Esse vai doer
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Meio triste, inspirada nas musiquinhas depressivas do TikTok
Boa leitura!
— Nico! Abre essa porta, não adianta bancar a egípcia que eu sei que você está aí! — diz Will, batendo insistentemente na porta do chalé de Hades.
Nico não sabia o que significava “bancar a egípcia”, mas teve o bom senso de não discutir com o loiro.
— Já vou, Solace! – Responde, em tom de reclamação.
O italiano fez o esforço de se levantar da cama e ir em direção a entrada abrindo, por fim, a porta, só para se deparar com a claridade do dia... e do garoto a sua frente. Realmente não sabia o que brilhava mais: o Sol ou o sorriso de Will.
— Bom dia garoto da morte! Você não estava dormindo não é mesmo? Já é quase meio-dia.
— Eu já te falei para não me chamar assim – resmunga Nico, mas deixa-o entrar.
Não demoram 5 minutos para Will ter aberto todas as janelas do chalé e Nico se encolher contra uma cadeira atrás de um dos beliches: o local menos ensolarado possível.
— Mas então, por que você está aqui? – Pergunta ele.
— Ah, só estou fazendo minha visita diária. Sabe, ordens médicas.
— Você é o médico, Will.
— Exatamente. – responde ele, sabendo que venceu a discussão – Falando em médico, eu estava até agora pouco na enfermaria e nossa, como as pessoas desse acampamento se machucam! – ele puxa uma cadeira e senta ao lado de Nico — Às vezes eu me pergunto se eles têm um bom plano médico. Como fazem quando voltam para casa no fim do verão? O SUS ia processar eles por uso não consciente do serviço público... – chacoalha a cabeça — Eu realmente tenho que conversar disso com o Quíron. Até porque, hoje de manhã, sabe o Matheo, aquele campista de Ares? Então, ele apareceu com uma...
E assim Will destrambelhou a contar uma longa história envolvendo uma aposta perdida, morangos e alergia a picada de abelhas, mas Nico não se importava, porque gostava de escutar o amigo falar. E sim, eles eram amigos agora, algo que o moreno não entendia muito como havia acontecido; teve a guerra contra Gaia, ele todo acabado por ter usado poder demais, as ordens médicas e então, quando finalmente estava bem... Will continuou visitando-o em seu chalé.
Nas primeiras vezes Nico ficou desconfiado, achou estranho que alguém tão falante e extrovertido – o total contrário dele – quisesse tanto assim se aproximar. Mas, no fim, aceitou que Will também deveria ter algum parafuso a menos e como Nico achava sua presença mais do que agradável, não se importava com as visitas diárias.
Bem, isso foi uma mentira. Ele se importava sim, e muito, mas nunca deixaria o loiro descobrir. Desde a batalha de Gaia, só teve uma única vez em que Will não apareceu em seu chalé, e ele simplesmente não conseguiu conter o medo de que algo ruim tivesse acontecido ao garoto. Também existia a opção de que Will teria simplesmente esquecido naquele dia (algo bem cabível) de ir até seu chalé, ou... que tivesse enjoado dele. Nico sabia que teria que entender se esse fosse o caso, afinal já estava acostumado, mas gostaria ao menos de ter uma explicação. Pensando agora aquilo foi uma coisa bem boba, afinal era só 1 dia, mas naquele dia, deram 8 horas da noite e nada de Will, Nico se pegou cruzando o caminho até a enfermaria e batendo na porta, ironicamente invertendo suas usuais posições. Um Will confuso – e notavelmente exausto – abriu a porta e, quando viu o mais baixo, soltou um suspiro incrédulo e então o maior sorriso daquela semana – mesmo exausto. Nico entendeu logo que havia sido um dia excepcionalmente cheio na enfermaria e por isso ele não teve chance de sair. Desde então, o garoto já teve que ouvir um milhão de frases do tipo “Di Angelo sentiu minha falta!” por parte de Will, mas não era tão ruim assim.
Ele até passou a ir mais vezes visitar o ensolarado na enfermaria.
A verdade é que a presença de Will era muito boa.
E, não pela primeira vez, se deparou com o quanto ia sentir falta do sorriso quase incandescente do loiro. De suas piadas ruins e de sua risada, e em como uma covinha sempre aparecia quando ele estava rindo de verdade. Em como sentiria falta das “visitas diárias” que sempre melhoravam seu dia e de saber sobre todas as fofocas do acampamento sem nunca perguntar por elas. Sentiria falta até mesmo de Will empurrando um garfo com salada em sua direção na hora do almoço, porque isso o lembrava de que ele não fazia mais as refeições em sua mesa sozinho.
Não adianta mais — concluiu ele, em pensamento – Eu já me apeguei, e vou pagar por isso. Eu sempre pago...
Olhou para os olhos de Will, compostos por um tom de azul semelhante ao do céu em dias com nuvens dispersas, dias calmos. Will passava exatamente a mesma sensação: uma calmaria firme, certa. Quem sabe não tenha sido isso que tanto atraiu Nico no garoto: um pouco de paz em meio a seu mundo caótico. Que logo, logo, ele sabia (nenhum durava muito), voltaria a ser só caos.
