Esquecimento

24 Pretérito: Triângulo Hermético - Parte Final


Notas iniciais
Para quem diz que eu sou uma autora má... Último capítulo de "Pretérito..." Peguem os lenços, OK? Boa Leitura :3

Esquecimento

Escrito por Kohana

Capítulo Vinte e Quatro: Pretérito: Triângulo Hermético — Parte Final

"Todo mundo sofre, todo mundo grita, todo mundo se machuca... E está tudo bem."

Abriu seus olhos lentamente, conforme o barulho mínimo da porta sendo fechada, chegava aos seus ouvidos. Quando viu a imagem ereta passar pela porta, ela se levantou, um pouco mais elétrica. Olhou para a cama a sua frente em seguida, como vinha fazendo em seus dois últimos horários de almoço. Os olhos cansados, da mulher encostada na cabeceira da cama, estavam abertos, ainda sim, serenos. Devia estar a observando durante um bom tempo, como fazia sempre.

– Bom dia, Doutora Haruno. — a voz firme do homem engravatado chegou, também, aos seus ouvidos, lhe tirando de seu pequeno alheamento e fazendo-a desviar seu olhar dela para ele.

– Me desculpe pela rudeza. Bom dia, Doutor Ren. — ela consertou sua gafe, aproximando a passos rápidos até a ele, para depois lhe estender a mão como forma de cumprimento.

O homem se limitou a sorrir e, soltando a mão de Sakura, olhou para a mulher na cama. Era perceptível seu estado deplorável. Suas olheiras, o cabelo preso e, notavelmente não muito cuidado, sobre um lado do ombro, a condenavam. Ainda sim, mesmo não estando bem, ela levava um sorriso em seu rosto. Infelizmente, esse também, era como um espelho de sua alma.

– Bom dia, senhorita Griller. — ele saudou, indo até sua direção e fazendo o mesmo que antes fez com Sakura.

Ótimo dia, senhor Ren. — ela disse, se não fosse por seu estado, empolgada, aumentando ainda mais seu sorriso, um tanto melancólico.

Era notável o constrangimento do homem de aparentemente 30 anos. Ele não sabia esconder o que sentia ao ver a imagem da jovem a sua frente, ninguém sabia. Nem mesmo Sakura, que tanto lutava para não pensar nisso.

– Bem, eu já estou a par de toda situação. Podemos começar? — ele perguntou se livrando de seu semblante penoso, adotando o tom firme, exigido por sua profissão.

Sakura olhou para a sua amiga como se questionasse-a, esta balançou a cabeça em positivo, concordando com o que ele disse.

– Sim, doutor. Podemos começar. — ela respondeu, adotando seu tom profissional, também.

Nove meses haviam se passado. Nove meses, longos e tortuosos, com uma dor ilimitada na vida de Sakura e, dessa vez, principalmente, de Shion.

Sua gravidez foi marcada por uma depressão profunda, uma decadência. Nem mesmo estar perto de Sakura e Daisuke lhe ajudaram em algo. Nada adiantava. Não houve um dia que não tenha chorado e se amaldiçoado pelo caminho que havia tomado. Estava grávida de um ser repugnante, havia sido usada e quem pagaria por isso era seu filho.

A culpa, o desespero e a incerteza do que seria a sua vida, a fizeram decair.

Sakura se viu em uma posição delicada. Se sentia impotente, apesar de tentar a todo custo resgatar a sua amiga das profundezas escuras em que ela caíra.

Inevitável e impossível.

Nada fazia Shion melhorar, nem mesmo os psicólogos que Sakura contratou. Ela estava começando a delirar, a ter alucinações. Sakura tomou a atitude de a internar, para o próprio bem da criança.

Ela ficou hospedada em uma clínica de repouso, com as juras de que ela melhoraria. Entretanto, não foi isso o que aconteceu. Shion só piorou. Às vezes, nem seu nome ela se lembrava, para tentar passar pouco de como ela estava.

Os meses foram torturantes, até a chegada de sua filha.

Shion deu entrada no hospital, mas a sua filha, apesar de sua bolsa ter estourado, teve dificuldades de vir ao mundo. O cordão umbilical estava preso no pequeno pescoço da criança, enforcando-a. Shion não tinha forças para ajudá-la a sair, porém ela, com a ajuda dos médicos e com Sakura ao seu lado, conseguiu.

Uma pequena maré de felicidade invadiu a ala em que estavam, conforme o fino choro ecoava ali. Sakura, que estava com a bebê recém-nascida, andou em passos lentos, com cautela, até Shion. Ela julgou, em anos que conhecia a sua amiga e todas as vezes que estava com ela, nunca tê-la visto tão feliz quanto naquele momento em que pegou a filha. Estava debilitada, poderia fizer acabada. Todavia, seus olhos brilhavam diretamente para a criança.

"Mia. O nome dela será Mia." Ela sussurrou, alto suficiente para que Sakura ouvisse.

