Esplendor Hialino
7 Missão no Deserto
— O quê você quer comigo? – A Arqueira sussurrou de forma meio engasgada. Tentava não parecer assustada, mas falhou miseravelmente, apesar de não ter gaguejado. O suor escorria pela fronte e perdia-se entre as roupas.
O estranho encapuzado nada falou. Era alto e imponente, mas esguio e sutil ao mesmo tempo. A capa negra não cobria as roupas de Mercenário, mas o capuz não revelava mais do que a ponta de seu nariz e os lábios retos, sem expressão. A Katar permanecia firme contra o tronco do coqueiro, perigosamente ao lado de seu pescoço. Mas logo a arma afrouxou-se e o homem puxou-a para longe.
Poderia ter fugido naquele momento, porém sabia que o encapuzado não pensaria duas vezes em lançar-lhe uma adaga nas costas ou qualquer coisa do gênero se tentasse. Por isso continuou parada contra a árvore, como um coelho encurralado por um lobo faminto. A mão foi sorrateira até a parte de trás do cinto. Talvez, apenas talvez, conseguisse alcançar o Stiletto para surpreender o homem. No entanto, parou o que fazia e sentiu o sangue gelar ao ouvi-lo falar.
— Pensei que Arqueiros fossem conhecidos pela sua esperteza... Eu não faria isso se fosse você... – O encapuzado sibilou de forma perigosa, enquanto balançava a Katar suavemente de um lado para o outro logo abaixo do nariz da garota. Possuía uma voz baixa e fria, o que fez com que um arrepio descesse pela sua espinha. – Mas devo admitir que foi um ótimo tiro... Mais um pouco e eu teria perdido a orelha, Hialina...
A Arqueira arregalou os olhos com aquilo. Abriu a boca para perguntar, mas nada saíra. Parecia ter perdido a voz, tamanho o medo que corria pelo seu corpo. Não se sentia assim desde a Guerra do Emperium. E agora, naquela situação, até parecia que fazia muito tempo que participara desta. O homem tornou a falar, como se lesse os pensamentos da menor.
— Ah sim, é claro que eu sei o seu nome... E me espanta você nem sequer lembrar de mim... – O encapuzado fingiu um muxoxo magoado, como se realmente fosse capaz de sentir algo. Hialina apenas observava fixamente os lábios moverem-se enquanto ele falava, para distrair-se da perigosa Katar que ainda era balançada na frente de seu rosto.
— Seria interessante se me dissesse o que quer também junto com seu nome... E baixasse isso aí... – Murmurou de uma forma um tanto mais agressiva do que realmente desejava. Um alerta pareceu piscar em algum lugar na sua mente quando notou, de forma tardia, que estava sendo irreverente. Até mesmo a Katar afiada parou de balançar, mas permaneceu apontada para o seu rosto.
— Já faz muitos anos, mas você não mudou nada... Gosta de fazer as coisas do seu jeito, mas agora está mais... Hm... Dona de si, eu diria... Bom, as crianças crescem não é? – A Katar foi guardada, mas a presença imponente do homem à sua frente parecia ter o mesmo efeito da arma que lhe ameaçava anteriormente. E ele não se moveu um único centímetro. Parecia não ter intenção nenhuma de deixá-la ir.
Hialina estreitou os olhos, tentando realmente parecer mais dona da situação. Porém, os lábios tremiam de leve e ela ainda suava frio. Ao mesmo tempo tentava pensar, imaginar ou lembrar-se de onde o conhecia. Mas ninguém lhe vinha à mente. Sua infância era algo longínquo comparado com todo o treinamento que sofrera. Mas, aos poucos, foi ligando algumas características daquele desconhecido com pessoas que conhecera quando criança – que não eram muitas. Quase deu um tapa na própria testa por ter demorado tanto para lembrar-se.
— Kent?... – Arriscou, com a voz um pouco baixa. Parecia temer que, caso errasse, a Katar voltasse a ameaçá-la. O homem deu um passo para trás, enquanto baixava o capuz.
