Essência
20 Amigos?
Notas iniciais
– E você simplesmente deixa? – Gil cobrou abismado.
– Que? – Vitor perguntou confuso. Andava pensando em tanta coisa...
– Cara, o Dinho acabou de escalar a janela da tua namorada e você aí, de braços cruzados!
– Ah, sim. – Vitor enfim compreendeu onde o amigo queria chegar. – Um desrespeito, mesmo.
– Só isso? – O guitarrista estranhou. – Cara, não é à toa que você tá levando tanto chifre!
– Ah, é... – Retomou desconsertado. – Uma hora eles vão literalmente quebrar a cara!
– E você vai ficar esperando?
– Você quer que eu faça o que? Proíba pra dar mais ibope? – Desconversou.
– Você é o namorado dela!
– Exatamente. Eu sou o namorado, não ele.
– Ok, então... Você que sabe. – Gil concluiu confuso. Estava perdendo alguma coisa, ou Vitor era assim, mesmo? Sem ação?
–x-
– Eu já tava com saudade. – Lia suspirou nos braços do ex.
– A gente se viu hoje.
– É, eu sei. – A roqueira riu.
– Lia, Lia... Você virou uma romântica incurável. Depois eu que sou brega!
– Influência sua, não vá tirando o seu da reta.
– Acho que foi influência do outro, lá. Fez você sentir mais a minha falta.
– Para! O Vitor é um cara legal...
– Ah, sim, ele é um amor. – Respondeu debochado. – Um querido! – Completou com voz afetada. – Me viu escalando a janela da namorada e até agora não veio me matar. Um fofo!
– Para! – A garota o repreendeu aos risos. – Ele me fez bem.
– Imagino, não deve ter nem encostado em você!
– Bom, isso não é tão distante da realidade...
– Então. Mas eu não subi aqui pra falar dele.
– Acho bom. – A roqueira sorriu.
– Onde a gente tava, mesmo?
– Espera. – Parou o rosto de Dinho. Passos soavam no corredor. – Você acha que o meu pai nos ouviu?
– Ele já teria entrado.
– Verdade...
– Como foi com ele?
– Dinho, você não escalou a minha janela pra falar sobre o meu pai, né?
– Eu só quero saber o que ele disse.
– Desde quando você se importa com o que o seu Lorenzo fala?
– Desde que eu decidi pedir a sua mão em casamento a ele. – Zombou.
– Dinho... – Repreendeu o ex.
– Um dia, um dia...
– Você acha mesmo?
– Claro!
– Não fui só eu que mudei...
– Só por você.
– Será mesmo?
– Se você está duvidando que a gente dure até lá porque espera que eu erre de novo, pode esquecer.
– Eu pensei que a gente tivesse um acordo. – Comentou desconsertada. – Isso duraria por agora, até você voltar pros Estados Unidos.
– Falando assim, parece que você não quer mais nada comigo.
– Não é verdade, é claro que não é, ou eu não estaria deliberadamente traindo o um namorado.
– Certo, o namorado... Então você tá se divertindo comigo até que eu vá embora e você continue o relacionamento confiável com aquele veado enrustido.
Lia percebeu que o garoto agora falava sério ao vê-lo se afastar até o balcão. Caminhou até ele, tomando seu tempo para escolher bem as palavras.
– Dinho... – Esperou uma resposta. Percebeu que Vitor os observava de baixo. “Amava-o” tanto que sequer se importava com o que o motoqueiro estava testemunhando. Afinal, havia se tornado tão insensível quanto culpara Adriano de ser. Levou as mãos às costas do garoto. – Eu quero ficar com você, eu só acho que você tem uma família em outro país e que não é justo que você largue tudo por mim.
– Eu não vim só por você. – Respondeu sério.
– Eu sei, eu sei. Você tem amigos aqui, certo. De qualquer modo, a gente tinha concordado nisso, não tinha? Você ia voltar pros Estados Unidos e a gente teria aproveitado esse tempo de agora.
– Você fala tudo tão mecanicamente...
– Foi como eu aprendi a falar. – E desejou que Dinho não insistisse no assunto.
