Essa Noite Para Sempre

1 Essa Noite Para Sempre


Notas iniciais
— Combo de inspirações escolhido foi o #1 — MÚSICA: ‘tis the damn season - Taylor Swift. CARACTERÍSTICA DE PERSONAGEM: usa um amuleto. FRASE: "Então você seduziu seu marido louco para ser seduzido." FOTO: mulher e homem brancos em frente a uma árvore de Natal branca com enfeites dourados, mais alta que ambos, com um grande lustre de cristal no teto. O homem está de terno e beija no rosto a mulher, que se inclina para trás, usando um vestido acinzentado de manga comprida e costas nuas. Veja a foto em: pin.it/7KLkCRqEA

Pela janela do Uber eu a vejo, contraste e saturação baixos. Não tem luzinha de Natal nos postes, os enfeites nas casas são tímidos, não tem pinheiro com bolas vermelhas. Só chuva fina e vastidão verde e marrom no horizonte. Essa é Forks. A nem tão boa, mas velha Forks.

Apesar da chatice da paisagem, as pessoas que eu mais amo e mais detesto estão aqui, e já são doze anos da mesma sensação ao voltar. Realmente, é algo a se notar sobre esse fim de mundo.

Minha mãe me recebe na sala de casa com beijos, abraço apertado, cheiro de baunilha dos cookies no forno, e eu me derreto nela por um instante antes de enfrentar o próximo abraço. Meu pai é rápido, porém firme, e diferente da mamãe, aperta com vontade de me prender aqui pra sempre. Eu me afasto primeiro pra conseguir respirar.

— Como foi de viagem? — mamãe pergunta, acariciando meu cabelo.

— Tranquilo. Nada de diferente. — Eu vejo meu pai colocando seu cinturão com aquela maldita arma que eu odeio desde criança. Um misto de alívio com decepção me atravessa. Nem cinco minutos de mim aqui, e ele já escapava para o trabalho. — Já vai, pai?

— Você demorou. Estão me esperando pro plantão. — É um homem de poucas palavras. Comigo, então, quase nenhuma. Doze anos disso. Doze anos. — Até amanhã.

Ele se despede da esposa com um selinho na boca, e pra mim um beijo na testa. Minha mãe me percebe atordoada, e tenta suprir a falta de tato dele quando sai pela porta. Me oferece os cookies, leite, afeto. Sinto vontade de chorar pelo meu pai e, de repente, penso que seria ótimo se a atriz maluca pra quem trabalho tivesse alguma crise natalina pra eu gerenciar. Mas quem me procura no celular naquele momento não é Amy.

E aí, chegou?

Meu coração dá um saltito quando leio a mensagem, eu tento não sorrir muito. Depois da mamãe, era ele quem eu mais sentia falta, mas ninguém podia saber disso, senão não me deixariam em paz.

Já. Lanchando com minha mãe.

Se arruma, vamos passar aí daqui a pouco.

Pra quê?

Surpresa.

Que surpresa, Edward?

Surpresa é surpresa, ué.

Olha lá o que vc tá inventando, hein.

Confia.

— É Edward? — Minha mãe pergunta, beliscando farelos de cookie na louça da vovó.

— Aham.

— Hm. — Ela dá um sorrisinho que já me faz querer me esconder embaixo dessa mesa.

— Que foi?

— Nada. Você não muda mesmo...

Ao invés de perguntar o que ela queria dizer com aquilo, eu me levanto avisando que o pessoal iria passar aqui mais tarde. Ela não se opõe, ao contrário, incentiva, pois sabe como eu sinto saudades dos meus amigos. Aproveito pra subir e tomar um banho relaxante, troco de roupa no meu antigo quarto (agora transformado em quarto de costura da mamãe), e por hábito escolho um belo conjunto de calcinha e sutiã pretos de renda, coisa que aprendi em Los Angeles. Nunca se sabe, né?

São sete e meia quando meu celular recebe nova mensagem, mas nem precisava, pois eu ouço o ronco da caminhonete de Emmett e Rose lá fora. Me despeço da minha mãe com pena, mas aviso que não vou demorar.

— Pode demorar o tempo que for, minha filha. A gente tem uma semana pra matar a saudade.

Eu poderia chorar com o tanto que minha mãe é generosa e atenta a minha felicidade, mas eu apenas agradeço a Deus por ser filha dela, e lhe dou um beijo na bochecha, botando meu trench coat preto e grosso. Dispenso as luvas, pois está só frio e não há previsão de neve no fim desse ano. As mudanças climáticas realmente chegaram até Forks.

Assim que fecho a porta, meu foco vai pras janelas abertas da picape e a traseira. Eu procuro por ele, mas não o vejo.

— Ihh, que chique — eu ouço Alice.

— Olha quem fala, vocês estão todos arrumados também — replico enquanto meus amigos saltam do veículo pra me abraçar. Não sei o que no meu rosto denuncia a minha decepção e dúvida, mas Rose percebe.

— Calma, a gente já vai pegar Edward — ela diz, me dando um beijinho na bochecha. — Ele ficou de comprar um negócio.

— E depois?

— Pro Next Door. — Jasper me abraça e menciona o bar onde sempre vamos em Port Angeles. Eu murcho na hora.

— Ah.

— É que hoje tem uma festinha especial — Emmett avisa, sorrindo e me abraçando. Ele joga as chaves da picape pra mim, eu pego no ar. Meu amigo me dá, pois sabe o quanto eu amo dirigir na estrada daqui, coisa que em Los Angeles é impossível, o trânsito é uma merda. E também porque eu posso ter implorado pra dirigir, mais cedo, enquanto estava ainda no voo.

— Tá, mas quem vai dirigir na volta? Eu quero beber.

— Deixa comigo — ele diz.

Nós entramos no carro, eu vejo os quatro se reordenando. Rose e Emm vão para o banco traseiro, enquanto eu fico sozinha na frente, e Jasper e Alice, o casal não-casal, fica no bagageiro descoberto. Na parte aberta mesmo, porque é assim que sempre andamos, em bando, desde que Em tirou a carteira aos 16 anos. Só o que mudou foi o modelo do carro, agora uma Ram 3500 de quatro portas que meu casal de amigos aventureiros e sem filhos carrega pelo país todo saindo de Seattle, onde moram agora.

Eu não falo nada, mas aquele lugar vago do meu lado a ser preenchido deixa meu peito apertado, meu estômago cheio de arrepios. Cinco minutos depois, estaciono entre a Igreja Metodista e a nossa antiga escola de ensino médio. Nas duas mãos, ele carrega uma sacola grande da loja de aparatos esportivos do outro lado da rua. Eu não entendo nada, mas assim que eu paro, salto do carro e vou direto abraçá-lo.

— Que saudade! — eu digo, mal olhando-o e já envolvendo com meu abraço, e Edward solta a sacola pra reciprocar. Ouço o pessoal rindo baixinho, e da vidraça da igreja vejo Edward mostrar o dedo do meio pra eles. Eu sorrio, me afastando. — Que foi?

— Nada não — responde, desviando o rosto pro chão, mas eu pego um pouco de rubor nas suas bochechas, o que me deixa ainda mais intrigada. — Como você tá? — meu melhor amigo de adolescência pergunta. Como ele conseguia ficar mais bonito a cada ano, eu não sei. Mas ele costuma falar que eu estou mais bonita também, então só me resta acreditar que o tempo fez bem a nós dois.

— Com fome. Que isso aí?

— Presentes. Aliás, vocês estão me devendo duzentos dólares — ele fala para os amigos.

— Quê? — Eu só rio, voltando à picape, e Edward sobe para sentar ao meu lado.

— Mão de vaca, você faz isso em um dia com seus investimentos doidos — Emmett argumenta.

— É pra minha velhice, não pra sustentar as loucuras de vocês.

— Dá pra me dizer de uma vez pra onde a gente tá indo? — Eu dou risada, muito, muito confusa.

— Você é tão fraca, não aguenta uma surpresinha — Alice diz lá de trás, com a cara na janelinha que dá pro banco traseiro.

— Só dou partida nessa picape se eu souber porque estamos indo super arrumados e com presentes pro bendito Next Door.

— Olha o drama — Rose fala. É a minha vez de mostrar o dedo do meio. — Tá bom, a gente tá indo pra festa de trinta anos da Tanya.

— Tanya? A Denali? — Eles fazem que sim com a cabeça, e eu olho pra Edward, que confirma. — Gente, eu não falo com essa mulher há uns dez anos. Por que tô indo num aniversário dela?

— Eu e Emmett fomos convidados, mas como já tínhamos marcado com vocês hoje, eu convenci todo mundo a ir. O melhor dos dois mundos, yay! — Ela comemora nem um pouco animada. A verdade é que apenas Rose continua amiga da ex-rainha do baile. Mesmo assim, só pra agradar, me vi dirigindo por 40 minutos pela estrada que liga uma cidade a outra numa velocidade que nunca seria possível em Los Angeles, ao menos não dentro da cidade.

O Next Door parece como sempre, o barzinho mais badalado de Port Angeles, quiçá da região, que seria um bar qualquer num bairro menos abastado de L.A. — e eu realmente preciso parar de comparar as cidades, mas é sempre assim nos primeiros três dias. No final da semana eu já esqueço como é viver numa megalópole, até voltar e começar tudo de novo.

Assim que estaciono, Edward me entrega um pacote de algo que eu nem sei o que é, mas agora faz todo sentido o porquê de ele ter sido o escolhido a comprar presentes.

— Nosso nome tá na lista? — Eu vejo um segurança na porta checando as pessoas.

— Não. Mas Rose vai fazer a mágica dela — Edward responde, enquanto a doida vai na frente com Em, atravessando a rua rapidinho de salto alto até o bar. Nem cinco minutos depois, ela assobia pra gente atravessar.

— O que você fez? — sussurro no ouvido dela. — Não me diz que subornou o cara.

— Nada, só falei que vocês são amigos de longa data que estão pela cidade e eu trouxe pra fazer uma surpresa a Tanya.

— Isso aí não é muito convincente, não.

— O que eu posso fazer? O diferencial é meu charme.

— Ela ajustou o decote, foi isso — Emmett resmunga. Eu dou risada da sua cara de bunda.

— Rose! — Nós ouvimos uma voz feminina chamar assim que entramos no bar com música alta, e ela vai em direção a moça de vestido midi azul bebê, com uma saia armada e um decote coração ousado. Parece uma perfeita esposa dos anos 60, mas muito sexy.

— Amiga! Como você tá linda! — Rose diz, e é verdade. Não demora muito pra aniversariante nos notar parados feito dois de paus ali atrás da loira. Em especial um de nós.

— Edward?

— Como vai, Tanya? Feliz aniversário. — Ele entrega o presente, e de repente todos nós o copiamos. A mulher fica até sem mão pra carregar tanta coisa.

— Eu trouxe o pessoal, você não se incomoda, né? — Rose diz, e eu só consigo pensar que bom, já estávamos aqui, a coitada da Tanya nem tinha como dizer não. Rosalie tem cada ideia.

— Claro que não, fiquem à vontade. Quando a hostess falou que tinha gente fora da lista querendo entrar, eu até fiquei com medo, mas ainda bem que são vocês.

Rose começa a conversar com ela, enquanto ajuda a carregar os presentes. Explica o que são, pois aparentemente a aniversariante é viciada em esportes, além de ser uma musa fitness da internet, que eu me lembre. Elas riem de alguma coisa que Emmett falou, jogando a cabeça pra trás. Até que lembram da nossa presença.

— Podem sentar, gente. A comida é por minha conta, a bebida é com vocês, ok? — Ela é toda sorrisos enquanto nos guia até uma mesa livre.

— Desde quando é tão simpática assim? — Alice pergunta a Edward, cochichando entre nós.

— Não sei. Realmente — ele responde.

— Shh — eu brigo com os irmãos pra eles pararem de falar antes que Tanya ouça e nos expulse. Estamos velhos demais pra isso.

A noite até que começa divertida. A música do DJ é boa e dá vontade de dançar, embora ninguém da nossa mesa ouse levantar pra não chamar muita atenção. Vemos uns rostos conhecidos de Forks, outros nem tanto. Edward está sentado ao meu lado à mesa, e eu quero tanto perguntar o que ele tá pensando enquanto picota com as mãos um porta-copos de papel, mas não falo nada.

Do outro lado do salão, de repente, eu enxergo Tanya conversando com um cara musculoso, maior do que Emmett, e algo na sua postura me mete medo por ela. Vejo quando ele pega em seu braço e ela se solta, fala qualquer coisa e depois vai embora arrumando os cabelos.

Não faço ideia do que acabo de presenciar, então pergunto a Rosalie quem era.

