Essa Noite Não
7 Toda noite uma imagem diferente
- Está tudo bem. –termino de tirar a venda e o volto para mim. Ele está inseguro- Você não tem que se desculpar.
Saio calmamente, e tenho a infeliz surpresa de encontrar Aiolia no meu quarto.
- Aiolia...
- Por que insiste nisso Saga?
- O que? –passo a mão pelos meus cabelos, cansado, e me sento.
- Em matar pessoas?
- Como é?
- Traz mais e mais vitimas para sua armadilha, porem desde a morte de Kanon que essa resistência acabou. Não dá mais resultado. É melhor você desistir antes de nos destruir.
Ele sai, e eu vou atrás. Não posso deixar que ele desloque nossos objetivos e distorça a realidade dos fatos dessa maneira, mesmo que doa ter de enfrentá-lo, afinal, o irmão dele morreu e a culpa foi minha. Realmente Kanon sempre foi melhor líder.
- Aiolia, me escute.
- Cansei de te escutar Saga.
- É por atitudes como essa que estamos afundando, que uma das resistências gregas está com tão poucos membro. É irresponsabilidade...
- Você matou nossos irmãos, não pode me acusar de nada!
- Eu não matei ninguém, não pude evitar, eles sabiam o que estavam fazendo desde o começo!
- E o que me diz daquela menina, a japonesa, você desacreditou, eu quase a matei!
-Você é o assassino! –eu me descontrolo, não vou tolerar acusações de um homem que levantou a mão para uma menina de treze anos.
Aiolia vai me matar, e eu com certeza não vou reagir.
Ele prepara um soco que vai estraçalhar metade de meus dentes.
Shaka está na minha frente e entre mim e a mão de Aiolia. Que pena. Talvez eu merecesse esse soco.
- Por favor...- Milo interfere, ele também está ali, todos podem assistir minha culpa- Aiolia, isso é jeito de recepcionar um novato, vim aqui te apresentar e você é grosso desse jeito?
Aiolia apenas o empurra para longe e sai, batendo a porta. Se a casa desabasse agora seria uma boa, ele não veriam a água passar dos meus olhos ao chão.
- Não chore. A culpa não é sua.
Algo reconfortante invade minha alma quando Shaka me abraça. Quando se ama alguém, quando se preocupa com ela... Essa é a reação da pessoa. A muito tempo não tenho a sensação de que alguém se importe comigo.
Como se isso retirasse minha culpa...
- Eles morreram e eu não evitei, não evitei Shaka! Fugi covardemente.
-Eu abandonei meu país por medo da guerra Saga, fui covarde. Você não pode evitar, foi obrigado a fugir para sobreviver, então...
Inclino minha cabeça e sinto os braços de Shaka se estreitarem em torno de mim.
As lágrimas correm com mais ferocidade.
Um silêncio incrível invade minha alma, quase paz.
Ahh, Saga, não seja ridículo, você está desejando amar alguém novamente? Está esquecendo o que acontece quando você faz isso? Ainda se lembra de seu irmão? De Aiolos?
Me desato de Shaka, um pouco incomodado com meus pensamentos.
- Está tudo bem?
- Ficaria se você não insistisse em ser gentil comigo!
- Como assim?!
- Eu não quero que você seja gentil comigo, não preciso disso!
- Saga, isso é uma tentativa de se afastar? Qual é o problema?
- Estou tentando te manter vivo.
- Como é?
Ele está rindo de você Saga, você é tão ridículo que se quer merece ser levado a sério.
- Estou falando sério! –o pego pelos ombros, irritado.
- Não se preocupe comigo Saga. Preocupe-se com você.
- Comigo?
- É, com você.
- Por que?
- Não é normal, e muito menos saudável, alguém se odiar assim.
- Eu não me odeio.
- Então me deixe me aproximar. –ele estende a mão. Eu devo tocá-lo?
Que mal haveria?
Estendo a minha em resposta e ele sorri.
- Já volto
Saio e, como não poderia deixar de ser, escuto o começo de uma discussão.
