Essências Divinas

3 Capitulo 3 - Cortinas que se Abrem.


Notas iniciais
Iae pessoal, capitulo saindo mais rápido que o esperado, bom pra todos nós, não é mesmo? Enjoy it :)

Capitulo 03 – Cortinas que se Abrem.

— — Laila — -

Deixo meu corpo desabar sobre a cama, o colchão range com a súbita mudança de peso sobre si, mesmo que tenha visto Jin por apenas um minuto, a tensão em meu corpo parecia prestes a me matar, sinto que finalmente meu corpo começa a relaxar, quando finalmente me lembro.

— Jin quer falar com meu irmão, né? – Murmuro para mim mesma, me virando e me encolhendo sobre a cama. – Droga. – Não posso mentir para mim mesma, eu não conseguiria afinal de contas, eu não quero que meu irmão venha aqui, eu não quero ter que ver tudo aquilo de novo, eu não quero...

Sento-me novamente, soltando um longo suspiro. Ficar deitada não vai resolver nada. Tiro lentamente minha camisa, seguida pelo sutiã vinho que jogo em algum lugar do quarto.

— Eu não quero ver mais ninguém sofrer... – Ando a passos lentos em direção ao banheiro. Uma das vantagens de ser uma garota nessa universidade? Os quartos da REU reservados para as garotas são, sem exceções, suítes presidenciais, acho que eu poderia me acostumar com isso facilmente, em circunstâncias normais.

Adentro o banheiro, o piso frio espalha um calafrio por todo o meu corpo, retiro o resto de minhas roupas e adentro o box, ligando o chuveiro. Minha pele branca contorce-se com o contato da água gelada, mas logo os músculos se retesam e começo a relaxar. Enfio a cabeça debaixo da água e sinto a água lentamente cair sobre meu couro cabeludo, descendo pelos fios e nuca, ombros, costas, barriga, coxas, pernas, até chegar os pés. Fecho meus olhos em um momento íntimo e raro de tranquilidade, por um mínimo instante, me sinto distante do mundo, distante de tudo e todos, distante.

— O que você pensa que está fazendo? – A voz feminina seguida de um grito rasga minha mente, como se estivesse recusando a me deixar esquecer. Abro os olhos, a água descia por entre meus cabelos, do mesmo jeito que a chuva daquele dia.

Lembro-me de escutar os gritos, lembro-me de correr o máximo possível pelas vielas estreitas, lembro-me até de saltar por cima de um gato para não o pisotear em meu ímpeto, quem dera eu lembrasse de tudo isso, e pudesse esquecer a cena que presenciei quando virei naquela ruela. As ruas de Napoli já estavam desertas àquela hora da madrugada, exceto pelas duas pessoas a minha frente.

Uma delas, Seth, meu irmão, ele estava de joelhos, cabelos cinzentos umedecidos pelas gotas de chuva que caíam dos céus, olhos verde-esmeralda que se avermelhavam à medida que as lágrimas quentes desciam por seu rosto, rosto esse que, antes, sempre esbanjava um sorriso esperançoso e feições suaves, mas que agora mantinham-se em desespero enquanto gritos de lamúria e agonia rasgavam sua garganta, e a causa disso estava em seus braços.

Sofie, sua noiva tão amada, uma moça gentil, mas que sabia ser excitantemente cruel para com ele, a mulher que sempre o irritara e o atraíra, sua mais fiel companheira e amiga, aquela a quem tudo ele daria, ela estava deitada sobre o solo frio, sua cabeça repousava sobre as pernas do cinzento, seus frios rubros esparramavam-se pelo chão, seus olhos azul-safira agora meu pareciam opacos, alguns fios vermelhos caíam sobre seu seio, mas quem dera fossem a única vermelhidão próxima dali. Foi essa a cor. Vermelho. A cor que fez eu levar as mãos a boca. A cor que me fez chorar. A cor que me fez gritar. A cor que me fez cair de joelhos e desejar a morte.