— É Felix, o namorado novo dela.

— Ele é meio... estranho.

— É sim. Eu já falei com ela, mas ela não me ouve.

Uma empatia feminina surge, eu me sinto mal por Tanya, que eu nem conhecia, mas já conseguia saber algumas coisas a respeito. Meu corpo não relaxa nos próximos minutos, e demoro a voltar ao normal e esquecer o que presenciei. Aquele é um dos meus maiores medos na vida, ainda mais estando sozinha em L.A.

Meus amigos me resgatam dos pensamentos intrusivos. Nós comemos da comida de Tanya, jogamos conversa fora pra saber das novidades mais urgentes, bebemos um pouco, cada um no seu álcool de preferência — menos Emmett, como ele tinha prometido. Lá pelas oito horas da noite, Tanya volta à nossa mesa e nos chama pra dançar. Acabamos indo depois de relutar um pouco, mas se a própria dona da festa tinha chamado, quem éramos nós para recusar?

Felizmente, eu vim de botas com salto bem baixo, e meu joelho não doeria. Ter trinta anos e ir até o chão numa festa é uma combinação um pouco complicada. Jasper recusa a dança, vai lá fora fumar um pouco. Alice fica sozinha, mas não por muito tempo. Um cara que eu reconheço da escola se aproxima na pista de dança, e vem dançar com ela, colocando as mãos em sua cintura, e ela aceita e coloca as dela no pescoço dele.

— Eu até hoje não entendo... — falo pra Edward, apontando pra sua irmã. — Eles brigaram de novo?

— Não que eu saiba.

E antes que eu pudesse investigar mais a fundo, Jazz retorna e vai direto abraçar Alice por trás. Com o outro cara na frente. Eu já tinha visto relacionamentos mais complicados nesses anos de Hollywood, mas esse aqui é um que rivalizava muitos de lá no quesito estranheza. Poliamor, relacionamento aberto, amizade colorida... Eu nunca soube o que eles são de verdade, e mesmo quando eu pergunto, nem eles sabem responder. Apesar disso, eu me divirto vendo a novelinha na minha frente, e o plot twist é quando Alice solta o cara da frente, e logo vira pra beijar Jasper. Eu dou risada. Eles foram feitos um pro outro.

— Vem, Eddie! Essa é da nossa época. — Tanya pega Edward pela mão quando começa a tocar uma música da Kesha, de quando a gente tinha dezessete, dezoito anos. Eu acho horrível e nem ligo, danço assim mesmo, e assisto Edward dançar todo desconfortável, o que deixa tudo mais divertido. Na mesma hora, sinto um empurrão e alguém força entrada na nossa rodinha através de mim.

— Que porra é essa aqui? — É o brutamontes namorado da Tanya. Logo de cara já percebo que ele está mais pra lá do que pra cá, e alguém precisa dar uma água pra esse cara.

— Que isso, Felix. Calma — Tanya implora.

— Que isso nada. Tira a mão de cima da minha mulher. — Ele coloca o dedo na cara de Edward, que se afasta com as mãos para o alto.

— A gente só tava dançando, eu nem encostei nela.

— Ei, ei, ei. Qual o problema aqui? — Rosalie se intromete, e a Kesha comendo solto nos alto-falantes. Há uma comoção das pessoas ao redor, todos param pra olhar.

— O problema é esse cara que nem era pra estar aqui, dançando com Tanya — Felix acusa, falando alto.

— A gente já falou sobre isso — Tanya responde.

— Eles só estavam dançando civilizadamente, feito velhos amigos — Rose fala. — Não pira, Felix.

— Velhos amigos? Desde quando ex-namorado virou velho amigo?

— Ah, pelo amor de Deus, isso já tem doze anos, supera. — E então Rose sussurra do meu lado: — Babaca.

— É o quê? — Felix dá um passo pra cima de Rose, e com um reflexo rápido, Emmett coloca um braço na frente impedindo-o de avançar mais.

— Epa, vamos acalmar os ânimos? — Em fala grosso.

— Galera, eu acho melhor a gente ir indo... — Alice, com uma voz pequena, fala e eu concordo.

— Também acho. — Eu vou correndo com ela pegar nossas coisas pra pagar a conta. Deixo uma nota de cem com o garçom que está por ali, acho que dá pra pagar as nossas bebidas.

Nós vamos embora, mas não sem antes eu puxar Tanya de lado e falar em seu ouvido “se precisar de alguma coisa, estamos aqui”. Ela aperta minha mão, murmurando “desculpa” pra mim e pra Edward, que me segue atordoado, enquanto o seu namorado é confortado por outros caras, provavelmente seus amigos.

— Meu Deus, que loucura foi essa? — eu digo quando sento no carro, me virando pra Edward. — Você tá bem?

— Eu tô. Só fiquei preocupado com Tanya.

— Eu também — digo.

— Ela vai ficar bem. Nem que eu tenha que fazer uma intervenção — Rose fala. Eu amo que ela não se intimida com ninguém com sua mania de não levar desaforo pra casa, mesmo que o desaforo não seja dela. Mas dessa vez, eu realmente senti medo de algo pior acontecer.

— Eu disse pra ela procurar a gente, se precisar de alguma coisa — aviso.

— Fez bem.

A tensão no carro é evidente, e nós ficamos parados alguns instantes sem saber o que fazer. Até que eu sinto um cheiro vindo da carroceria, e todos nós olhamos pra trás pelo vidro aberto. Jasper tem um baseado imenso nos dedos.

— Ah, qual foi, viraram caretas agora? — Ele diz baforando pra cima e tossindo, e só nos resta rir com tanta tensão sendo dissipada com a sua marola.

— Porra, vai deixar minha picape com cheiro de maconha — Emmett reclama.

— Fresco. Eu tô do lado de fora.

— Pessoal, eu tô ficando com frio — Edward fala. — Emmett, liga logo o aquecedor, ou vamos embora, por favor.

— Não, embora não — eu digo. — A noite é uma criança, e eu não vim de tão longe pra terminar uma noite com vocês nesse baixo astral.

— Vamos pra onde, então? — diz Em.

— Já sei um lugar — Jasper fala.

— Eu não vou de novo passar a noite bebendo no parque de skate com vocês, ano passado já foi suficiente — Rosalie diz, e eu concordo relembrando cenas lamentáveis. Jasper cochicha alguma coisa pra Alice, que sorri e diz “boa!”, pegando o baseado dos seus dedos. Emmett pede o endereço do lugar, e quando indagado sobre o que é, Jasper apenas informa que “É a casa da minha tia Wilma que tá fora da cidade. Ela pediu que eu passasse lá pra dar uma olhada, cuidar das plantas e tal.”

— Nós vamos passar a noite cuidando de planta? — eu pergunto a ele.

— Tem piscina aquecida...

— Ah.

O lugar não fica tão longe, mas é numa subida fora de Port Angeles, na estrada já no distrito de Forks. Alice e Jasper pedem pra parar numa loja de conveniência, e voltam com dois sacos, um com vinhos e outro com pizza congelada. Eu me sinto uma adolescente fazendo esse tipo de coisa, mas com eles é assim sempre. Parece que nunca crescemos quando estamos juntos, e eu até sou grata por isso. Tirava um pouco o peso da minha vinda pra casa dos meus pais.

A casa da tia Wilma realmente está vazia. É grande, com dois andares, revestida de madeira, no pé de uma montanha. Parece mais frio aqui do que lá no centro da cidade, mas pelo menos as casas da vizinhança estão bem enfeitadas pro Natal, ao contrário do tédio de Forks, e enchem a rua de luz e calor humano. Há uma música abafada rolando ao longe, mas não consigo identificar de onde vem.

Jasper vai até o jardim frontal, e no pé de uma árvore ele cava até achar uma chave.

— Sua tia não te deixou uma chave? — Edward pergunta.

— Deixou, mas por que eu sairia com ela hoje? — Jasper responde com outra pergunta.

— Que lugar mais pitoresco pra uma chave extra.

— Também acho. Vou falar com ela pra melhorar isso.

A chave não abre a porta da casa, mas sim a parte de fora, que dá pra um jardim lindo com mesinhas, cadeiras e espreguiçadeiras, e a piscina aquecida, que fica dentro de um cômodo metade envidraçado e com teto revestido de madeira. Parece um pouco as mansões de atores menos conhecidos que estou acostumada a visitar com Amy nas festinhas de Hollywood. E eu me pergunto como Jasper tem uma tia rica e nunca falou antes, mas esse cara sempre foi cheio de mistérios mesmo. Até hoje não sei o nome do seu pai ou o que aconteceu com ele.

Emmett e Jasper acendem a churrasqueira do lado de fora pra aquecer a pizza, e Alice nos serve vinho nos copos plásticos que trouxeram da conveniência. Ficamos um pouco no jardim olhando as estrelas, sem luz, pois Jasper não conseguiu achar onde ligava. A única coisa que ele pede é que a gente não entre na casa, senão sujaríamos o chão, e ele não estava a fim de limpar nada. Ele vai até a bomba da piscina, liga o aquecedor, e em poucos minutos olhamos o vapor subir dela.

— E aí, como andam seus contatinhos em L.A.? — Rose me pergunta, do nada.

— Contatinhos?

— Flertes, ficantes, namoradinhos, você entendeu.

— Sei lá, eu não falo geração Z — implico, pois ela é psicóloga de todas as idades, e precisa estar atenta a tudo de novo.

— Pois devia. Sua chefe não tem tipo vinte e três anos?

— Não me lembra disso agora, não. E Amy não é minha chefe, quem é minha chefe é a dona da agência que me contratou pra ser babá dela.

— Você gosta do que faz, Bella? — Edward me indaga. De repente, todos os papos alheios param e os olhares viram-se pra mim.

— Gosto, eu acho…

— Então não gosta, né?

— O problema é trabalhar. Você gosta de trabalhar?

— No meu trabalho? Eu amo — Edward fala, e eu sorrio pois sinto a verdade na sua voz. Ele gerencia uma escola de música que atende crianças e adolescentes de Forks e região, inclusive pessoas carentes, o sonho da vida dele. Assim é fácil gostar. — Pra dizer, a verdade eu nunca entendi direito o que você faz.

Acho que todos eles nunca entenderam muito bem o meu trabalho, mas com certeza entendem o motivo de eu ter saído da cidade.

— É difícil explicar, porque eu faço quase tudo o que minha cliente precisa na vida. Sou assistente pessoal, tipo uma secretária de luxo. É dinâmico, cada dia eu tô num lugar, fazendo uma coisa diferente e conhecendo pessoas de tudo quanto é tipo. Isso é legal, eu gosto. Só me estressa muito. Mas acho que é assim em todo trabalho.

— Quem diria, né? Você falava que ia ser médica — Rose relembra.

— Teria que estudar muito. Não nasci pra isso.

— Mas e os contatinhos?

Eu rio. Achei que ela tivesse esquecido. Por algum motivo, meu coração acelera um pouco. Eu sinto a presença de Edward evidente ao meu lado, como se ele estivesse esperando minha resposta.

— Estão lá — eu falo. — Desde que terminei com o Kevin, não tive muito tempo pra ficar com ninguém. Nem paciência.

— Sei como é — Edward murmura. Eu olho pra ele, e me lembro que há uns meses ele me contou que tinha terminado seu namoro de dois anos com a Irina, que trabalha com ele. Pela primeira vez em muito tempo, eu via Edward solteiro na minha vinda anual a Forks. Meu peito bate ainda mais forte só pensando nisso, e não sei o que fazer comigo mesma, então desvio do seu olhar, e me levanto.

— E aí, bora pra essa piscina? — pergunto, bebendo um golão do vinho e terminando meu pedaço de pizza que já tinha me deixado cheia.

Eu achei que ninguém fosse me acompanhar, mas meus amigos logo se levantam, e ninguém nem pisca duas vezes, só entramos pela porta de correr da piscina, e começamos a tirar nossos casacos e roupas até ficarmos de roupas de baixo. Graças a Deus, resolvi colocar um bom par de lingerie. Edward está logo ao meu lado, mas eu nem olho pra ele, de repente envergonhada e ansiosa, sei lá porquê.

Sem pensar, eu pego a mão de Alice, e nós caímos juntas na piscina quentinha. Os outros nos seguem, com exceção de Emmett, que fica colocando um som na sua JBL muito hétero, e música eletrônica do final dos anos 2000 começa a tocar. Eu só consigo rir, pois era exatamente assim que a gente passava nossos verões em Forks. Ouvindo música de gosto duvidoso em piscinas de amigos e lagos da região. Hoje em dia cada um vive seu verão da sua forma, e nos meus ouvidos só frequentam músicas de artistas que eu não havia conhecido pessoalmente ainda — pois os que eu havia conhecido, em sua maioria, eram um nojo e não conseguia mais ouvir.