As lágrimas de Shion desciam seu rosto em frenesi, tal como as de Sakura. As duas estavam felizes demais para acreditarem. Mia era um bebê lindo e, graças aos céus, saudável.

Contudo, o som da máquina ligada ao coração de Shion ecoou alto, cessando qualquer felicidade que residia em uma linha invisível das duas.

Sakura deu Mia para uma enfermeira, e esta levou-a para fora imediatamente. Deu ordens diretas para que pudessem salvar Shion. Usou o desfibrilador, inúmeras vezes. Estava cansada, porém não desistiu.

Os batimentos cardíacos de Shion se estabilizaram. Ela ficou feliz, porém como antes, essa felicidade, não durou muito tempo.

Ela soube o que viria acontecer, infelizmente. Os médicos, que também acompanhavam Shion, avisaram da futura morte irreversível. Contudo, ninguém sabia os motivos para isso ter de acontecer. Nada indicava o que estava acontecendo, nenhum exame apontava os motivos reais. Entretanto, sabiam que a sua partida estava com o tempo contado.

Sakura não soube dizer quanto tempo ficou encostada na porta do quarto de Shion, observando ela ninar sua filha. Ela só sabia que tinha muito tempo e que não sabia o que dizer, sequer como começar um diálogo. Ela não sabia de nada.

Todavia, suas lágrimas mostravam que tinha algo errado.

Com um suspiro cansado e um sorriso mínimo, Shion chamou Sakura. Sakura hesitou um pouco, mas fez o que lhe era pedido. Andando em passos lentos ela chegou até a cama de Shion, após isso sentou-se na ponta que tinha ao seu lado os pés dela.

"Vai ficar tudo bem." — Shion disse serena, como se soubesse do que falava, o que Sakura pensava e quais eram seus problemas, sem nunca cessar seus movimentos para que sua filha ficasse calma.

Os gemidos de Sakura, baixos e finos, chegaram ao seu ouvido. As lágrimas já deixavam pequenos círculos na calça branca dela e a sua cabeça se movimentava em negativo, como tal, negando o que Shion dizia; Porque, na realidade, ela estava negando a situação, ao menos para si mesma. Ela não ficaria bem, não poderia, sendo assim, nada ficaria bem. Shion era uma parte de sua vida que, aos poucos, se tornou mais importante do que ela queria. Não podia acreditar que a mulher sorridente e extrovertida, que a fazia rir sempre que queria chorar, a pessoa que tirava dela todas, ao menos por um tempo, lembranças tristes, fosse aquela mulher a sua frente. Sobretudo, ela não podia acreditar, que nada poderia fazer para que ela continuasse alegrando seus dias.

Não vai, não vai...– ela disse em sua voz fanha, justificando seus movimentos incessantes.

Shion sorriu terna, acalentando os cabelos róseos de Sakura com uma de suas mãos. Sabia, de alguma forma, como Sakura se sentia. Não era como se estivesse sendo fácil para ela, porém ela sabia o quanto Sakura tendia a sofrer mais.

Sakura levantou sua cabeça, enfim. Em seu rosto havia tristeza, dor, desespero. Haviam muitas coisas ruins. Porém, no rosto de Shion, apesar de ainda mostrar o quão debilitada ela estava, não havia nada além de...

Conformação.

Sakura secou suas lágrimas, pegando na mão dela em seguida. Aproximou-se o quanto pode, logo após, beijou sua testa.

"Eu sinto muito." – voltou a chorar.

Shion, mais uma vez, sorriu. Ela já sabia o que estava acontecendo, não precisava que alguém lhe dissesse, muito menos Sakura. Ela já temia isso muito antes de entrar em trabalho de parto, mas não adiantava se desesperar. Aceitar era a melhor forma de não prolongar a dor de não poder ver sua filha crescer.

"Quero que fique com a guarda de Mia." — ela quebrou o silêncio que havia se instalado no quarto.

Sakura não se surpreendeu, queria isso também, só não sabia como entrar naquele assunto. Ela sequer conseguiu dizer com as palavras certas o motivo para estar ali naquela hora.

"Ela será como se fosse a minha filha."– foi a única coisa que disse, enquanto acalentava os cabelos loiros de Shion.

Depois disso, Sakura pediu ajuda a um advogado. Explicou a situação para ele, para assim facilitar. Não era possível conseguir a guarda de Mia, logo que pedisse. Entretanto, com a declaração de Shion reconhecida em cartório, deixando claro que não tinha família e que a deixava sobre os cuidados de Sakura, isso a ajudaria a conseguir mais rápido e a deixar com a guarda provisória.

Pronto. — Shion disse quando finalizou sua assinatura. Após dar o documento para o advogado, olhou para Sakura e sorriu. — Eu deixo a minha filha com o meu anjo da guarda. Sendo assim, vou sem medo. — falou como se fosse normal. Se não fosse pela situação, Sakura teria rido. Naquele momento, aquela Shion doente não estava mais ali. E sim a sua amiga extrovertida e sonhadora.