Seu ventre, o mesmo que carrega a cinco meses o filho de Seth, meu sobrinho, aquele que já dava tanta alegria ao casal pelo simples fato de estar ali, essa agora mostrava-se como um buraco oco, brutalmente aberto e, logo após deixado de lado, como uma criança mimada a largar o brinquedo quebrado. Seth a abraçava forte, murmurando palavras de consolo, mas a quem ele queria enganar? Tudo que ele queria era estar nos últimos momentos com sua amada antes de se erguer e matar aquele que fez isso, aquele que, nesse momento, estava a apenas alguns passos de ambos, escondido pelas sombras, mas eu reconheceria aquele vulto em qualquer lugar.

— O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? – Grito a plenos pulmões para aquele que acabara de arrancar a nossa felicidade, que esteve nos enganando por tanto tempo, e que agora viraria a causa de tantos de meus pesadelos.

Balanço a cabeça, afastando tais pensamentos de minha mente. Tudo o que tento em minha vida é afastar essas memórias, mas tudo o que fazem é retornar para me atormentar. Escoro-me a parede, lentamente deslizando pela mesma até me encontrar sentada no chão, abraçando minhas próprias pernas, lágrimas novamente escorrem por meu rosto.

— Eu não aguento mais... – Meus punhos se apertam até perderem toda a cor, choro e soluço até que faltasse-me ar nos pulmões, apenas para respirar fundo e repetir o processo. Não sei por quanto tempo fiquei aqui, mas sei que os raios de sol nasciam quando deixei o banheiro, enrolada a uma toalha branca. Novamente sento-me sobre a cama e pego meu celular, encarando por alguns minutos o número de meu irmão. – Eu não quero que ele sofra mais... Mas isso não é escolha minha. – Aperto a tecla que inicia a chamada, colocando o telefone em meu ouvido. O número chama três vezes antes de ser atingido por uma sonolenta voz masculina.

— Laila? – Pelo fuso horário, já devia ser dia por lá, mas isso nunca o impediu de ficar dormindo até a hora que quisesse. – Tudo bem com você? – Pergunta ele, preocupado. Eu não costumo ligar com muita frequência afinal de contas.

— Tudo bem sim, eu só... Preciso te dizer umas coisas. – Minha voz hesitava. Será que estou mesmo fazendo o certo? Bem, não é a hora de decidir isso.

— Sou todo ouvidos. – A voz dele, sempre tão atenciosa, se faz ouvir.

— Jin apareceu hoje aqui, ele disse que queria falar com você, pediu que tomasse o primeiro navio que pudesse para a ilha, vocês vão se encontrar na ilha doze.

— Entendo. – O tom dele, tão atencioso e caridoso, mudara subitamente, algo mais... Ácido e inumano, quase como um robô com frases pré-programadas.

— E tem mais uma coisa... – Hesito, não acredito no que estou prestes a pedir, mas eu me escondi por tempo demais disso tudo. – Eu quero minha parte da herança. – Falo decidida e sinto que ele mesmo ficou abalado com minha decisão. – Quando vier, traga-a. – Falo compenetrada. – Eu quero a posse da minha carta.

— — July — -

— Eu vou jogar. – A determinação que transbordava da voz de Ukyo era algo que nunca antes vi, era quase como se eu visse, diante de mim, alguém que finalmente encontrou um propósito de vida, e que não abriria mão disso tão facilmente.

— Gosto dos seus olhos, garoto. – Comenta Jin, o professor tinha um sorriso satisfeito em seu semblante. – Agora sei, você não é só um covarde, o julguei mal, peço desculpas. – O senhor se senta novamente. – Pesquisei a fundo sobre você, quando vi que nunca mais usou seus poderes após a morte de sua mãe, o julguei como um covarde, mas suas ações de hoje me fizeram calar a boca, você tem coragem, gosto disso. – Ukyo o fita, inexpressivo.

— Como sabe da minha mãe? – Inquire seriamente, Jin arqueia a sobrancelha, ofendido.

