Esse Jovem Conde, No Século XXI!
5 Halloween
Notas iniciais
Os três entraram apressadamente na casa de Rachel e se esparramaram no sofá, exaustos pelo ocorrido.
– Que noite! – exclama Rachel.
– Então foram aqueles dois que tentaram te assaltar outra noite? – questiona Peter.
– Isso mesmo. Nunca imaginei que encontraria aqueles dois de novo. – fala Rachel se levantando do sofá e indo ficar de frente com Ciel. – Você foi muito corajoso Ciel! Não imaginava que você inverteria a situação daquela forma! E muito menos que sabia usar uma arma.
– Um homem da minha posição deve saber manejar uma arma – diz Ciel sob o olhar atento dos dois.
– Por um momento achei que você fosse atirar nele de verdade... – diz a garota pesarosa.
Ciel nada responde diante da observação da garota e cruza os braços, pensativo.
– Aqueles dois estavam nos vigiando... Pelo que disseram estavam esperando que aparecêssemos juntos – constata Ciel – Não seria prudente você andar sozinha Rachel. Aqueles dois podem aparecer novamente.
– E o que vou fazer? Preciso ir para a escola e preciso ir trabalhar.
– Peter pode acompanhá-la para a escola como sempre faz. A diferença é que acompanharíamos você ao trabalho – Ciel dá um bocejo – Melhor irmos dormir, foi uma noite muito agitada e amanhã poderemos pensar com clareza.
Rachel concorda e acompanha Peter até a porta.
– Acha que preciso comprar um spray de pimenta? – fala Rachel em tom preocupado.
– Não seria uma má ideia – responde Peter ao se despedir achando graça da pergunta da jovem.
***
De manhã
Rachel assistia as notícias locais na televisão da cozinha enquanto Ciel preparava desajeitadamente um sanduíche com pasta de amendoim.
– Que estranho... Essa reportagem fala de um local próximo ao restaurante que trabalho – fala a garota para o jovem conde enquanto bebia um suco de laranja.
Ciel também ouvia atento a reportagem que se tratava de assassinatos. A polícia estava temendo ser atividade de gangues.
– Mais um motivo para a senhorita não andar mais sozinha.
– Não preciso de guarda-costas, – revida a garota – sei me cuidar muito bem sozinha.
Ciel se aproxima da mesa e senta bem de frente com Rachel a olhando nos olhos – Eu sei que pode se cuidar sozinha, mas me sentiria melhor em fazer isso por você. É o mínimo que posso fazer por tudo o que tem feito por mim. – fala Ciel de maneira franca ao mesmo tempo em que tenta persuadir a garota a acatar sua decisão.
Rachel fica emudecida diante da postura do jovem conde e pondera que é o melhor a fazer. Minutos depois Peter chega para buscar Rachel para irem juntos a escola. Ciel aproveita para continuar vendo a reportagem.
...
Assim seguem os dias com Peter acompanhando-a para a escola (como sempre fazia) e Ciel acompanhando-a no trabalho, a não ser pelo aumento da criminalidade tudo estava na mais perfeita normalidade.
...
– Não acho uma boa ideia – fala Ciel encostado na parede da sala de estar.
– Aqueles dois devem estar na cadeia à uma hora dessas. E não vou deixar de aproveitar minha folga por causa deles! – diz Rachel colocando as mãos na cintura olhando para Peter e Ciel.
– Bom, já se passaram alguns dias e nada daqueles dois... – fala Peter enquanto caminhava na direção de Rachel se posicionando também de frente para Ciel, ficando assim, dois contra um.
Ciel dá um suspiro ao olhar as expressões dos dois. – Façam o que acharem melhor.
– Vamos ao parque de diversões!! – gritam uníssono, já puxando Ciel para fora da casa.
– Vocês já tinham tudo combinado não é?? – esbraveja Ciel sendo praticamente arrastado pelos dois.
Fazia 25 graus em Phoenix, o céu era de um azul perfeito e sem nuvens. Os três aproveitaram bem o dia, bom não exatamente os três, Ciel não quis ir em alguns brinquedos e em outros, por causa de sua aparência infantil, não foi permitida sua entrada.
– Francamente... Foi um dia totalmente perdido – fala Ciel meio emburrado.
– Mesmo? Você parecia estar se divertido também. – diz Rachel enquanto tentava esconder uma risadinha.
– Não seja boba... – responde Ciel virando o rosto enquanto os dois se divertiam com a expressão do garoto.
– Antes de irmos vamos para a barraca de tiro ao alvo! – fala Peter animadamente.
Os dois testavam sua pontaria.
– Você tem uma bela pontaria Ciel. Acertou todos os seus alvos! – fala Peter de maneira desanimada por ter perdido para o garoto.
