Esquecer você
13 Parte II - De volta
Notas iniciais
Molly caminhava ansiosa pelos corredores do hospital, com Mycroft em seu encalço. Já não sentia tanta raiva dele. Sabia que ele estava passando por cima de suas próprias regras para dar-lhe alguma paz.
Quando chegara à porta do quarto onde estava Sherlock, Mycroft a parou.
– Dois minutos, Molly. Nada além disso.
Ela assentiu e percebeu que sua mão tremia quando alcançou a maçaneta.
Adentrou ao quarto e um rápido olhar clínico a indicou que Sherlock parecia estável. Andou até sua cama. Fazia dois anos desde a última vez que o tinha visto. Nada parecia diferente.
Em seu rosto agora pousava um corte sobre a bochecha. Provavelmente Sherlock ganharia uma cicatriz. Riu com o pensamento de que ele não gostaria disso.
Com delicadeza segurou sua mão. Era tão estranho vê-lo assim, indefeso. Sem toda aquela frieza ou arrogância.
– Eu estou aqui, Sherlock. Eu não morri. – Gostaria que ele pudesse ouvi-la. Que acordasse de repente e tudo aquilo acabasse.
Segurou as lágrimas com uma careta. Estava cansada de chorar. Parecia que era tudo que ela tinha feito no último ano.
Levou a mão até seus cabelos. Gostava tanto daqueles cabelos encaracolados. Lembrou-se de como ele reagiu quando ela os puxou. Seu rosto enrubesceu. Daria tudo para voltar para aqueles dias. Fora a última vez que se sentiu plenamente feliz. Desde então, principalmente após sua morte, tudo que tinha feito era levar a vida pra frente. Não tinha planos, objetivos, nada. Era como uma casca.
Achou engraçado que Sherlock, que indiretamente começou tudo isso, agora era o único que poderia salvá-la.
– Sinto tanto sua falta, Sherlock.
Molly ficou ainda mais um tempo fazendo carinhos em Sherlock, até que Mycroft abriu a porta e a chamou. Ela deu um último olhar para o detetive inerte na cama antes de sair.
– Eu espero que essa guerra acabe logo. – Sussurrou.
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Mycroft a levou para a mesma sala que tinham estado antes. Ali avisou que ela voltaria para o Brasil imediatamente, em um voo particular. Ela prometeu que não faria mais nenhuma tentativa de fuga e levaria em frente sua vida no Brasil.
Antes que Molly fosse levada pelo mesmo segurança que a tinha segurado antes, agradeceu Mycroft.
– Eu o amo, Mycroft. A coisa mais importante que você poderia ter feito foi me deixar vê-lo. Obrigada. – O Holmes mais velho retribuiu com um ligeiro sorriso. — Me responda, o plano deu certo? Ele voltou a ser o que era? – Precisava saber se todo esse esforço não estava sendo em vão.
– Sim, Molly. O plano funcionou.
Ela assentiu. E novamente era levada para uma viagem que não ficaria clara em sua mente e passaria como um sonho.
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Molly voltara para o Brasil. Robert e Fran tinham sido avisados por um Mycroft solidário que talvez ela não voltasse bem e que eles deveriam buscá-la. Ela ficou grata por isso. Tudo que precisava agora é de um abraço. Sentia-se sozinha novamente.
Quando chegou em casa, sutilmente disse que queria descansar e eles a deixaram. Ela olhou com carinho para a miniatura do Big Ben e pousou a mão sobre ela. Dessa vez não choraria. Estava farta de ser vítima das circunstâncias. Agora levaria seu acordo até o fim, faria o melhor para que pudesse se sentir bem. E então, quando tudo acabasse, ela tentaria lutar por Sherlock até ter a certeza de que ele não a queria.
Vê-lo tinha sido como acordar de um longo pesadelo. Não imaginava que tudo que sentia por ele voltaria assim, tão sufocante. Ela achava que já tinha conseguido ao menos esquecê-lo um pouco e percebeu que estava completamente enganada. Nada tinha sido esquecido. Ela havia varrido todos os sentimentos para um lugar muito fundo em si mesmo. E quando o viu, todos eles saíram juntos do lugar em que ela os tinha escondido.
Agora, teria que assumi-los novamente e aprender a conviver com todos esses sentimentos. Percebeu que nada a faria esquecer Sherlock.
Dormiu pensando nos momentos que passou junto a ele e sonhou com o mar, areia, estrelas e uma água congelante.
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Quando acordou, Molly sentia-se bem mais disposta que o último ano que passara ali. Também teve algumas ideias que iria colocar em prática em breve. Esperava que Mycroft não se importasse.
Os dias foram passando de forma mais leve. Molly dedicava-se ao seu trabalho, jantava quase todos os dias com Robert e Fran, ouvindo as histórias divertidas do casal e contando algumas suas, de quando morava em Londres. Estava se divertindo, finalmente. Sempre pensava em Sherlock e em como ele estava. Mas, para sua surpresa, Mycroft agora enviava relatórios semanais e incluía Sherlock neles. Todos estavam bem, apesar da cidade estar de pernas para o ar. Isso era um consolo para seu coração.