— Eu tenho doutorado em história, achar informações sobre o passado é meu trabalho, lembra? – Uma certa tensão se alastra no ar, Ukyo não parecia confiar nada em Jin, e Jin não parecia se importar em fazê-lo mudar sua opinião. – Sente-se, ainda temos o que conversar. – Ukyo, meio a contragosto, o faz. – Você deve estar se perguntando, por quê vim atrás de você? – O ruivo revira os olhos e responde secamente.

— Acredite, por que as pessoas estão vindo atrás de mim é a única pergunta que faço nas últimas horas. – Apesar da ironia em seu tom de voz, Ukyo estava certo, por que aquele homem veio atrás dele mais cedo é um mistério, mas mistério maior são os motivos de Jin.

— Você deve ter sentido alguns dias atrás uma forte tontura, capaz até de causar desmaios, e a voz do deus da sua carta falou com você mesmo sem você estar tocando na carta, correto? – Ukyo assente, meio emburrado, isso deve explicar o desmaio dele na cafeteria. – Você sabe o que isso significa?

— Achei que saber informações sobre coisas do passado fosse o seu trabalho. – O ruivo põe uma ênfase que me deixa desconfortável, mas Jin apenas solta um sorriso zombeteiro antes de continuar.

— De fato, você está certo. – Jin novamente põe a tampa sobre a caixa que continha sua carta, Ukyo parece um pouco... Aliviado? – Durante muitos anos, as cartas continuam ativas, mas o jogo, de fato, não acontece a quase dois mil anos.

— O que quer dizer? – Jin solta um longo suspiro.

— Digamos que isso é uma corrida. – Ele pondera, antes de continuar seu exemplo. – Cada carro precisaria de um piloto para poder locomover-se, correto? De mesmo modo, as cartas precisam de um portador para tal feito, mas... – Ele faz uma pausa, como se questionasse mentalmente se deveria falar aquilo. – Desde Jesus, algumas cartas estão perdidas.

— Jesus? Tipo, o da Bíblia? – O professor assente.

— Não tenho informações suficientes, mas existem rumores de que ele foi o único, até os dias de hoje, a reunir todas as cartas. – Sinto um arrepio percorrer meu corpo. Aquele Jesus? Uau. Mas agora tudo faz sentido, ou pelo menos, começa a fazer, ele tinha tanto poder, ressuscitou e era como uma parte de Deus, se o que Jin falou sobre as cartas for real, talvez, e só talvez, isso seja realmente possível. – Mas desde então, algumas cartas estavam perdidas.

— Perdidas? Jesus quis brincar de Quente-Frio antes de morrer? – Ironiza Ukyo e Jin dá de ombros.

— Não sei, mas as cartas simplesmente espalharam-se novamente, porém aquele sinal nos deu a notícia. – Seu tom era sério, mais do que antes. – O Jogo começou novamente, e todos os lados estão começando a juntar forças? – O ruivo arqueia as sobrancelhas.

— O que quer dizer? – Jin junta suas mãos, as colocando sobre a mesa.

— Como eu disse, existem 52 cartas, então é algo natural de se achar que, um método de juntar poder seja através de... Alianças.

— Então é por isso que você veio atrás de mim. – Conclui Ukyo, mas Jin nega com a cabeça.

— Esse não é meu motivo, esse é o motivo daquele cara de hoje mais cedo.

— O que quer dizer?

— Aquele homem que o atacou, não era o verdadeiro portador da carta, a carta era emprestada.

— Espera aí, espera aí, me perdi, quê? – Interrompo antes que a conversa ficasse ainda mais confusa.

— Está bem, irei explicar. – Fala Jin, em tom suave. – As cartas são habitações dos deuses, embora o real corpo e poder deles não esteja totalmente na carta, uma boa parte está, então eles mantêm certo “orgulho”, se é que pode-se chamar assim. Existem algumas regras nesse jogo, algumas só se aplicam a cartas específicas, mas outras são aplicáveis a todas, e uma delas é. – Jin ergue um dedo. – Nenhuma carta aceita ser controlada por um usuário de drogas.

