Esse Nosso Jeito - Perina
2 Capítulo Dois
Notas iniciais
“Mesmo quando tudo der errado, não vou ter mais medo de recomeçar!”.
Um Dia De Cada Vez — Rebeldes
Estaciono o carro em frente à academia e pego minha bolsa, e saio do carro. Camila já abriu a academia e quando entro vejo que as crianças já chegaram e Bernardo está começando sua aula.
– Bom dia, meus lindos. – eu digo, e chego perto da área infantil da academia. As crianças me vêem e vem até mim, e me dão beijinhos.
– Hey tia K, sabia que eu aprendi a agarrar o pescoço do Davi. – Nicole conta pra mim, quando vem me abraçar.
– Que bom, Nicole, mas isso se chama clinchi. E agora vai assistir à aula do mestre, se lembre nada de tia ou tio, é mestre. – eu digo e ela corre de volta para onde a aula está sendo feita.
Continuo andando, e entro no escritório onde Camila está sentada ao telefone, conversando com alguém. Eu me sento na minha mesa, e encosto minha cabeça. Estou esgotada, tenho trabalhado tanto que não sei como ainda estou de pé. Ontem tive que ir a um evento e acabei chegando tarde, fecho os olhos e me lembro de quando eu podia dormir até tarde, o que já faz uns sete anos.
– Bom dia K! – Camila diz, chamando minha atenção. – Pensei que viria mais tarde hoje, já que foi naquele evento beneficente.
– Não posso e você sabe disso, Cami. Eu tinha que vir hoje, já que tem turma nova e eu que dou aula para os adultos e adolescentes.
– Você trabalha demais, e sabe disso. Puxou seu pai. – ela diz e nós sorrimos. – Jade vai chegar hoje, eu vou encontrar ela no aeroporto e trazer ela pra cá.
– Até que fim essa turnê dela acabou, nossa amiga está toda famosa internacionalmente.
– Do que você está falando? Você também é famosa, todos conhecem a grande lutadora Karina Duarte.
– Infelizmente, ou melhor, nem tão infeliz assim, já que isso me deu essa academia. – eu digo, sorrindo de lado. Levanto-me, e pego minha roupa de treino na bolsa. – Vou lá tirar essa roupa, e esse salto, e colocar meu lindo short e ficar descalça.
– É incrível como você não muda, Okay que agora usa saltos, e dificilmente saias, mas quando tem a oportunidade de colocar seu shortinho, você fica radiante.
– Você me conhece, apesar de tudo isso, eu continuo a garota que adora chinelo ou ficar descalça. Esses saltos me matam, mas faz parte da minha vida agora. – eu repondo sorrindo, e saio do escritório. Vou direto para o vestiário, e percebo que alguns dos meus alunos estão chegando. Abrir essa academia de artes marciais aqui em São Paulo foi o que me libertou de uma enorme depressão, já que não posso mais lutar. Há três anos, eu era invencível, qualquer luta que me colocava eu vencia, ganhei treze cinturões e várias medalhas, fiz eventos, participei de programas, até o grande dia que acabou com meu sonho, e eu resolvi inovar e dá um chute diferente, que acabou rompendo o ligamento do meu joelho e eu quase fiquei paraplégica, mas deu tudo certo, eu só não poderia mais lutar profissionalmente. Meu agente resolveu que abrir uma academia, seria o mais próximo da luta pra mim, e eu aceitei, e fico feliz de ter aceitado já que ver essas pessoas aprendendo a lutar é um sentimento maravilhoso. Saio de lá e vejo que minha turma já está quase todos no tatame e prontos para começar.
– Bom dia, povo. – eu falo, Bernardo fica com os pequenos e eu com os jovens, e eu adoro isso. – Vamos começar com o aquecimento, e andem logo, pois vocês sabem que o último dia fácil foi ontem.
Esquerda. Direita. Abaixa. Se esquiva. Chute. Abaixa. Direita. Chute frontal. Girada estratégica. Sem querer eu viro de mau jeito e acabo caindo batendo o joelho esquerdo no chão do tatame.
– KARINA. – escuto o berro da Jade, enquanto meu aluno me ajuda a levantar. – Ai meu Deus, ela machucou de novo?
