Esquecer você

7 Parte I - St. Barts


Notas iniciais
Esse capítulo fecha a Parte I. Mas calma, que a fic não acabou... Gravem bem esse recado, não acabou! haahahahahaha Para constar, a música que ela cita um pedacinho na carta é: http://www.youtube.com/watch?v=H-QSYeQnmwQ

“Sherlock,

Nossas férias não tomaram o rumo que imaginávamos. Eu sei, você sabe e acho que o mundo todo sabe que tenho sentimentos por você. Desde que nos encontramos pela primeira vez, com você entrando acelerado na sala de autópsia do St. Barts a procura de um corpo. Naquele momento meu coração parou de funcionar por alguns segundos.”

Sherlock lia pela milésima vez a carta que Molly enviara a ele. Estava sentado no parapeito do St. Barts e encarava uma fria e cinza Londres. Lembrava-se exatamente do dia em que a conheceu. Nunca assumiria, mas já naquele dia tinha reparado em como ela era bonita e tímida. Não podia negar que essas características o fizeram ter certo prazer em se aproveitar dela.

Também se lembrava das férias. Pensava no sorriso fácil de Molly. Em como ela gargalhava de uma forma tão cativante quando estava bêbada, e as suas bochechas ficavam num tom de rosa tão engraçado.

Tudo começou a dar errado quando aceitou ir para aquela viagem. E as coisas saíram do controle no primeiro jantar.

“O laboratório que me convidou... Ele fica em Nova Iorque.”

Mesmo com tudo que sentiu ele permitiu que ela fosse. Que pegasse aquele maldito avião e fosse para aquela maldita cidade. Longe de todos, longe dele. Ignorou sua carta. Não a procurou na semana que voltaram de férias. Não se despediu dela. Nunca voltou a procurá-la.

Primeiro não sabia o que dizer e tinha receio de complicar tudo ainda mais. Não poderia assumir a responsabilidade de Molly desistir do emprego por sua causa. Que garantias poderia dar a ela?

Depois achou que o tempo faria com que se esquecesse dela. Tinha tentado arrancá-la de sua vida de todos os modos. Procurou outras mulheres, bebeu e chegou até a se drogar. Nada disso tirou Molly de onde ela estava... Cravada no lugar mais fundo de seu coração.

Mesmo assim não deu o braço a torcer. Seguiu em frente com sua vida, ignorando o desespero que por vezes sentia quando pensava em Molly. Não teve notícias dela. Mary muitas vezes tentou contar alguma coisa, mas Sherlock a interrompia. Quanto menos informações tivesse, melhor. A única coisa que sabia era que ela estava tendo sucesso como pesquisadora. Tinha ouvido sem querer enquanto Mary contava a John. Não se surpreendeu, Molly era inteligente, detalhista, atenciosa e muitas outras coisas.

“Por muito tempo agi da forma errada ficando tentando fazer tudo para que você me notasse. E então, quando desisti, você pareceu me notar. Talvez eu não tenha demonstrado, mas essas férias foram como presentes de Natal adiantado.”

Para mim também, Molly. O pesar o dominava.

Por causa de todos os sentimentos conflitantes, ele sabia que seu rendimento tinha caído nesse último ano. Não queria assumir a razão de ter se tornado menos perspicaz, então, inventava desculpas cada vez menos convincentes. Já tinha se enganado com três casos. Mais que talvez sua vida inteira. Nos olhos de John percebia que ele sabia a causa de tantos erros. Ele sempre soubera. Nunca conversaram sobre assunto desde que Sherlock se negou a ir atrás de Molly quando ela partiu. Os olhares recriminadores de John refletiam nada menos do que aquilo que Sherlock sentia por si mesmo.

E sempre quando menos esperava, o rosto dela aparecia em sua mente. Sorrindo. Sorrindo como ela fez quase a viagem toda, até ele magoá-la.

“Você fica engraçado bêbado, deveria fazer isso mais vezes.”

Deu um sorriso triste com a lembrança. Por que ele não tinha sorrido mais para ela? Era tão simples. Deixou de fazer tantas coisas por orgulho, para não quebrar sua imagem de frieza. Agora, sentia-se bobo. Não aproveitou as oportunidades de ser o motivo da alegria dela. Culpava-se por isso. E por tantas coisas mais.

“Quero que você saiba que não me arrependo de nada. E que acho você um idiota. Ainda me pergunto como um cérebro tão inteligente pode tomar decisões tão babacas.”

Ele concordava com ela. E perguntava o porquê de nunca ter cedido. De nunca ter deixado tudo para trás e ido atrás dela. Ele escolhera seu trabalho, sem dar ouvidos a ninguém. Agora era tarde para mudar o passado.

Uma fina garoa começava a cair por Londres. Não o incomodava, poucas coisas o incomodavam agora. Sua barba estava por fazer e ele nunca a deixava assim, mas tinha passado dias fora do país e não teve tempo para se preocupar com isso. Não era importante... Não mais.

Londres ainda parecia a mesma de sempre, apesar da quantidade de atentados terroristas que estavam ocorrendo nos últimos tempos. A iminência de uma guerra ainda não preocupava os moradores. O Oriente Médio estava enviando constantes ameaças e tinham parte da Ásia apoiando, mas a informação ainda não tinha chegado aos ouvidos populares. Mycroft dizia que não demoraria muito para que uma onda de terror começasse.

Estavam trabalhando duro nisso. Precisavam descobrir como estavam entrando na Inglaterra, quem estava por trás de tudo. Sherlock precisava se doar por completo, precisava estar focado. Essa investigação talvez demorasse anos. Agora tinha uma razão a mais para isso.