Viu, e achou engraçado, que a casa que Marcos morava agora tinha um novo morador. Esse não parecia querer esconder que a vigiava, o que seria um esforço inútil. Mantiveram um contato cordial, cumprimentando-se quando se encontravam, mas não chegaram a conversar. Ele devia ter sido bem instruído quanto a isso.
Dois meses após sua volta, Molly enviou um e-mail para Mycroft. Nele ela explicou sua decisão de mudar-se para o nordeste do país. Fora aceita em uma vaga para um laboratório por lá e alugara uma casa à beira mar, que ela pagaria com seu próprio salário. Acrescentou que isso não era uma afronta e ela não estava planejando nada contra o acordo deles, só estava pensando no que seria melhor para ela.
Alguns dias depois recebeu uma curta mensagem dizendo que não haveria problemas, desde que ela mantivesse o acordo.
A parte mais difícil de sua decisão foi se despedir de Robert e Fran. Mas ela precisava começar a caminhar com suas pernas. Não sabia quanto tempo ficaria no Brasil, então tinha que acomodar e tentar ser feliz até que pudesse voltar para Londres.
Para muitos seria considerado tortura morar na praia, onde as lembranças a arrebatariam todos os dias. Mas para ela, toda vez que olhasse para o mar e se lembrasse de tudo que viveu numa praia distante dali, seria como um sopro de esperança. Precisava daquilo. Precisava acordar todos os dias ouvindo o mar e sentindo o cheiro da maresia. Para continuar vivendo precisava ao menos por um segundo, todos os dias, achar que estava de volta àquelas férias.
Chorou quando se despediu do casal que tanto a ajudou. Disse-lhes que sua casa sempre estaria aberta para eles, e combinaram que eles passariam as férias com ela. Fran adorou a ideia de viajar para o nordeste. A despedida foi triste quando ela partiu, mas sentia que pela primeira vez durante esse tempo todo estava fazendo a coisa certa.
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Quando se deparou com sua nova casa, a vontade foi de chorar de alegria. Arriscou-se ao alugar somente vendo fotos e tendo conversas ao telefone, mas foi surpreendida positivamente. Era melhor do que ela esperava e com uma vista incrível do mar. Era um condomínio agradável, teria a segurança necessária e a paz que buscava. A casa era muito maior do que ela precisava, mas sentia-se confortável assim. Tinha um enorme jardim e uma piscina só pra ela. Não era coincidência a casa ser parecida com a que ela passou as férias.
Não se surpreendeu quando viu o mesmo rapaz que tinha ocupado a casa de Marcos morando numa casa no mesmo condomínio que ela. Sorriu ao encontrá-lo na rua.
– Parece que tivemos a mesma ideia sobre se mudar, não é?
Ele riu de volta. Se não estava escondendo sua função antes, agora as coisas tinham ficado escancaradas de vez. O bom humor dela era tanto que não se incomodou. Muito pelo contrário, passou a conversar com ele sempre que o via. E ele parecia mais seguro de que ela não tentaria fazer nada contra as regras. Os dois tinham deixado vidas para trás para fazer algo que não gostavam. Era um bom ponto em comum.
Os meses foram passando. Exceto pelos boletins de Mycroft, Molly não lia mais nada sobre o que acontecia em Londres. Às vezes era inevitável ouvir quando noticiavam no jornal ou comentavam em seu trabalho. Mas ela não se aprofundava no assunto. Não queria mais sofrer por algo que estava fora de seu alcance.
Um dia, quando saia para o trabalho, depois de quase dez meses morando ali, viu com uma enorme estranheza que a casa de seu vizinho/vigia estava para alugar. Então parou para pensar que fazia pelo menos dois dias que não o via.
Que milagre, Mycroft finalmente está confiando em mim?
Sentiu-se mal. Apesar dele estar ali para vigia-la, já estava habituada a vê-lo e trocar algumas palavras quando se encontravam. Mais uma pessoa que ela perdia.
Molly não pensou mais isso quando pegou a condução para ir até o trabalho. Seu dia transcorreu normalmente, sem incidentes. Quando voltava pra casa, uma forte chuva ameaçava cair a qualquer instante. Nessa época do ano estava chovendo quase todo fim de tarde. Ela até gostava, porque apesar de já estar morando ali há bastante tempo, o calor excessivo ainda a incomodava. Gostava de caminhar na praia a noite, depois que a chuva passava e uma brisa suave pairava.
Quando se aproximava do seu portão, viu alguém sentado encostado a ele. Um homem. Com a cabeça entre os joelhos, parecendo abatido, talvez derrotado. A cena não era inédita e parecia até comum, se não fosse pela mala e pelo sobretudo largado displicentemente ao seu lado. Molly se apoiou em um poste para não cair. Sherlock.
De repente tudo fez sentido. Seu vizinho não estava mais na casa há pelo menos dois dias. A casa tinha sido posta para locação. Ela não estava mais sendo vigiada. A ameaça de guerra tinha acabado.
Ela não estava mais morta.
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