Notas iniciais
E, apesar de tudo, o capítulo saiu ainda essa semana! Kkkk, eu tinha um pouco de medo de ficar travado nesse capítulo justamente por ele ter um tema tão diferente dos outros desse arco... Mas no fim das contas, saiu, e até bem antes da postagem o/ E espero que tenha valido a pena, porque temos um personagem importante a introduzir, e já estamos na reta final para a Festa do Chá (ah, e finalmente temos um pouco de ação)! Então lá vamos nós, e espero que gostem!

— Suas fontes, Connor, sejam quais forem, estavam certas — dizia-me Samuel Adams ao chegar na Taverna Molineux, um estabelecimento na esquina da rua Common com a travessa Kawsons, no centro de Boston, onde eu o esperava. Puxando uma cadeira para sentar-se ao meu lado, completou — Você já havia me soprado os rumores bem antes da notícia se concretizar. E devo dizer: em todos os tempos recentes, esta Lei do Chá é um dos maiores ataques do Parlamento à nossa cidadania.

Por muito tempo eu havia esperado. Por três meses tive que dividir minha dedicação entre as minhas pesquisas sobre William Johnson e a administração da propriedade. Durante o verão as minas de ferro da Fazenda Davenport foram reabertas, graças à presença de Norris, um mineiro de Montréal que eu salvara de ser espancado numa briga de bar em Salem, e que agora se estabelecia em um chalé no oeste da propriedade.

E, por mais que eu procurasse por qualquer pista, o Templário não deixara rastro algum. Se ele tinha ido para Boston, já estava em outro lugar quando cheguei. Enquanto isso, na província de Nova York, Atón’wah seguiu também à sua procura, servindo como meu informante. Trocávamos cartas com frequência, e meu amigo havia até mesmo viajado a oeste, para a vila de Onondaga, sede do Grande Conselho Haudenosaunee. Ele procurou por qualquer vestígio que indicasse a presença de Johnson por lá, mas nenhum de nós dois obteve qualquer sucesso ao longo do verão.

Quando Achilles dera a minha missão, no entanto, ainda era primavera, e a Lei do Chá estava prestes a ser aprovada. À época, o chá produzido na Índia era vendido pela Companhia das Índias Orientais apenas em Londres, onde ele estava sujeito a impostos. O chá chegava às colônias britânicas na América apenas quando mediado por comerciantes, que compravam a mercadoria em Londres e a revendiam aos colonos, ou por meio de rotas comerciais holandesas, tratadas pela Coroa como contrabando. Com a adição das tarifas do chanceler do tesouro Charles Townshend em 1767, o comércio de chá havia se tornado extremamente lucrativo para aqueles que o revendiam nas colônias.

Em busca de salvar a Companhia das Índias Orientais da falência e de, ao mesmo tempo, dificultar o dito contrabando nas Américas, o governo do primeiro-ministro Frederick North viu a oportunidade de resolver diversos problemas com uma lei só, que permitiria à Companhia desembarcar o chá diretamente nas Américas, reduzindo os custos de importação. Isso tornaria o chá real mais barato do que o chá contrabandeado, e continuaria a coletar as tarifas que pagavam governadores coloniais. A Lei do Chá recebeu o consentimento real em 10 de maio, e a notícia já havia atingido Boston há muito quando me encontrei em novembro com um Samuel Adams enfurecido.

— Um ataque pior que as tarifas Townshend? — questionei, curioso.

— Não é apenas “pior” que as tarifas. Essa lei está de conluio com as tarifas! Querem baratear o chá, como se isso fosse justificar os impostos que pagamos.

— Se está mais barato isso deveria ser bom, não? — perguntou Stephane Chapheau, o atendente da taverna, com um sotaque francês — Alguma coisa deve ser capaz de justificar impostos.

— Eu lhe digo o que justificaria: uma cadeira! Eu quero ver um maldito bostoniano sentado em uma cadeira no Parlamento! — Ele exclamava, batendo seus punhos na mesa. — Eu não quero uma porra de xícara de chá, mesmo que seja um chá mijado pelo rei em pessoa.

— Vá com calma aí, Sam. — O cozinheiro respondeu, com um sorriso de deboche. — Aceita uma xícara de camomila?