O dono da barraca se aproxima entregando para Ciel um urso de pelúcia amarelo com uma fita rosa clara, o jovem conde pega o brinquedo e o entrega de presente a Rachel, que o recebe surpresa esboçando um sorriso de satisfação, enquanto Peter apenas observava a cena.
Na manhã seguinte Peter não aparece para ir com Rachel para a escola, a garota liga para a casa de seu amigo, porém ninguém atende.
– Peter não é de se atrasar tanto assim... Bom, terei que ir sozinha.
– Eu posso ir com você. – fala Ciel prontamente.
– Você ir comigo? – questiona a garota – No caso, você ficaria a manhã toda me esperando na escola?
– Por que não? Poderia ficar na biblioteca até o término de suas aulas.
– Não há necessidade disso.
– Vou mesmo assim.
Quando os dois abrem a porta para sair dão de cara com Peter em pé na porta.
– Peter! Achei que não viria mais. Ciel já ia comigo para a escola.
– Desculpe o atraso, tive que resolver uns probleminhas.
– Quais probleminhas?
– Ah, nada sério.
– Bom, então vamos?
Os dois se despedem de Ciel e vão para a escola.
***
Fim de semana
– Amo fim de semana! Pena que parece que as horas passam mais rápido quando a gente mais se diverte... – diz Rachel enquanto passeava com Peter e Ciel em uma cidade fictícia de faroeste.
– Vem cá, quantas folgas você pode ter por mês hein? – pergunta Peter sorrindo para a garota.
– Essas são algumas vantagens de trabalhar com alguém que me conhece desde criança e um dos melhores amigos dos meus pais! – fala Rachel rindo – Mas também sei que não posso abusar da sorte.
– Interessante este local... Mostra como as pessoas viviam aqui neste país tempos atrás.
– Sabia que acharia legal, isto é, “interessante”. – fala Rachel tentando imitar o jeito de falar de Ciel.
Ciel olhava com curiosidade o ambiente criado representando as ruas de outra época, com seus saloons, passeios de diligência e chegaram a ver um duelo de pistoleiros. Horas depois...
– Aqui em Phoenix é sempre tão quente! – diz Ciel enquanto passa um lenço que trazia consigo na testa, retirando o suor.
– É, esta cidade foi construída em pleno deserto. O deserto de Sonora. Aqui é uma das regiões mais secas do país. – Rachel explica enquanto olha alguns suvenires – Mas adoro esse calor e adoro essa cidade. – disse por fim dando um largo sorriso.
Ciel ouvia cada palavra atentamente, achava interessante o jeito descuidado e às vezes infantil de Rachel, sua espontaneidade era evidente assim como, algumas vezes, sua imprudência. Rachel já havia conversado com Ciel sobre as dificuldades que passou logo depois da morte de seus pais, sobre os desentendimentos com sua única parenta e tudo o mais, mesmo que este nunca tenha entrado em detalhes sobre a morte de seus pais, a não ser sobre o incêndio criminoso que levara a vida dos dois. Mesmo assim a garota pareceu encontrar em Ciel um igual em sentimentos de tristeza sobre a falta de uma família. Em seu intimo, à sua maneira, sentia até certa admiração pela garota, por ela ter passado por um grande trauma, ter ficado sozinha e não se deixar levar pela amargura, e muito menos perder seu sorriso franco.
Um homem de descendência indígena aparentando ter mais de 60 anos passa e esbarra em Ciel...
– Você não deveria estar aqui! É um erro você estar aqui... É um erro você estar aqui... Problemas, muitos problemas... Isso é ruim, muito ruim...
O homem olhava para Ciel enquanto dizia alto essas palavras, chamando a atenção de todos no local. O velho índio subitamente arranca o tapa-olho do garoto que o olha atônito sem conseguir reagir por tal situação, a não ser por cobrir logo em seguida seu olho com a marca do contrato demoníaco.
– Essa marca... Você não deveria estar aqui... Isso está errado...
Peter se coloca na frente de Ciel e encara o homem que se cala desconfiado e vai embora. Ciel não entende se é por causa do porte atlético de Peter ou se foi o olhar de poucos amigos que este dera ao idoso que o fez ir embora.
– Mas o que foi isso? – fala a garota sem entender o que estava acontecendo – O que ele quis dizer com isso?
– Também gostaria de saber... – fala o jovem conde enquanto acompanha com o olhar o estranho homem se distanciando.
Ciel deu alguns passos na direção que o velho índio ia, mas para sua surpresa Peter o segurou firme. Peter o fitava sem expressão alguma e logo em seguida esboçou um leve sorriso.
– Não vale a pena, Ciel. Ele é um velho maluco!