Quando descesse daquele telhado, seria novamente o Sherlock de antes. De antes daquelas férias perturbadoras. Fazia seu pequeno funeral ali, sua pequena despedida de tantas emoções atípicas que sentira no último ano. Deixaria para trás tudo que atrapalhasse em seu trabalho.

Fora naquele prédio que tantas coisas importantes aconteceram. Era dali que tinha a imagem de Londres que queria guardar para sempre.

Ali conheceu Molly, convenceu a ajudá-lo no maior plano de sua vida, enfrentou Moriarty, enganou John... Tudo agora parecia distante.

“Vamos lá, Sherlock! Você prometeu!”

Outra imagem de Molly. Sorrindo de novo. Brincando com ele. Como ela estava linda naquela noite. E como ele desejou rolar na areia da praia com ela e ir embora só ao amanhecer. Lembrava-se de como tinha se sentido livre. Em como vê-la toda molhada, brava e com frio fez com seu coração disparasse loucamente. Os lábios dela tremiam e sentiu um impulso forte de beijá-la ali mesmo. Mas não o fez.

Passou as mãos pelos cabelos. Tinha prometido tantas coisas a ela com aquele acordo. No início tudo que queria era ficar próximo e vê-la feliz. Não podia mentir, uma parte dele desejava com voracidade ter uma aproximação física dela. Mesmo que ele tentasse anular esse desejo, ele sempre estava ali, cutucando-o. Ele achou que seria forte o suficiente para não se entregar a isso, achou que com ele as coisas seriam diferentes. Não previu o quanto seus sentidos já estavam dominados por Molly.

E então, estragou tudo. Machucou-a tão profundamente e não percebeu que, com isso, se machucava também. Foi pior do que se não tivesse feito acordo nenhum. Deveria ter deixado tudo como estava e teria poupado todo o sofrimento desnecessário.

“Enfim, outro ponto de atenção, é que eu gostaria de deixar muito claro que eu não me colocaria a frente do seu trabalho. E nós poderíamos continuar o que começamos para ver até onde daria. Você não precisava ter fugido de mim como o diabo foge da cruz. Isso poderia funcionar. É como diz a música...

Maybe we could divide it in two

Maybe my animals live in your Zoo

Sempre achei engraçada essa letra. Até perceber o sentido por trás dela. Talvez meu coração viva em você, Sherlock.”

Ele não tinha percebido, até ela partir, que seu coração também morava fora do seu corpo. Molly estava certa, eles podiam ter dividido tudo. Fechou os olhos, como essas lembranças doíam.

Precisava voltar a Baker Street. Mycroft o esperava para darem início aos trabalhos. Mas não conseguia sair dali. Tinha ido do aeroporto direto para o St. Barts. Agora suas pernas balançavam sobre o ponto onde tinha pulado para a morte no passado. Observando as pessoas caminharem lá embaixo, Sherlock pensava que nunca a normalidade delas pareceu tão atraente para ele.

Estava cansado. Não tinha dormido nos últimos dias. Tinha feito um incansável investigação e agora ela começava cobrar seu preço. Esfregou os olhos, pensando que precisava tomar um banho e dormir. Não sabia se o peso em seus olhos era só sono. Sentia-se arrasado.

Mais uma lembrança de Molly surgiu em sua mente. Dessa vez eram seus olhos brilhantes de desejo, dizendo, mesmo que sem palavras, tudo que ela queria dele. Suas mãos buscando os botões de sua camisa. Os beijos, a respiração falhada, seu cheiro...

Não. Pare. Eu não posso continuar pensando nisso.

Ergueu os olhos para o céu. Não acreditava em intervenções divinas, nem nada desse tipo. Mas, naquele momento, se pudesse fazer um pedido, pediria uma segunda chance para fazer tudo diferente. Isso era a única coisa que ele não poderia ter.

“Quanto a Nova Iorque, eu não menti ao dizer que bastava um sinal seu. Eu ficaria, Sherlock. E, ainda que eu me sinta um pouco rebaixada por dizer isso, eu ainda ficaria.”

Ela estava lá, o tempo todo esperando por um sinal dele. Uma mensagem. Um telefone. Qualquer palavra dele a faria ficar. Ele sabia disso. Mas faltou a coragem necessária para assumir algo desse tipo. A palavra “ainda” grifada era o resquício de esperança de Molly quando escreveu a carta.

Chegara a hora de partir. Sherlock se levantou e arrumou seu sobretudo, levantando a gola. Estava de volta, o jogo começaria novamente. Com suavidade, cortou a carta em vários pedacinhos. Cantarolando a música que agora conhecia tão bem, deixou que eles voassem sobre Londres. Seu pequeno tributo a Molly Hooper.

Calmamente seguiu para a saída. Naquele momento deixaria naquele telhado todos esses sentimentos. Ficariam enterrados ali. Uma última lembrança o invadiu de repente. Molly acariciava seu rosto, dizendo que ele não precisava escolher. Porque não a escutou?

“Espero que você saiba o que está fazendo. Caso tenha dúvidas, me procure.

Molly Hooper”

Abriu a porta e olhou para trás uma única vez. Sua mão agarrava-se com força à maçaneta e os nós de seus dedos ficaram brancos. Uma solitária lágrima escorreu por seu rosto. Lembrou-se dos dias passados em Nova Iorque e em como suas esperanças foram morrendo aos poucos. Enxugou a lágrima rapidamente e seguiu em frente, fechando a porta que dava acesso ao telhado.

Era definitivo. Tinha se passado um ano desde que Molly entrara naquele avião.

E agora... Ela estava morta.

Notas finais
E agora... Achou que também estou. XD