— Que merda é essa? PROERD? – Brinca Ukyo, mas Jin se mantém sério.

— Quando a carta é ativada, o deus que nela habita muda de lugar, fazendo de habitação sua mente, mas drogas e bebidas alcóolicas “poluem” essa habitação, deixando a Sincronização Divina prejudicada. – “Sincronização Divina? O que é isso? ” Penso em perguntar, mas Jin continua sua explicação. – Ou seja, aquele homem de hoje não era o real usuário da carta ácida, provavelmente, o usuário emprestou a carta para ele vir até a faculdade e pegar a sua carta, em troca, ele daria umas pedras de crack, talvez.

— E por que ele mesmo não veio atrás de mim? – Jin dá de ombros.

— Não sei? Manter-se escondido? Testar você? São tantas possibilidades. – Jin parecia distante. – Mas se estou certo, o grupo que atacou vocês quer apenas retirar as cartas fortes das mãos de pessoas que possam fazer algo com elas.

— E eu sou uma dessas? – Ukyo questiona e Jin o fita por alguns segundos, logo após assentindo.

— Você, durante a sua primeira luta, conseguiu controlar aquelas chamas mesmo à distância, isso prova que sua Sincronização Divina é alta, e ainda tem muito potencial para crescer. – Analisa Jin, mas Ukyo parece ficar ainda mais curioso.

— Já ouvi essas palavras algumas vezes hoje, Sincronização Divina, o que é? – Jin fica em silêncio, como se bolasse um jeito de explicar aquilo.

— Pense nessas cartas como um profundo oceano. – Deduz ele como sendo a melhor explicação. – Para “conhecer” esse oceano, você tem que “mergulhar” nele, quanto mais profundo se vai, mais dele você pode ver, mais dele te cerca. – Ukyo parece tentar entender com dificuldade. – Quando mais fundo se está, mais acesso você tem a amplitude do oceano, a Sincronização Divina é isso, você “mergulha” com sua consciência na carta e “conhece” todo o poder que ela possui, tendo acesso a ele, quanto mais fundo você “mergulha”, mais você “conhece”. – Ele faz uma breve pausa. – Uma pessoa com uma alta Sincronização Divina, pode fazer milagres, ao mesmo tempo, alguém com uma Sincronização Divina fraca, faz até mesmo uma carta King se tornar inútil.

— Quer dizer que qualquer carta que o Ukyo utilizar se tornará mais forte? – Questiono e ele nega com a cabeça.

— Cada pessoa tem Sincronizações Divinas diferentes com cartas diferentes. – Ele aponta para Ukyo. – A Sincronização dele é poderosa com a carta de fogo, mas isso não quer dizer que ele tenha uma alta Sincronização com alguma outra carta. – O Professor fita o ruivo. – Você notou, durante sua luta, que enquanto você conseguia controlar e não se machucar com seus poderes, seu oponente fazia tudo desajustadamente e se machucava com isso, correto? – Ukyo limita-se a assentir. – Aquilo é o mais claro exemplo da diferença de Sincronização Divina.

— Se é assim, e o cara que mandou aquele viciado atrás de mim realmente queria minha carta, por que ele não mandou alguém com uma Sincronização Divina maior?

— Seria arriscado. – Responde prontamente. – Se a Sincronização fosse muito alta, o deus que habita dentro da carta poderia, por vontade própria, alterar seu dono, e assim ele perderia a carta.

— Isso é possível.

— Depende muito do deus que está lá. Cada deus tem suas próprias regras. – Ele aponta para a caixa. – Por exemplo, o deus da carta Dragão nunca se Sincronizaria com alguém que roubasse a carta, somente se fosse derrotado em combate. – Isso explica por que ele mostrou-nos a carta com tanta facilidade. Mas algumas coisas ainda são estranhas.

— E como você sabe tanto assim sobre essas cartas? – Jin apenas sorri.