A jovem Arqueira foi tomada por um enorme êxtase nostálgico ao observar o rapaz. Ele havia crescido bastante – era até mais alto que Ethan. Os cabelos continuavam negros, contrastando perfeitamente com a pele meio pálida do Mercenário. Havia uma pequena cicatriz um pouco acima da sobrancelha esquerda, provavelmente de algum de seus serviços. Porém os olhos... Não pareciam pertencer ao Kent que conhecera. Eram escuros, mas havia olheiras profundas abaixo deles.
— Você cresceu... Mas continua uma anã... – Um pequeno sorriso curvou os lábios do rapaz quando ele viu as bochechas da Arqueira corarem de forma adorável quando a cólera lhe subiu pelo rosto. Isso nunca mudara.
— Ora seu... – Hialina quase o xingou, mas segurou o palavrão atrás dos dentes. Então cruzou os braços e virou o rosto, enquanto murmurava amuada. – E você criou algum senso de humor...
Kent apenas soltou uma baixa risada seca, sem lá muito humor real. Ele então deu mais um passo para trás, como se quisesse dar mais espaço para a antiga colega de treino. E a Arqueira agradeceu mentalmente por isso. Apesar de serem amigos, a presença imponente do Mercenário lhe sufocava um pouco.
— Então... O que faz nesse fim de mundo esquecido pelos deuses e povoado pelos demônios? – O rapaz de cabelos negros murmurou um tanto sombrio, o que fez com que a garota se arrepiasse novamente.
— Ah... Bem... Eu preciso de mais uma Garra de Lobo do Deserto para poder terminar o meu teste... – A jovem murmurou um tanto desconfortável com as palavras anteriores do colega. E isso era evidente pela forma com que ela oscilava o peso do corpo de uma perna para a outra.
— Ora, eu posso ajudar com isso! Assim eu me desculpo pela brincadeira sem graça de antes! – O Mercenário sorriu para deixá-la tranqüila. Porém, por alguma razão, a Arqueira apenas ficou ainda mais desconfortável. E, antes que pudesse dizer alguma coisa para fazê-lo mudar de ideia, o rapaz já lhe dera as costas e avançava no primeiro Lobo do Deserto, que descansava à apenas meia dúzia de metros dali.
— He-Hey! Espera! Não! – Hialina até tentou pará-lo, mas ele era mais rápido. Antes mesmo que conseguisse se aproximar o bastante, Kent já estava jogando para si a última Garra de Lobo do Deserto que faltava. Mesmo com o item que precisava, continuou aproximando-se do animal abatido. Fora um fim rápido e provavelmente indolor. O Lobo do Deserto provavelmente nem sequer sentira a aproximação do rapaz.
— Qual o problema? – O rapaz ergueu a sobrancelha marcada enquanto observava a Arqueira, que varria o local em volta com os olhos.
— Ah... É contra a minha política de Arqueira matar monstros com filhotes... Mas acho que você deu sorte... – A garota murmurou, mas parecia não ter muita convicção nas próprias palavras. Ainda procurava por algo que denunciasse a presença de algum filhote, mas nada encontrou. Até que o grande corpo do Lobo do Deserto moveu-se de forma suave e um baixo ganido foi ouvido.
— Acho que errei por alguns centímetros... – O Mercenário ergueu novamente a Katar, mas Hialina apenas segurou-lhe o braço com uma força que ele nunca imaginara que a pequena teria. – O que é?! – Kent resmungou, enquanto baixava o braço à contragosto.
A jovem de cabelos esverdeados apenas ajoelhou-se ao lado do Lobo do Deserto e empurrou seu corpo para o lado. Embaixo deste havia um pequenino Filhote de Lobo do Deserto, com o focinho meio manchado com o sangue da mãe. E ele gania de forma bem audível, enquanto voltava a se encolher contra o corpo sem vida do lobo maior. O coração de Hialina apertou-se com aquilo.
