Espíritos Existem
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Fics:
Uma Nova Vida!: http://fanfiction.com.br/historia/294116/Uma_Nova_Vida
What Is Love?: http://fanfiction.com.br/historia/271560/What_Is_Love/
We Are The Same: http://fanfics.com.br/?q=fanfic&id=19116
Eu sempre fui cética, nunca acreditei em monstros e, muito menos, em contos de fadas. Acho que é esse o motivo de eu estar aqui tremendo de medo, com meu coração batendo mais rápido do que nunca.
A maldita ideia da minha amiga surgiu na quarta de manhã. Foi tudo mais ou menos assim:
- Carol, como amanhã é feriado, vamos fazer uma coisa diferente? – disse minha amiga Larissa na hora do intervalo.
- Claro. O que você tem em mente?
- Você verá. – disse ela com um sorriso malicioso nos lábios.
Se nesse momento eu tivesse dito que tinha compromisso, não estaria nessa enrascada.
- Está tudo combinado! – disse a Lari sentando do meu lado alguns minutos depois.
- O que está combinado? – perguntei olhando para ela – Meu Deus, pare de sorrir desse jeito, você está me assustando.
Para você entender, a Larissa possui muitos sorrisos, e o que estava na cara dela naquele instante, me dizia que o que ela estava tramando não era nada bom.
- Então, querida amiguinha você sabe que dia é amanhã? – ela disse de um jeito meio macabro.
- É feriado. – eu disse. Não era óbvio isso?
- Não me diga. – respondeu ela ironicamente. – Mas você sabe por que é feriado?
- Por causa do dia dos mortos?
- Exatamente. – disse ela com aquele maldito sorriso na cara. – Você nunca quis fazer nada diferente?
- O que você quer dizer?
- Viver uma aventura.
Eu já comentei que a Larissa tem sérios problemas? Ela ama todas as coisas esquisitas e assustadoras que existem.
Ao ver que eu não ia responder, ela continuou:
- Que tal um piquenique no cemitério a meia noite de hoje? – ela continuou sorrindo.
- Você quer comer com os cadáveres? – perguntei sem querer acreditar.
- Não fale assim dos nossos ancestrais. – ela disse fingindo indignação – Nós iremos comemorar com eles com comida, música e muitas velas.
- E posso saber por que eu perderia a minha única oportunidade de ficar em casa, sozinha com o meu computador pra ir num cemitério com você?
- Porque, Carolzinha, você é minha melhor amiga e meu primo vai. – disse ela presunçosa.
- E daí que ele vai? – respondi rezando para soar indiferente.
- Você sabe muito bem. – disse ela sorrido.
Eu já disse que a Lari consegue ser impossível às vezes?
- Só eu, você e ele?
- Bom, piquenique só em três ficaria sem graça, então eu chamei mais algumas pessoas.
- Quem mais?
- Ninguém confirmou ainda, mas eu chamei os dois amigos gatos do meu primo e a Manu.
- Você está tentando montar casais com um encontro em um cemitério? – perguntei meio indignada.
Não sei por que ainda duvidava das ideias da minha amiga. Mas fazer esse tipo de coisas, era bem a cara dela.
- Nossa, do jeito que você coloca até parece que eu sou pirada. – ela fingiu que estava ofendida.
- Mas você é. – eu disse rindo.
Ela me deu um tapinha nas costas e se levantou, afinal, o sinal já tinha soado há alguns minutos. O resto do dia tinha passado rapidamente e de noite a Lari me ligou para criarmos um plano.
- É simples, minha família é mexicana e todos os anos meus pais vão a uma festa na casa da minha avó. – ela disse.
- E aonde eu me encaixo nessa história?
- É óbvio, você vai dormir aqui e a Manu também. Eu vou dizer para os meus pais que estou muito velha para essas coisas de família e que vou fazer uma festa do pijama.
- E quando eles chegarem, eles não vão sentir a falta de três adolescentes?
- Claro que não. Eles vão voltar super tarde e, além disso, vão ter bebido todas. – ela disse como se fosse óbvio.
