Esquadrão I - Invisível e inexperiente
1 Prólogo
Notas iniciais
Ser uma semideusa é uma coisa extremamente difícil e perigosa, existem muitas pessoas que acham isso “sensacional’, “incrível”, “maneiro” ,“legal pra caramba” e etc... Tenho que admitir que eu gosto, mas não é assim tão magico e nem um mar de rosas.
Somos de fato diferentes, tendo como um dos progenitores um deus grego, mas isso traz grandes problemas e complicações. Suponho que como qualquer adolescente comum você odeie a escola (você provavelmente respondeu “sim” ou “ e como” mentalmente) Agora imagine ter que ir a escola e fingir que não tem um monstro te espionando da quadra ou agir normalmente como se não estivesse suspeitas que sua professora de português quer te comer por não conseguir ler direito.
Eu não consegui levar a escola muito adiante, mesmo com o esforça de minha mãe para me ajudar. A dislexia é um dos contras de ser um semideus, o que pode lhe colocar em apuros caso um dos desafios da sua vida seja ler uma placa de neon vermelho.
Minha mãe costumava dizer que meus problemas tinham uma explicação e que eu precisava me dedicar mais. “Ora, peça uma ajudinha para Atena, querida. Nunca se sabe quando os deuses vão atender nossas preces” , naquela época eu achava muito estranho o fato de minha mãe acreditar nos deuses gregos, já que ninguém mais acreditava e eles só passavam de uma matéria legal na escola. Assim que comecei a entender melhor as coisas, minha mãe me colocou na frente da TV e me fez assistir um documentário sobre os deuses, eu disse a ela que as outras mães colocariam um dvd do Hércules ou algo do tipo, mas ela disse que aquele filme era cheio de mentiras, que Hércules não era filho de Hera e que Hades não era tão engraçado, e que seria muito ruim se eu risse dele. Eu me lembro de ter ficado muito chocada ao saber que Hércules era chamado de Héracles na mitologia grega e que era na verdade filho de Alcmena, não entendi porque Zeus traiu Hera, mas minha mãe disse que às vezes aquilo acontecia.
Quando eu fiz 10 anos, minha mãe disse que meu presente de aniversário seria uma casa nova, eu pensei que eu ganharia uma casa só pra mim, de repente toda aquela história de estudar pareceu interessante, acho que ninguém consegue um emprego bom o suficiente para sustentar uma casa sem completar o ensino fundamental. Minha mãe riu quando eu disse isso, ela disse que nós só iriamos nos mudar para um lugar mais isolado, pois algo ruim estava acontecendo.
Minha mãe viajava muito, esse era o trabalho dela, viajar para lugares distantes para apresentar benefícios de uma grande empresa, na maioria das vezes ela ia sozinha, mas dependendo do lugar ela me carregava junto “Eu quero que você conheça o mundo, quero que pegue o gosto pela viajem, nunca fique no mesmo lugar, Okay Lizy?” E sempre sorria e dizia que gostava de viajar com ela, mas que tinha medo que algo ruim acontecesse, mas minha mãe pensava diferente, ela disse que Hermes estava sempre olhando os viajantes e que nada de mal aconteceria comigo.
Mas em uma dessas viagens, antes de ir ela fez suas preces como de costume, me deixou dinheiro o suficiente para passar a semana e estava saindo, mas se deteve na porta, ela se virou e disse “Não culpe ninguém caso eu não volte, meu bem, as coisas acontecem por algum motivo, não devemos mudar o destino pois ele está sempre certo.” Ela nunca tinha falado desse jeito e eu fiquei com medo, não queria que ela fosse, mas ela sorriu e disse “Se algo der errado reze para Hermes, ele vai saber o que fazer”. Ela voltou na semana seguinte, bem e feliz, como sempre, eu a abracei na porta e ela riu alto dizendo que eu era mesmo uma pessoa medrosa. Isso se repetiu várias e várias vezes, como se ela me preparasse aos poucos para algo que iria acontecer, eu regularmente fazia minhas preces a Hermes e Atena, eram meus deuses favoritos, e minha mãe disse que manter uma boa relação com eles era útil.