— Muito engraçado, filho da puta. — Ele respondeu, claramente não achando graça na sugestão. — Traga-me uma de café.

— Ah, eu estava brincando, meu amigo. — O francês respondeu, pegando uma xícara no fundo da bancada. — Molineux jogou todo o chá no lixo algumas semanas atrás. Ele até mesmo ameaçou os pobres vizinhos dele de morte se eles não aderissem ao boicote também.

— Molineux sempre foi um radical mesmo. Os vizinhos aderiram?

— Alguns precisaram de uma pequena força para apoio. Mas a maioria disse que boicotaria o chá de bom grado — completou, entrando na cozinha.

— Excelente. É uma pena que precisemos de massacres de civis ou leis absurdas para nos unir, mas é bom ver as pessoas finalmente se posicionando contra a injustiça. Não acha, Connor?

Sorri, intrigado.

— Diz o homem que possui uma escrava.

Adams me fitou com estranhamento.

— Quem, Surry? Eu pratico o que prego, meu amigo. Ela não é uma escrava, é uma mulher liberta, ou ao menos no papel. Uma pena, a mente dos homens não pode ser mudada tão facilmente. É deplorável que, mesmo com todo nosso progresso, ainda continuemos com tal barbárie.

— Então manifeste-se contra a escravidão.

Ele se mexeu na cadeira para me olhar de frente.

— Com calma, Connor. Devemos focar primeiro em garantir nossos direitos. Apenas quando isso estiver feito nós poderemos nos dar ao luxo de resolver esses outros assuntos.

— Você fala como se a sua condição fosse igual à dos escravos. Mas não é.

— Diga isso ao meu vizinho, que foi obrigado a hospedar soldados britânicos em sua casa. Ou ao meu amigo Newman, que teve sua loja fechada quando ele se manifestou contra a Lei do Selo.

— O que você oferece são desculpas, não soluções. A liberdade deveria chegar a todas as pessoas igualmente, e não a uma de cada vez.

— Ou é a uma de cada vez, ou será a nenhuma. Temos que ceder, Connor, por mais desagradável que seja isso. Tente resolver todos os problemas do mundo ao mesmo tempo e você acabará não resolvendo nenhum.

Um homem idoso de cabelos cinza entrou pela porta principal da taverna. Avistando Samuel, dirigiu-se a nós.

— Boa tarde, cavalheiros!

Stephane, que a essa hora retornava com o café de Samuel, saudou o homem, chamando-o de patrão.

— Connor, quero que conheça William Molineux, dono deste belo estabelecimento e um líder dos Whigs na cidade, como eu. — Adams apresentou, mencionando o nome do partido liberal britânico, oposto aos conservadores Tories. — William, este é Connor, um jovem que compartilha de nossos ideais e quer nos ajudar na campanha contra a Lei do Chá.

— Mesmo? — William perguntou, estendendo a mão para me cumprimentar. — Se eu puder saber, o que um selvagem vê de interessante nesses assuntos políticos?

Sem me mover, respondi-o, sério.

— Não sou selvagem algum. E estou na cidade à procura de William Johnson.

Sentando-se em uma cadeira ao lado de Samuel, ele continuou.

— Johnson? O que ele faz aqui tão longe de sua área de influência?

— Acreditamos que ele esteja envolvido na venda de chá da Companhia das Índias Orientais — respondi.

— Johnson pretende usar o lucro do chá para comprar a aldeia natal de Connor. — Adams explicou. — Então, Connor, se quiser manter seu povo a salvo da influência dele, ajude-nos a retaliar à Lei do Chá.

— Por enquanto, sim. Nossos objetivos se alinham.

— Excelente — adicionou, tomando um gole de seu café — Fique pela cidade até o fim do ano. Os navios da Companhia chegarão no fim do mês, e expulsá-los não será tarefa fácil.

— Você parece um rapaz forte, Connor — apontou Molineux — Eu poderei precisar de um bom segurança na taverna na próxima sexta-feira. Você estaria interessado, em troca, é claro, de algum pagamento?

— Segurança? — indaguei.

— Proteger a taverna do quê? — questionou Adams, curioso.

— Sexta-feira é o Dia do Papa.

— Ah, claro. Eu havia me esquecido.

— O que é o Dia do Papa? — eu perguntei.

Stephane parecia igualmente interessado na explicação. Molineux começou a discorrer.

