Essas pequenas coisas
1 Essas pequenas coisas
Notas iniciais
bem, eu tive a ideia pro plot dessa one às 7 da manhã, quando eu não conseguia dormir. como eu tô de férias & desocupado, resolvi escrever ♥
assim, eu tentei ao máximo retratar certinho a depressão e a fobia social. eu espero não ter feito nada de errado. qualquer coisa vocês me avisam, ok? aí eu conserto. já peço desculpas adiantado, inclusive
boa leitura ♥ tô ansioso pra saber a opinião de vocês sobre essa one
abraços ♥
Tinha se acostumado, ao longo daquelas duas semanas, a receber uma mensagem de Nico perguntando se havia tomado os remédios e se estava tudo bem. Então, quando seu celular vibrou naquela noite, no mesmo horário de sempre, poderia apostar que era isso.
Will havia passado um início de mês meio complicado, mas graças aos deuses novembro já estava acabando. A primeira semana, especialmente, foi terrível, quando se deu conta de que aquelas pílulas não estavam mais fazendo o efeito que deveriam. Passou dois dias sem tomar banho. Will, conhecido por tomar até três banhos por dia. É claro que sua mãe notou, então Will teve uma consulta com a psiquiatra antes do previsto.
Seus remédios foram trocados por novos. Agora, ele já não ficava horas encarando o teto, sentindo aquele vazio tenebroso dentro do próprio peito, se perguntando se era mesmo necessário se alimentar todos os dias.
Então, é claro que Nico se preocupou. Ele sempre se preocupava, mesmo que na maior parte das vezes não manifestasse da forma como qualquer outra pessoa manifestaria, porque é de Nico di Angelo que estamos falando.
Por duas semanas, sem esquecer um dia sequer, Nico perguntou sobre os remédios. Era um assunto recorrente entre os dois, a depressão. A fobia social também, mas Will sentia que Nico ainda não estava cem por cento confortável em falar sobre isso, então, quando falavam disso, era mais sutil. Talvez porque isso sempre levava à questão do quê causou a fobia em Nico, o que era algo horrível de se lembrar.
Naquela noite, Nico enviou uma mensagem para Will, mas não da forma esperada.
Na tela do celular, a frase acabei de vomitar meu jantar foi o suficiente para deixar Will angustiado. Não é que não fosse algo comum. Era até demais. Inclusive, talvez o principal fator de Nico ser tão magro. Quando ficava nervoso demais, ele começava a tremer descontroladamente e vomitava. Will já tinha presenciado aquilo algumas vezes. Não era nada bonito.
Antes, porém, que Will pudesse perguntar o motivo, Nico respondeu.
my angel ♡: é a segunda vez hoje
my angel ♡: eu tenho um trabalho de história pra apresentar quinta. na frente da sala inteira. por favor me mate.
Will trincou o maxilar. Quinta-feira seria dali há dois dias. Nico sempre ficava especialmente nervoso em ter de falar na frente de muitas pessoas. Se ele já estava assim, como seria no dia da apresentação?
A pior coisa sobre uma doença é não poder fazer nada para ajudar.
Will: Você é ótimo em história. Vai se sair muito bem, eu tenho certeza
my angel ♡: mentiroso
my angel ♡: tô sentado no chão do banheiro. acho que o vaso sanitário é oficialmente meu melhor amigo
Will: Tome um remédio pra enjoo
Will: E não esqueça de comer algo. Se alimente direito
Will: Você pode faltar na aula no dia da apresentação, se tá tão nervoso assim
Will: Aposto que você nem precisa de nota
Will: Ou
Will: Não tem como você apresentar só para o professor?
my angel ♡: eu não sei
my angel ♡: ahhhh
my angel ♡: tomou os remédios?
my angel ♡: tá tudo ok?
Will: Yup! ♡
Will: E você?
my angel ♡: bem
my angel ♡: eu fui na psicóloga hoje...
Will: E... ?
Will: Nico?
Will sentou-se no sofá da sala. Estava assistindo qualquer coisa na TV, sozinho. Poderia muito bem ligar para Nico, mas sabia como coisas inusitadas assim envolvendo interação social o deixavam nervoso. É por isso que nunca ligava, ou o chamava para sair sem, no mínimo, cinco dias de antecedência.
Will: Nico?
Will: O que aconteceu?
Ficou girando o celular entre os dedos, esperando ele vibrar logo com uma resposta.
Ela chegou exatos quatro minutos depois.
my angel ♡: você quer transar?
my angel ♡: comigo
Will quase deixou o celular cair no chão. Aquilo não poderia ser mais inesperado. É claro que ele queria, meu Deus, mas havia tanta coisa no meio, tanta coisa. Tanto pela parte de Nico quanto pela parte de Will.
Will: Você quer?
my angel ♡: você não me respondeu
Will: Nem você
my angel ♡: não
my angel ♡: me desculpa
my angel ♡: eu não consigo, não ainda
my angel ♡: desculpa
Will: Você não precisa pedir desculpas por nada, meu anjinho
Will: Se você não quer, eu não quero
Will: Não fique pensando nisso bebê
Will: Sério
Will: Você tá bem mesmo? De onde surgiu isso?
my angel ♡: que tipo de pessoa namora por três meses
my angel ♡: e sequer beija na boca?
Will: A gente?