– Desde quando?
– Desde... Desde sempre.
Olharam-se por alguns instantes. Instantes de eternidade, talvez. Uma fração de segundos sem final.
– Eu sei que eu errei muito com você. – Adriano quebrou o silêncio, levando as mãos ao rosto de Lia. – E você era a última pessoa do mundo que eu queria ferir, e, provavelmente, seja melhor que você trate isso que a gente tá vivendo agora de forma tão prática. Nunca se sabe até onde se pode confiar no ex filho da puta, não é?
Lia tentou interrompê-lo, dizer que não era de todo verdade.
– Ei, eu sei. Eu sei que você tá sendo realista, que tá aproveitando o tempo que a gente tem até a minha viagem, que tem razão em achar que não vá durar para sempre. Poucos primeiros namoros são também os últimos, e que bom que não são. Se a gente não tivesse terminado, quem sabe como a gente estaria hoje? Mas de uma coisa eu tenho certeza: eu te amo agora, Lia Martins, e quero estar com você para o resto da vida nesse exato momento. E eu sei que as nossas vidas podem dar muitas voltas, e vão dar, mas algo me diz que a gente ainda vai se reencontrar depois daqui, que a minha partida naquele avião não vai ser um último adeus. E eu, Adriano Costa, pretendo, daqui a muitos anos, de preferência, me casar com você, e só com você. É assim que eu vejo o meu mundo hoje. Era assim que eu via o meu mundo ano passado, e é assim que eu espero presenciar o meu mundo daqui a uns anos, quando a gente voltar a se encontrar. Pode ser nesse ano, ou daqui a uma década. Você significa mais que um simples namoro adolescente pra mim, pode ter certeza disso.
Lia discretamente secou uma lágrima. Dinho riu.
– É, por mais que você esconda, sempre foi uma romântica.
– E você, um romântico enrustido. Depois fala do Vitor.
Adriano riu mais uma vez antes de beijá-la. Adorava quando Lia quebrava seus momentos de romântico cafona e salvava a cena. Era perfeita até nisso.
– Quando você vai terminar com aquele cara, hein? Você não gosta dele nem o suficiente para plano B!
– Talvez amanhã, talvez quando você for embora, talvez quando a gente se reencontrar. Não te interessa, você vai me deixar aqui...
Dinho sorriu.
– Nessa você me pegou.
Lia riu. Era melhor assim, sem promessas de um Dinho exagerado que provavelmente não as cumpriria.
–x-
– Fiquei sabendo que a noite foi boa. – Fatinha comentou com a roqueira à entrada do colégio.
– O Dinho sabe ser discreto... – Lia zombou.
– O Dinho... Fazida... Então, quando você vai botar um ponto final nesse namoro mais do que acabado com o Vitinho?
– Fatinha, isso é problema meu. Como ele tava ontem? Foi ele que te contou sobre eu e o Dinho?
– Foi. O Vitor não é tão vítima quanto você imagina, Lia, ele só não quer aceitar, e eu acho que você faria muito bem a ele se cortasse esse relacionamento de uma vez.
– O que você quer dizer com isso? – Indagou confusa.
– Eu quero dizer, Lia, que você influencia o Vitor a cometer os mesmos erros que você sempre comete.
– Como assim? Fatinha, dá pra falar português, por favor? Se é pra se meter na minha vida, melhor que eu entenda o porquê.
– Olha, o que eu posso dizer é que o Vitor está se envolvendo com alguém e não quer admitir pra si mesmo, que nem você fazia.
– Ah, é? – Definitivamente não o amava. A informação mais lhe divertiu que incomodou. – E quem é ela? É a Luana? É alguma outra peguete do Sal? É você?
– Não é ela.
– O que? Você quer dizer que...? Então ele tá apaixonado pelo Dinho?!
– Que? Dinho? Você bebeu, Lia? – Fatinha estranhou. – Ou você acha que o Dinho...? Não, o Dinho é louco por você!
– Não, não, é que o Dinho tem certeza de que o Vitor é gay.
– Ah, mas isso qualquer um de fora percebe, o Dinho provavelmente falou por falar. Não, o cara é meu vizinho.
