Esplendor Hialino
2 E que o treino se inicie
Era sua chance. Estavam a menos de cinco metros de distância. Armou a flecha em seu Arco Composto, puxou a corda até a mão ficar perto do nariz e esperou até atingir a mira desejada. Assim que ficou satisfeita com o local onde atingiria o oponente, largou o projétil. Com um zunido, a flecha raspou o pêlo da orelha de um Lobo, que pareceu não ficar satisfeito com a interrupção de seu sono. Balançando a cabeça, o monstro procurou por seu agressor, vendo a Arqueira mirrada embasbacar-se para armar outra flecha. Um uivo estridente anunciou a sua investida contra a garota, que desistiu de lutar e começou a correr.
- POR QUEEEEEE??? – Choramingava Hialina, subindo na primeira árvore alta o suficiente para ter certeza de que não seria atacada pelo Lobo.
Três anos já haviam se passado desde o dia da escolha, que mudara tudo em sua vida. Primeiramente perdera-se em Payon. Em seguida quase não passara no teste de arqueiro, já que, de acordo com o instrutor, todos os troncos que levava estavam danificados. Por último, mas não menos importante, nem sabia como manejar um arco. Até aquele ano. Sabia como colocar a flecha na corda, puxá-la e atirá-la. Agora, acertar o alvo era um outro assunto totalmente diferente. Foi tirada de seus pensamentos pelo som incessante de garras arranhando o tronco da árvore em que estava empoleirada.
- Ora, vá embora, seu sarnento! – Esbravejou a arqueira, mas o Lobo pareceu não lhe dar ouvidos. Com a cólera já subindo pelas têmporas, Hialina apertou o arco entre os dedos e ergueu-o acima da cabeça. Teria o lançado como uma vareta para o monstro ir buscar, mas desistiu da idéia. Iria perder um arco e o bicho não sairia dali sem, ao menos, uma perna sua.
- Poderia mandar o seu bichinho ficar quieto? Tem gente tentando dormir... – Alguém resmungou tão repentinamente que a Arqueira quase caiu do galho onde estava. O Lobo grunhiu desanimado quando a jovem não foi ao chão. Hialina olhou para os lados, sem ver ninguém. Porém, ao erguer o olhar, viu a ponta de uma capa verde remexer-se de acordo com o vento que lambia as folhas. Seguindo a capa com o olhar, observou o homem com curiosidade.
Não deveria ter muito mais do que vinte anos, talvez vinte e dois. Os cabelos eram castanhos, curtos e rebeldes. Os olhos estavam fechados e ele permanecia deitado sobre o galho da árvore de maneira preguiçosa, como se estivesse dormindo na cama mais suntuosa do palácio de Payon. A capa manchada de verde e cinza não cobria o físico esguio que só um Atirador de Elite possuía, apesar da postura relaxada no momento que não condizia com sua profissão.
- Ele não é meu bichinho... – Hialina murmurou mal humorada, encarando o rapaz com cara de poucos amigos. O jovem virou-se graciosamente no galho, apoiando o cotovelo ali e o queixo na mão erguida. Ele abriu os olhos de forma preguiçosa. Eram de um verde tão claro quanto as folhas novas das árvores.
- Então porque te segue e não vai embora? – O rapaz murmurou de volta, com uma expressão indiferente diante do mau humor que a pequena apresentava. Apesar da indiferença no olhar, estava, na verdade, analisando-a.
Era pequena demais, até mesmo para uma aprendiz no auge de seus treze anos. Os cabelos verdes escuros estavam demasiadamente desarrumados pela corrida que presenciara. Também estava suja e as bolhas nos dedos indicavam que a jovem treinara muito nos últimos dias com o arco e flecha. A pele tinha um aspecto pálido, mas as bochechas ficaram vermelhas de um jeito adorável quando a pequena fora possuída por outro acesso de cólera.
Porém, antes que Hialina pudesse dizer qualquer coisa, um falcão de penas lilases desceu da copa das árvores em um perigoso assalto em cima do Lobo, que não demorou em sair ganindo dali. A ave pousou no mesmo galho em que o rapaz estava deitado, esticando as asas para depois limpar-se entre as penas de maneira distraída. O rosto da jovem pareceu iluminar-se com a presença da ave.