Faltavam 2 semanas para meu aniversário de 13 quando minha mãe estava se preparando para uma viagem muito importante, ela me prometeu um presente muito legal quando voltasse. Eu esperei, esperei e esperei... Mas ela nunca voltou. Na manhã do meu aniversário uma das colegas de trabalho da minha mãe apareceu com uma caixinha prateada, nela havia um colar com uma coruja, e um bilhete “Que a sabedoria esteja sempre ao seu lado, meu bem” a colega da minha mãe chorou tanto enquanto me contava o que tinha acontecido com minha mãe que eu quase não entendi o que ela disse, algo sobre o carro deslizar em uma curva perigosa e cair em uma ribanceira, eu segurei meu presente com tanta força que a marca do pingente ficou na minha mão o dia todo, me lembrando que aquele seria o pior aniversário da minha vida.
Naquela noite eu chorei e gritei com todos os deuses que conhecia, mas quando estava prestes a amaldiçoar Hermes, lembrei do que minha mãe dissera, me recompus e tentei falar com ele, mas ele não me respondeu e nem deu sinal de que me ouvia, pedi para que me ajudasse e que de alguma maneira me dissesse o que eu devia fazer. Depois de perceber que tudo aquilo era em vão, eu desisti e decidi que não o culparia por isso, na verdade eu não poderia culpar alguém que não existia.
Como eu pensei, eu não poderia morar sozinha sem terminar o ensino fundamental e com 13 anos, eu tinha o suficiente na conta da minha mãe para passar um bom tempo, mas não podia manter a casa e ser independente. Minha tia chegou em uma manhã cinza de outono, trazendo seus 2 filhos irritantes e se instalando na casa que era só minha e de minha mãe, já que eu nunca vi meu pai, minha mãe não falava muito dele, só que o conheceu no trabalho e que ele era ocupado demais para ficar com a gente. Mais tarde recebi um envelope cinza, com meu nome escrito com belas letras prateadas. A carta era muito breve:
“Coisas ruins estão acontecendo agora. Espero que não esteja zangada, não tente começar uma guerra também. Você ficará bem.”
Nem preciso dizer que não entendi nada, guardei a carta em algum lugar seguro, eu precisava proteger tudo dos diabinhos que eu devia chamar de primos, esperei até minha tia chegar para fazer algumas perguntas.
Ela chegou tarde, mas estava bem disposta, ou disposta o suficiente para me responder, perguntei a ela sobre meu pai, primeiro ela ficou calada, como se estivesse tomando um tempo para inventar uma boa história, mas depois disse que meu pai era um inútil que tinha conhecido minha mãe no trabalho, e que minha mãe caiu por ele em pouquíssimo tempo e que quando ele soube que ela estava gravida desapareceu como fumaça. Mas ao contrário das expectativas da minha tia ele voltou pouco tempo depois, para dar tudo que minha precisava, mas disse que não podia ficar. Minha tia disse que ela costumava se referir a ele de maneira tão respeitosa e com tantos elogios que era como se ele fosse um dos deuses gregos que ela custava em acreditar, minha tia soltou uma gargalhada e disse que era tarde e que eu precisava me deitar.
Eu fui obrigada a voltar para a escola, mas as coisas estavam piores, eu jurava que as meninas de lá eram um tipo de bicho papão disfarçado, e muitas vezes tive que correr de alguns garotos brigões. Minhas notas eram boas e eu percebi que era no mínimo esperta e não burra como uma porta como esperava ser. Sem querer eu me metia em muitas encrencas e em muitas brigas, uma vez voltei toda machucada para casa, minha tia disse que eu parecia mais com um menino do que com uma donzela e que devia parar de me meter em brigas pois não estava no sangue ser violenta, tentei convence-la que as pessoas não gostavam de ser motivo de piadas ou ser facilmente enganadas, mas que era quase impossível não pregar peças nos meus colegas.
No meu aniversário de 15 anos, minha avó, a casa dela ficava muito perto da minha antiga casa e eu não resisti dar uma olhada nela. Estava do mesmo jeito que deixamos, a cerca branca, os cata-ventos pendurados na varanda e minha pequena pista de obstáculos que meu tio Paulo construiu para que eu gastasse minhas energias, todos diziam que eu era uma espécie de pilha que nunca acabava. Não havia moradores na casa, então dai a volta e subi até a janela do meu antigo quarto, a parede ainda tinha o mesmo tom de azul, e as mesmas manchas de infiltração, sai do quarto e andei pelo corredor até o quarto principal, o quarto da minha mãe. Ele parecia inda maior vazio, com seu piso de madeira manchado pela cera, e suas tabuas irregulares, era uma casa antiga, uma das poucas de madeira, era grande e espaçosa e minha mãe pagou barato por ela na época, uma das tabuas estava meio solta, possivelmente uma das que ficavam embaixo da cama.