– Então ele é mesmo gay? Você tem certeza? Como você sabe? Você viu? Será que eu traumatizei ele? Então por isso ele concordou em manter a fachada...
– Sim, foi por isso. Ele não é tão frouxo a ponto de segurar um relacionamento morto pra nada. Olha, eu não devia estar te contando isso, mas é pro bem dele. O Vitor precisa se aceitar. O Ricardão já deu um ultimato nele, e daqui a pouco vocês dois vão ser um casal de velhos infelizes sem sexo, nem amor.
– Calma, Maria de Fátima! – Lia gargalhou, ainda nervosa com a novidade. – Eu vou falar com ele, ok? E a gente não era tão sem graça assim.
– Ah, jura? Quantas vezes vocês transaram? Uma, papai e mamãe?
– Droga.
– E você nem suspeitava?
– É, faz sentido...
E de fato fazia. Todos os beijos insossos, as fugas de Vitor quando a namorada tentava aprofundar as coisas, os olhares pálidos, os abraços amigáveis demais, a insistência do garoto em manter um relacionamento no qual nenhum dos dois acreditava... Devia ter percebido antes. Era profissional em esconder o que sentia, como não notara? Dinho morreria ao saber disso. Era ridículo, àquela altura, acreditar que o relacionamento com Vitor lhe fosse competição, mas agora saberia o que Lia tinha certeza desde o início. Era um namoro de fachada. Era um estepe, até que a roqueira e Vitor encontrassem aqueles que os completassem, ou reencontrassem aqueles que já os completavam. Achava que, no caso de Vitor, seria Luana. Luana... Pensava que Vitor sentia algo pela ex...
E agora Vitor a entendia. Como ela, não pretendera beijá-lo, não pretendera se apaixonar. Talvez aproximar-se de Ricardão fosse visto por ele como um erro, um erro que o obrigara a remar contra a maré, a encarar quem era de verdade, como Lia enfrentara seus próprios fantasmas por e com Dinho no ano anterior e agora os reencontrava. Talvez por isso Vitor a compreendera, talvez por isso concordara. Estavam no mesmo barco, ilhados por incertezas, sem saber se a âncora era segura, ou se os barcos os deixariam abandonados de vez, sem rota de fuga, sem volta. E uma vez que pegassem os barcos, teriam destino incerto. Não poderiam adivinhar se a viagem seria turbulenta ou calma, nem o tamanho das ondas. Sua ilha rosa, sua ilha de relacionamento seguro e prático, por mais limitada que fosse, devia ser preservada, para que a ela voltassem quando as grandes ondas os acertassem, quando os barcos virassem e os deixassem jogados na água fria, sem horizontes. Ainda saberiam que, se voltassem àquela árvore que viam ao longe, voltariam ao vazio, voltariam a uma existência pálida, mas existiriam. Estariam em terra firme. E então ambos se deram as mãos e se agarraram à ilha. Não eram covardes, mas precavidos. Haviam sofrido demais em seus poucos anos de vida para se arriscarem em alto mar. Agora precisavam testar novamente a ilha, pesar suas prioridades. Estavam apaixonados por outras pessoas, e por aqueles que haviam encarcerado dentro de si, com medo de que, exposto, se ferisse. Precisavam voltar a viver, precisavam enfrentar.
Lia o procurou tão logo a manhã acabara. Gil ainda tivera tempo de cobrar da amiga, de saber como tivera coragem... Gil... Suas intenções eram sempre boas.
– Depois a gente conversa, cara, eu tenho que encontrar o Vitor.
– Vai falar o que? Ele viu tudo, Lia.
– Gil... Depois! – Repetiu impaciente.
Detestava deixá-lo sem explicações, mas era preciso. Se Gil ainda não sabia, não seria a roqueira a informar-lhe acerca da sexualidade do motoqueiro.
–x-
– Eu te procurei no intervalo, mas acho que não seria o melhor lugar pra tocar no assunto...
– Lia? Olha, se você veio s desculpar por ontem...
– Não. – Interrompeu-o. – A Fatinha veio falar comigo mais cedo... Sobre um lance, aí, que tem acontecido com você...