— O aniversário da Conspiração da Pólvora. Em 5 de novembro de 1605, Guy Fawkes e outros homens tentaram explodir o Parlamento em Londres e instaurar um governo católico na Inglaterra, mas foram presos pelas autoridades. Desde então o povo protestante comemora essa data como um feriado anti-católico. Os rufiões e criminosos de Boston veem essa data como uma competição. Cada uma das duas gangues, a de North End e a de South End, organiza uma passeata com espantalhos criados à imagem do Papa. Eles trazem caos e algazarra por onde passam, e ainda cobram dinheiro dos moradores pelo caminho, alegando que é o "ingresso do show". Quando as duas gangues se encontram travam uma carnificina inigualável, e os bonecos são queimados pelos vencedores em uma grande fogueira.

— Eles extorquem dinheiro do povo honesto apenas para uma celebração da violência? — perguntei, enojado.

— E todo ano, ainda por cima. Creio que estarei seguro na minha casa em Beacon Hill, mas a taverna fica bem no caminho dos canalhas de South End.

Tomei uma decisão e confortei o taverneiro.

— Meu Alvo por aqui ainda é Johnson... Mas se houver tempo, eu alegremente o ajudarei a defender a taverna, Sr. Molineux.

Ele abriu um sorriso.

— Maravilha! Mas não é comigo que deve falar, é com o Stephane aqui.

— Presente — brincou o cozinheiro — Já é uma tradição anual encarar esse brigões protestantes. E meu sotaque não ajuda a afastá-los, então por que não levar a briga até eles?

— Como assim? — peguntei.

— A França pratica o catolicismo, Connor. Então, basta alguém perceber que vim do Canadá para que suponham que eu seja católico.

— Mas você é?

Samuel Adams desviou o olhar. Creio que ele torcia para que a resposta fosse “não”.

— Há, claro que não — respondeu o atendente, gaguejando — Como se eu fosse aceitar aqueles bispos avarentos mandando em mim.

— Fico feliz em ouvir — comentou Adams — A Igreja Católica nada mais é do que um antro de degenerados hipócritas que acham que podem determinar como e quanto devemos expressar nossa fé. Valorizam mais a sua manifestação do que a fé em si.

— Com certeza ela não deve ser tão diferente de vocês assim — rebati — Vocês todos acreditam no mesmo Deus, não?

— “Não deve ser tão diferente assim”? A Inglaterra fundou suas próprias igrejas justamente para poder evitar as exigências de Roma. E sem falar que a Igreja Católica é a mais corrupta que já existiu. Acaso já ouviu sobre os abusos do Papa Rodrigo Borgia?

— Um pouco — respondi, lembrando-me das aulas de História de Achilles — Assim como ouvi sobre os abusos do rei Henry VIII.

— Ora, me toma por um maldito anglicano, Connor? Nossas colônias foram fundadas por homens e mulheres que fugiam deles.

Eu sou um “maldito” anglicano. — Molineux vociferou, irritado. — Algum problema com isso, Sam?

— Nenhum, a não ser que sua igreja ainda tem resquícios do catolicismo. — Ao que Molineux se preparava para uma resposta, Adams interrompeu: — Porém, o que eu realmente quero dizer é que devemos nos manter presos às nossas raízes. Podemos ter conquistado colônias da França, mas não podemos deixar que essa influência dos nossos novos vizinhos nos faça regredir. Nós cairíamos, assim como o Império Romano caiu assimilado pela influência de bárbaros. Nossas igrejas se desvincularam da católica porque acreditamos na liberdade, não na devoção cega. Deus não pode determinar o que fazemos ou deixamos de fazer, é com a nossa que Ele deveria se importar. De que adianta viver uma vida sem riquezas, sem perspectiva de melhora, apenas com a intenção de servir a Deus? Tanto o Papa quanto o Parlamento se acham superiores, e no direito de impedir que seus supostos súditos possam enriquecer!

Adams parecia ter achado um ponto de acordo entre ele e o facilmente exaltado William Molineux.

— Bah, nem me fale! Todos os meus mediadores holandeses no comércio de chá cortaram relações comigo. Assim que as notícias da Lei do Chá chegaram, eles ficaram totalmente indispostos a competir com a Companhia das Índias Orientais.