Enquanto converso com Alice e Rose sobre as fofocas do ator favorito delas que eu descobri, Jasper fica no cantinho fumando a pontinha do seu baseado, Emmett cai na piscina feito uma bomba como o crianção que ele é, e Edward nada sem parar. Eu acho graça.

— Seu irmão tá treinando pras Olimpíadas ou o quê? — pergunto a Alice.

— Provavelmente não quer ficar aqui pra ver suas tetas.

— Oi? — Eu até olho pra baixo pra checar se tinha algo de errado com meus peitos. Pelo contrário. Não está transparente, apesar da rendinha, e estão perfeitamente bem colocados no decote. Tudo bem que eu estou com farol aceso o tempo todo, mas isso todos estamos.

— Tô brincando. Mas eu não ficaria surpresa se fosse por isso.

— Não tô entendendo?

— Ai, Bella. Para de ser tonta.

— Para você, eu hein. — Eu espirro água nela, e ela espirra de volta, e repetimos isso até que, de repente, Rose tem que parar a briguinha feito uma mãe.

— Chega, vai molhar meu cabelo! — ela exclama, e eu reclamo:

— Ela que começou falando mal dos meus peitos.

— Eu não tava falando mal, garota, tava falando bem porque você tá gostosona hoje, e Edward não aguenta.

Sinto minha cara ficando vermelha, e mergulho para aliviar. O dito cujo passa nadando atrás de mim na sua milésima volta, e eu me pergunto quando iria parar pra respirar. Desde quando Edward tinha tanto fôlego?

Pra não continuar o assunto que me dá nervoso e confunde minha cabeça, eu volto a conversa pra Rosalie, agora agarrada a Emmett que tinha vindo pra nossa rodinha.

— Mas e aí, conta da sua última lua de mel mês passado. Essa foi o quê? A terceira já?

— Isso. Foi ótima, né, amor? — Rose diz, virando pra Emmett. — O Brasil é um sonho de país. Ficamos numa praia paradisíaca perfeita.

— Só consigo lembrar da comida boa e das águas cristalinas — Emmett devaneia.

— Aquele vídeo de Rose na aula de samba foi muito bom. — Alice ri.

— Para, nem me lembre. Que mico. Era parte do pacote lua de mel, e eu devia seduzir Emmett rebolando pra ele.

— Mico nada, eu amei. Então você seduziu seu marido louco para ser seduzido. E daí?

Edward finalmente para de nadar e vem até nós, ficando ao lado de Alice e Jasper. Agora, quem não consegue olhar para ele sou eu. Rose e Emmett continuam contando da lua de mel no Brasil, Alice e Jasper começam a se beijar, se afastando de nós. Eu só consigo calcular que, caso Rose e Em decidam ficar de pegação também, eu terei que ficar sozinha com Edward, eu e minhas tetas.

— Alguém quer mais vinho? — eu pergunto, meio desesperada.

— Eu pego. Quem quer? — Edward oferece, passando a mão nos cabelos molhados, e seu movimento me captura. Pela primeira vez, eu realmente olho pra ele desde que chegamos na piscina.

Acompanho as gotas caindo dos seus cabelos nos seus ombros largos, escorrendo pelo seu maxilar até o pescoço, e meus olhos se fixam na medalhinha de São Judas Tadeu no alto do seu peito, que ele carrega como um amuleto numa corrente fina e prateada desde que eu o conheço. A diferença é que antigamente ele não era tão...

— Bella? — Ele me chama de volta.

— Ah. Quero. Obrigada.

Edward sai nadando até a escada da piscina, que está bem na minha frente, e eu, por falta de coisa melhor pra fazer, fico assistindo enquanto ele sai da água. Que erro. A sua cueca não é boxer, ao contrário dos outros meninos, mas é um shortinho azul claro que gruda no corpo e a partir dali eu não consigo pensar em mais nada que não seja sua bundinha redonda, as coxas grossas e as costas definidas, e tudo que eu poderia fazer com ele — e, meu Deus, quando foi que meu amigo começou a treinar na academia pra ficar assim?

Ele volta logo com copos de vinho pra nós dois, e nesse meio tempo, sem que eu percebesse, os dois casais tinham se afastado de mim. Alice e Jasper foram pro canto da piscina se beijar de novo, Rose e Emmett entraram numa porta, nem sei pra onde. Malditos.

— Tá com frio? — ele pergunta.

— Não. Na real, eu tô até com calor. — Nos viramos de frente pra borda, pra que os copos não tenham chance de cair na piscina. Eu prendo meu cabelo pro alto num coque embolado em si mesmo. Sinto Edward olhando pra mim o tempo todo, e esse vinho já deve estar me deixando doidinha, porque em seguida eu me pego perguntando pra ele: — Meus dentes estão roxos?

Ele ri, e eu me permito ser inspecionada. Ele olha minha boca por um tempo, até depois de eu fechá-la. Acho que mais do que o necessário. Vejo ele molhar os lábios, e sinto uma pontada onde não devia.

— Um pouco — fala com a voz baixa, e então limpa a garganta. — E os meus?

— Um pouco também. Acho que isso é uma deixa pra gente parar de beber...

— Isso é uma regra que você inventou, ou existe mesmo?

— Inventei.

Ele ri, sacudindo a cabeça, colocando a medalhinha de São Judas entre os dentes e termina sorrindo de lado, os olhos focados nos meus. Edward já tinha feito esse mesmo movimento umas trezentas vezes na minha frente, mas algo agora está diferente. Talvez a forma como ele está me olhando. Talvez a forma como eu devo estar olhando.

Meu peito bate forte novamente, e dessa vez sinto um impulso forte de chegar perto, muito perto dele. Não é a primeira vez na minha vida que sinto isso, mas é a primeira vez em muitos anos. Bebo o último gole do vinho como um bálsamo de coragem, e me aproximo dele. Edward não recua. Corro uma mão pelo seu cabelo, coisa que eu queria fazer há minutos, e assim que fecho os olhos, eu ouço.

— Fudeu!

Jasper e a sirene ao mesmo tempo.

Eu e Edward nos afastamos como se tivéssemos levado um choque, meu coração chega na boca. A sirene policial é acionada de novo, e eu ouço ao longe a campainha da casa sendo tocada. Jasper e Alice saem da piscina, Emmett e Rose saem da sauna onde estavam até agora, e eu e Edward não entendemos nada.

— Fudeu, galera. Fudeu. Vambora! — Eu só vejo Jasper gritando e pegando suas roupas junto com Alice, e sem pensar, eu pego as minhas também, junto com minha bolsa, me enrolando numa das toalhas que estão ali e dando outra pra Edward.

— O que tá acontecendo? — Rose pergunta.

— Jasper, de quem é mesmo essa casa? — Eu questiono.

— É uma longa história — ele abre a porta de correr da piscina aquecida, esbaforido, e o contraste com o ar gelado me faz arrepiar e até espirrar. — Agora vamos!

— Pra onde? — Edward pergunta.

— Só me sigam.

Ele sai correndo carregando Alice pela mão, e eu não perco tempo, vou atrás, enrolada na toalha, com minha bota mal colocada nos pés molhados e minhas roupas nas mãos. Ele mete a gente num caminho que parece uma trilha na mata atrás da casa, e nós quatro passamos pelo quintal de várias casas. Parece que eu vou ter um troço de tão rápido que corro e ofego e sinto frio. Até que lembro de uma coisa que me deixa ainda mais gelada por dentro e por fora.

— Meu pai tá na ronda hoje. Isso não podia estar acontecendo — eu berro pra frente. — Jasper, o que você fez?! Se eu for presa hoje eu vou te matar, eu juro!

Não consigo falar mais, só tossir e parar por um momento, pois não aguento mais correr. Edward para junto comigo.

— Tá tudo bem?

— Não, né, caralho — eu ofego, e percebo a gafe ao xingar quem não devia. — Desculpa. Mas porra!

Ele dá uma risadinha.

— Calma, vai dar tudo certo. Vem, vamos com mais calma. Acho que eles pararam logo ali na frente. Tá ouvindo a música?

Eu paro pra prestar atenção aos meus arredores.

— Tô. — A música que eu tinha ouvido mais cedo vinha dessa casa, então.

Nós corremos só mais um pouco até chegar no quintal onde está a festa. Poucas pessoas notam um casal vindo enrolado de toalhas brancas atrás de um matagal, provavelmente porque já tinham visto os outros dois casais enrolados em toalhas e seminus chegando na festa através da floresta. Eu avisto meus amigos entre os rostos jovens com copos vermelhos na mão. Jasper conversa com um cara alto que eu reconheço da reserva indígena, um menino que é filho de um amigo do meu pai. Acho que se chama Jacob. Ele já tinha idade pra beber?

— Vem, meu brother aqui deixou a gente usar o banheiro — Jasper bate a mão pra gente. Não sei se me irrito mais com o “meu brother” ou com o fato de ele estar sorrindo como se não tivesse feito merda. Eu passo por ele bufando, e vou seguindo Rose e Alice pra dentro da casa. Damas primeiro, pelo menos, né?

O local está lotado de jovens se divertindo, dançando e bebendo. Alguns eu reconhecia, tinha visto crescer em Forks e La Push. Outros pareciam total desconhecidos, talvez amigos de faculdade ou namorados deles e delas, que vieram passar as festas de fim de ano em casa. Algumas coisas não mudam, realmente. Quando estou seca, com calcinha e sutiã molhados na bolsa, e pronta pra dar na cara de Jasper, meu celular toca.

— Merda. É meu pai.

— E daí? — Rose pergunta, retocando o gloss no espelho.

— E daí que ele tava de plantão na delegacia hoje, ia fazer ronda.

— Ai, não...

— Atende logo, é melhor — Alice fala, e eu respiro fundo antes de atender e colocar no viva-voz.

— Alô?

— Isabella, você sabe me dizer onde está Emmett McCarthy?

— Não. Por quê?

— Nós encontramos a caminhonete dele em frente a uma casa onde tivemos um chamado. Você não tinha saído com ele? Sua mãe falou.

— Saí, mais cedo. Agora estou em La Push, numa festa de Natal com Edward, Alice e Jasper. Rose e Emmett tinham ido pra casa. Tem certeza que é a caminhonete dele?

— A placa confere. De quem é essa festa que você tá?

— Do clube de leitura que eles frequentam. Rua da Pedra Riscada, número 405. Algo mais?

— Não... Tudo bem. Boa noite.

— Boa.

Eu desligo, e então consigo respirar novamente. Alice e Rose me olham um pouco boquiabertas.

— Que houve?

— Cara, você é boa demais mentindo — Rose fala. — Eu devia ter medo?

— Você nem imagina as coisas que eu já tive que fazer pra tirar celebridades mimadas de uma furada. Bem, isso e eu cresci com um pai policial. Você pode imaginar quantas vezes eu já tive que mentir pra me safar.

— De onde você tirou essa festa em La Push?

— Tinha um panfleto no Uber que me pegou no aeroporto.

Alguém bate na porta sem parar, e nós somos obrigadas a deixar o banheiro. Eu saio pedindo desculpas, uma fila havia se formado, e logo vejo que Emmett e Jasper já tinham feito amizade com metade da festa, e estavam numa partida de beer pong, o ping pong cervejeiro dos jovens. Sinto vontade de rolar os olhos, é muita cara de pau. Eu vou marchando até eles, batendo as botas com força pra ser notada.

— Pode me explicar agora o que aconteceu? — pergunto no ouvido de Jasper, pra ele ouvir bem. Meu amigo para de jogar, dizendo ao pessoal que volta já.

— Primeiro eu preciso dizer que eu já tinha feito isso antes e nunca deu em nada. Eu não sei o que aconteceu.

— Não me enrola. Eu acabei de mentir pro meu pai pra livrar sua pele, preciso saber onde tô me metendo. De quem era aquela casa, Jasper?

— De um casal de idosos pra quem eu trabalhei uma vez.

— Desde quando você trabalha pra idosos?

— Eu já fui jardineiro, esqueceu? — Claro que eu não lembro, Jasper arrumava um emprego a cada seis meses, era difícil acompanhar.

— Alice sabia disso? — pergunto, e ela fica quieta, olhando pro chão, até sacudir a cabeça positivamente. — O que vocês têm na cabeça, cara? A gente praticou um crime de invasão domiciliar.

— Como foi invasão se eu tinha a chave? — Eu e Rose olhamos pra ele, com certeza ambas fuzilando-o com os olhos. Jasper, então, se redime. — Ok, ok, se a gente for preso, eu assumo a culpa toda pra mim. Vocês não sabiam.