No fim, eu não consegui encontrar nada que frustrasse o plano dela.
- Você vem né Carol?
- Não sei, vou ver se minha mãe deixa.
- Você vai deixar sua amiga e a Manu com três coisas lindas a noite inteira?
- Um deles é seu primo.
- Isso não importa.
- A Manu não tá afim dele. – eu disse.
Ela ficou quieta por um tempo e disse:
— Ah, já entendi você, a miss não acredito em nada, tá com medinho de passar algumas horas no cemitério.
- É claro que não é isso.
- Aham, sei...
- Eu disse que não é isso.
-Então prove.
Odiava quando ela fazia isso, se eu não tivesse vindo, ela me encheria o saco pelo resto da minha vida.
- Tá bom eu vou.
Ela deu seu gritinho de vitória e eu afastei o telefone da orelha para não ficar surda.
- Sabia que você não me deixaria sozinha.
- Mas bem que gostaria. – resmunguei baixinho.
- Como?!
- Nada, nada.
- Então amanhã você vem aqui lá por umas duas, ok?
- Sim, sim.
- Boa noite.
-Até amanhã. Não se esqueça de trazer uma roupa fofa para seduzir meu primo. – disse ela rindo.
Eu ia mandar ela calar a boca, mas como sempre, ela já tinha desligado o telefone. Na quinta-feira, depois de eu chegar a casa dela, nós três (leia-se eu, Manu e Larissa) fomos comprar comidas e bebidas para levar até o cemitério a noite. Ficamos enrolando até umas nove horas e depois fomos encontrar os meninos. Realmente, os amigos do João, primo da Larissa, eram bem bonitos, assim como ele. Nós fizemos o tal do piquenique e quando deu meia-noite, todos tiveram a brilhante ideia de brincar do jogo do compasso. Era óbvio que a Larissa tinha trazido o tabuleiro, afinal, ela já tinha planejado tudo. Eles começaram com as perguntas básicas.
- Existe alguém entre nós? – disse o Henrique. Ele era loiro, alto e forte. Tinha uma boca carnuda e um nariz perfeitamente alinhado. Seus olhos azuis-acinzentados estavam contrastando com as luzes das velas e os deixando com um ar misterioso.
Nesse momento, o compasso se mexeu até a palavra “SIM”. Na hora, eu pensei que fosse uma brincadeira de mau gosto deles, era muito fácil alguém mexe-lo de propósito.
- Boa brincadeira Henrique, mas deu pra te ver mexendo o negócio. Dá-me aqui que eu faço isso de verdade. – disse a Larissa rindo.
- Eu não mexi, juro. – ele disse em sua defesa.
Depois que a minha prima pegou o compasso e fez a mesma pergunta, ele foi novamente para a palavra “SIM”. Ok, aquilo estava ficando realmente estranho. O João pegou então o compasso e perguntou:
- Nos diga o seu nome, ó espírito.
Ele foi se arrastando em uma por uma das letras e o Vitor, o outro amigo do João foi anotando num papel. O Vitor tinha um cabelo cor de mel e olhos esverdeados. Ele usava óculos e seu cabelo era jogadinho de lado, o que o dava um ar de nerd, mas ao mesmo tempo fofo.
Quando o compasso parou, fomos olhar o nome que estava anotado no papel: Julian Tavares Mello. Quando olhei para trás, para o nome do morto que se encontrava na lápide onde estávamos sentados, notei que era o mesmo. Esse cara tinha morrido ainda no século 18. Talvez por isso seu nome fosse tão ridículo. Acho que ninguém mais reparou isso. Sim, esse era o motivo pelo qual eu estava tremendo ali naquele momento. Eles continuaram fazendo perguntas estúpidas, mas eu parei de prestar atenção, não queria ter mais motivos pra ficar aterrorizada. De repente, senti gotas de água caindo lentamente em mim. Que bom, era só o que me faltava, chuva nesse momento. Quando deu um trovão, eu me assustei e me agarrei na pessoa que estava ao meu lado, que infelizmente, ou felizmente, era o João. Ele sorriu e segurou minhas mãos. Ele ficava mais bonito ainda molhado. Seus olhos antes azuis vibrantes, agora estavam mais escurecidos. Seu cabelo preto que antes estava delicadamente arrumado em um topete, agora caia no seu rosto e estava ainda mais escuro. Percebi que suas mãos se encaixavam perfeitamente nas minhas. Elas eram macias e quentes.
