços daquele que insistia em não reconhecer como o único dono de seus pensamentos. Voltava, dava-lhe falsas esperanças, e fugia novamente. Perguntava-se se Lia também voltaria a fugir, e queria ser o primeiro a insistir que a garota lutasse por sua felicidade, mas não podia fazê-lo sem perder seu álibi. Não era gay, estava apenas confuso. Gostava de mulher, gostava de Lia, e queria estar com ela.

– Vitor? – A já conhecida voz feminina lhe chamou. – Vitor, acredita em mim.

Tinha certo nojo de como Lia conseguia mentir sem remorso algum, de como mentira até mesmo sobre quem era por quase um ano, sem peso na consciência aparente, contudo a compreendia. Também estava mentindo sobre quem era.

– Como você faz?

–O que?

–Como você consegue mentir e mentir sem problema nenhum?

– Vitor, eu... – Segurou a mão de Dinho pelas costas, fora do alcance da visão do namorado. O garoto, porém, parecia concordar com o motoqueiro.

– Essa é a Lia... – Dinho respondeu pela roqueira. – É o que ela faz de melhor. Você quer que eu fique? –Perguntou à loira.

– Vai, Dinho, eu preciso conversar com ele a sós.

Adriano se despediu com um beijo no rosto de Lia, mais por costume que por provocação, e se retirou. Lia encarou Vitor de forma hesitante.

– Você quer terminar comigo, não quer?

–Não.

– C-como assim? – Indagou surpresa.

–Você só está confusa. – Tentou se explicar. – Você está confusa, eu estou confuso,inseguro, mas vai passar. Eu prefiro estar com você e saber que você está comigo a ser trocado por aquele Dinho. Você está comigo e quem perde é ele, que só é usado.

– Eu não estou usando o Dinho!

– Então você já admite...

– Admito o que?

–O que sente por ele. Sabe, Lia, já estava ficando ridícula a sua negação.

– Então você já sabia? Já esperava?

–Lia, todo mundo esperava.

– E você ainda assim quer continuar comigo?

– Enquanto você preferir estar namorando comigo, eu estou em vantagem, não estou?

– Eu não conhecia esse seu lado calculista...

– Nem eu conhecia o seu lado apaixonada. – Retrucou o motoqueiro.

–Ouch!

– Sim, ouch. O Quadrante inteiro sabendo que você só estava me usando, menos o idiota aqui. Mas tudo bem.

– Você está me deixando confusa. – Estranhou.

– Que bom. Agora você sabe como eu me sinto. – Respondeu por fim, pronto para ir embora.

–Uhuuuul! E aí, casal? DR na frente da minha casa?

–Oi, Fatinha. – Responderam em uníssono.

– Vieram me ver? Adoro comissão de boas-vindas!

– Sim, sim! – Desconversaram, seguindo a funkeira até seu apartamento.

–x-

– Ô, Dinho, que história é essa que você ia me abandonar de novo?

– Sem drama, Orelha, eu tô aqui, não tô?

–Alvinho, o Dinho teve suas razões. A família está longe, ele está sem estudar...

–A sua mãe tem razão. Para nós não é incômodo nenhum o Dinho ficar, mas tem a família dele, a irmãzinha...

– Eu vim antes, eu tenho prioridade.

–Também te amo, Orelha. – Dinho debochou. – A verdade é que até vocês eu estou alugando, eu realmente quase fui e estava convicto de que era o melhor, mas o egoísmo me venceu.

– Desde quando egoísmo atende por Lia? – Orelha retrucou.

– Então você se encantou mesmo por aquela menina... – A mãe do nerd se admirou.

– Não é qualquer menina, é a marrentinha do Dinho. Por ela ele esquece os amigos, a família e até ele mesmo.

– Não é bem assim, Orelha, eu vim pela Fatinha, por você...

– O casamento da Fatinha foi só uma desculpa, você acha que eu não sei?

– Você não faria o mesmo pela Morg?

– Eu não amo a Morg como você ama a Lia, ou eu enlouqueceria.

– Sim, enlouqueceria. — Dinho respondeu simplesmente.

–x-

– Adriano, eu posso falar com você? –O pai de Orelha perguntou ao vê-lo na sala depois do jantar.

– Claro. Olha, tio, se for pela minha estadia, o Nando já disse que me deixa ficar lá até eu conseguir um emprego.

– Dinho, você não pode ficar sem estudar. Se você quiser ficar, o que eu considero loucura, é melhor que se matricule no Quadrante pra terminar os estudos ano que vem. Eu não me importo que você fique, essa casa é sua, eu só não quero que você desperdice sua vida correndo atrás dessa menina. Há coisas mais importantes que um namoro de juventude.

– Se você soubesse o quanto eu já tentei... Eu sei que é loucura, mas eu não consigo. Eu estava curado, tinha quase certeza, e foi só ver a Lia que...

– Dinho, a Lia é como o vício no álcool. Não pode continuar, vai te destruir.

– Eu sei. – Respondeu desanimado.

–Desapega dela, moleque, você tem tanto pra viver, ainda!

–Eu sei, tio, eu sei, só que... Eu tentei, eu tentei ficar longe dela, lá do outro lado do mundo e não consegui.

– Talvez por você ter deixado as coisas mal terminadas, mas vocês já não resolveram isso? Você errou, voltou pra se desculpar. Vai ser mais fácil do que você imagina, esquecê-la sem ter assuntos pendentes ou peso na consciência. Você veio pela Fatinha, o casamento aconteceu, você já pode voltar pra casa, estudar em Miami... – Explicou hesitante. – Eu sei que é difícil. – Acrescentou ao notar a lágrima que saía dos olhos de Dinho. Abraçou-o como a um filho. – É difícil, mas é pro seu bem.

– Eu posso dormir no sofá hoje? Acho que o Orelha está furioso comigo.

–E não sem razão! –O pai do nerd riu. – Pelo menos enquanto você teima em ficar aqui, o meu filho não fica tão sozinho.

– Ele ficou furioso comigo, não ficou? Acho que está até agora.

– Sim, o Orelha não reagiu bem à sua partida. Por esse lado, fico feliz com a sua volta. Se você decidir ficar, e terminar o colégio aqui, mesmo, você pode ficar aqui em casa, mas escolha por você, para o seu bem, e não por um romance inconseqüente.

– Eu não consigo pensar em mim sem pensar nela, tio.

– Então é grave.