— Alguns deuses ficam entediados e só querem conversar as vezes, é bom aproveitar essas oportunidades.

— Você disse que tem um grupo atrás de mim, quem são? – Questiona Ukyo.

— Eu não sei. – Conclui Jin, como eu disse, existem alguns grupos se formando, cada um com objetivos diferentes, mas os mais perigosos, são os grupos liderados pelas cartas King, então presumo que deva ser um deles, para mandar um peão dessa maneira tão descarada, ele não deve ter medo de ser descoberto, então deve ser alguém poderoso.

— Você está falando muito das intenções dos outros. – Concluo. – Mas pelo que você está lutando? – Jin vira-se para mim, acho que ele não esperava que eu fizesse essa pergunta, nem eu, me arrependo um pouco. Talvez não muito. Um pouquinho só.

— Sendo sincero com vocês? – Ele ergue o olhar, fitando algum ponto de uma janela distante. – Eu já viajei esse mundo inteiro, vi coisas que muitos só sonham, e por isso posso dizer. – Seus orbes voltam a se concentrar em nós. – Esse mundo é maravilhoso. Eu não quero que ele seja destruído, quero que as pessoas possam viver e ver um mundo tão belo e vivo quanto eu vi. – Ele dá de ombros. – Não ligo para quem ganhar esse jogo, só me importo em deter todos aqueles que queiram destruir o mundo que conheci.

— E que garantias tenho de que isso é verdade? – Jin fica em silêncio por instantes, logo após destampa a caixa, Ukyo parece voltar a ficar incomodado. O que há com ele? – A carta Dragão é um dos deuses mais honrados de todos, ele é quase um daqueles ideais de cavalaria. – Brinca o professor. – Ele nunca permitiria que uma promessa fosse quebrada. – Jin ergue seu olhar em direção a Ukyo. – Por isso eu prometo, quando todos aqueles que querem o fim desse mundo que amo forem derrotados, a posse da carta Dragão será de Ukyo Mori. – Tanto eu quanto Ukyo ficamos estupefatos com tal ação. Ele está abrindo mão de fazer qualquer pedido? Esse cara realmente tá falando sério. – Espero que isso seja suficiente para que acredite em mim. – Jin novamente tampa a caixa e o alívio novamente percorre o corpo de Ukyo. – Dói, né? – O Ruivo assente e os fito confusa.

— O que houve? – Questiono-o.

— As cartas, mais do que tudo, desejam estar juntas, então elas ficam constantemente chamando umas às outras, esse chamado se passa através de um zunido nos ouvidos de seus portadores.

— Quando enfrentei aquele cara mais cedo, era quase um assobio bem distante. – Ukyo encara a caixinha sobre a mesa. – Quando ele destampa essa caixa, parece que tem uma banda de rock pesado inteira fazendo um show na minha cabeça. –Jin dá de ombros.

— Quanto maior a força da carta, mais forte é a ressonância, a carta King pode ser escutada a quilômetros de distância, por isso pedi que fizessem essa caixa, ela é de chumbo com isolamento acústico. É impossível que detectem a carta desse jeito.

— Eu tenho uma pergunta. – Inicio. – Você nos contou tudo isso, mas ainda tem algo estranho... Por que nunca lemos sobre essas cartas em lugar nenhum? Digo, se são reais, mesmo algum louco já deve ter falado a respeito.

— Basicamente... Dois motivos. – Jin nos mostra o dedo polegar. – O primeiro é: Isso é um “jogo”, então existem “Juízes”, e esses Juízes tem a função de manter aqueles que não estão jogando, fora do jogo. – Fito-o confusa.

— Como assim?

— Eu não sei ao certo qual o critério que eles usam para definir alguém como um “não-jogador”, mas quando o fazem, eles usam uma carta estranha. – Ele faz uma breve pausa. – Uma carta negra, o Joker, e apagam as memórias das pessoas sobre o jogo. – Uma carta... Que pode apagar memórias... Que bizarro.