— Talvez Guy Fawkes tenha vencido mesmo. — Adams adicionou, sarcástico. — Mas em vez de explodir o Parlamento, o corrompeu ao autoritarismo católico por outros meios. As tarifas Townshend parecem um bocado com um dízimo para mim.

Os três homens à minha frente riram, uns mais do que outros. Samuel olhou por uma janela para o sol do lado de fora, e logo começou a se erguer da cadeira.

— Droga, cavalheiros, temo já estar tarde, e outros compromissos me chamam. O café estava divino, Stephane — Olhando para mim, completou: — Connor, você já tem um lugar para ficar aqui em Boston?

Enquanto ele punha duas moedas na mesa para pagar o café, William comentou:

— Eu o deixarei ficar num dos quartos de hóspedes da taverna, sem custos. Como um agradecimento em troca de sua ajuda na taverna.

Eu concordei, com um aceno de cabeça.

— Por mim tudo bem.

— Ah, isso resolve. — Adams me cumprimentou com a mão. — Aproveite sua estadia e espero vê-lo em breve, Connor.

Stephane me acompanhou ao quarto no andar superior da Taverna Molineux. O aposento era pequeno, certamente o menor da taverna, não tinha janelas, e a minha nova cama ocupava metade de seu espaço, mas um armário largo se encontrava na parede oposta. Tirei minhas algibeiras e bainhas da cintura, e guardei minhas armas dentro do armário.

— Bem, Connor — falou o canadense — Agora que você está instalado, me dê licença. Devo descer para a faxina da cozinha.

— Um minuto, Stephane — pedi — Poderia ficar um pouco para me esclarecer algo?

Ele, que já se preparava para sair pela porta, parou e voltou a ficar de frente para mim. Ele tinha uma selvagem barba loira por fazer, rosto triangular e uma bandana a lhe cobrir o cabelo raspado (que talvez fosse calvo, o que poderia explicar o uso da bandana).

— Fale à vontade, Connor.

— Você parecia nervoso quando lhe perguntei se era um católico.

Stephane abaixou a cabeça.

— Você não é cristão, certo? Desculpe, não sei no que seu povo acredita.

— Não sou cristão, embora muitos iroqueses já tenham se convertido. Nosso povo acredita num Grande Espírito e em outros espíritos criadores, como os gêmeos do Bem e do Mal e o Grande Pacificador, que uniu as cinco nações iroquesas originais em uma só confederação. Temos histórias e lendas, mas, ao contrário de vocês, colonos, não temos um livro oficial que nos dá instruções e dogmas.

— Ah, isso é bom, você não me julgará como eles. Quando eu vivia em Montréal, fiz o batismo e a crisma, então sim, tecnicamente sou católico. Seu povo não parece tão diferente assim: vocês têm os espíritos e nós temos os santos. Mas assim que cheguei em Boston aprendi a jogar fora os terços de minha mãe.

— Mas por quê?

— Você viu por quê. Esses fils de putain britânicos não toleram a minha velha crença. Até fizeram um damné feriado para comemorar seu ódio contra católicos. Sou conhecido como o bêbado brigão do bairro por causa de todas as vezes que revidei após alguém me julgar pela religião. Minha vida já era difícil o suficiente, então parei de demonstrar minha fé. Para qualquer um que pergunte, digo que fui convertido ao Puritanismo.

— Mas Adams e Molineux disseram que o catolicismo é autoritário. O que você acha disso?

Chapheau deu de ombros.

— Talvez estejam certos, eu não sei. Mas isso também não é culpa minha. Só sei que a minha mãe devia muito à Igreja quando ainda estava viva. Sim, é verdade que ela pagava dízimo ao nosso padre todo mês, mas ainda assim...

Stephane ficou quieto de repente. Meio minuto se passou até eu perguntá-lo:

— Ainda assim o quê?

Ele me olhou, melancólico.