O homem que ali estava abaixou sua cabeça, suspirando melancólico. Após isso, cumprimentou as duas, se lamentou, pediu licença e foi embora.

Involuntariamente, a face de Sakura se contraiu, as lágrimas caíram e ela não pode suprimir nada disso, na verdade, já esperava essa situação. Doía estar diante de alguém que, em pouco tempo, não estaria mais presente em sua vida. Alguém que ela amava tanto. Era doloroso, ninguém poderia compreender. Chorar não amenizava, mas mostrava o quanto estava sendo difícil para ela.

Shion acenou com a mão lentamente, pois sequer tinha forças para fazer isso bem. Sakura seguiu o caminho até ela, sem nem mesmo conseguir parar suas lágrimas.

Sakura, não deixe a dor e o medo atrapalhar a sua vida. — falou Shion apertando firme a sua mão. Sakura sabia sobre o que ela falava, mas não disse nada. — E não sinta pela minha perda. Você sempre terá um pedaço de mim em Mia. — ela finalizou, sorrindo como só ela fazia. Após isso, seus olhos fecharam de cansaço, a tomando em um sono.

Contudo, aquela foi a última vez que Sakura viu sua amiga viva. Shion morreu em um sono profundo, horas depois de sua última conversa com Sakura.

Dois anos depois...

Saiu do carro e bateu a porta. Em seguida, com o som de seus saltos batendo na rua, ela se dirigiu até a porta de trás de seu carro.

– A gente já chegou, mamãe? — a voz sonolenta de seu filho lhe perguntou.

Sakura sorriu, enquanto tirava o cinto de segurança da sua cadeirinha.

– Sim, querido. — ela respondeu, pegando a outra criatura pequena e sonolenta que estava no outro banco. Esta tinha seus curtíssimos cabelos ruivos presos em duas maria chiquinhas, abria os olhos violeta lentamente e se agarrava com força no pescoço de Sakura.

Ela fechou a porta após seu filho descer com o grande buquê de rosas bancas em sua mão. Pegou na mão livre dele e, em seguida, caminhou dentre os enormes portões de ferros em meio aquele enorme verde da grama.

– São as preferidas da tia, não é mamãe? — Daisuke falou empolgado, observando as rosas em sua mão.

Sakura acenou em positivo, respondo-o com um sorriso.

Após andar algum tempo, chegaram em seu destino. Sakura suspirou melancólica, sentindo o remexer em seu colo.

– Ora, você acordou? — indagou retórica e risonha vendo sua filha sorrir largo, como se a respondesse.

Ela sentou-se na grama, colocando os dois em cada lado de sua perna. Daisuke ficou observando Mia andar, com certo medo por ela não conseguir o fazer perfeitamente ainda. Sakura sorriu, observando ele se inclinar um pouco a cada vez que ela ameaçava cair.

Mamãe! — Mia gritou batendo várias palminhas, olhando diretamente para a lápide a sua frente.

Sentiu seus olhos arderem e um nó se instalar em sua garganta. Em seguida, Sakura se inclinou um pouco atrás dela, tocando em seu ombro.

– O que fala para a mamãe, Mia? — Sakura indagou engolindo o nó de sua garganta.

Mia pareceu pensar um pouco, olhando para Daisuke que a encorajava com um sorriso.

– Parabéns, mamãe!– ela concluiu, da mesma forma que antes.

Daisuke se levantou, pegando uma mão de Mia e colocando sobre o buquê. Mia segurou com as duas, pois não entendia ainda para que era o motivo. Bem, os dois seguraram e sentaram-se mais afrente. Logo colocaram diante da lápide as rosas brancas.

Parabéns, tia. — Daisuke sussurrou baixinho, com um sorriso nascendo em seus lábios.

Sakura ficou ali observando, como fez no ano anterior e, com certeza, faria nos próximos anos. Acabou sorrindo; seus filhos contavam como havia sido o dia deles, quer dizer, Daisuke contava. Já Mia cantarolava uma cantiga, enquanto dançava em seu jeito atrapalhado.

Parabéns, amiga. – Sakura sussurrou sentindo as lágrimas invadirem seus olhos, ainda sim, sorrindo com a cena a frente.

"Shion Griller

01/07/1990 — 27/11/2011

Seu amor de mãe será eterno."

"Mas tudo bem... estou indo para um lugar melhor."

Notas finais
Música: Ail Lavigne - Everybody Hurts E está o fim desse curta. Espero que vocês tenham compreendido com esses três capítulos o passado dos três. Não é nem metade do que eu queria contar, mas já é suficiente. Ainda tem muitos mistérios quanto a Sasori e Shion, mas depois eu mostro. Enfim, próximo capítulo a gente vai saber o que houve com a Sakura o/