Will: E isso não é verdade
Will: Teve aquele dia em que eu te pedi em namoro
Will: E depois naquele feriado
my angel ♡: eu não sei se isso conta de verdade
A maioria das pessoas não contaria mesmo, mas Will gostaria que sim.
No dia em que o pediu em namoro, tinha plena consciência de como seria tudo. Ele pediu se poderia abraçar Nico — porque precisava pedir, precisava ser consensual e Nico deveria saber que nada aconteceria a não ser se ele quisesse, mesmo que um simples abraço. Ainda com três meses de namoro, Will pedia se poderia abraça-lo. Na maioria das vezes recebia um sim, mas havia alguns nãos também. É assim que sabia se Nico estava tendo dias difíceis. E era nesses dias em especial que deveria respeitar ainda mais os limites dele.
Gostaria que as pessoas entendessem aquilo. Elas não podem simplesmente julgar Nico por não ter uma reação considerada normal quando ele é tocado por qualquer um, não depois do que houve.
Saúde mental não deveria ser tratada como uma piada, ou algo de menos valor do que a saúde física.
Will aprendeu isso da pior forma possível: tendo um dos transtornos mentais mais comum da atualidade e que ainda assim é tratado da forma errada pela maioria.
Assim, naquela tarde em que pediu para Nico se poderia abraça-lo, ele soube que um sim significava muita coisa. Ele soube, porque eles já se conheciam há quase um ano. Porque frequentavam o mesmo grupo de apoio quase toda terça-feira e porque há seis meses não havia um único dia em que o nome de Nico não estava no topo da lista de contatos de seu celular.
O beijo veio antes do pedido. Quando o vento balançava os cabelos dos dois e Nico estava nos braços de Will, seus rostos ficaram incrivelmente próximos. Seus corpos se afastaram minimamente segundos depois. A mão de Nico procurou pela mão de Will, os olhos azuis encarando os olhos castanhos. Will sentiu que não haveria nada que pudesse os deixar mais íntimo do que aquilo. Ele queria perguntar há dias, queria mesmo, só não sabia como. Ali estava a oportunidade ideal. Will não ia se aproximar mais, porque achava que não deveria. Nico é quem se aproximou, colando seus lábios por dois segundos, no máximo.
Revivendo a memória, Will tinha quase certeza de que Nico se arrependeu de fazer aquilo instantes depois, porque seus olhos ficaram absurdamente assustados, mas Will tirou o foco daquilo, fazendo o pedido logo em seguida.
Demorou três dias para que Nico desse um sim definitivo. Dizia que não entendia porquê é que Will queria namorar com ele. Will perguntava porque é que não iria querer.
Depois disso, no mês seguinte, numa noite, na frente da porta da casa de Nico, eles ficaram próximos daquela forma novamente.
Lembrava de que os dois estavam rindo sobre algo segundos antes de Nico segurar o rosto de Will com as duas mãos e o olhar nos olhos. Ele simplesmente não queria se despedir de Nico, então ficaram conversando por uma meia hora ali, na varanda.
Quando Nico uniu seus lábios pela primeira vez, Will colocou as mãos nos bolsos, porque não sabia exatamente qual era o limite naquele momento. Depois, suas mãos estavam na cintura dele, apenas se apoiando.
Foi uma sequência de selinhos rápidos e alguns demorados, narizes se encostando, respiração lentas e alguns sorrisos.
Para Will, aquilo definitivamente contava. E muito. Eram alguns de seus momentos favoritos com Nico, mas havia muito mais.
Um namoro não deveria se resumir à sexo.
Pra ele, estava tudo bem. Gostava quando os dois assistiam à um filme ou série juntos e Nico apoiava a cabeça em seu ombro, ou quando Nico prestava atenção quando Will falava por horas e horas sobre veganismo e exploração animal, ou quando, juntos, criavam mil e uma teorias para Donnie Darko. Em especial, amava se sentir confortável perto dele. O suficiente para falar sobre tudo. Bem, quase tudo.
Havia alguns demônios dentro de Will que eram compartilhados apenas com Olívia, a psiquiatra. Como as várias cicatrizes em suas coxas — e havia um medo secreto de que Nico as descobrisse —, ou todas as vezes em que cobriu o espelho com um cobertor porque não aguentava olhar para o próprio reflexo.
Will havia se acostumado a tentar se prender nas pequenas coisas que o faziam se sentir grato por estar vivo: aquele chá incrível que sua mãe sabe fazer, as tardes de sol em que seu pai o leva à praia, o som da risada de Nico quando os dois estão sozinhos, os filmes da Marvel que se completam, as aulas de biologia com sua professora favorita, o sorvete vegano que aprendeu a fazer.
Eram essas pequenas e constantes coisas que o mantinha ali, estável, ou algo perto disso, porque ele nunca quis morrer, mesmo quando ficou embaixo da água mais tempo do que deveria. Ele só queria que aquele buraco dentro dele fosse preenchido. Agora, os remédios ajudavam. O resto todo também. A compreensão, em especial. Se sentia preenchido, na maior parte do tempo.
Sua vida era uma constante sequência de merdas, com algumas coisas boas no meio. Se perguntava se com Nico também era assim.
Queria ser uma dessas coisas boas na vida de Nico.
Foi por isso que, naquela noite, Will passou quarenta minutos conversando com Nico sobre namoros sem beijos serem tão válidos quanto os com beijos.
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