— Eu também levo a culpa por vocês. Afinal, fui cúmplice — Alice comenta.

— Que bom. Porque eu não tô a fim de estragar meu final de ano com isso. — Eu respiro fundo. — Eu sabia que tinha alguma coisa errada, sou muito burra mesmo.

— Desculpa. Eu só queria fazer algo divertido...

— Isso era divertido quando a gente era menor de idade, agora não tem mais graça.

— Jazz, volta, a gente tá perdendo! — Emmett chama, e Jasper faz uma cara de cachorro pidão como se pedisse permissão pra ir.

— Vai, vai — falo, chispando-o feito cachorro mesmo. Estressada demais pra qualquer coisa, eu me sento numa das cadeiras espalhadas ali, assistindo a partida idiota. Não tenho paciência, e ficar parada é pior. Resolvo, então, aproveitar a segunda festa que a gente entrava de penetra nessa noite. Já que eu estava no inferno, melhor abraçar o capeta mesmo.

Alice e Rose ficam com seus parceiros, e eu ando sozinha até encontrar Edward, que também já tinha se trocado. Ele está na cozinha, e me oferece uma caneca.

— Toma. Pra te esquentar.

— Não quero mais álcool, não, obrigada.

— É só chá. — Eu aceito, bebendo alguns goles que quase queimam minha boca, mas a sensação é maravilhosa.

— Como conseguiu isso?

— Aquela menina de cabelo ruivo é a Leah, paciente do meu pai. É a casa dos pais dela.

— Ah.

— Você tá preocupada, né? De se enrolar com seu pai, a polícia e tal.

— Muito.

— Eu acho que ele livraria você de qualquer coisa e realmente só culparia Jasper.

— Eu também acho, mas ele é imprevisível. Depende do humor do dia.

— Bella, o cara segue a lei. Não tinha como a gente saber que estávamos invadindo uma casa. É simples.

— Nada é simples com o Sr. Charles.

— Ei. Relaxa. Vamos pensar nisso depois, se acontecer algo... — Edward afaga meus ombros, faz uma massagem, e eu me sinto um pouco melhor. Ao menos fisicamente. Eu lembro do clima que tinha rolado na piscina mais cedo, e fico querendo continuar e ao mesmo tempo me esconder de vergonha. Sempre fui péssima com essas coisas. — Que foi?

— O quê?

— Não sei, você fez uma cara estranha. — Desvio o olhar. Eu conseguia mentir pra Deus e o mundo muito bem, mas Edward sempre foi capaz de me ler perfeitamente, desde novinhos, e por isso nossa conexão permanecia a mesma, embora com muitos quilômetros de distância entre nós.

— Acho que preciso pegar um pouco de ar. Vamos lá pra fora?

O jardim é grande, e apesar de algumas pessoas por ali, conseguimos um cantinho só pra nós. Edward senta na espreguiçadeira, e eu acompanho me sentando na outra, sentindo o ar fresco no meu rosto.

— Eu já perdi o costume desse frio, sabia? — comento. — Sinto saudades do calor quando tô aqui.

— Já foi Losangelizada totalmente, né?

— Quê? — Eu rio, mas entendo o que ele quis dizer.

— Você não sente mesmo saudades de Forks?

Fico quieta um momento, terminando de beber o chá. Ponderando se falo ou não, mas essa noite já estava estranha mesmo, decido confessar.

— Às vezes eu choro com saudades de casa. Quando penso sobre Forks sinto uma coisa estranha... Não é bem saudades, é uma nostalgia. Ai, coisa que puxei da minha mãe, com certeza. Mas eu sinto saudade mesmo é das pessoas que deixei aqui.

— Então se tudo der errado lá, e tomara que não dê — ele bate na madeira três vezes, o que me faz sorrir porque Edward sempre foi cheio de manias e superstições. — Mas se tudo der errado, você volta pra cá?

— Acho que não. Aquela cidade é cheia de possibilidades, e aqui eu me sinto sufocada.

— O mundo é pequeno demais pra Isabella Swan. — Eu me sinto aquecida por dentro. Ele é fofo, não dá.

— E pra Edward Cullen não é, também? — eu retruco.

— Eu tô de boa com o que Forks me oferece, o conforto... E eu já sofri tanto quando estudei em Seattle.

— Sério? Nunca soube disso.

— Sofri em silêncio. Não ia dar o braço a torcer tão fácil. Imagina, um cara de dezenove anos dizer que quer desistir da faculdade porque tá com saudades da mamãe e do papai?

A gente ri junto.

— Mas sério. E agora? Você não se vê ampliando seu projeto no futuro? Não tem nem um pouco de vontade de ver o mundo fora daqui?

Ele para, pensa um pouco. Olha as estrelas, e eu acompanho. Edward suspira antes de falar.

— Bom... Eu não te contei antes porque estava no olho do furacão, mas minha parceria com Garrett e Alistair tá meio estremecida. A gente tem discordado muito, até discutimos outro dia — ele diz, se referindo aos sócios da Solfejo Escola de Música.

— Meu Deus. O que houve?

— Eles têm uma visão muito... pequena de negócios. E eu quero expandir, fazer mais turmas, entrar nas escolas normais da região. Minha obsessão atual é criar um sistema de ensino de música, vender esses cursos pela internet, porque temos muita procura. Claro, sem perder a qualidade da nossa escola.

— Eles se opuseram por quê? É uma ótima ideia.

— Eles acham que é um investimento arriscado demais, que não vai dar certo porque já tem outros parecidos por aí... Mas se a gente não se arriscar, a gente não sai do lugar nunca.

— Com certeza. E o que você pretende fazer a respeito disso?

— Não sei, sinceramente. Eu ando me sentindo insatisfeito com o trabalho, apesar de ainda amar o lugar, a equipe e tudo o mais. E eu morro de medo de quebrar a cara fora de Forks. São sentimentos conflitantes.

— Edward... Você faz trinta anos ano que vem. Acho que tá na hora de dar um grande passo na sua vida, uma virada de chave, não acha? Pra construir algo grande leva tempo, e seria o máximo começar a nova década com um novo plano. Se liberta desses caras logo.

— É. Pode ser... Mas será que consigo sozinho?

— Se depender de mim, você não tá sozinho. — Ele sorri aquele bendito sorriso de lado, acanhado.

— Eu sei. Mas você está tão longe — Edward fala meio baixo, e eu sei que não foi a intenção, mas me sinto culpada por ter deixado meu melhor amigo aqui e saído de casa sem olhar pra trás há doze anos. Num impulso, eu falo o que penso toda vez que venho a Forks.

— Volta comigo pra L.A. depois do ano novo.

Ele ri.

— Como assim?

— O mundo precisa ver você, e você precisa ver o mundo. Volta comigo. Passa um mês lá. Você pode ficar no meu apartamento, só um mês, você é o CEO da empresa, consegue tirar um mês de folga. Eu já disse, Los Angeles tem muitas possibilidades...

Edward, então, fica sério, se ajeita na espreguiçadeira. Limpa a garganta, mas não diz nada, como se pensasse a fundo no que eu acabo de oferecer. Do nada, uma menina que estava num grupinho por ali sai correndo e vai vomitar num arbusto perto de nós, quebrando o clima meio tenso que havia se instaurado.

— Que nojo — eu falo, virando o rosto.

— Você já foi assim, tá fugindo das suas raízes?

— Cala a boca! — Eu rio, dando uma leve cotovelada nele. — Péssimos tempos. Só me lembro daquele primeiro porre na casa dos pais de Emmett...

— Você lembra que fui eu que te salvei? Te levei pra minha casa e acordei Alice pra trocar sua roupa suja, e ainda inventei uma história pro seu pai?

— Lembro... vagamente. Se não fosse você, eu ia ficar lá, ninguém tinha maturidade pra cuidar de bêbado. Obrigada por isso.

— Imagina. Eu nunca deixaria um amigo desamparado, ainda mais você... — ele pega minha mão, fazendo um carinho. Nós ficamos em silêncio, e eu foco meu rosto na lua rodeada de nuvens sobre nós, embora não tenha forças pra tirar minha mão da dele. Deixo ela lá, aproveitando o carinho em silêncio por alguns minutos, recostada na espreguiçadeira. E como minha pele queima onde ele toca, que coisa mais estranha.

Quando tudo fica intenso demais e minha mão começa a suar um pouco, eu resolvo tirar minha mão da dele pra me sentar e olhar ao redor. Vejo um garoto fumando um baseado, e duas meninas se beijando sem pudor, namorando mesmo.

— Na nossa época, isso nunca seria possível. — Aponto com o queixo pra elas.

— Ainda bem que algumas coisas mudam.

— Ainda bem.

Eu me levanto e me espreguiço, aviso que vou ver o que nossos amigos andam aprontando, afinal já passava das dez da noite, e minha hora de dormir estava próxima. Edward me acompanha. Não vemos eles no jardim nem fora da casa, mas logo achamos Jasper e Alice se atracando, pra variar, numa poltrona. Emmett e Rose estavam em outra namorando feito dois pombinhos de cinco anos de casados que eram.

— Parece que os hormônios juvenis pegaram os idosos da festa — eu falo. Edward protesta.

— A gente ainda é jovem também.

— É, mas colocando em perspectiva junto com esse pessoal de faculdade, já somos anciões.

Ele está pronto pra voltar a argumentar comigo, quando nós ouvimos alguém gritando “Polícia!”, e a mesma sirene que ouvimos mais cedo. Eu só olho pra Edward e nós falamos juntos:

— Ai, de novo, não!

Meu coração volta a bater forte quando ouço a campainha. Fico parada no lugar, congelada. Vejo o dono da festa ir calmamente abrir a porta, o Riley Biers, um moleque que eu vi crescer, feito metade desse povo aqui.

— Que eu saiba não tem nenhum menor de 21 aqui... — Dois amigos cochicham ao nosso lado. Não consigo ver quem é na porta, pois estou meio escondida atrás de uma estante, mas vejo quando Riley vem até o centro da sala.

— Ele mandou a gente abaixar o som. Peter, por favor. — Ele faz um sinal pro amigo DJ. — E tem alguma Isabella Marie Swan por aqui?

Parece que entro num vórtex de volta ao passado, e revivo todas as vezes que fui chamada em festas pelo meu pai furioso, passando vergonha com meus colegas. Só que dessa vez ainda tinha o agravante de que potencialmente eu havia cometido um crime, e quem me buscava não era meu pai Charlie e sim o policial Charles Swan.

— Calma. — Edward segura minha mão, como se me impedisse de ir. Mas eu me solto. Doze anos devem ter servido pra alguma coisa. Eu devia enfrentar e mostrar que não tinha mais medo do meu pai.

— Tudo bem, eu vou lá. Ele só deve querer conversar... — Respiro fundo, e me encaminho até a porta com todos os olhares voltados pra mim, até a música havia parado.

Quando chego, meu pai está encostado na viatura de braços cruzados e cara de tédio. Sempre insatisfeito com a vida, nada nunca está bom pra ele. Agora, mais ainda. Ele se desgruda do carro enquanto vou ao seu encontro após eu fechar a porta, e nós paramos no meio da calçada.

— Por que você mentiu pra mim, Isabella? — Ele fala com uma voz calculadamente calma, ainda de braços cruzados.

— Sobre? — Eu não ia simplesmente me entregar tão fácil, e também cruzo os braços.

— Você sabe sobre o quê, mas só pra ficar bem claro, nós recebemos as imagens de você e seus amiguinhos na casa da família Albert, e eu rastreei seu celular e—

— Você o quê?!

— Ah, por favor, não vem bancar a inocente aqui. Você sabe como essas coisas funcionam.

— Pai, eu tenho quase certeza que rastrear o celular de alguém sem autorização da justiça é considerado fora da lei.

— E o que você sabe sobre leis, Isabella? Hm? Invasão de propriedade... — Ele sacode a cabeça. — Minha própria filha. Como eu vou explicar isso pro resto da delegacia?

— Eu não sabia que estava invadindo a propriedade de ninguém, pensei que fosse a casa de parentes de Jasper, foi o que ele disse pra gente. Ele e Alice sabiam, mas o resto de nós não.

— Mas você sabia quando mentiu pra mim, não sabia?

— Eu só menti pra proteger meu amigo.

— Por quê?

— Porque eu me importo demais com as pessoas que eu amo, ao contrário de você, pai!