– A Fatinha? – Perguntou hesitante.
– É...
– E sobre o que ela falou? – Venceu a própria vontade de mudar de assunto.
– Sobre você e um vizinho dela... Um tal de Ricardão?
– O que tem ele?
– Vitor, você sabe o que tem ele. Ou melhor, o que vocês têm. Olha, eu não vim pra te julgar, eu só vim pra gente conversar, mesmo. Você não precisava ter escondido de mim...
– Você falando isso? – Vitor riu.
– Ok, eu sou o pior exemplo. – Juntou-se ao garoto, divertida, ainda que nervosa. – Eu nunca passei por isso, — Zombou. – mas acho que sei como é.
– Eu sabia! Sempre desconfiei de você e da Ju!
– Para! – Lia riu. – O que eu quero dizer é...
– Eu sei, Lia, eu sei. Eu conheço a história toda, esqueceu? De como você passou anos lutando contra o que sentia, de como você voltou a fugir quando ele reapareceu...
– Eu não estou fugindo mais.
– Eu vi. – Debochou.
– E eu cogitando se estaria sendo injusta com você...
– Não é porque eu sou gay que você não me traiu, Lia Martins.
– Como é mesmo? – Lia levou a mão à orelha, fazendo sinal para que o garoto repetisse.
– Você ainda assim me traiu. – Vitor desconversou.
– Não, a outra parte.
– Você já ouviu, está dito.
– Vamos, repete.
– Lia...
– Ok, eu vou primeiro. Eu amo o Dinho! Ele é um idiota, ele me fez sofrer muito e não é confiável, mas eu amo aquele imaturo, metido, cafona e convencido! Agora você.
Vitor hesitou novamente.
– Vamos, você não se sentiu muito melhor quando falou? Você não se sentiu nem um pouco livre? Vamos, Vitor! – Puxou seu braço, insistente.
– Ok, ok! Eu sou... Eu sou um corno!
– Vitor...
– Você faz tanta questão?
– Não, você faz. Vamos, se você falar de uma vez vai ser muito mais fácil pra nós dois. Até pro Dinho, que fica todo inseguro.
– O Dinho? Inseguro com a gente? Aquele idiota, como você diz, tá rindo da minha cara desde que chegou!
– Aí, tá vendo? Se a gente chegar a um acordo, vocês podem até virar amigos!
– Eu? Amigo daquele moleque?
– Você vai ver que ele não é esse monstro que eu falo.
– É... Ele até que é bem bonitinho...
Lia bateu no ombro do namorado, aderindo a uma expressão debochada de incredulidade.
– Olha aqui, ele é meu, você tá me ouvindo?
Vitor riu.
– Sabe que eu acho que a nossa relação tá começando a ficar mais divertida? Não que não fosse boa...
– Era brochante.
– Desculpa...
– Foi nossa culpa, Vitor. Nenhum de nós estava muito interessado.
– Verdade... O que a gente faz agora?
– O que você quer fazer agora?
– Você já está com o Dinho...
– E você está a ponto de perder o Ricardão.
Vitor a encarou confuso.
– Fatinha.
– Ah. Sim, eu estou. – Parou por um momento. – Você contou pra alguém?
– Ninguém sabe. Bom, ninguém soube por mim.
– Ok... A gente pode terminar e não comentar com ninguém...
– Isso eu acho que a gente já fez...
– Ou a gente pode manter a fachada até eu criar coragem.
– Pode, mas o Gil vai desconfiar se a gente não tiver nem brigado.
– O Gil me viu não fazer nada quando o Dinho subiu pro seu quarto ontem.
– O Gil é um empata até pro seu armário? – Lia riu.
– Você não presta!
– Como diria o Dinho, nunca prometi o contrário...
Vitor a abraçou de repente.
– Você como uma namorada foi e é uma ótima amiga, Lia Martins.
– Posso dizer o mesmo. – Sorriu para o agora ex.
Vitor passou a mão por uma mecha que caía sobre o rosto de Lia.
– Obrigado, por tudo. Você me acompanha nessa?
– Pode contar comigo.
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