— Minha mãe cresceu no orfanato de um convento. Ela teria se tornado freira se não houvesse desistido ao se apaixonar pelo meu pai. Ela era devota aos padres, e agradecia a Deus e aos santos por terem a tirado de uma vida de miséria. Ela se casou virgem e, logo após o casamento, eu nasci, e ela agradecia a Deus por mim. Era um milagre, ela dizia, que eu tenha nascido tão saudável logo na primeira gravidez. Nós nunca fomos ricos, mas quando o trabalho do meu pai nos deu uma pequena estabilidade financeira, ela fez questão de pagar o dízimo à igreja de Montréal. Aquilo nunca foi uma obrigação para nós, pois o padre nunca exigiu pagamento. Isso era um dever moral para ela. Ela queria ajudar a igreja da mesma maneira que a igreja ajudara ela e a tantos outros. E... Quando meu pai foi recrutado para a Guerra da Conquista, mesmo sem ter treinamento militar... Ela ficou desoladíssima. Eu tinha 16 anos e logo comecei a trabalhar, mas o dinheiro nunca era o suficiente para o nosso sustento. A ajuda veio do padre. Todo o dinheiro dos dízimos da comunidade era usado para ajudar a pobres, mendigos e órfãos, e agora ajudava a nós. A igreja e a Bíblia conseguiram consolar a minha mãe quando nada mais conseguia. E por isso eu confiava no catolicismo. Queria fazer parte de algo grande, que pudesse me inspirar tanto quanto inspirava a minha mãe. Ela teve sorte por morrer apenas alguns meses antes que o Canadá passasse para mãos britânicas. Mal imagino o quanto ela ficaria arrasada ao saber que a nossa Igreja seria proibida.

Olhando para baixo, o cozinheiro fungou, limpando o nariz com a manga da camisa.

— Sinto muito por sua perda, Stephane. Nenhuma pessoa deveria ser proibida de expressar aquilo em que acredita.

Lembrei-me das palavras do Credo ao dizer isso. “Tudo é permitido”. Adams e seus colegas diziam lutar em nome da liberdade que a religião restringiria. Mas para tantas pessoas, era a fé em algo maior o que realmente as libertava. Eu encontrara liberdade em minha confiança no Credo, e Stephane, em sua fé na Igreja.

— Agradeço, Connor. — Ele sorriu. — Porém, agora sim, devo voltar ao meu trabalho.

Era o fim da tarde no dia 5 de Novembro quando ouvimos o som de uma turba barulhenta do lado de fora da taverna, vindo do sul da avenida. Entre gritos de raiva e comemoração, a comoção era impossível de ignorar. A essa hora a Taverna Molineux ainda não tinha nenhum cliente, e era bem provável que a confusão afastasse qualquer um que pretendesse visitá-la.

— Parece que a diversão começou. — Stephane comentou detrás da bancada, com um sorriso no rosto. Ele pegou seu cutelo na cozinha e marchou para fora da taverna.

— Stephane! — exclamei, seguindo-o — Cuidado com esse cutelo.

— Ah, fique tranquilo, Connor. Isso aqui é só para ameaçá-los — adicionou, passando pela porta.

Coloquei as braçadeiras de minhas lâminas ocultas, saímos do prédio e observamos a comoção. Com o vasto gramado do parque de Boston Common a oeste, a avenida de pedra à nossa frente estava cheia. O som de um par de violinos era entoado pela cantoria de bêbados, e homens de roupas e bandanas verdes acompanhavam o pequeno carro alegórico. À frente do carro, homens barulhentos carregavam espantalhos com cabeças feitas a partir de abóboras e batatas. Cada um deles era modelado para imitar a aparência de pessoas notáveis do império. Pude reconhecer a caricatura franzina do governador Thomas Hutchinson e o gordo boneco do primeiro-ministro britânico, além de um Samuel Adams fazendo uma feia e exagerada careta. Vários dos bonecos traziam rostos velhos, mantos e altos chapéus brancos, simulando bispos e papas. Outros bonecos, um nobre de peruca comprida e um homem com chapéu preto e máscara bigoduda e sorridente, representavam James Stuart e Guy Fawkes, católicos que no passado haviam tentado tomar o poder da Inglaterra.

Atrás dos membros da gangue com bonecos, vinham os cavalos puxando o carro alegórico. Nele, um boneco, bem maior que os outros, representava um papa de vestes ornamentadas e luxuosas, sentado em um trono dourado e com um exagerado nariz aquilino. Logo atrás dele estava uma figura escura com braços a envolvê-lo. Ele tinha chifres, pernas de bode e um tridente na mão, deixando claro que se tratava de uma representação do Diabo. Em cima do carro também se encontravam outros membros da gangue, que jogavam confetes na população em volta. Um deles, vestido como mulher, cantava e dançava.