— Então a informação nunca vazaria, a menos que estivéssemos envolvidos de alguma forma, correto? – Jin assente.

— E também tem outro motivo. – O professor continua. – Os governos querem escondê-las.

— Os governos? – Jin assente.

— Qual vocês acham que seria a reação da população quando descobrisse que a Segunda Guerra Mundial, aquela que matou tanta gente, foi por causa de cartinhas de um jogo? – Sinto um calafrio percorrer todo o meu corpo.

— O que você disse? – Jin assume uma expressão séria.

— Tudo neste mundo sempre girou e gira ao redor das cartas. – Inicia ele. – Os idiomas foram criados através da adaptação humana feita para reproduzir os encantamentos de ativação, as grandes catástrofes, os grandes avanços, as grandes maravilhas, as grandes guerras, tudo sempre dependeu das pessoas que portam essas cartas.

— Então... – Murmura Ukyo.

— Sim, todas as guerras, sem exceção, foram lutadas com essas cartas. – Fala ele seriamente. – As duas grandes guerras mundiais se chamam assim não por envolverem muitas nações, mas sim por envolverem as quatro Kings.

— As quatro Kings... Numa guerra. – Jin assente.

— Eu sei apenas do desfecho durante a Segunda Guerra. – Começa Jin. – Os EUA possuíam o controle da carta Dragão, enquanto isso, a Alemanha Nazista possuía duas cartas King e a última carta King foi encontrada no Japão. – Ele faz uma pequena pausa. – Durante muito tempo a Alemanha seguiu avançando em dois frontes, pois seus Kings lutavam em ambos. Enquanto isso, o ataque a Pearl Harbor foi, em suma, uma demonstração japonesa do que seu King podia fazer. Os EUA não deixaram barato e entraram na guerra, unindo-se a frente de batalha, mas o que definiu a guerra foi Stalingrado. – Ele faz uma pequena pausa. – Naquela batalha, mesmo com cartas mais fracas, as tropas soviéticas venceram um dos Kings alemães, obrigando a Alemanha a debandar e começando os ataques de retaliação. – Pego-me prendendo a respiração, tensa, enquanto Jin narrava a verdadeira cara dos fatos. – Quando as tropas aliadas marcharam sobre Berlim, a carta King alemã restante fugiu para o Japão, mais precisamente... Para Hiroshima. – Arregalo os olhos, prevendo o que estava por vir.

— Você tá dizendo que... – Jin assente com a cabeça.

— Hiroshima foi bombardeada atomicamente na tentativa de matar o portador da carta King Alemã, da mesma forma na cidade de Nagasaki, onde estava o outro portador da carta.

— Você está me dizendo que eles destruíram duas cidades apenas para ver mortos os portadores das cartas King? – Jin faz um longo silêncio, logo suspirando antes de continuar.

— Quando foi que eu disse que os usuários das cartas King morreram? – Aquela frase dispara dentro de mim um terror e medo indescritíveis. Dois seres humanos resistiram ao poder de uma bomba atômica simplesmente por terem uma dessas cartas? O quão insano elas devem ser? Jin se levanta, sua expressão era séria. – Eles ainda estão por aí, juntando forças. – Ele fitava a mim e a Ukyo. – Eles fizeram aquela guerra em um tempo em que ainda existiam cartas desaparecidas, o que farão agora que sabem que podem conseguir todas? – Ele faz uma pequena pausa, se afastando alguns passos, ponto a mão sobre uma caixa grande. – A maior de todas as batalhas está prestes a começar. A maior de todas as cortinas está prestes a se abrir. – Ele faz uma pequena pausa. – De que lado vocês vão atuar, eu lhes pergunto. – Jin volta a nos fitar. – Serão meus aliados? – Questiona e Ukyo fica em silêncio por um tempo, antes de finalmente responder.

— Está bem, conte comigo. – Jin sorri amistosamente, logo em seguida virando-se para mim.

