Notas iniciais
Oi de novo, e espero que tenham curtido o Ano Novo! :) Vamos hoje para mais um capítulo na aldeia do Ratonhnhaké:ton

No dia seguinte, ao meio-dia, fui à Casa Grande. A Mãe do Clã estava lá, velha e feia como sempre fora, usando folhas e gravetos para alimentar uma pequena fogueira no meio do recinto.

— Ah! Ratonhnhaké:ton! Venha. Sente-se.

Dito isso, sentei-me em frente à fogueira. Todos na vila mantinham bastante respeito pela mulher, de modo que eu não disse nada. Apenas esperei atento que ela proferisse algo. A Mãe do Clã começou o discurso:

— A respeito da sua pequena briga ontem com o nosso vizinho colono... Ela me fez perceber uma coisa. — A mulher se sentou também, ficando à minha frente. — Você é jovem, Ratonhnhaké:ton. É ingênuo, tolo, encrenqueiro, ousado e impulsivo... — Abaixei a cabeça, em vergonha. — Mas... ficou claro para mim que você só enfrentou aquele homem porque achou que isso seria o melhor para a aldeia. Você pode até ser meio tolo, mas uma coisa é inegável: você tem um bom coração e intenções sinceras. E isso só me fez ter certeza de algo que os espíritos já haviam me contado há bastante tempo: que você é a pessoa certa.

Eu não costumava ser particularmente devoto de misticismos, mas também não duvidava de sua existência. Assim, de um modo ou de outro, ouvir ela mencionar espíritos me fez perceber que o assunto era de fato sério (ao menos para a Mãe do Clã).

— A pessoa... certa? — perguntei, surpreso. — Certa para quê?

Ela esboçou um sorriso e prosseguiu:

— Eu sei que você se pergunta por que não nos defendemos devidamente. E por que nós não nos juntamos aos outros Kanien’kehá:ka durante a Guerra dos Sete Anos. Hoje você terá suas respostas. — Ela fez uma pausa para novamente alimentar a fogueira — Nossa aldeia fica em solo sagrado. E é nosso dever, acima de tudo, mantê-la escondida do resto do mundo.

— Mas... — balbuciei, tímido — ...mesmo que isso signifique deixar nossos inimigos ganhar força?

— É uma posição difícil para nós. Estamos presos entre a necessidade de agir e a compreensão de que isso nos colocaria em perigo.

— O que é tão importante que faz com que nos prendamos a nós mesmos?

A Mãe do Clã se levantou e segurou uma caixa encostada a uma parede. Ela abriu a caixa e de dentro tirou um objeto estranho. Olhando melhor, percebi que era uma esfera, mas aquela com certeza não era uma qualquer. Era brilhante e transparente, e sua superfície continha linhas estranhas, mas perfeitamente retilíneas. A Mãe do Clã mostrou a esfera em minha direção, e fez sinal para que eu a segurasse. E foi aí que o mistério começou. Assim que meus dedos tocaram o artefato, ele começou a brilhar com linhas douradas, tão luminosas que hipnotizavam quem as visse. Fiquei maravilhado com aquilo e observei a esfera por alguns segundos.

— O que é isso? — perguntei, finalmente.

— Uma porta. — Ela respondeu.

E então, a luz se intensificou. A esfera produziu um feixe de luz tão forte que poderia cegar alguém. Depois que meus olhos se acostumaram à luz, olhei em volta. Não havia nenhum sinal da Mãe do Clã. As paredes, os móveis, os objetos, tudo ficou escuro. Mas, em suas superfícies, começavam a brilhar estranhos padrões de cor dourada. Os feixes de luz da esfera ficaram mais suaves, e começaram a girar, iluminando o local. Fiquei distraído por alguns instantes até ouvir uma voz doce e feminina, mas ao mesmo tempo severa e potente, falar ao meu ouvido em meu próprio idioma.

— Saudações, guardião.

Olhei para a frente e não acreditei no que via. Uma mulher havia simplesmente se materializado ali. Ela era alta e vestia longos vestido e véu brancos. Suas vestes não eram nada parecidas com qualquer uma que eu já vira, fosse um traje iroquês ou europeu. Ela era bonita a seu modo, apesar de ter cabeça e testa incomumente grandes. Aparentava ter pele branca, mas era difícil ter certeza, já que ela parecia ser na verdade transparente. Seus olhos eram negros e profundos, quase me impossibilitando de identificar suas pupilas. Sua idade era indistinguível.

— Você é... um espírito?

A mulher me fitou com ternura.

— Você pode pensar em mim dessa forma.

— Onde estou?

— Você continua onde estava antes, apenas agora inconsciente. Se o que você quer perguntar é o que é isso que você está vendo agora, saiba que é conhecido como "o Nexo". Aqui, probabilidades são calculadas para que o caminho adequado possa ser escolhido.