Stephane e eu observamos a procissão a se aproximar lentamente, com berros e risadas. Cerca de dez minutos mais tarde, um grupo de quatro homens, alguns dos quais visivelmente embriagados, nos abordou.

— Boa noite, rapazes! — falou um deles — Vocês com certeza devem ter algum dinheiro por aí para contribuir com a causa.

Bufei, intrigado.

— Causa? Que causa? Só vejo baderna.

— A causa de comemorar a queda dos papistas! — respondeu outro — Ah, mas um selvagem como você não deve saber porra nenhuma do que estamos falando, se é que fala Inglês direito.

Os encrenqueiros riram em uníssono.

— “Índio não saber quem ser Papa”! — Um deles zombou. — “Mim nem gostar de Jesus”!

— “Mim cultuar espírito da floresta”! Uh, uh, uh, uh!

Segurei um deles pela gola de sua camisa e vociferei, zangado:

— Você não conseguirá dinheiro algum de nós. Vocês não fazem nada a não ser assaltar o povo trabalhador.

— Ora, mas e o espetáculo? — rebateu um bêbado — Fizemos todas as festividades, e vocês pretendem assistir sem pagar o ingresso, caralho?

Um dos bandidos pegou de sua algibeira um tijolo com pregos, e jogou-o contra uma das janelas da taverna, quebrando-a.

Malédiction! — praguejou Stephane — En enfer com o seu espetáculo! — bradou, com o cutelo na mão — Apenas deem o fora daqui antes que eu encha vocês de porrada!

Ao que dois dos homens fingiam medo da ameaça, um outro esbugalhou os olhos.

— Olha só! É você de novo, aquele papistinha canadense de merda! Nosso frreguês favorrit! Mas que eu me lembre no ano passado fomos nós que te enchemos de porrada, monsieur.

— Calem a boca, bâtards!

— “Culin a boque, botarr!” — O bandido imitou o sotaque de Stephane.

— Essa brincadeira já perdeu a graça.

— “Iça brrincaderr já perrdu a grass”. — zombou outro.

O homem que eu segurava se soltou.

— Padre, venha aqui! — chamou ele.

Um sujeito vestido de padre, com enchimento na barriga e simulando um escrachado sotaque irlandês, se aproximou. Ele parecia fazer uma imitação fiel de alguma pessoa específica, pois os assaltantes não paravam de gargalhar de sua voz. Ele estendia um saco com moedas na frente de Stephane.

— Oy, mói filho, vóicê não góistaria de cóintribuir com a Igreja nos dando o seu dízimo mensal? Eu preciso muito dóisse dinheiro, minhas óimantes não vão cóimprar seus vestidos sóizinhas!

Seguiram-se mais gargalhadas, que eu interrompi ao dar um forte soco no focinho do “padre”, que caiu inconsciente no chão logo em seguida. Ao que os outros rufiões se assustavam com o meu golpe, Stephane agarrou o mais sóbrio deles e deu-lhe uma joelhada no estômago, para em seguida bater seu rosto contra a parede da taverna, fazendo algumas gotas de sangue jorrarem de seu nariz.

Ao fazê-lo, o francês ficou de costas para os outros bandidos, e um deles logo segurou os seus braços e começou a pressioná-lo contra a parede, fingindo encoxá-lo. Ao mesmo tempo, um outro rufião bêbado sacou uma adaga e avançou em minha direção. Segurando seu ombro com minha mão esquerda e a sua faca com a direita, abaixei seu braço contra o meu joelho, quebrando seus ossos na hora. Finquei em seguida a faca no ombro direito do bêbado que segurava Stephane. Com um berro de dor, ele soltou o cozinheiro, que com uma série de golpes rápidos o nocauteou. O homem de braço quebrado aproximou-se por trás de mim, mas eu me curvei para a frente, fazendo-o se estatelar no chão. Enquanto Stephane lutava com ele, me dirigi ao restante. Ele tentou reagir, mas eu o segurei contra a parede, colocando meu antebraço esquerdo contra o seu pescoço e a minha lâmina oculta da direita perigosamente perto de seu pênis. Eu não pretendia cortar nada, mas não queria que ele soubesse disso. Ao olhar para o lado, vi que Stephane segurava o homem de braço quebrado, colocando o cutelo rente à sua garganta.