Ele não responde. Só vejo seu olhar se desviar por um instante para baixo, antes de voltar à viatura para falar alguma coisa no rádio. Meu corpo treme um pouco, eu sinto um misto de triunfo com tristeza. Lágrimas embolam na minha garganta porque eu e ele sabemos muito bem sobre o que eu estava falando, uma vida inteira disso. Me sinto também culpada por ter gritado com ele e perdido a calma, mas era isso ou eu explodiria.

Limpo uma lágrima quente que escorre do meu olho esquerdo, e acho que ele nem nota quando volta.

— Eles estão lá dentro? — Agora com as mãos no cinturão, como se minhas palavras não tivessem surtido nenhum efeito nele. Indestrutível.

— Sim.

— Todos?

— Todos.

Sua cabeça balança pra cima e pra baixo lentamente, e ele abre a porta de trás da viatura.

— Entra.

— O quê?

— Entra. Aro está vindo aí com a outra viatura, não vai caber todos vocês nessa. Melhor eu te levar, do que ele.

— Mas eu não fiz nada pra ser presa.

— Eu não estou te prendendo, não seja dramática. Estou te detendo pra prestar explicações na delegacia, porque recebemos uma denúncia e você está envolvida.

— Você não ouviu nada do que eu já expliquei?

Meu pai expira forte, e me deixa falando sozinha. Vai até a porta, entrando na casa. Eu só olho incrédula, querendo fugir e maldita hora que comprei minha passagem pra vir pra esse fim de mundo.

Edward é o primeiro a sair, seguido de Jasper e Alice, que entram no carro. Eu me recuso até o último momento, mas meu pai segura a porta do carro com aquela cara de que está prestes a começar a contar, como fazia quando eu era criança. Enfim, eu entro e me sento ao lado de Edward e Jasper. Alice vai na frente. Rose e Emmett vão juntos na viatura de Aro, que não demora a chegar. Com medo do que estava por vir, eu agarro a mão de Edward e não solto até chegarmos na delegacia. A dele está tão fria quanto a minha.

Eu e meus amigos não falamos nada durante o percurso, embora a gente se entreolhe de vez em quando. Assim que estacionamos na frente da delegacia de Forks, Aro chega também, logo atrás.

— Eu não tenho direito a um advogado ou algo assim? — Emmett fala ao sair do carro.

— Seu pai tá disponível? — Jasper pergunta quando nos encontramos todos na porta da delegacia.

— Nem fudendo vou meter meu pai nessa. — E ele vira, nervoso, pro tio Aro. — Com todo respeito, Sr. Volturi. Desculpa aí o palavrão. Isso não agrava minha pena não, né?

Sem querer, Emmett faz a gente soltar uma risada no meio da tensão, com sua falta de jeito. Até meu pai ri.

Apesar de tudo, nós somos bem tratados por todos na delegacia, e eu acho que muito disso se deve ao fato de eu ser a filha do Chefe do departamento. Eles captam os depoimentos de um por um: primeiro Rose, depois Emmett, Alice, e Edward seria o próximo. Eu tinha a sensação que meu pai tinha me deixado por último apenas para me castigar um pouco, mas talvez isso fosse cruel demais, até pra ele. O fato é que eu me senti nervosa o tempo todo, só pensando em como eu explicaria essa detenção — ou pior, um processo real — às minhas chefes quando voltasse a L.A., pois com certeza elas arrumariam um jeito de ficar sabendo, mesmo que eu escondesse.

Mas assim que eu me levanto ao ter meu nome chamado, vejo uma comoção na porta da delegacia, e ouço passos batendo no chão. Eu me viro. Sua cabeça loira-arruivada é o que me chama atenção primeiro, seguido do casacão vermelho.

— Tanya? — Edward balbucia ao sair da sala de depoimentos.

— Então eram vocês mesmo — ela fala com um sorriso incrédulo olhando pra nós, que estamos sentados na antessala. — Gente, o que deu na cabeça de vocês, hein? Já não estão grandinhos demais pra isso?

— Como assim? — Eu pergunto.

— Não tô entendendo nada — Rose fala. — Por que você tá aqui, amiga?

— Por acaso, a casa que vocês invadiram é da minha tia, que tá visitando meus primos em Seattle. Vocês estão famosos no grupo de whatsapp da família. — Ela ri.

— Famosos? — eu pergunto.

— É, ela nem ia checar as câmeras de segurança online hoje, achou que não ia ter problema nenhum numa véspera de Natal, mas estava errada, né? Pegou as imagens e mandou direto no grupo, só que como não conseguimos identificar os gatunos direito porque a câmera é velha e uma porcaria, eu fiquei encarregada de chamar a polícia pra investigar.

— Meu Deus... — Edward fala.

— Tanya, mil desculpas, eu não sabia — Rose implora por perdão.

— Foi Jasper! — Emmett denuncia.

— Calma, gente. Calma. Vamos resolver isso. — Ela dá uma piscadela pra Rose, e se eu não estava entendendo nada, a seguir entendo menos ainda quando ela se vira pro meu pai. — Sr. Swan, eu vim aqui pra retirar a queixa.

— Como assim? — Ele não entende, também.

— É isso mesmo. Eu retiro a queixa. Como não foi flagrante, eles não podem ser indiciados se não houver queixa, podem?

— Bem... Não. Não podem.

— Porra, garota! Que susto do caralho! Digo, do carvalho! — Emmett se corrige, ainda com medo de falar palavrão na frente dos policiais. E vai abraçar Tanya, que aceita meio desconfortável. — Obrigado, muito obrigado.

— Cara, o que acabou de acontecer aqui? — Alice se pergunta.

— A senhora tem certeza? — meu pai pergunta.

— Sim. Eu devo muito a eles. Hoje eles me ajudaram muito. Eles sabem do que estou falando.

Eu preciso buscar na memória, pois essa noite já parecia duas vidas em seis horas. E logo me recordo do incidente no bar, com seu namorado. Eu então noto que ela está desacompanhada, e meu coração se enche de esperança pelo melhor pra ela.

Em alguns minutos, nós somos dispensados. Meu pai não fala nada comigo, e por mim tudo bem. Melhor assim. Eu só teria que me explicar com minha mãe mais tarde, mas ela com certeza entenderia. Eu e meus amigos, junto de Tanya, vamos andando até a casa da tia dela pegar a picape de Emmett, uma caminhada de vinte minutos.

— Ei. Feliz Natal — Jasper fala, reparando a hora.

— Já é dia 25? — pergunto.

— Já. Meia-noite e três.

— Feliz Natal saindo da delegacia. Que isso, gente, um filme?

— Feliz Natal, pessoal — Edward fala, e todos trocamos um Feliz Natal rapidamente, nossas vozes se intercalando. Depois disso, o silêncio reina na rua, apenas o som dos nossos sapatos no asfalto molhado porque tinha chovido mais cedo. Cachorros latem conversando entre si, e eu aproveito pra olhar as decorações das casas e julgá-las.

— Cruzes, preciso de um banho, tô com cheiro de prisão — Alice fala, de repente.

— A gente não ficou nem três horas na sala da delegacia, garota. — Rosalie ri dela.

— Foda-se. — Alice mostra o dedo médio.

— Corroda-se.

— Senta no pau e acomoda-se.

— Que isso, voltamos pro ensino fundamental? — Eu tenho que interferir. Noto Tanya sorrindo olhando a cena, e fico querendo perguntar o que tinha acontecido entre ela e o Felix depois de nós termos saído do bar, porque ela parecia muito mais leve desde a última vez que eu a vi.

— Pessoal, posso confessar uma coisa? — Tanya fala, parecendo ler meus pensamentos. Mas o que ela diz a seguir não tem nada a ver com Felix. — Eu sempre quis fazer o que vocês fizeram. Não a parte de invadir uma casa, mas de usar a piscina da minha tia escondido... Eu nunca fui naquela piscina.

— Jura? Ela nunca te chamou pra tomar um banho lá? — pergunto.

— Nada, tia Carmem é maior mão de vaca, não empresta nada, nem a casa. A piscina é nova, e ninguém da minha família foi convidado pra aproveitar. Ela só dá valor mesmo pra família do marido, que é rica.

— Caramba.

— Então assim, quando soube que eram vocês... Eu fiquei até satisfeita, sabia? Bem feito. — Ela ri, colocando a mão na boca como uma criança marota, e nós rimos com ela.

— Tan... — Edward chama. O apelido que era do namoro deles. Eu fico um pouco desconfortável, mas ao mesmo tempo feliz por ele ser tão carinhoso com todo mundo.

— Sim?

— Ficou tudo bem quando a gente saiu? Com Felix e tal.

— Não. Quer dizer, pra mim ficou ótimo. — Ela ri.

— Como assim?

— Eu dei um pé na bunda dele assim que ele me pediu em casamento na hora dos parabéns.

Todos nós paramos de andar quase ao mesmo tempo, fazendo um coro de “QUÊ?”, “Como assim?” e “Meu Deus??”.

— Cara, não acredito que perdi isso! — Eu falo, realmente chateada de não ter visto esse escândalo ao vivo.

— E eu? — Rose diz. — Imagina ver a cara daquele babaca. Deve ter sido muito bom.

— Ah, foi péssimo, ele reagiu como reage sempre, feito um brutamontes. Mas tenho a cara de tacho dele em vídeo assim que eu falo não e expulso ele da festa, querem ver?

— Claro!

Nós paramos num banco de ponto de ônibus, e Tanya mostra o vídeo. É realmente impagável a cara que Felix faz ao notar que seu plano deu completamente errado quando Tanya diz “Não”, e depois manda ele ir embora da vida dela pra sempre. Ele sai chutando uma cadeira, que felizmente não acerta ninguém, e depois o vídeo acaba.

— Amiga, estou muito orgulhosa de você. Parabéns pela coragem! — Rose abraça Tanya.

— Eu não teria conseguido sem vocês, tá? Fiquei tão nervosa. Mas o que rolou lá no Next Door mais cedo foi só a gota d’água. Ainda bem que vocês abriram meus olhos e me defenderam.

— A gente faria isso por qualquer mulher — eu digo, e as meninas e até os meninos concordam. Tanya sorri, pegando na minha mão.

— Obrigada. Agora parece que estou livre de um peso imenso... Eu queria tanto comemorar.

— Opa, alguém falou em comemorar? — Jasper se anima.

— Lá vem ele com as ideias mirabolantes. — Eu rolo os olhos. — Ainda não te perdoei totalmente por ter metido a gente naquela roubada, tá?

— Essa não é roubada, eu juro. Hoje tem eclipse total da lua vermelha, daqui a pouco, duas da manhã. Vamos assistir? Pra fechar a noite.

— Por mim, tudo bem — Tanya se empolga. — Onde vamos assistir? Tem um lugar que eu sempre quis ir quando vocês iam, mas meus pais nunca deixaram.

— Onde? — Alice pergunta.

— O penhasco de La Push.

— Lá é incrível mesmo. Mas deve estar um frio de rachar a essa hora.

— Podemos passar na casa dos meus pais e pegar alguns cobertores, é no caminho — Edward informa, assim que chegamos em frente à casa da tia Carmem. A Ram 3500 estava lá, imponente e cheia de sereno cobrindo sua lataria.

Nenhum de nós se opõe a ida até La Push, embora eu estivesse morrendo de sono. Não queria me separar dos meus amigos ainda. Tanya, a única sóbria do grupo (que não bebia, pois é fitness demais pra isso), se oferece para dirigir, e nós subimos na picape de novo para a última — eu espero — aventura desse ano. Edward, Emmett e eu vamos na carroceria aberta, Alice, Jasper e Rose dentro do carro. Nós paramos na casa dos Cullen, e os irmãos entram e voltam rapidamente com cobertores nas mãos, e um tênis pra Rose trocar os saltos.

La Push é a praia mais próxima que temos, e apesar de ser praticamente impossível entrar na água por ser tão gelada, é uma ótima opção de lazer pra nós e pros nativos indígenas daqui. Nós passamos pela orla deserta, e pegamos a curta trilha que sobe até o penhasco, usando as lanternas que Emmett carrega no carro. Era um dos lugares que explorávamos na infância com nossos pais, e depois sozinhos na adolescência, principalmente durante os verões. Essas pedras e árvores viram história.

— Acho que nunca viemos tão tarde pra cá — Jasper fala, enquanto subimos a trilha que conhecíamos de cor, esmagando folhas secas no chão.

— Eu só espero que os lobos fiquem longe... — Emmett diz.

— Lobos? — Tanya pergunta, com medo na voz.

— E os coiotes — Edward fala.

— Gente, vocês estão me assustando.

— Eles não vão chegar perto, eles têm medo da gente. Ainda mais depois que acendermos a fogueira — eu explico o que meu pai me ensinou ainda criança.