Já havia perdido a tempos o rumo da conversa que Will estava tomando, mas repentinamente não podia nem mais ouvir suas palavras. O barulho de seus pensamentos se sobressaiam a qualquer som externo.
E então, veio para ele a lista. Sua tão horrível e temida lista.
Minha mãe, faz tempo, mas doeu.
Meu pai, com aquele cassino, doeu.
Bianca, como Bianca e seu sonho de ser uma Caçadora, doeu.
Percy com Annabeth também doeu, doeu muito.
E então, ele logo teria mais um a acrescentar.
Will. Nossa, esse vai doer.
Ele não tinha mais como manter um sorriso.
— Nico, você está bem? – Perguntou Will, percebendo a mudança no humor do garoto.
— Sim, sim estou – mente ele, balançando a cabeça para ver se consegue esquecer o que estava pensando antes – Eu... Eu vou tomar um ar tá.
Fala e se levanta, saindo atabalhoadamente do chalé e deixando um Will perplexo para trás. Caminha até achar uma árvore não muito visível aos outros campistas, e se senta na grama fofa abaixo dela. Sua cabeça girava.
Ele suspira.
Se prendia tanto a memórias do passado, que não conseguia viver bons momentos no presente. Sabia disso. Mas ainda assim não podia evitar pensar em como ficaria quando esses bons momentos, quando Will, fosse embora, porque ele realmente não sabia se aguentava mais uma vez.
E dessa vez... Dessa vez ia doer tanto.
Nico escuta alguém se aproximando: Will, é claro. Seu esconderijo não fora bom o suficiente para o garoto. Sem coragem de olhar naqueles olhos azuis, ele fecha os próprios e encosta a cabeça na árvore.
— Nico! Finalmente te achei. Você está bem? O que aconteceu? – fala, a voz preocupada.
Nico não consegue dizer “estou bem” dessa vez, então não diz nada.
— Você está se sentindo mal? Eu não lembro de ter te visto viajar nas sombras no último mês... na verdade eu lembro de ter te mandado especificamente não fazer isso.
— Eu não descumpri suas ordens médicas, Solace.
— Acho bom mesmo. – fala o loiro, e então, pela segunda vez naquele dia, senta a seu lado. – Hum... Foi alguma coisa que eu disse? – pergunta, a voz mais receosa.
— Não, não, claro que não! – responde Nico, abrindo os olhos. Eu nem lembro o que você estava dizendo pensa ele, mas não fala isso – Eu só...
Ele não podia dizer que estava preocupado sobre quando Will iria embora; o menino ou iria encorajá-lo a dizer mais, e ele sabia que se começasse não conseguiria parar, ou o acharia doido – o que era bem mais provável.
Mas ele também não tinha outra justificativa para ter saído correndo do chalé...
— Eu só estava lembrando de algumas coisas. – fala, por fim.
Will parece entender.
— Que coisas? – pergunta
— Coisas que eu não quero falar. – diz, fechando um pouco a cara.
— Tudo bem. – responde Will, surpreendendo-o. Ele meio que esperava que o garoto insistisse até ele desembuchar, como acontecia na maior parte das vezes.
– Se.… algum dia, você quiser falar sobre essas coisas, pode me chamar. – completa Will, e coloca uma mão em seu ombro.
O mais baixo não sabe dizer se foi a generosidade da resposta ou a mão quente e reconfortante do garoto que o motivou, mas, sem nem perceber, soltou em um sussurro:
— E se você não estiver mais aqui?
Will parece confuso.
— Mas é claro que eu vou estar aqui. Porque não estaria?
Nico dá de ombros.
— As pessoas não costumam ficar por muito tempo.
Sem nem perceber sua voz saiu embargada. Droga, tudo o que faltava era ele começar a chorar.
— Você está falando da sua irmã? Eu não vou morrer Nico...
— Não, não é só ela, tem vários outros, eu só... Eu só não queria que você entrasse na lista também – confessa, afundando a cabeça entre os braços.
Will fica estagnado por alguns segundos, sem conseguir emitir uma reação. Então era isso o que tanto preocupava Nico? Que ele fosse embora também?
Sem saber o que fazer, o loiro se inclina e o envolve em um abraço. Nico, ainda mais surpreso com o súbito contato físico, tão bom que chegava a ser quase doloroso, passa a soluçar em meio ao choro.
— Eu não vou embora Nico. Eu...
— Não prometa! – balbucia o garoto – Você vai se arrepender.
— De ficar com você? Eu nunca me arrependeria...
Will se levanta somente o suficiente para depositar um leve selar em meio aos fios pretos e bagunçados do mais novo.
— Eu prometo que, dessa vez, não vai doer para você. – e o abraça, até que o conforto levasse o choro embora.
Notas finais
Tudo bem, tudo bem, não vou mendigar nada.
Um bom dia/tarde/noite para você!
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