- Droga, aquele irresponsável vai nos entregar.
- O Milo não é irresponsável. –respondo a Shura. Seja o que for, o que eu falo é verdade.
- Ah, resolveu aparecer? – Aiolia resmunga, se juntando a Shura, somente para me infernizar.
- Saga... Não temos tempo, o Milo sumiu.-Camus se pronuncia, me surpreendendo.
- Como assim sumiu? – minha voz se eleva, de forma bem arriscada.
- Vamos logo procurar então.
- Esperem. Não podem ir assim, é melhor se organizarem antes, senão correm risco de serem pegos.
Ele não deveria interferir assim... Você vai deixar isso acontecer Saga? Vai deixá-lo tomar seu lugar na liderança?
Ahh, vamos pelo menos ouvir o que ele tem a dizer.
- Está bem, o que propõe Shaka?
- Alguém tem de ficar aqui, caso ele volte. É melhor sair em duplas, por segurança, e estabelecer que em meia hora estarão de volta, com ou sem ele, mas mais informados.
- É um ótimo plano. – Camus está o defendendo, é uma rebelião.- Bem, eu vou com o Aiolia e o Saga vai...
- Espere Camus, acho melhor o Shaka ficar, depois saímos com ele, no campo de reconhecimento. Acho melhor eu ir com o Saga e... – e Shura também está tentando te derrubar, eles estão conspirando contra você.
- Você vai ficar aqui Shura. – tome uma atitude!
- Por q...?
- Tem causado muita confusão ultimamente, e, bem... –o que eu estou pensando? Shura ajudaria muito se fosse... Ainda assim anda criando muitos problemas com seu sangue quente- A cor de sua pele e seu cabelo costumam chamar atenção. Franco ainda está no seu pé, quase fomos pegos...
- Entendi, é uma espécie de castigo.
- Entenda como quiser. –pra que discutir, nem mesmo eu sei explicar porque ele não vai... Não exatamente.
Saímos pela porta e nos separamos no cruzamento de uma avenida próxima.
- Boa sorte.
- Igualmente.
Lembro-me de agradecer mentalmente o apoio de Camus, porque o de Aiolia eu nunca cheguei a conquistar.
Cinco quadras depois, uma multidão corre na direção oposta de uma loja antiga que costumamos freqüentar. É uma loja que ajuda a resistência, onde tem também muito trafico ilegal, mercado negro, sei lá.
Mas tem um disfarce bem convincente de lojinha antiga.
Mas que droga, se os nazistas tiverem descoberto...
Entro lá. E espero que não pareça suspeito alguém entrar em uma loja em que se ouve e vê uma confusão aparente.
- Milo!
- Saga, ajuda aqui, tem muita gente...
- Cala a boca, cala a boca e passa a grana! –um assaltante ataca um civil, com violência, mas Milo o empurra e tira o homem do caminho.
- Acho que tá todo mundo fora, sem contar a gente e o pessoal da loj...
- Aí filho da mãe, não se mete não! –o marginal empurra Milo...
Droga, ele caiu num estande demonstrativo.
De agulhas...
Ahh, agora vou ter que interferir também.
- Ei, você!
Ele olha para mim. Babaca, baixou a guarda e eu peguei...
Ai!
O outro empurrou a estante de enlatados em mim. Pelas minhas costas, covarde!
Em meio a dor, ouço a sirene da policia.
É o fim. Minha perna está sob a estante.
Os ladrões fugiram e o chão está manchado pelo sangue do Milo, e nenhum dos dois pode se ajudar...
- Ainda tem alguém aqui Alexandro?
- Não Ganimedes... Espere... Tem alguém ferido ali!
Não me viram... Vão salvar o Milo... Vai ficar tudo bem...
- Aonde?
- Ali, vamos, ele está sangrando!
- Alexandro, é o Milo!
- Quem?
- Depois de um ano, como pode esquecer o Milo?
- Não é aquele cara...
- Que abandonou a policia para se juntar a uma resistência? É, ele mesmo.
- Caramba, os nazistas tão vindo aí, como a gente...?