— Qual caminho? — indaguei.

— O seu.

Assim que ela disse isso, tudo desapareceu em um clarão amarelo.

E, logo após, eu vi nuvens. Várias delas à minha frente e em toda a volta, mas o que me surpreendia era que havia nuvens também abaixo de mim. Eu não poderia estar "pisando" nelas, pois elas estavam metros abaixo. Tentei ver meus pés, mas não os encontrei. Era como se eu tivesse perdido meu corpo e fosse apenas um espírito flutuante. Mas, quando olhei em volta, vi asas. De que animal eram aquelas asas? Bastaram poucos segundos para descobrir: aquelas asas eram minhas. Eu estava no corpo de uma ave (uma águia-de-cabeça-branca, supus), e me encontrava em pleno voo acima das nuvens. Quando me dei conta, havia outra águia bem à minha frente, brilhando em luzes flamejantes.

— Siga-me. — Ouvi dizer a mulher, que obviamente havia tomado a forma da águia de fogo.

Segui-a, ao mesmo tempo em que tentava digerir aquilo. Um minuto depois, finalmente perguntei-lhe:

— O que... O que você fez comigo?

— Selecionei uma forma familiar à sua cultura. Feita para tornar a navegação mais fácil.

Após dizer isso, nós dois começamos a mergulhar para baixo. Quando ultrapassamos as nuvens, pude ver todo o Mohawk Valley. A paisagem era linda. Os rios, montanhas, árvores, campos verdejantes... Era pleno mês de Outubro, mas aquele certamente não era o outono. Estávamos de volta ao verão. Continuamos mergulhando por mais algumas dezenas de metros, e, quando percebi, voávamos por entre os bosques. Minha contemplação parou quando a mulher disse:

— Esperamos milênios inteiros pela sua chegada. Você, que trará para ele a última peça. Para que ele possa enfim abrir a porta.

A frase me retirou do transe abismado. Perguntei-lhe, ainda sem compreender nada.

Ele? Ele quem? Eu não entendo.

— Nem precisa entender. — Ela fez uma pausa. — Sinto que minhas palavras te causam medo... Mas não é essa a minha intenção. Você é uma criança importante. Em mais modos do que jamais saberá.

O tempo pareceu desacelerar conforme luzes misteriosas se formavam à minha frente, em pleno ar, para formar imagens pouco nítidas. As visões mostravam homens brancos, com chapéus tricornes e sobretudos arrumados, carregando espadas, mosquetes e canhões. Uma das imagens, e com certeza a mais sombria delas, mostrava esses mesmos homens em um templo estranho, à frente de um grande portal que brilhava com uma luz azul.

— Agora mesmo, enquanto conversamos, forças se reúnem em segredo, preparando-se para tomar o controle destas terras. Se elas forem bem-sucedidas, o santuário será violado.

Ocupado demais assimilando as imagens, mal percebi quando a paisagem verde se tornou alaranjada. Era outono novamente. Continuei voando e seguindo a águia em chamas, que prosseguiu seu misterioso discurso:

— A sua linhagem é especial. Passado. Presente. Futuro. Muitos estão ligados a você, muitos que mudaram o mundo... ou que ainda o mudarão. Assim como você. Você se tornará uma pessoa importante, tal como seus pais, ou seus avós antes deles. Eu o chamei aqui para que saiba qual é o seu dever. Você deve proteger o santuário. Protegê-lo daqueles que acabariam com o nosso trabalho.

Era demais para assimilar. O espírito aparentava ter conhecimento de toda a existência. Passado e futuro... Ela aparentava saber mais sobre minha família do que eu próprio. E eu, sentindo-me insignificante, mal sabia por onde deveria começar a perguntar.

— Que santuário? Que trabalho?

Mais uma vez o ambiente mudou. Agora voávamos em meio a uma grande nevasca, que embaçava minha vista. Eu não podia enxergar além de alguns metros à frente, mas a luz que emanava do espírito misterioso era tão forte que a neve não me impediu de seguí-lo. E mais uma vez as luzes se formaram para mostrar-me visões. Vi homens e mulheres, tanto brancos quanto indígenas, todos com expressão de medo. Fugiam de alguma coisa. A imagem final mostrava minha aldeia em chamas. Não soube se aquilo era uma visão do passado ou do futuro.

— Se você continuar trilhando o caminho que agora trilha, o resultado será negativo. Se o acessarem antes da hora certa, a região se desestabilizará. Sua aldeia e seu povo serão destruídos.

A neve então se tornou mais fina, para que eu pudesse ver uma grande árvore. Era a árvore mais alta e grossa que eu já vira, com cerca de vinte metros de altura (embora eu não pudesse ter certeza, já que minhas proporções eram a de uma águia). Em frente a ela estava um grande precipício, levando ao interior da terra. As raízes da árvore eram enormes, e se espalhavam por todo o precipício. Do fundo, saía uma forte luz amarelada. A águia mergulhou lá, e não vi escolha a não ser voar atrás dela.