O jovem conde, visivelmente irritado por ter sido impedido, livra seu braço do aperto firme de Peter indo buscar o tapa-olho que o idoso jogou no chão, colocando-o em seguida. Olha seriamente para os dois em sua frente.
– Ele parecia saber alguma coisa! Não se meta em minhas decisões! Não ouse me impedir novamente. – fala o conde de maneira impetuosa para Peter, se afastando em seguida.
– Tão orgulhoso... – Peter resmunga baixinho, praticamente inaudível até mesmo para Rachel que estava próxima, atônita com a cena.
Dias depois o clima ainda não era dos melhores entre os dois.
– Ciel... Ele não fez por mal. Vocês estavam se dando tão bem – fala Rachel se referindo ao acontecido dias antes.
– Eu não vou pedir desculpas. O atrevido foi ele em se meter onde não foi chamado.
– Lembre-se que as roupas que você usa são dele e quantos favores ele lhe fez... Ciel engoliu em seco
– Eu sei! Precisa me lembrar dessa vergonha?!
– Você precisa aprender a ser um pouco mais gentil. Não está mais no século XIX onde as pessoas faziam todas as suas vontades por causa do seu título. – pondera a garota.
Aquilo acertou em cheio o orgulho do jovem conde que se calou sem ter uma resposta plausível. Em seguida, como todas as manhãs, Peter chega para ir com Rachel para a escola.
– Ainda chateado comigo, Ciel?
– Não mais como antes, você tem uma boa advogada... – responde Ciel com uma expressão mais calma.
– Em todo o caso me desculpe se pareceu que interferi, não queria te impedir de nada.
...
Do lado de fora enquanto os dois iam para ponto de ônibus escolar
– Olha, Peter, aquilo foi realmente desagradável da parte dele. Mas não acho que tenha sido pessoal. Ele também não é nada popular com os vizinhos. Ele é assim com todos...
– Menos com você.
– Ele até que fala comigo, às vezes, mas nunca sobre algo mais pessoal. Acho que acabei contando minha vida inteira pra ele... – ela esboça um leve sorriso. – Ele não é de falar muito. É como se houvesse um muro em sua volta... O que é uma pena, porque por trás desse muro, ele parece ser infeliz.
Peter analisava as expressões de Rachel ao se referir a Ciel.
– Estou enganado ou você está gostando dele? – questiona Peter olhando para a garota pelo canto do olho.
– Eh? ... De modo algum!? — responde ela ruborizada – Pelo amor de Deus! Ele é mais novo do que eu!
– Tecnicamente ele é bem mais velho que você.
– Tecnicamente... Vamos logo, senão vamos perder o ônibus! – fala a garota apressando os passos deixando Peter para trás com um olhar indecifrável.
...
Na escola Rachel não consegue se concentrar, pois fica pensando sobre a conversa que teve com Peter logo cedo...
– Eu não posso estar gostando daquele fedelho mimado!! – esbraveja Rachel, ficando de pé na sala no meio da aula.
– Senhorita Collins, quer compartilhar mais alguma informação com a turma? – pergunta o professor de matemática no meio das risadas provocadas na sala por tal declaração.
– Não senhor... – responde a garota sentando-se sem jeito em sua cadeira – Me desculpe...
– Ótimo! – disse o professor dando continuidade a aula – Continuando turma! Dizia eu, que em aritmética...
***
Dia das bruxas
– Quer dizer que todos se fantasiam pelo país e saem para comemorar essa data? – diz Ciel olhando com estranhamento as roupas que Peter usava.
– Isso mesmo! – fala Peter que estava usando uma fantasia de vampiro com uma longa capa preta forrada com cetim vermelho, o rosto do rapaz de pele alva estava mais pálido do que o normal e seus olhos verdes destacavam-se por estarem bem marcados, usava calça e sapatos pretos, uma blusa branca de mangas compridas e luvas também da mesma cor, seu tórax atlético ficou perfeitamente ajustado em um colete preto o que destacava seu corpo juvenil aos poucos definido pela prática de esportes. – Na sua época também tinha festas assim, não é? Já li a respeito de grandes festas a fantasia no século XIX.
– Sim, esses bailes eram promovidos pela nobreza. Fui a algumas, não aprecio muito essas festas. – responde Ciel, que estava usando uma fantasia de pirata, pois segundo Rachel combinava muito bem com o seu tapa-olho. – Mas não tinha isso de “gostosuras ou travessuras”.