Assim que chegamos à clareira que termina no penhasco e tem uma vista incrível do mar e do horizonte, os rapazes acendem o fogo com restos de madeira de uma fogueira pré-existente, além de alguns troncos que eles pegaram pelo caminho. As meninas carregam os cobertores, mas logo que vamos distribuir notamos que havia apenas quatro.

— Gente, não trouxeram um pra cada um? Somo sete — eu reclamo.

— Foi tudo o que achamos, o resto deve estar no quarto dos meus pais e eu não ia entrar lá, né... — Ali explica.

Rose e Alice rapidamente pegam um cobertor para cada, indo sentar com seus parceiros nos troncos que já estavam dispostos ali há anos pelos nativos. Tanya e eu nos olhamos sob a luz da fogueira que crescia a cada minuto, decidindo o que faríamos, já que tinha sobrado apenas dois cobertores para três pessoas. Mas ela nem me dá muito tempo para pensar. Assim que Edward se aproxima, ela pega um cobertor, logo se enrola e sai piscando um olho pra mim.

— Bom, acho que vamos ter que dividir... — informo, sem olhar para ele. Eu pego o cobertor remanescente, e vou sentar no tronco no chão. Meu peito acelera conforme ouço os passos de Edward atrás de mim, e ele se senta ao meu lado.

Temos que ficar bem juntos para cabermos sob a mesma manta grossa, e ele logo passa um braço ao meu redor, me puxando firmemente para perto dele. Porra. Como ele cheira bem. E é tão quentinho...

— Se a gente olhar por um tempo, vamos achar estrelas cadentes, sabia? — Alice fala. Nós ficamos em silêncio, cada um buscando sua estrela, sua oportunidade de fazer um pedido ao universo. Até que eu vejo a minha, tão rápida que quase não tenho tempo de pensar.

Que Edward esteja comigo em L.A.

Eu me assusto comigo mesma, e com a intensidade com que eu peço. Na mesma hora, sinto a mão dele apertando a minha, quente onde estou gelada. Levanto meu rosto, e nos olhamos por um instante enquanto Edward sorri. Que diabos ele pediu para estar com essa cara?

Nosso momento é interrompido quando ouvimos os uivos dos lobos bem longe ecoando. É um som na mesma medida assustador, belo e etéreo. E eu só consigo imaginar uma alcateia de lobos amigos reunida num canto dessa floresta como nós estamos agora. A natureza é mesmo incrível, e eu já sinto saudade daquele momento antes mesmo dele ter acabado.

— Gente — eu chamo meus amigos. — Eu só queria falar que sou muito grata por estar de volta a Forks esse ano... Eu amo minha vida em Los Angeles, mas vocês são minha família. Não tem nada lá que chegue perto disso aqui. E... Ai, sei lá, tô emotiva.

Eles riem, mas um por um vem me abraçar, e meu choro vai sendo distribuído na roupa de cada um. Edward me abraça por último, um abraço profundo que dura bastante. Ele me coloca de uma forma tão confortável em seu corpo, com minha cabeça em seu colo, que eu acabo pegando no sono ouvindo a conversa suave dos meus amigos e o som da mata ao longe, com sua mão fazendo um cafuné no meu cabelo.

Acordo com um leve carinho na minha bochecha.

— Tá começando — Edward sussurra. E eu olho pro céu, a lua cheia tinha virado uma imensa bola vermelha, e começava a ser encoberta pelo eclipse. É um fenômeno lindo que poucas vezes eu tive oportunidade de acompanhar, e fico ainda mais grata por ter aceitado ter vindo pra cá.

Quando tudo termina, decidimos que é hora de ir embora, perto das três da manhã. Deixamos tudo limpo e organizado como encontramos, e descemos a trilha de volta à caminhonete. Eu e Edward continuamos enrolados no mesmo cobertor, ele sem desgrudar da minha mão, sempre brincando com meus dedos, acariciando, e eu reciprocando.

Tanya deixa Alice e Jasper primeiro, na casa dela, que é perto dos seus pais. Depois é a vez de me deixar em casa, e Edward desce da carroceria para me acompanhar. Sua mão não larga a minha em nenhum momento, e para ser sincera, eu não queria que largasse mesmo.

— Boa noite — ele diz beijando minha mão, e eu agarro seu pescoço para abraçá-lo.

— Boa noite.

A gente não se solta. Uma sensação imensamente boa me atinge, e eu só queria ficar ali por muito mais tempo sentindo seu cheiro e seu corpo firme contra o meu, mas a luz do quarto dos meus pais se acende, me desconcentrando do momento. Sou obrigada a me desvencilhar dele antes que minha mãe abrisse a porta para ver o que eu fazia ali fora parada.

— A gente se vê amanhã? — Edward indaga, após limpar a garganta.

— Hoje, você quer dizer, né? — Eu rio. — Sim. Pode confirmar minha presença.

— Ok. Tchau. — Com um beijo na minha bochecha, ele volta para o carro.

— Tchau.

Eu entro em casa andando nas nuvens. Algo que eu não sinto há anos — se é que já senti algo tão forte um dia. E vou dormir assim, sem conseguir parar de sorrir, chutando meus pézinhos na cama de tão feliz que a sensação de Edward em mim me fazia. Por hora, é tudo o que eu consigo sentir e pensar, embora uma voz baixa na minha cabeça estivesse começando a dizer que em uma semana eu estaria de volta à Los Angeles e tudo aquilo seria passado. Adormeço antes que a voz fique alta.

— Deixa a menina dormir.

— São onze da manhã.

— E daí? Ela está de férias.

Eu ouço vozes discutindo em um volume não tão sutil, e aos poucos vou sendo acordada. Alguém entra no meu quarto. A luz do sol cega meus olhos, que continuam fechados e minha cabeça dói.

— Isabella, acorda — meu pai fala. — Isso não é hora de gente direita estar na cama.

— Ela chegou tarde, estava se divertindo com os amigos que não vê há um ano. Deixa ela dormir, Charlie — minha mãe intercede por mim, mas não adianta.

— Sei bem que diversão ela estava tendo. Você nem imagina o que ela me aprontou ontem. Anda, Isabella.

— Bom dia pra você também, pai — eu murmuro, grogue, arriscando abrir um olho.

— Charlie, ela já tem trinta anos. Pode muito bem escolher dormir até tarde. Que história é essa?

— Aqui é minha casa, ela deve seguir as minhas regras.

— Essa casa é minha também, e as regras são nossas. Deixa de ser turrão.

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— Deixa, mãe. Já acordei.

Meu pai sai do quarto, mas mamãe permanece. Eu me reviro na cama colocando o edredom até a cabeça, e sinto ela sentar no colchão, acariciando meus pés por cima da coberta.

— Bella… O que houve ontem à noite?

— A gente entrou numa casa vazia de desconhecidos pra cair na piscina. Eu não sabia que era de desconhecidos, Jasper que sabia.

— Ah, meu Deus. Por isso seu pai está tão estressado.

— Esse é o modo natural dele.

— Vocês foram pra delegacia?

— Sim.

— Poxa, Bella. E aí?

— Deu tudo certo, retiraram a queixa. — Eu resolvo me sentar na cama. Ela me abraça. — Ai, que dor de cabeça.

— Vou fazer um café forte e trago aqui com um remédio e um bagel.

— Obrigada.

Enquanto ela sai do quarto, eu me espreguiço. Pego meu celular pra checar mensagens, e graças a Deus não há nenhuma de Amy e cia. Decido não olhar e-mails hoje, evitando trabalhar no Natal. Mas não resisto a olhar as redes sociais, em especial o Instagram e as fotos que eu e meus amigos postamos ontem. Que noite.

Quando olho no meu rolo de câmera pra postar alguma coisa, pego algumas fotos que eu não sei quem tirou, minhas e de Edward em La Push, e eu dormindo no colo dele lá. Deve ter sido Alice, que sabe minha senha. Mas ao invés de ficar brava, eu sorrio. Estavam fofas, e eu decido postar uma no meu close friends. Fico tempo demais obcecada sobre uma foto em específico, onde ele está me olhando sorrindo e fazendo cafuné. Parece uma foto tão íntima, tão delicada. Não consigo parar de sorrir e pensar se Edward tinha sentido o mesmo que eu ontem.

Mamãe chega com uma bandeja com o que tinha oferecido e mais uma mini árvore de Natal.

— Feliz Natal, querida — fala ao me entregar, e a primeira coisa que pego é o remédio pra beber.

— Feliz Natal. Obrigada. Vocês vão hoje na festa dos Cullen? Quero passar lá depois do nosso almoço.

— Claro. Quer dizer, eu vou, não sei seu pai. Depende do humor dele.

— Por minha causa, né? — Eu suspiro. — Caramba, é Natal. Será que ele não me dá uma trégua?

— Eu vou conversar com ele, pode deixar que eu amanso a fera.

Nós ficamos conversando um pouco enquanto eu como meu café da manhã. Minha mãe ouve minhas lamúrias sobre o trabalho, eu ouço sobre sua última briga com a vizinha encrenqueira que estava disputando com ela uma vaga no estacionamento do mercado. Já são quase onze e meia quando ela desce pra terminar de fazer o almoço natalino da família Swan, que consiste em nós três.

É sempre deprimente demais ficar aqui sozinha com eles no Natal, então desde os quinze, sempre acabo de almoçar e vou para a festa dos Cullen. Essa sim uma família de verdade. Ao menos era assim que eu os via, sempre tão unidos e amorosos entre si.

Tomo um banho, me arrumo, e quando eu desço para lavar minha louça do café da manhã, meu pai está na sua poltrona cochilando com a TV ligada no jornal quase sem som. Eu rolo os olhos. Aparentemente só ele pode dormir nessa casa depois de chegar tarde.

Eu ajudo minha mãe a terminar o almoço e embrulhar presentes de última hora para o pessoal que estaria na festa mais tarde, enquanto meu pai fica no sofá alternando entre cochilar, beber sua cerveja e fazer ligações para a família distante no Arizona, desejando boas festas. Ele é sempre tão simpático com quem não é próximo, e quanto mais próximo, mais ele destrata. Eu nunca entendi, mas sempre lutei contra ser assim.

Nós almoçamos ao som da TV, um especial de Natal de alguns artistas que passava aleatoriamente, a árvore com pisca pisca ligado em plena luz do dia, porém logo logo estaria escurecendo. Já passava das duas da tarde, quase três. Meu pai em silêncio na maior parte do tempo, apenas eu e minha mãe conversando sem parar como sempre.

— Muito bom esse molho — ele comenta numa voz contida.

— Obrigada, querido — mamãe agradece.

— As batatas também.

— Fui eu que fiz — eu falo com orgulho, só pra ver a reação dele.

— Hm. — E foi como eu pensei. Dou uma risada pelo nariz. — Tá rindo de algo?

— De você.

— Falei alguma coisa engraçada?

— Não, é só que você é tão previsível, que chega a ser cômico — eu provoco, mas meu pai nem se abala, só continua comendo, olhando a televisão. Eu suspiro, exausta. — Sério. É assim que você vai me tratar a semana toda? Como se eu não existisse?

— Estou te tratando como você merece depois de ter aprontado ontem.

— Não, você tá me tratando mal desde que eu cheguei. Sinceramente, eu não te entendo. Você fica o ano todo implorando pra que eu volte pra casa, mas quando chego aqui, é isso? É sempre a mesma coisa, todo ano. Isso cansa, sabe?

— E você acha que eu não estou cansado, também?

— De quê?

— De você ser uma preocupação na minha vida.

— Eu não faço nada demais pra ser uma preocupação pra você. Tenho emprego fixo, não me meto em encrenca, e nem me venha falar de ontem, aquilo ali foi uma bobagem, uma molecagem de Jasper com a gente.

— Não faz nada demais? Eu posso enumerar... O emprego é um trabalho que não tem garantia de nada, que não dá futuro. Está longe da família, andando com aquele povo de Hollywood que tem uma reputação péssima. Isso tudo cansa, também.

— Por que você simplesmente não aceita que eu cresci e sei o que é bom ou não pra mim?

— Porque, ao contrário do que você pensa, eu me importo muito com quem eu amo. — Ele usa as minhas próprias palavras contra mim, e levanta da mesa, carregando o prato vazio para a pia da cozinha. Eu fico com meus pensamentos, minhas lágrimas presas sem querer mostrar, porque no fim das contas eu sou parecida demais com meu pai e não quero dar o braço a torcer.

Minha mãe se levanta e vem me abraçar, falando pra eu ficar calma, que ela iria conversar com ele, pra dar um tempo ao tempo. Mas eu não tinha tempo. Eu tinha só uma semana para fazer valer a pena minha vinda aqui e não me arrepender como todo ano. Eu só não aguentava mais que minha relação com meu pai fosse assim há doze malditos anos.