— July? – Instantaneamente percebo o que ele quer dizer, respondendo-o prontamente.

— Estou com vocês.

— Ótimo. – Ele pega a caixa grande, que percebo agora estar trancada com um cadeado, e a abre usando uma chave, revelando em seu interior algumas cartas, deve ter sido isso que ele quis dizer com “alguns deuses entediados gostam de conversar”. – Como prova de aliança, dar-lhes-ei algumas cartas. – Ele fita Ukyo, murmurando. – Para você. – Ele coloca lentamente a mão sobre cada carta, pensando, se eu estiver certa, ele questionava aos deuses dentro das cartas qual aceitaria ir com ele, até que finalmente escolhe uma. – Essa, a carta número 6 de Ouros. – O Ruivo aceita, fitando a carta por alguns segundos. Jin vira-se para mim. – E para você...

— Ei, não a envolva nisso. – Retruca Ukyo.

— U! – Exaspero e ele me fita, assustado, o encaro seriamente. – Desculpe, mas... Essa decisão é minha, e eu tenho meus motivos. – Fito-o nos olhos. – Eu vou lutar, quer você queira, ou não. – Ele fica em silêncio, me encarando, mas finalmente suspira e responde.

— Ok, desculpa.

— Garoto espero, não creio que queira que sua amiga tenha memórias apagas pelos Juízes, não é? – Ele vira o rosto, emburrado. Logo em seguida, Jin me fita. – Você é sortuda, foi escolhida por duas cartas. – Ele me entrega ambas. – O Ás de Ouros e o 7 de Espadas lhe pertencem, July Biazzi. – Aceito-os de bom grado, quando as toco, sinto dentro de mim um conhecimento que nunca antes senti, o Ás de Ouros deve ser conjurado em Italiano e o 7 de espadas em Mandarim. Sinto também o tamanho do poder que habitava naquelas duas cartas. – Também os darei isso. – Ele entrega duas caixas semelhantes à que usava para guarda a própria carta. – Guardem as cartas aí, mas mantenham elas sempre consigo, e lembrem-se. – Adverte ele. – A partir de agora, qualquer um pode ser um inimigo.

— — Laila — -

Era por volta das 17hrs quando o navio começa a se aproximar do porto, não encontrei com July ou Ukyo o dia inteiro, estou um pouco preocupada com eles, mas sei como as coisas serão daqui para frente, sei o que terei que aguentar, então vou erguer a cabeça e fazer o que tenho que fazer.

Não demora muito até que os passageiros comecem a desembarcar e, entre eles, meu irmão. Ele mantinha um sorriso calmo em seu rosto, mas ele não consegue mentir para mim. Sei que, desde a morte de sua noiva, tudo o que ele tem feito é dar sorrisos falsos e treinar para, um dia, ter sua vingança, quem dera esse dia não estivesse se aproximando.

— Laila. – Ele me abraça assim que se aproxima, trazia uma bolsa em sua mão esquerda, retribuo ao gesto fracamente, fitando-o calmamente quando nos separamos.

— Como você tá? – Ele ergue as sobrancelhas.

— Isso é realmente importante? – Dou um soco de leve na barriga dele.

— Eu sou sua irmã, para mim é importante sim. – Ele finge um sorriso.

— Eu vou ficar bem, e você? – Desvio os olhos por um segundo, gesto que ele parece notar.

— Poderia estar melhor... – Murmuro. – Mas não é mais uma opção. – Ergo o olhar, fitando-o nos olhos verde-esmeralda. – Você trouxe?

— Você sabe que isso é um erro, né? Eu posso cuidar de tudo. – Nego com a cabeça.

— Meu erro foi achar isso. – Encaro-o fixamente. – Pare de tentar proteger todos nós, você sabe que não pode. – Engulo em seco, não queria falar a próxima frase, mas sei que ele nunca deixará se eu não o disser. – Tudo só ficou desse jeito, por que você tentou fazer o que não conseguia. – Suas feições endurecem e penso que ele está prestes a me bater, mas tudo o que ganho é um.