– Calma, Jade. Foi o esquerdo, o meu joelho direito está intacto. – eu digo sorrindo.
– Não me importo. – ela diz, entrando no tatame com o salto.
– Jade, só pisa descalço no tatame. Sai daqui. – eu digo, tentando a empurrar, mas ela é mais rápida e me abraça.
– Senti sua falta, lutadora. – ela diz, e eu retribuo o abraço. Só que me lembro que estou no meio de uma aula, e minha amiga está de salto em cima do meu tatame.
– Também senti a sua, dançarina. Só que agora você em que sair daqui, pois está estragando meu tatame. – eu meio que a empurro, ela me olha feio mais sai dali. – Eu já vou, vou finalizar a aula.
– Meu Deus, aquela é a Jade Gardel? Ela é tão gostosa. – Murilo uns dos meus alunos diz.
– Murilo se continuar com o papinho vai pagar 100 abdominais. – eu avido, e me viro para Eduardo outro professor aqui e peço que ele termine minha aula.
E vou direto para o escritório e encontro Jade e Camila rindo horrores.
– Sério, tinha que ver, ele ficou todo distraído comigo. Dizendo que faria tudo para me agradar, adoro a fama. – Jade conta.
– Enquanto eu a odeio. – digo, e elas me veem. Eu me sento ao lado a Jade no sofá.
– Eu sei, eu vi uma foto sua num site. Sério que você bateu em um paparazzi? – Jade pergunta e Camila rir.
– Não bati em ninguém, isso é mentira. – eu respondo gemendo. – Estava saindo Bernardo e eu da academia, estávamos rindo e então apareceu esse cara batendo fotos, eu só pedi para ele parar, mas ele riu e saiu correndo. No outro dia, eu estou namorando o Bê e ainda por cima bati num cara.
– Esse com certeza é o pior da fama, esses cara em cima da gente. – Jade reclama.
– Que bom que não sofro com isso, só quando estou com vocês. – Camila fala.
– Senti tanta a falta de vocês duas, e do nosso apartamento. Podemos ir para casa? – Jade pede sorrindo.
– Sim podemos, eu peço para os meninos fecharem. Podem indo na frente, e fazem algo para comer, ou pedem. – eu peço.
– Ta bom, te esperamos. – elas respondem e vão embora.
Assim que fecho tudo na academia com a ajuda do Bernardo, eu entro no carro e vou para casa. Nós moramos num condomínio e temos um apartamento bem grandinho, onde dá pra viver três pessoas sem nenhuma confusão. Assim que estou abrindo a porta eu paro, pois ouço a Jade soluçar.
– ... é difícil, você não tem noção do que senti quando a vi cair, foi horrível. Eu estava naquela luta há três anos, ela estava radiante, e metia golpes em tudo e todos, e foi então que ela deu um chute, e do nada caiu batendo tão forte o joelho que eu juro que escutei, ela ficou no chão gemendo. Eu vi a dor dela, não só a física, a emocional também.
Eu percebo que a Jade está contando sobre o meu acidente e meus olhos formigam, mas não me permito chorar.
– E hoje quando chego a vi caindo, passou tudo lentamente na minha cabeça, me deu medo sabe. A Karina conquistou tanto com sua academia, e fez uma carreira digna, e sempre será lembrada como a lutadora mais jovem do Brasil. Mas mudando de assunto, você disse que tinha algo pra contar.
– Sabe hoje eu vi o Pedro naquele programa Conversando e ele falou da K, indiretamente claro, já que eles fingem que nem se conhecem, mas me lembrei da música Superando que a Flux fez na mesma época do acidente da K, e percebi algo, ele fez para ela. Tive a certeza hoje.
Não sei por que elas resolveram lembrar isso, só sei que não podia ficar ali. Eu não penso e vejo Pedro há anos apesar de saber que ele é famoso com a banda. Fecho a porta devagar e volto para o carro, e procuro a música na internet e a coloco pra tocar, e percebo que mesmo de tão longe, ele sempre me deu forças.
Eu sei que você, é forte e nada vai te parar. Pois o que você nasceu pra fazer, você conseguirá.
Eu só peço que supere, pois superando tudo vai melhorar.
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