Nós acabamos de tirar a mesa num silêncio pesado, e nos preparamos para ir à festa dos Cullen às cinco da tarde. Vamos no carro da minha mãe com ela dirigindo.

A mansão branca fica num terreno comprido, lá no final, praticamente encrustada na floresta. Eu sempre achei um lugar meio sombrio, me dava arrepios pensar em encontrar criaturas naquela mata densa que rodeia a casa, porém Edward ama a solitude daquele lugar ermo, e eu tento ver o lado bom. Apesar disso, o interior da casa é bem aconchegante, espaçoso, claro e vibrante, perfeito para receber algumas famílias amigas na noite de Natal, como eles fazem todos os anos.

— Ah, que bom que vieram! — Esme nos recebe na porta com um vestido verde escuro e gorro de Papai Noel na cabeça. Todos os Cullen portavam o gorrinho, inclusive Chico, o labrador da família, que vem nos recepcionar também, pulando em mim de saudades. Enquanto estou falando com o cachorro, ouço meu pai abrir a boca pela primeira vez em minutos, só para cumprimentar Esme com um sorriso. Nem parece que a nossa família estava em crise uma hora atrás.

— Eu sei que você disse pra não trazer nada esse ano, mas não resisti. Trouxe minha torta de cereja que vocês amaram ano passado — minha mãe oferece, e Esme agradece sorrindo. Carlisle vem correndo.

— Eu ouvi torta de cereja? — Ele vem e nos abraça, um por um. — O que vocês ainda estão fazendo na porta? Entrem, entrem.

Passando do hall de entrada e adentrando a sala, eu vejo que a família dos meus tios e primos por parte de mãe já tinha chegado, assim como Alice e Edward. Meu peito pula ao ver sua figura num terno preto e cabelo arrumado, todo engomadinho sob o gorro natalino, perfeito para eu bagunçar. Ele me dá um sorrisinho discreto, e eu sinto seu olhar me acompanhar conforme vou falando com meus parentes. Tio Marcus, tia Dora, e meus primos Jane e Alec. É bom revê-los depois de tanto tempo, nós só nos encontramos uma vez por ano.

Eu deixo ele por último de propósito. Depois da minha família, vou falar com Alice, e só então chego perto de Edward. Ele se levanta do sofá, parece gigante acima de mim, e eu olho pra cima escondendo o sorriso. Ele se abaixa pra me abraçar pela cintura, fico sentindo sua mão na minha pele porque escolhi um vestido cinza claro de mangas compridas e costas nuas, e eu só consigo lembrar do nosso último abraço de ontem.

— Cansado? — pergunto quando nos afastamos.

— Exausto. E você?

— Tô bem... Na medida do possível.

— Eggnog? Não tem álcool. — Ele me oferece a gemada estranha que era costume tomar, mas eu nunca entendi.

— Não, obrigada.

— Ah, é, você não gosta, né? — Eu faço uma leve careta, sacudindo a cabeça.

— Beber gemas quase cruas não me abre o apetite.

— Senta. — Edward abre espaço entre ele e Alice. Nós começamos a falar sobre nossa noite mal dormida e a repercussão dela, rindo das lembranças que um ou outro perdeu por ter bebido demais naquele momento. Meus primos entram no papo também, querendo saber que história era aquela de que fomos presos ontem.

— Presos não, apenas detidos. E retiraram a queixa — eu conto, pelo que parece ser a milésima vez. Essa história ainda ia render. Eu acabo contando tudo em detalhes, e eles acham o máximo. Adolescente é muito fácil de impressionar.

— Que loucura — meu primo Alec comenta. — Mas, também, Bella já deve ter vivido coisas mais loucas em Hollywood, né?

— Sim e não… Já presenciei algumas coisas bem loucas, alguma até que eu não queria ter presenciado. Mas nada se compara a viver algo divertido de verdade com meus amigos do coração.

— Então você admite que o que eu e Jasper tramamos foi divertido? — Alice diz, ajeitando seu cabelo sob o gorrinho.

— Não se empolga, não. Ainda tô por aqui com vocês... Mas é claro que antes de eu saber de tudo, foi divertido.

Minha prima começa, então, a me encher de perguntas sobre Josh, seu cantor favorito que tinha tido um affair de dois meses com Amy, e eu preciso me esquivar antes de falar qualquer coisa que me garantisse uma multa de quebra de contrato.

— Eu juro que não sei de nada além do que saiu na mídia. Ela não me conta essas coisas.

— Ah, mas você esteve perto dele, né? Eu vi foto sua de paparazzi — ela insiste. Edward se levanta, de repente.

— Bella, me ajuda a achar a faca elétrica? Minha mãe pediu mais cedo, e eu esqueci.

— Claro. — Eu me levanto rapidamente, e ele me leva até a despensa. — Obrigada. Eu já estava ficando nervosa.

— Eu percebi.

— Você quer mesmo pegar alguma faca ou só inventou aquilo pra me safar?

— Quero sim. Tô doido pra você provar meu peru. Dizem que é uma delícia — Edward fala inocentemente, e eu não consigo aguentar a risada. Ele para no meio da cozinha, e só então percebe o que falou em voz alta. — Digo... a carne do peru. Que eu fiz. Não é pra provar o meu... Ah, você entendeu.

Aquilo só me faz rir ainda mais, e pego no braço dele pra não cair no chão. Ele prende o riso também, e o cachorro vem atrás ver o que está acontecendo.

— Desculpa, desculpa — falo, me recompondo. — Eu não tenho maturidade.

— Eu sei que não — ele ri.

Nós então seguimos pra despensa, o Chico rodeando nossos pés. Não conseguimos achar nada lá, e temos que ir até o quartinho fora da casa para procurar.

— Essa porta tá super emperrada, cuidado pra não fechar — ele avisa ao entrarmos.

É uma bagunça só, e eu nunca soube que Esme guardava tanta quinquilharia da infância e adolescência dos filhos em casa, tudo em caixas e mais caixas etiquetadas com os nomes deles e o ano. Eu tropeço num cavalinho de balanço rosa, Edward me segura. Nós enxotamos Chico dali antes que ele engolisse alguma coisa indevida. Vamos até o final do quartinho procurar numa das gavetas de uma estante de madeira escura bem antiga. Mas assim que achamos a faca elétrica de cortar peru, ouvimos um barulho alto e coisas caem atrás de nós.

Eu grito de susto, virando pra ver que Chico havia entrado e de algum jeito derrubado uma vassoura de trás da porta. Sim, a porta que não devia ter fechado e agora estava trancada com nós três ali dentro.

— Merda! — Edward fala, indo rapidamente ver se a porta abria. Mas não adianta. Ele bate, grita, e ninguém escuta.

— A gente tá longe da sala e a música tava num volume razoavelmente alto lá, eles não vão escutar. Vamos tentar abrir.

— Chico, o que você fez? — E o cão só nos olha com a língua pra fora e o rabinho balançando, achando tudo uma grande brincadeira.

— Você tá com celular no bolso?

— Não ando com celular no bolso porque sempre deixo cair. E você?

— Tá na minha bolsa, na sala.

— Droga.

— Vem, vamos procurar alguma coisa pra abrir.

Existe uma janela no quartinho, por onde entra a luz do sol. Mas logo irá escurecer, e Edward já tinha dito que a luz do lugar está queimada, pois ninguém nunca lembra de consertar. Temos pouco tempo até a escuridão total. Não conseguimos achar muita coisa que sirva. Apenas um martelo, que não funciona, e um pedaço de pau, que também é inútil.

— Acho que só nos resta ficar aqui e esperar que eles deem por falta da gente — digo sentando no chão ao lado da porta.

Chico vem brincar comigo, e eu brinco com ele, fazendo carinho na sua cabeça. Edward ainda tenta abrir a porcaria da porta, mexendo na maçaneta. No meio do caminho, ele tinha tirado seu paletó e subido as mangas da camisa branca. Quando eu reparo, estou olhando fixamente pros seus antebraços musculosos na medida certa. E olho a cintura, e vou descendo o olhar até aquela bundinha redonda na calça social preta. Me perco ali. Imaginando como seria mordê-la, e...

— Bella? — Sou chamada.

— Oi?

— Você tá olhando pra minha bunda?

— Não... Sim — eu confesso. Ele me olha só por um instante, e depois volta ao trabalho. — Você não vai protestar?

— Não. Eu já olhei muito pra sua, também. É justo.

Eu rio, batendo na sua bunda de leve.

— Canalha!

Ele ri, mas logo suspira, desistindo do que fazia, e vem sentar ao meu lado. Pega o cão, agarra o rosto dele, enche o saco dele girando as mãos sobre o rosto do pobrezinho, mas o Chico adora. Eles só param quando o cachorro cansa, e se enrola até deitar no colo dele. Edward suspira fundo, e dessa vez eu olho pra ele de verdade. A luz do sol indo embora, avermelhada, deixando seus cabelos ainda mais vermelhos e seus olhos verdes brilhando. Tão lindo, eu podia chorar.

— Que foi? — pergunto, pois vejo seu semblante muito sério.

— O esforço que eu tô fazendo pra não te beijar agora... — ele murmura, sacudindo a cabeça, e desviando o rosto.

— Quê?

— Você realmente quer isso, Bella? Ou é só fogo de palha?

Sem pensar muito, eu me inclino e ponho meus lábios sobre o dele. Deixo lá por um instante, até que ele começa a se mover, pegando a lateral do meu pescoço com uma mão. Meu peito bate rápido, e parece que só quando abro a boca pra sentir sua língua, é que a ficha cai que realmente estou beijando Edward Cullen, meu melhor amigo de uma vida toda. É doce e quente ao mesmo tempo, e o jeito que ele move a língua é tão sensual, que me deixa excitada só de pensar no futuro. Quando perco o fôlego, eu me afasto, encostando a testa na sua, ofego contra sua boca, e murmuro:

— Isso responde a sua pergunta?

Edward continua grudado em mim, o dedão acariciando meu maxilar. Sinto um sorriso breve.

— Isso é muito, muito bom, mas não responde. — Eu me afasto totalmente, então. Encaro-o, tentando entender o que ele está querendo dizer, mas ele mesmo explica. — Você vai embora em poucos dias. Eu preciso saber se você realmente me quer, ou vai ser só mais um caso de férias...

Eu sinto quase vontade de chorar e vomitar ao mesmo tempo, tamanha a ansiedade que me toma. Mas respiro fundo, colocando minha máscara de mulher madura, e falo com toda a sinceridade do mundo.

— Acho que eu te quero como nunca quis ninguém na minha vida, Edward.

Vejo seu sorriso de lado se abrir, até se tornar um sorriso gigante, e logo ele vira o rosto pra se aproximar e me beijar por iniciativa própria dessa vez. E que beijo.

O Chico até se levanta pra nos dar espaço, e eu assumo o lugar dele no colo de Edward, enquanto sua língua roça na minha, seus dentes me dão mordiscadas nos lábios quando precisamos respirar, e suas mãos passeiam pelas minhas costas nuas. Eu não resisto, e faço o que quero desde que cheguei, tiro seu gorro de Papai Noel e bagunço seu cabelo todo, puxando e acariciando sua cabeça. O cheiro do gel de cabelo e da loção pós-barba dele me intoxicam, e seu beijo é viciante. Eu não quero parar, mas ouço de longe alguém chamar meu nome.

— Bella? Filho?

— Eles devem estar escondidos se pegando em algum lugar, aqueles safados.

— Alice!

Edward se afasta de mim, me olhando meio arregalado, as mãos travadas na minha bunda.

— Que é, mãe? É verdade, quase se beijaram ontem à noite.

— Vou fingir que não estou ouvindo isso, eles são só amigos.

— Amigos não se comem com olhos como aqueles dois fazem, não.

A gente não se aguenta e começa a rir.

— Eu ouvi uma risada aqui? — Esme fala.

— Estamos no quartinho! — Nós dizemos em conjunto.

— Eu sabia! — Alice exclama, triunfal.

— Sabia o quê? — Edward pergunta atrás da porta.

— Que vocês foram se pegar escondido. Confessa.

— Alice, a gente ficou preso nessa porta emperrada procurando a faca elétrica, só isso. Até o Chico tá aqui.

— Sei.

Mas não adianta, assim que somos libertados do quartinho da bagunça, Esme e Alice nos olham com uma cara estranha. A mãe prende o riso desviando o rosto, e a filha rola os olhos, dando o paninho de prato que tinha na mão pra Edward.

— Toma, tira esse batom vermelho do rosto antes de voltar. — Elas nos deixam a sós depois disso, e eu passo a rir de constrangimento.