- Vamos sair daqui, por favor. – disse a Manu com uma voz chorona.
Vi o Vitor ajudá-la a se levantar e depois ele nos disse:
- Vamos lá tem um mausoléu. Pelo menos é coberto.
Os meninos pegaram as coisas das meninas, menos o Henrique e seguimos o Vitor. No meio do caminho, ouvi a Larissa reclamar.
- Cavalheirismo hoje tá em falta hein.
Ela e o Henrique sempre discutiam, era muito engraçado.
O mausoléu tinha um estilo gótico construído apenas com pedras. Lá dentro era frio e úmido, mas pelo menos era grade o suficiente para caber todos nós.
As perguntas continuaram e dessa vez eu prestei atenção.
- Você ainda está entre nós? – dessa vez, o Vitor fez a pergunta.
“EU NUNCA MAIS VOU ABANDONÁ-LOS”.
- Com quantos anos você morreu? – Victor continuou.
Dessa vez, o compasso se arrastou pelos números.
“23”.
- Qual o motivo da sua morte? – dessa vez foi a Emanuelle que perguntou.
“SUICÍDIO”.
Olhei preocupada para o João. Aquilo estava aterrorizante, além do frio e da escuridão daquele lugar. Ele apenas me mostrou seus dentes brancos e alinhados no sorriso mais perfeito do mundo.
- Por que você se matou? Burrice? – dessa vez o Henrique perguntou.
Depois dessa pergunta, um vaso voou até a parede e se espatifou. Sabe, não é muito sensato você dizer para um espírito que ele é burro.
“AMOR”.
- Opa, ela era gostosa que nem a Larissa? – o que esse guri tinha na cabeça?
Um vento forte passou pela Larissa, bagunçando seus cabelos e erguendo sua saia. Ela deu um gritinho e eu gritei com ela. O João me abraçou, mas eu estava assustada e dei um grito mais alto. Depois a Manu me acompanhou. Paramos de gritar quando o compasso se mexeu novamente.
“EXATAMENTE COMO ELA. E COMO TIRARAM MINHA LADY DE MIM, VOU TIRAR A SUA DE VOCÊ.”
- Ok, chega pra mim, estou indo embora. – a Larissa disse e pegou o seu tabuleiro. Ela foi andando pela grama até que algo invisível a jogou de volta para perto de nós.
De repente, vi algo sendo escrito na parede e cutuquei o João que cutucou o Henrique. A Larissa estava assustada demais para olhar e o Vitor estava ocupado demais enfiando a língua na boca da Manu. Na parede estava escrito: “NÃO VOU DEIXAR VOCÊS ESCAPAREM. O LOIRINHO VAI SER O PRIMEIRO”. Aquilo era sangue? Ok, eu estava realmente assustada agora. Senti alguém me puxar e comecei a gritar, mas era só o João.
- Corre! – ouvi a Larissa gritando.
Quando olhei pra trás, o Vitor estava prensado na parede, sendo sufocado com uma sacola. Ok, acho que o espírito mudou seus planos.
- Temos que voltar para ajudá-lo. – a Manu disse.
Demos meia volta e fomos tentar tirá-lo de lá. A Manu parou de ser útil quando entrou em pânico e começou a chorar. Quando conseguimos livrá-lo da sacola, ele caiu duro no chão. Era tarde demais.