Os nazistas estão vindo, o que eu faço?
- Por favor, me ajudem aqui.
- Quem é você?
- Meu nome é Saga, eu estava vindo buscar ele, houve um assalto...
- Certo, vamos te tirar daí. Ganimedes, vamos puxar.
Engulo meu grito de dor e alivio quando eles movem a estante e a tiram de cima de mim.
- Você está bem?
- Sim. Os nazistas estão vindo? Preciso levar o Milo daqui...
- Sinto muito, mas vocês estão detidos como testemunhas...
- Alexandro! Vai Saga, leve o Milo com você. Rápido.
- Ganimedes... –Milo abre os olhos, mal respirando de dor.
- Em nome dos velhos tempos Milo.
- Valeu...
- Milo, você pode se levantar?
- Mal aí Saga, mas nem respirar eu to conseguindo...
- E se segurar em mim, pode?
- Acho que dá. Vamos.
- Você vai levá-lo? Mas sua perna...
- Se não tiver quebrado terá sorte...
- Muito obrigado pela ajuda, mas daqui por diante eu me viro.
Nos arrastamos pela neve até o velho prédio e entramos.
- Milo, Saga... O que houve?
- Vocês tem gelo aqui? –Shaka questiona, olhando para nossos ferimentos.
- Bem... –Shura o ignora.
- Esquece. –Shaka sai furioso em direção a porta.
- O que ele... Deixa pra lá. Saga, vocês...
- Precisamos estancar o sangramento do Milo antes que isso vire uma hemorragia. –antes de conversar sobre qualquer coisa...
- Vocês deixaram este rastro de sangue?
- Não tivemos escolha, olhe para mim e pense se estou em condições de limpar chão Shura! O Milo então...
- Senta aí. –Shura me dá uma cadeira e tira Milo do caminho- O que aconteceu?
- Escolheu o dia errado para abastecer nossos suprimentos...
- Os nazistas...?
- Não, nem Franco, fique tranqüilo quanto a isso. Mas digamos que um assalto violento àquele nosso antigo fornecedor chamou a atenção.
- Ele interferiu?
- Só o suficiente para ninguém morrer, mas não deu muito certo.
- E você?
- Isso é guerra Shura, o espírito assassino de todos aflora ainda mais violento... Só o tirei de lá.
- E como sua perna...?
- Bem, vamos dizer que as estantes não resistiram ao movimento do dia.
- Bem, isso tudo é um problema, e os outros dois?
- Nos separamos já faz algum tempo, eles foram na direção oposta, com sorte não houve nada.
- Sorte... E o Shaka foi aonde? Doido...
- Talvez... –tenho medo de dizer o que pode ter acontecido com todos os outros, e Shaka saiu sem dizer nada.
- Talvez tenha se arrependido de se juntar a nós, viu ao vivo e em cores que o mundo perfeito da maioria das pessoas esta caindo... –Shura ironizou.
- Meu mundo nunca foi perfeito Shura, convivo com a morte desde muito antes de você conhecê-la. Busquei neve para estancar a hemorragia do Milo e no caminho encobri o sangue... Ainda bem que é inverno, se não...
- Você está sendo ótimo Shaka... –murmuro, fechando os olhos.
- Humpft...
- Vamos Shura, me ajude...
- Shura, ajude-nos! –eu reforço o pedido educado de Shaka com uma ordem.
Ele aplica o gelo em minha perna cheia de hematomas.
Shaka faz o mesmo nas feridas de Milo.
- O que houve com ele? –Shaka questiona.
- Parece tortura... –Shura observa.
- Empurraram ele em um estande de vidro que, bem, o Milo nunca teve muita sorte, era uma exposição de agulhas de tricô no tráfico ilegal...
- Tsc, tsc...
- Isso não importa mais... Ainda assim temos que evitar uma infecção. Tem álcool?
- Temos uísque...
- Serve.
Shura sai e Shaka se dirige a mim.
- Você está legal?
- Sim. Não se preocupe.
- Estou preocupado com você.
- Eu...