— Saiu? — Edward pergunta, e eu afirmo com a cabeça, pegando o paninho pra me limpar também, enquanto ele ajeita o cabelo e recoloca o gorro na cabeça que eles usam todo ano. É fofo demais. Antes de voltarmos a entrar na casa, eu pego sua mão e seguro. Ele olha pra nossas mãos entrelaçadas. — Tem certeza?

— Por que não?

— E seu pai?

— Dane-se meu pai — eu digo, pois se eu fosse esperar a aprovação dele pra qualquer coisa na vida, eu não faria nada.

Quando voltamos para a sala, Alice está no piano tocando uma música que eu tenho quase certeza que é de Taylor Swift, ela ama. Mas assim que nos vê, para e começa a tocar a clássica marcha nupcial dos casamentos. Edward mostra o dedo do meio, mas a irmã só ri e continua a tocar. As pessoas em volta não entendem, e buscam o que está acontecendo na sala até nos achar e olhar nossas mãos dadas, provavelmente. Eu sinto vontade de rir, ao mesmo tempo que começo a suar com toda a atenção em cima da gente.

— Alice, querida, toca alguma coisa mais natalina, por favor? — Carlisle nos salva.

Meu pai só olha sem esboçar expressão, enquanto minha mãe sorri discretamente. Ela me dá um joinha quando passamos por ela no sofá. Boba, boba. Mais convidados já estavam na ampla sala, como alguns amigos de trabalho de Carlisle e Esme que eu só conhecia de vista. Os pais de Rose haviam chegado com ela e conversam com os pais de Emmett, que também está lá, junto de Ana, sua irmã nova. Jasper também já está lá, sozinho como sempre. Todos sentados perto da elegante árvore de Natal branca cheia de enfeites dourados. Nós os cumprimentamos, e Rose sussurra no meu ouvido:

— E aí, deu tempo?

— De quê?

— Da rapidinha de vocês.

— Cala a boca! — eu rio, com medo de alguém perto escutar, mas falo no ouvido dela: — A gente só se beijou.

Ela comemora dando um gritinho e batendo palminhas, e Emmett, que falava sobre jogo de futebol americano com Edward (como se ele se importasse) vem querer saber do que estamos falando.

— Nada — sua esposa replica. — Mas você deve cinquenta dólares pra mim e pra Jasper.

— Por que diabos eu devo... — Mas ele para no meio da frase, arregalando os olhos e sorrindo muito. — Ah, meu Deus. Puta merda. Sério?!

— Peraí, vocês apostaram sobre nós? — Edward pergunta já entendendo tudo, e Rosalie e Jasper fazem que sim com a cabeça.

— Claro — ela diz, sorrindo triunfalmente. — Era questão de tempo. E eu e Jazz empatamos.

— Cara, vocês são doentes, sério — falo sacudindo a cabeça, incrédula.

— Tá com inveja porque ganhei cinquenta dólares fácil.

— Pessoal, vamos jantar? Achamos a faca elétrica — Esme avisa, nos chamando no meio da sala.

Não há espaço para todos à mesa, então ela é usada apenas para servir as comidas. Há dois tenders de presunto, saladas, creme de espinafre, vegetais assados, duas tortas salgadas, batatas assadas e em purê, molhos diversos e dois perus. Tudo parecendo muito apetitoso e feito por Esme, Carlisle, Edward, e alguns convidados. Alice é um desastre na cozinha e ficava bem longe, graças a Deus. Eu sirvo meu prato bem farto, já com fome, pois já tinha tempo que almocei. Sento numa rodinha junto dos meus amigos, todos em silêncio, apenas o som de Michael Bublé de Natal e nossos talheres batendo nos pratos.

Até que resolvo abrir minha boca.

— Hmm, Edward. Que delícia esse seu peru! — eu praticamente dou uma gemida. Na mesma hora, Emmett cospe pra fora um pedaço de algo, Rosalie quase engasga de tanto tossir e rir, Alice gargalha com a cabeça pra trás, segurando o prato sobre o colo.

— Maturidade passou longe, hein — Edward fala com a voz séria, mas eu sabia que ele estava se controlando. Eu não consigo, e sorrio com a bobagem.

Depois de terminar a sobremesa, é a vez de trocarmos presentes. Claro, não com todos da festa, mas com os mais próximos. Troco presentes com Esme e Carlisle, e depois é a vez que trocar com meus pais. Ingenuamente, achei que meu pai não fosse me dar nada esse ano, mas ele me vem com uma escova secadora de cabelo de última geração, porque eu falei pra minha mãe outro dia que estava querendo comprar.

— Obrigada, pai. — Eu o abraço sem jeito, rapidamente.

— De nada — ele resmunga. — Trate de usar bastante, não foi barato.

— Pode deixar.

Ele parece satisfeito que eu tenha gostado do presente, mas seu semblante muda quando eu entrego os presentes deles. Minha mãe ama, sorri quando abre, um porta retrato de madeira com uma foto só nossa que tiramos há pouco tempo numa viagem ao Canadá. Meu pai, no entanto, fica imóvel olhando o porta retrato que ganhou. Eu tinha mandado restaurar e ampliar uma foto dele criança e da sua mãe, minha avó, que morreu há um ano, perto do Natal passado.

De repente, ele se levanta, marchando em direção a porta que dá para o amplo quintal da mansão. Eu faço menção de ir atrás, mas minha mãe me para pegando meu braço.

— Deixa seu pai. — Ela me solta, voltando a sentar.

— Mas o que houve?

— A morte da vovó ainda mexe com ele. — É claro, eu devia ter previsto. Agora me sinto culpada. Minha mãe percebe. — Tá tudo bem, Bella. Não tinha como você saber. Só eu sei, porque ele chora escondido às vezes, olhando a louça dela.

— Eu vou lá — insisto, pegando meu casaco. Quando chego no quintal, meu pai está mexendo em uma das rosas de Esme, e eu vejo ele secar um olho, de longe. — Pai?

Ele se apruma, se levantando, mas não me olha, ainda virado de costas.

— Você lembra o quanto ela gostava de rosas? — ele fala, eu quase não escuto. Me aproximo devagar.

— Lembro. Sempre tinha um buquê, nem que fosse só uma rosa solitária na mesa de casa. Até o cheirinho dela era de perfume de rosas… — eu falo, mas ele não diz mais nada. Chego ainda mais perto, a ponto de colocar uma mão em seu ombro. — Pai. Desculpa pelo retrato. Eu não sabia que ia te fazer mal.

— Vocês se parecem tanto. Mesmo temperamento, mesma atitude. Até a mesma cara…

— E ambas deixamos você — eu falo, concluindo seu pensamento, parando ao seu lado sem encará-lo, ambos olhando a mata fechada e escura atrás da casa. Minha avó não quis ficar em Forks por muito tempo assim que meu pai fez dezoito anos, preferiu ir para o Arizona, voltar a morar com a família. Eu sabia que ele sempre ressentiu esse fato de morar tão longe da mãe. Agora, ele revivia isso comigo.

— Não é fácil, Bella.

— Eu sei.

— Não, você não sabe. Você não tem filhos… — Ele toma então uma outra direção, já não mais falando da vovó. — Toda a preocupação, toda a expectativa, o investimento. E nada sai como o planejado.

— Eu sou sua decepção, né?

— Não foi isso que eu falei.

— A gente era tão unido quando eu era criança. O que mudou? — Meu pai não responde, eu continuo a falar tudo que tinha no meu coração. — Eu só queria que você aceitasse quem eu sou, não quem você queria que eu fosse… — digo, sem acusação na voz, apenas transparência. — Não é justo comigo. Eu sou uma pessoa, você é outra. E você é um homem da lei, sabe bem o que é injustiça.

De canto de olho, vejo sua cabeça balançar, parecendo concordar com o que eu digo. Eu não falo nem me movo, para não perturbar aquele momento de calmaria entre nós, tão raro nesses dias. Seu braço, então, envolve meus ombros, forte como sempre. Ele me dá um beijo na lateral da minha testa. E me surpreende.

— Eu te amo, Bells. Não se esqueça disso.

— Eu te amo, pai.

E assim ele sai, me deixando com lágrimas nos olhos para secar. Eu sei que ele nunca iria mudar e nem eu, mas ao menos uma trégua nós poderíamos ter. Eu espero que dessa vez ela perdure por muito tempo.

Levo um momento para me recompor, só volto para dentro quando estou pronta. Eu pego os presentes que comprei em Los Angeles para todos os meus amigos, e vou até eles para entregá-los. Deixo o de Edward por último, ansiosa para ver se ele ia gostar. Quando ele rasga o embrulho, abre um sorriso na mesma hora.

— Uma máscara de dormir? — Jasper parece meio desapontado com o presente alheio.

— Sim, mas não é qualquer máscara. Ela tem fones embutidos pra você ouvir seu som preferido pra dormir, e ainda dá pra mudar os níveis de escuridão dela — explico. Edward ainda não tinha dito nada, eu fico ansiosa. — E aí, gostou?

Ainda sem falar, ele vai até a árvore e me chama, pegando um pacote que tem o meu nome para me entregar. Quando abro, dou uma gargalhada.

— Não acredito. — Era a mesma coisa que ele tinha comprado pra mim. Há meses, Edward vinha reclamando que não estava conseguindo dormir direito no novo apartamento, e quando fui comprar seu presente, me lembrei que em uma conversa, nós falamos sobre dicas para dormir melhor, e esse aparato foi um deles. Ele achou estranho, mas eu disse que adoraria ganhar um. Não era nada romântico, mas era um testemunho de como prestávamos atenção ao que o outro dizia — o que, pensando bem, podia até ter sua dose de romantismo.

— Obrigado. Eu curti muito, mesmo — ele fala, me dando um selinho.

— Obrigada, também. Era o que eu queria! — Eu sorrio. Sem combinar, nós colocamos nossos presentes numa cadeira, e nos abraçamos.

Ficamos nessa por um tempo, sob a luz suave da árvore de Natal sentindo nosso abraço, balançando levemente com as canções natalinas do Bublé (que eu acho brega, mas Natal sem breguice e tradições piegas não é a mesma coisa). Edward coloca o nariz no meu pescoço, e eu fecho os olhos pra sentir seu beijo ali. Os beijinhos vão subindo conforme seus dedos traçam a pele das minhas costas, um arrepio cobre meu corpo. Eu sou uma geleia de mulher quando ele chega à minha boca.

Ninguém nos interrompe com gracinhas ou coisa do tipo, ainda bem. Parece que entramos numa bolha naquele momento, e eu sinto vontade de viver aquela paz, aquele carinho todo para sempre. Nosso beijo dura o tempo necessário, e Edward se afasta levemente para me encarar, com os braços ao redor da minha cintura. Há algo de misterioso em seu olhar intenso dessa vez, eu não consigo decifrar o que é.

— Que foi? — pergunto numa voz baixa.

— Eu aceito — Edward fala, muito sério.

— Aceita? — Não entendo.

— L.A. Quero ver o que o mundo lá fora tem pra mim.

Meu sorriso começa pequeno, ainda sem crer, mas logo se alarga. Meu coração parece que vai explodir.

— Jura? Quer dizer, tem certeza?

— Absoluta.

— Mas e seus pais? Sua irmã? Você não vai sentir falta deles?

— Tenho muitas milhas não utilizadas, a gente faz uso delas uma vez por mês. Quer dizer, isso se você ainda me quiser por lá...

— É tudo que eu mais quero — eu reafirmo, envolvendo meus braços em seu pescoço e trazendo-o para mais um beijo, só mais um dos muitos que daríamos dali por diante.

Quando vejo Edward saindo do portão de embarque do aeroporto de Los Angeles, alguns meses depois, só consigo pensar que eu sou uma garota de sorte. Ele me dá aquele sorriso de lado que me derrete toda, enquanto eu dou um tchauzinho, só esperando a hora de abraçá-lo novamente.

Naquele momento, me pego conversando com o universo. E agradeço, só agradeço. Alguns desejos realmente se tornam realidade.

Notas finais
E, aí? Gostaram? Eu amei escrever essa. Confesso que fiquei receosa por estar tanto tempo sem escrever, e também pq estou deixando minhas leitoras na mão esperando capítulos novos (perdão!!!!!). Mas não resisto ao POSO, preciso participar todo ano. Enfim, comentem aqui pra eu saber se gostaram, e lembrem de compartilhar a fic com quem você acha que irá gostar também. IMPORTANTE: O plusfiction não deixa mais a gente responder comentários, mas saibam que estarei lendo todos e curtindo muito. Já agradeço de antemão. @hohcarol | @oneshotoculta (no twitter e bluesky)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.