Começamos a correr novamente, mas a Manu ficou lá parada chorando. Quando eu fui voltar para ajudá-la, ela foi arrastada pela lama até a parte de dentro do mausoléu. Ela começou a gritar, e nós tentamos abrir a porta, mas nada adiantava. De repente, os gritos pararam e a porta se abriu. Quando olhei lá dentro, ela estava ensopada de sangue e sua cabeça tinha sido arrancada. Foi minha vez de começar a chorar. Eu sabia que por mais que estivesse triste, minha vida era importante, então voltei a correr com os amigos que me sobraram. Eu não podia perder mais ninguém. A Larissa era a que estava mais na frente. Mas quando olhei pra ela, ela tinha sido capturada por uma corda e estava pendurada de ponta cabeça numa arvore, gritando e se debatendo.
- Não fica fazendo assim, vai ser pior. Fica calma, vamos te tirar daí. – o Henrique parou de correr e estava falando calmamente com ela.
Tentamos ir até ela, mas existia uma barreira invisível que não nos permitia passar. O Henrique ficou dando socos no “nada” por um bom tempo, até que desistiu e olhou para a minha amiga. Eu estava sentada no chão, no colo do João chorando, não tinha reparado que o sangue da Lari já tinha descido para a cabeça. Ela ia morrer em poucos minutos. Sussurrei baixinho: eu te amo Larissa. Ela leu os meus lábios e sussurrou que me amava também. Tentei ultrapassar a barreira, novamente sem sucesso.
- Sempre te amei, desculpa não ter demonstrado ou falado antes. – disse o Henrique olhando com carinho para a minha amiga.
- Eu também semp...
Ela não teve tempo de terminar a sua frase. De repente, a barreira sumiu. Andei até onde o corpo da minha melhor amiga estava estendido. Seu rosto antes corado, estava pálido e gelado. Seus olhos estavam sem vida. Ela estava realmente morta. Voltei a chorar e agarrei o João novamente. O Henrique andou até ela e deu um beijo nela. Ele ficou ali por um tempo só olhando para ela. De repente, um tronco caiu em cima dele e o sufocou.
Agora só me restava o João. Eu estava abalada demais e não tinha forças na perna para correr, então ele me pegou no colo e correu comigo. Encontramos um lugar escondido. Era um pequeno espaço entre dois muros, mas parecia seguro, apesar de não ter saída. O João me olhou fundo nos olhos e disse:
- Caroline, eu amei você desde o primeiro momento que eu te vi. Se acontecer alguma coisa hoje, saiba que eu sempre irei te amar, independente de onde eu estiver.
- Eu te amo João.
Depois que eu disse isso, ele me deu um beijo lentamente. Seus lábios eram macios e eu ansiava cada vez por mais. De repente, senti ele se afastar de mim. Ele estava sendo arrastado pela lama e eu comecei a correr atrás dele. Minha visão estava embaçada por causa das lágrimas e eu caí no chão. Eu tinha perdido ele de vista. Fiquei ali de joelhos, caída e fragilizada. Eu estava entregando o meu corpo ao espírito. Ele podia me matar também. Ele tinha tirado tudo de mim. Mas quando olhei para o lado, vi que ele tinha sido piedoso. Estava escrito no muro: “VOCÊ TEVE SORTE DESSA VEZ. VOU TE DEIXAR VIVA POR ENQUANTO, MAS EU VOLTAREI. ENCONTRO-TE DE NOVO EM BREVE”.
Fechei meus olhos. Aquilo não podia ser real, tinha que ter sido um sonho. Não sei por quanto tempo apaguei, mas acordei com sirenes de ambulâncias e carros de polícia. Já estava claro e quando olhei para o lado, um menino estava falando com dois policiais. Ele estava com o uniforme de quem trabalha no cemitério, enquanto eu estava cheia de lama. Levantei-me e fui até eles.
- Quando cheguei aqui de manhã para trabalhar, essa menina estava deitada na lama. E acho que ela matou todas as pessoas que foram encontradas.
Como assim? Eu não matei ninguém, foi o espírito. Tentei explicar a história para os policiais, que não acreditaram. Depois desse episódio, eu fui taxada de louca e assassina e fui parar em um hospício, onde vou ficar provavelmente a minha vida inteira.
Notas finais
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