Ambos esperavam Rachel terminar de se arrumar para saírem. Quando finalmente ela começou a descer a escada os dois se posicionaram de pé próximo ao último degrau. Rachel usava uma fantasia de bruxa deveras sensual à visão do conde, que consistia em um vestido preto justo ao corpo até a cintura e uma saia curta com frufrus brancos embaixo para dar volume. Seus longos cabelos lisos e bem cuidados agora desciam em uma suave cascata de cachos negros pousando suavemente em seus ombros alvos expostos, usava também uma blusa roxinha o que destacando a pele macia e bem cuidada próxima do busto juvenil em um decote singelo, suas pernas bem torneadas ficaram destacadas por um par de meias com listras horizontais brancas e roxas, usava por fim um par de sapatos pretos de salto bem envernizado.
– Você está linda. – o jovem conde ergue a mão para a garota que a segura e desce os últimos degraus.
– Obrigada... – responde a jovem lisonjeada.
– Está muito bonita mesmo Rachel! – fala Peter entusiasmado – Vamos, o táxi já chegou!
Os três foram a uma festa do dia das bruxas promovida pela escola de Rachel e Peter. A entrada para a escola estava repleta de esqueletos e de abóboras com caras horrendas e com velas dentro dando um ar fantasmagórico; algumas salas foram organizadas de modo que cada uma representava cenas horríveis na tentativa de assustar seus visitantes; e no grande salão principal da festa tinha algumas mesas espalhadas, umas com toalhas pretas e outras com toalhas laranjas, teias de aranha e morcegos espalhados pelo teto, os adolescentes com fantasias diversas desde cômicas a assustadoras, dançavam ao som de temas de filmes de terror embaixo de um grande jogo de luzes.
Ciel ficou meio boquiaberto com o lugar, nenhum baile à fantasia que participou parecia nem de longe com aquela cena que ele presenciava. Rachel entrelaçou seus braços ao de Ciel e Peter, ficando assim um de cada lado dela e adentraram a festa.
A festa estava mesmo muito boa. Moças e rapazes dançavam enquanto alguns adultos também fantasiados ficavam de olho para nada sair errado, alguns estavam sentados comendo, outros em pé bebendo ponche e conversando animadamente. À medida que Peter e Rachel entravam no grande salão foram cercados e em seguida choveram elogios para os dois, sobre a fantasia, o quanto estavam bonitos e tantos risinhos e olhares indiscretos que poderiam direcionar. Ciel estava meio que “preso” ao braço de Rachel que não largava dele. Algumas garotas até perguntaram sobre quem era a pequena figura os acompanhando, mas o clima da festa era de diversão e não para tantos questionamentos. Peter e Rachel eram bastante requisitados na festa, garotas que vinham chamar Peter para dançar, rapazes que procuravam Rachel e desandavam elogios para ela. Ciel no meio desse turbilhão de hormônios ferozes estava quieto e calmo, não era de dar importância a trivialidades. Só ficava surpreso o quanto as formalidades não existiam, tentava se acostumar a esse clima informal, mas ainda tinha certas dificuldades.
As horas foram passando, Rachel ficou a maior parte do tempo junto a Ciel, saiu para dançar algumas vezes, porém acabava voltando logo. Não queria deixar ele sozinho por muito tempo.
– Onde está Peter? – pergunta o jovem conde ao notar que o rapaz não estava com eles a um bom tempo.
– Deve estar dançando com alguma das fãs dele. – ironiza a jovem.
Horas depois, Rachel finalmente chamou Ciel para dançar.
– Bom, não sei dançar esses ritmos (na verdade nunca foi um bom dançarino)... – fala Ciel tentando desencorajar a moça.
– Sem desculpas, essas próximas músicas serão lentas – Rachel levou Ciel até o meio do salão e ajudou o garoto a colocar a mão na cintura dela e começaram a dançar.
Ciel estava meio desconfortável, a garota era mais alta que ele e seus saltos só a deixavam maior. O jovem percebeu que alguns dos olhares se direcionavam a eles.
– Não se preocupe com o que os outros pensam. Aproveite a festa, aproveite a dança. – diz a garota olhando para Ciel – Aos poucos você está se adaptando muito bem aqui.
– Graças a sua ajuda e a de Peter também, serei eternamente grato a vocês. – fala o garoto com uma expressão sincera.
Rachel aproximou mais o corpo ao de Ciel, o garoto pôde sentir a suavidade de suas formas e o agradável perfume dos seus cabelos, o que o fez relaxar um pouco mais devido à ternura de seu abraço algo que há muito tempo ele não sentia e, permaneceram dançando assim por mais umas duas a três músicas...
***
Na estrada em direção a Phoenix, um Chevy Impala SS 1967 preto se aproximava ao som de carry on my wayward son. Dois irmãos, dois exímios caçadores, rumavam em direção àquela escaldante cidade para mais um caso a ser resolvido. No banco traseiro do carro estava um jornal do dia com a manchete sobre a onda crescente de homicídios inexplicáveis na sede do Condado de Maricopa
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