Conforme o espírito e eu adentramos o solo, a temperatura aumentava. Era difícil voar por lá com as grossas raízes no caminho. Cada vez mais inquieto, perguntei:

— Mas então o que devo fazer?

— Você ficará sabendo de um homem que pode te dar treinamento adicional. Procure este símbolo.

Foi então que as luzes mais uma vez se juntaram. O que eu agora via era uma imagem abstrata: um brasão de forma mais ou menos triangular, com uma base curva marcada por uma fenda no meio. Abaixo do brasão, uma linha torta parecia servir-lhe de suporte.

O símbolo se repetia várias e várias vezes à frente dos meus olhos. Em certo momento, nós voávamos em um espaço oco extremamente quente. Em seu centro, uma enorme bola de fogo mostrava o símbolo misterioso. A mulher então disse:

— Sem dúvida você tem muitas perguntas. Mas o tempo trará as respostas. Por enquanto, você deve seguir. Mais tarde, você liderará.

A águia voou até a bola de fogo, onde se dissipou e explodiu em chamas. O fogo vinha rapidamente em minha direção, e quando finalmente chegou, fechei os olhos.

Não sei quanto tempo levou até eu acordar. Mas, quando acordei, eu não estava mais na Casa Grande. Eu estava no meio da floresta, deitado à beira de um riacho, e de volta à forma humana. Levei alguns minutos para assimilar aquele episódio. Tudo aquilo era demais para mim. Santuários, forças secretas, o terror... A mulher dissera que eu mudaria o mundo? Com certeza eu não me identificava com essa afirmativa. Nunca me vi como alguém capaz de de fato mudar o mundo.

E havia o símbolo... Minha memória estava embaçada, então peguei um graveto e usei-o para redesenhar aquele símbolo na terra, para que não o esquecesse. Aquele símbolo misterioso... Tão simples, mas parecia conter tanto significado...Eu ainda não sabia na época, mas aquela era a insígnia da Irmandade dos Assassinos.

— Vejo que acordou, Ratonhnhaké:ton. — Era a Mãe do Clã que surgira, vindo da floresta em minha direção. — Você estava suando em febre, então o trouxe até aqui, onde é mais fresco. — Ela fitou o meu desenho na areia e perguntou enquanto sentava-se ao meu lado: — Que intrigante... Onde você viu esse símbolo, Ratonhnhaké:ton?

— Um... espírito me mostrou. Disse que por meio dele eu conheceria um homem que me mostraria o caminho.

— Hmm... — analisou a Mãe do Clã. — Então a jornada funcionou. Você deve realmente ser sensitivo. Não são todos que conseguem ativar o artefato tão rapidamente. Diga mais: o que o espírito lhe contou?

— Ela... disse que os britânicos acabarão tomando o vale. Eu já sabia disso há muito tempo. E você também, mesmo que tenha escolhido ignorar isso.

— Nosso dever é proteger este lugar. — ela hesitou e me fitou — Mas você também está certo. O mundo está mudando, e não podemos nos esconder para sempre.

— Eu não ficarei sentado aqui esperando o nosso fim. — comentei.

— Então eu libero você. Pode ir embora.

Fiquei embasbacado.

— Você... como assim?

— Já vi esse símbolo antes. Era levado por um homem sábio, que poderá te ajudar, assim como uma vez já ajudou sua mãe. Ele mora a leste, no litoral. Em algum lugar de Massachusetts Bay, perto da cidade britânica de Boston.

— Mas então eu simplesmente... irei embora?

— Sim. Você deve seguir sua própria jornada. Mas é claro que não te obrigarei. Só quis dizer que dou meu apoio. Você deverá falar com sua família antes de partir.

— Minha família... sim. Obrigado, Mãe do Clã.

— Seja sensato em seu caminho, Ratonhnhaké:ton.

Após dizer isso, ela começou a caminhar de volta à aldeia. Fiquei na beira do riacho, pensando. Eu tinha uma tarefa à minha frente. Um destino. Mas, antes, eu teria que convencer Saksa:ri e Kanen’sta:tsi a me deixar ir embora.

Notas finais
Difícil acreditar que semana que vem já vai estrear Assassin's Creed nos cinemas! :) Depois de tanto hype, espero que pelo menos os fãs o filme consiga agradar. De qualquer maneira, vou fazer o possível pra ir ver na pré-estreia. Até lá, não se esqueçam de comentar o que estão achando da fic até o momento. Todas as críticas são bem-vindas, principalmente as negativas; e, se puderem divulgar a história para mais leitores, eu também agradeceria muito! :)