— Você está certa. – Murmura entre dentes. – Desculpa.

— Eu que tenho que me desculpar. – Solto um longo suspiro. – A partir de agora, vamos fazer isso juntos, ok? – Estendo a mão para ele, o jovem de cabelos cinzentos me fita por um instante, logo soltando um sorriso de canto.

— Você cresceu, Laila. – Não irmão, penso comigo mesmo, o mundo está me fazendo crescer, então é hora de começar. – Ok. – Responde ele, depositando uma carta divina em minha mão. Sinto aquele conhecimento que já presenciei uma vez novamente percorrendo meu corpo.

— Obrigada, irmão. – Murmuro. – Vamos, Jin está esperando você. – O jovem assente, envolvendo meu ombro com seu braço enquanto começamos a caminhar.

— — Jin — -

Fito pela janela enquanto o sol se punha. Fora uma longa noite, e algo me dizia que não seria a última delas. A partir de agora, todas as noites podem ser as últimas, mas mesmo assim, não me sinto mal. Sinto um sorriso se formar em minha face à medida que penso em minhas ações. As coisas podem realmente dar certo, mas para isso, preciso achar os aliados certos.

Minha mente se esvai à medida que encho a taça com um pouco de vinho, será que fiz certo em esconder de Ukyo e July o que vi ontem? Quem sabe...

Ukyo desmaia em meio a neve, vejo ao longe July se aproximando do corpo desacordado do ruivo. O garoto lutou bem, a Sincronização Divina dele é a maior que já vi durante uma primeira luta da carta de fogo em todos esses anos, ele tem potencial, seria um ótimo aliado se não fosse um covarde. Minha visão foca-se no homem que fugia, estou um pouco distante, mas ainda posso alcança-lo. As asas em minhas costas batem e rompo o ar a minha frente, descendo dos céus rapidamente, é então que vejo uma grande massa de energia escura se espalhar pelo chão, já estávamos distantes de qualquer forma de vida, então esse era o melhor lugar para usar isso. A matéria escura se envolve nos pés do homem que antes usava a carta ácida, sugando-o para baixo como uma areia movediça. Ele se debatia e gritava, mas seus gritos não seriam escutados de tão longe, sua voz desaparece quando ele é totalmente absorvido por aquela matéria.

Lentamente desço dos céus, à medida que a matéria começa a retornar a seu portador.

— Fascinante, não? – A voz era cansada, mas ao mesmo tempo resoluta, vinha de um velho senhor, localizado no meio da poça de trevas. – O poder do Rei dos Elementos, Trevas. – Inicia ele, noto que ele era um senhor de idade avançada, uns 80 ou 90 anos, mas mantinha vigor e força anormais para sua idade, mais um dos efeitos de se usar tal poder. – O que tem a me dizer, Rei das Bestas, Dragão? – Inquire ele, vejo uma queimadura séria em seu pescoço que descia pelo resto do corpo. Pela maneira da ferida, devo presumir que ele seja um dos Kings que sobreviveu a bomba atômica. Se eu não tomar cuidado, posso ter problemas.

—O que você quer aqui? – Questiono-o, não baixando a guarda.

— Não se preocupe com isso. — Responde o velho, as sombras começam a envolve-lo. – Ainda não é o momento de nos enfrentarmos. – Seu sorriso era sinistro e dispara meus sentidos de alerta sem nem mesmo se mexer. – Só vim fazer uma pesquisa de campo, é como pensei. – As Trevas finalmente envolvem-no e ele desaparece em meio a elas. – Eu não terei problema algum em vencer todos vocês quando for a hora. – Sua voz ecoa em meus ouvidos à medida que a matéria escura some, como se nunca tivesse estado aqui.

Preciso me apressar.

As coisas só vão piorar daqui para frente.

— — Continua — —

Notas finais
E é isso, espero que tenham gostado, deixem seus reviews pra fazer um pobre leitor mais feliz e até a próxima.