— Se quiser eu posso dar um fim nele também e...
— NÃO!! – Hialina exclamou alto, sem nem mesmo encará-lo. Com calma, pegou o filhote no colo, mesmo com todo aquele choramingar e começou a afastar-se.
— Aonde vai? – Kent logo foi atrás da Arqueira, que parecia ter um pouco de dificuldades para manter o filhote quieto nos braços.
— Achar um oásis para lavá-lo. Se ele continuar com cheiro de sangue, seremos seguidos... – A garota murmurou. Depois de muito lutar, o pequeno parecia ter se cansado de tanto debater-se e aquietou-se. Mas ainda gania baixinho.
O Mercenário apertou o passo para alcançá-la e ambos permaneceram em silêncio por muito tempo. Apenas o pequeno filhote emitia alguns ganidos chorosos de partir o coração. Kent então pigarreou, quebrando o silêncio.
— Sinto muito, eu não o vi...
— Tudo bem, todo mundo erra... Agora... Vamos dar um banho em você, certo, mocinho? – A Arqueira sorriu enquanto erguia o filhote suavemente e o encarava. Este abanou a cauda levemente ao ver o sorriso e ela logo o aninhou contra o peito.
Ambos caminharam por mais alguns minutos até que a alta temperatura do deserto ficou mais amena. E, no horizonte, eles logo avistaram muitos coqueiros e uma grande lagoa, com algumas Plantas Amarelas em volta e uma grama parca e meio amarelada pelo calor. Hialina não perdeu tempo e ajoelhou-se do lado da água, colocando o Filhote de Lobo do Deserto ao seu lado. Segurava-o com uma mão, enquanto com a outra pegava um pouco de água e o lavava com cuidado.
— Acho que ele não gosta muito de água... – Kent comentava enquanto enchia o seu cantil e observava o pequeno filhote debater-se de forma meio violenta em contato com a água.
— Então porque não ajuda hein?! – Hialina esbravejou, mas, apesar de tudo até achava divertido a maneira com que o pequeno não parava um segundo sequer quando era molhado. Até parecia que ia derreter se fosse molhado.
O rapaz apenas afirmou com a cabeça. Guardou o cantil e segurou o filhote com as mãos firmes. Assim, Hialina pôde terminar o seu trabalho com um pouco mais de facilidade. Depois de lavar bem o filhote, olhou para o horizonte enquanto apertava levemente a Garra de Lobo do Deserto. Era hora de voltar para casa, mas, dessa vez, como Caçadora.
~*~
O Atirador de Elite observava o horizonte de forma entediada, sentado em sua varanda. O sol já estava se pondo entre as montanhas, dando um aspecto meio alaranjado ao céu outrora azul. Quando se levantou para começar a preparar o jantar, uma silhueta pequena e curvilínea destacou-se na orla da clareira, abanando a mão de maneira animada. Não pôde evitar de sorrir ao ver a antiga pupila agora vestida em roupas de Caçadora.
E, é claro, ele também não pôde evitar de corar ao observar o corpo invejável da jovem em tão poucas roupas.
Porém ela não estava sozinha. Contra o corpo, ela carregava um pequeno Filhote de Lobo do Deserto. O pobrezinho parecia meio sufocado entre o braço e os seios da garota, mas, pelo menos, estava vivo. E, outra silhueta maior e mais sombria projetou-se logo atrás da Caçadora.
Ethan sentiu o corpo todo gelar. Era um Mercenário. E Hialina parecia nem sequer mesmo notar a presença do mesmo. Sem nem pensar direito, pegou sua Gakkung, armou uma flecha e mirou. Seria fácil acertar o indivíduo no peito sem lhe matar, afinal, precisava fazer algumas perguntas para ele. Então soltou a corda do arco.
— NÃO!
Horrorizado, o Atirador de Elite viu sua pupila ficar no caminho da flecha. Pela enorme diferença de altura, o projétil lhe atingiria o meio da testa. E, agora, ele nada podia fazer.
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