Shura chega com a bebida e Shaka aplica um pouco em cada ferimento de Milo.
- Quem quer um pouco? –ele começa a servir.
- Eu não bebo, obrigado.
- Não bebe?
- Não. –ele me encara e eu me envergonho de ter engolido a dose de uma só vez.
Camus e Aiolia chegam.
Aiolia esta diferente, sequer comenta sobre o estado de Milo.
- O que houve? Milo... Ele está bem?
- Um acidente, assalto a loja.
- E o Sag...
- Eu to bem.
- Ótimo. Vamos levar o Milo pro quarto, ele precisa descansar...
- Precisa trocar de roupa também, essa está muito infectada, ele e Saga vieram se arrastando...
- Isso me lembra, em que quarto ele vai ficar? –algo no tom de Shura ao falar sobre Shaka ferve meu sangue.
São somente três quartos, e temos que dividir.
Aiolia e Shura dividem um quarto, Camus e Milo outro. O meu está vazio desde a morte de meu irmão... Seu irmão querido Saga, você o matou...
- Comigo, é claro. –respondo, tentando desviar minha linha de pensamento.
- E...Eu não preciso... –ele percebeu algo errado no seu tom de voz, tenho certeza. Está se sentindo culpado Saga. Olhe o que está fazendo!
- Não, está tudo bem... –me levanto, ainda dolorido, tentando me ignorar- Venha comigo e com cuidado...
Ele me ajuda a andar até meu quarto.
É um lugar escuro, e um tanto mofado, mas reflete a mim mesmo.
A cama de meu irmão está sempre bem arrumada. Um lençol branco e um travesseiro com seu nome, Kanon, bordado em dourado.
Minha escrivaninha, cheia de papeis, meus, de Camus e principalmente, guardados separadamente, os de Kanon.
Minha cama está horrível.
Talvez por minhas noites insones. Cacos de espelho jazem no chão e alguns restos de comida também.
Abro a porta, envergonhado.
- Este é seu quarto?
- Sim.
- Qual é sua cama?
Aponto, ainda de cabeça baixa.
- Sente-se.
- Obrigado. Você vai ficar ali.
- A cama do seu irmão...
- Sim.
- Não precisa fazer isso...
- Não se preocupe, já disse!
- Por favor Saga... –ele faz menção de tocar meu rosto, timidamente- Me deixe ser seu amigo, te ajudar...
- Shaka, você não me conhece, não sabe do que sou capaz.
- Foi capaz de acreditar em mim e me salvar, quando éramos apenas desconhecidos...
- E fui capaz de mandar para morte meu irmão e meu melhor amigo.
- Pelo bem de seu país.
- Não Shaka. Eu fui egoísta. Podia ter ido eu mesmo, mas deixei Kanon...
- Pare de se culpar! Uma vez na vida tome uma atitude, sem se arrepender ou se reprimir!
- Isso... -isso Saga, o faça te odiar, ninguém pode gostar de um ser tão egoísta quanto você...- Percebe como nem você pode me aceitar? Não precisa tentar Shaka, no fim vai ser tudo a mesma coisa.
- Pare, por favor!
- Seja o que for que estiver tentando...
- Estou tentando te salvar!
- Não, ele não está Saga... Ele está te enganando...
- O que?!
- O que eu estou falando?
Minha cabeça está explodindo.
- Saga, se algo o está atormentando, pode me dizer, eu vou te ajudar amigo.
Ele não é seu amigo, é tudo que ecoa em minha cabeça, não posso pensar direito...
- Você não é meu amigo.
- Sou, sou sim. Fale!
- Tem alguma coisa na minha cabeça... Alguém... Desde que o Kanon foi embora... E ele concorda com Aiolia... Sua voz é muito forte...
- Me escute, Saga. A partir de hoje você vai ouvir a minha voz. Quando o que você ouve começar a falar, pense em minha voz, me peça para falar com você.
A voz límpida de Shaka realmente penetra em minha mente.
E eu quase não posso ouvir o resto das coisas.
- Fale comigo Shaka.
Fale com o autor