A tabua não estava bem solta, porque ela nunca esteve presa, e sim encaixada como um compartimento secreto, nele havia uma caixa com algumas cartas, cartas como aquela que eu recebi, cinza com letras prateadas, nelas alguém se referia a minha mãe como “Querida Meredith” , depois de um tempo lendo as cartas, cheguei a conclusão que eram do meu pai. Mas se meu pai sabia que minha mãe estava morta e me mandou uma carta, como ele pode me deixar sozinha? Simples, tudo fez sentido, tudo estava se encaixando. Meu pai não era como um deus, ele era um deus. O deus patrono dos viajantes, Hermes.
Deu um pulo quando escutei uma risada ecoar no quarto, me virei rapidamente e ali na minha frente estava um homem de meia idade, com uma roupa de entregador.
- Quem..? — Comecei, mas logo ele me cortou.
- Você é inteligente, como sua mãe disse. Sou Hermes, mas você pode me chamar de pai.
- Pai? – Fiquei pasma, como aquele home vestido de carteiro poderia ser um deus?
- Acontece que os deuses não são tão extravagantes nossa forma real é demais para olhos mortais – Ótimo, ele podia ler mentes? Acho que deuses podem ler mentes.
- Por que só agora? Por que me deixou sozinha todo esse tempo? Sabe o quanto eu precisei de você?
- É complicado, estava lá, eu realmente estava, mas não estava.
- Aah, isso esclarece muito bem as coisas.
- Liz... Não torne as coisas mais difíceis – Ele realmente parecia um pai agora.
- Não me chame de Liz, não pode me chamar assim.
- Posso chamar de Millicent?
- Não! Eu detesto esse nome.
- Eu que escolhi esse nome – Ótimo, feri os sentimentos de um deus.
- Oh... Então pode.
- Okay, Lizy... Eu não podia fazer nada, era uma época ruim para semideuses.
- Existem muitos?
- Sim, digamos que os deuses realmente gostam de ter filhos — Ele passou o peso de um pé para o outro desconfortável.
- E eu tenho muitos irmãos? – Eu realmente não queria saber a resposta disso, me sinto mal pela minha mãe.
- Sim, e um deles resolveu começar uma guerra contra os deuses, ressuscitando Cronos e isso deixou as coisas bem bagunçadas por um tempo.
- Eu tenho irmãos da pesada.
- E como tem, escolha bem o seu lugar no chalé.
- Espera, chalé?
- Sim, chalé, existe um acampamento para semideuses e você deve ir pra lá, acho que não suporta muito esses seus primos.
- Não mesmo, mas então, esse acampamento, fica longe?
- Longe o suficiente, mas você não vai partir agora, é uma época ruim para acampamentos, e pelo o que eu pude observar do seu desempenho em lutas, você não se daria bem na guerra.
- Quantas guerras filhos problemáticos podem causar? – Eu estava começando a ficar com medo do que podia acontecer comigo em uma briga para saber quem era o filho favorito.
- Muitas. Mas este não é o caso, é algo mais perigoso. Fique com isso. – Ele me jogou um anel que eu quase deixei cair, sinceramente meus reflexos escolheram uma péssima hora para falhar, meu pai devia estar muito orgulhoso.
- Um anel... Ele me deixa invisível e me ajuda a começar a era da escuridão ou algo do tipo?
- Você tem que ler menos... Não ele não te deixa invisível, ele te ajuda a ser mais rápida já que a única coisa que você pode fazer no momento é correr.
- ótimo... Obrigada.
-De nada, agora tenha cuidado. Tenho que ir, fiquei tempo demais.
Ele se foi do mesmo jeito que veio, num piscar de olhos, e eu fiquei ali, parada no meio do quarto segurando as cartas e um pequeno anel prateado com duas assas abertas.
Notas finais
Até a próxima.
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