— Nós devolveremos todo o seu dinheiro para os moradores honestos desta rua — ameacei o criminoso que eu segurava — E, se eu ficar sabendo de mais algum centavo roubado do povo de Boston, eu voltarei para matá-los pessoalmente. Entendido?

O bandido, com respiração fraca, assentiu com um movimento da cabeça. Eu soltei o homem, e Stephane fez o mesmo. Com todo o barulho do evento, a briga havia passado despercebida para os membros da gangue na procissão, mas os cidadãos das casas ao lado assistiram a tudo e aplaudiram quando viram os dois assaltantes que sobraram carregando o corpo de seus colegas inconscientes.

Pegamos a sacola de dinheiro roubado, e andamos pela rua em direção sul, devolvendo a cada morador o “ingresso” que a gangue cobrara.

— Meu Deus! — disse uma idosa, moradora da última casa da rua. O sol já havia se posto a essa hora, e a procissão já havia passado da rua há um tempo. — Com o perdão da palavra, senhores, mas vocês dois são uns santos! Não sei o que faríamos sem vocês.

— Foi um prazer, senhora. — Stephane respondeu. — O povo de Boston merece viver sem medo de gangues como essa.

Ao fazer o caminho de volta à taverna, Stephane falou:

— Conseguimos, Connor. Libertamos o povo de Boston!

— Não todo ele — respondi — A gangue de North End ainda está cobrando seu pedágio do outro lado da cidade.

— Ah, mas caminhamos um passo de cada vez, amigo. Como católico em terras protestantes, eu lhe digo: É difícil viver quando não se tem liberdade. Quando existe um feriado dedicado a assaltos disparatados, não se pode considerar o povo como livre.

— Verdade. Houve pessoas tentando tirar a liberdade da população ao longo de toda a História humana. Certamente haverão mais, mas podemos ter a certeza de que, se elas tentarem de novo, nós nos defenderemos. Lutaremos em nome da nossa liberdade.

— Falou bonito, mon ami. Lutar por liberdade é o que eu mais quero. Quando o dia chegar, conte comigo ao seu lado.

Notas finais
Atualização do NaNoWriMo: No momento em que eu escrevo isso, já escrevi 27451. Parece muito, mas a verdade é que o ideal de palavras para essa altura é de 26666. Eu continuo escrevendo diariamente, mas o meu ritmo está diminuindo, e não acho que eu consiga atingir a meta de 50 mil antes do fim de novembro. :( Mas claro, também não é por isso que eu vou me sabotar. Já estou feliz por ter tirado a fanfic do limbo e por ter escrito nesse mês mais do que em todo o resto do ano. Vou continuar escrevendo todo dia, e continuar resistindo à tentação de me distrair com videogames ou Netflix, kkkk. A Noite do Papa era uma comemoração real, pois os ingleses eram protestantes fanáticos mesmo. Mais tarde, quando a França se junta aos Estados Unidos na Guerra de Independência, George Washington começa a desencorajar atos anti-católicos que pudessem irritar a França, e assim o último registro de desfiles no 5 de novembro foi em 1776. Mesmo assim, alguns aspectos da data, em especial o ato de se fantasiar e pedir dinheiro de porta em porta, continuaram, sendo mais tarde incorporados ao Halloween, que apenas troca o dinheiro por doces. Conversinha semanal: Nessa semana eu finalmente terminei o livro de AC Revolta em Nova York, da série Last Descendants. Sim, eu comecei em janeiro, mas parei no meio e agora terminei tudo em uns 3 dias :P . Pra falar a verdade, eu gostei bastante dele. A proposta do gênero me deixou cético no início, mas o gênero adolescente incrivelmente não diminui a violência, e muito menos a maturidade, da saga. Os Assassinos e Templários são bem apresentados, e eu particularmente gosto muito de como o livro explora a relação entre os adolescentes e seus ancestrais, assim como entre eles próprios. Apesar da perspectiva alternada, nenhum protagonista fica sem receber atenção e todos eles são personagens bem críveis. Acho que o final foi bem repentino, mas claro, tem o gancho para o segundo volume (que eu estive procurando que nem doido mas não acho em nenhuma livraria)