- Como se chama, garota? – O rapaz murmurou, tirando Hialina de seus devaneios sobre falcões e grandes Lobos de caça que alguns Atiradores de Elite possuíam. Novamente o homem falara tão repentinamente que quase a derrubou do galho. Retomando o equilíbrio, a pequena respirou fundo antes de responder.
- Hialina, e você? – A garota de cabelos esverdeados perguntou, com muita curiosidade. Aquilo estava estampado em seu olhar, fazendo com que a tez pálida da jovem ganhasse um pouco mais de cor. O jovem remexeu-se incomodado com o olhar que Hialina estava lançando, mas murmurou em resposta.
- Ethan... – O jovem virou-se agora de costas para a pequena. Porém agora fora a vez dele de assustar-se com a aparição repentina da menor no mesmo galho que ele. Ethan não pensou que ela fosse tão rápida assim. Havia escutado a aproximação, mas a agilidade que a garota possuía era realmente algo que poderia ser bem trabalhado.
- Você é um Atirador de Elite, não é mesmo? – Hialina parecia extasiada ao estar tão perto de alguém que era importante. O rapaz sentia-se ainda mais incomodado depois da segunda pergunta, grunhindo insatisfeito.
- Bom, é o que parece, não?
- Não sei, nunca vi um Atirador de Elite usar uma capa dessas. – A pequena murmurou, tomando uma expressão pensativa. Ethan remexeu-se incomodado mais uma vez, percebendo que ela logo tomaria a palavra novamente quando pegou fôlego. Por isso resolveu cortá-la antes que começasse.
- Então não viu os melhores. Agora, se me der licença, tenho coisas para fazer. – Resmungou o moreno, enquanto descia graciosamente da árvore. O falcão abriu novamente as asas e saltou do galho, planando até chegar ao ombro do dono.
- Como o quê? – Hialina desceu logo atrás de Ethan, talvez não com tanta graça, mas ainda assim era ágil e silenciosa. O Atirador de Elite rangeu os dentes com a nova pergunta, grunhindo mais uma vez. Aquela garota estava realmente lhe dando nos nervos.
- Assunto de gente grande. – Disse enfim, curto e grosso. A Arqueira encarou-o com a sobrancelha arqueada, analisando-o de cima a baixo. Depois pigarreou discretamente, seguindo-o.
- Você não é tão velho para discutir assunto de gente grande... – Cantarolou a menor, não evitando que um grande sorriso zombeteiro curvasse seus finos lábios. Ethan parou de andar no mesmo instante, dando meia volta. Praguejou baixo quando mirou os olhos grandes e castanhos que pareciam pedir alguma coisa.
- O que você quer afinal? O Lobo já foi embora! – O rapaz quase explodiu, mas agarrou todas as pontas de sua paciência para não esbravejar com a garota. Não que ele fosse se importar.
- Só quero que me ensine a usar o arco, só isso! Depois paro de incomodá-lo, eu prometo! – Hialina suplicou, juntando as mãos e fazendo a melhor expressão de pobre coitada que conseguira. O Atirador de Elite encarou-a de maneira incrédula.
- Espera... Você é uma Arqueira que não sabe usar o arco? O que eles te ensinaram na Guilda? – Ethan estava embasbacado diante do pedido da garota, assimilando a informação com o fiasco que presenciara diante do Lobo.
- Nada. Deram-me um arco com os troncos que busquei, falaram sobre a floresta e mais algumas teorias. Na prática, nada. – A pequena deu de ombros. Depois de três anos com o arco levando a melhor do que ela, parecia ter se conformado com a situação. Ela não fora feita para ser uma Arqueira. Pelo menos era isso que achava, em sua concepção.
- Ah se fosse na minha época... Agora tudo sobra para os mais velhos, os instrutores apenas são enfeites... Não ensinam nada... – E assim o Atirador de Elite foi-se, resmungando sobre os acampamentos, as aulas de primeiros socorros, de sobrevivência e inúmeros assuntos que Hialina nem fazia idéia que existiam. Mas a Arqueira estava visivelmente contente, enquanto seguia o mais velho. O rapaz, ao vê-la logo atrás de si, bufou um pouco alto, virando-se mais uma vez. – O que foi, garota? Perdeu-se agora? Era só o que me faltava mesmo...
- Eu pensei que você ia me ensinar... – Hialina respondeu com um muxoxo, fazendo um pequeno biquinho amuado. Apesar de ser jovem, Ethan era mal humorado e rude, a seu ver. Ele também tinha muito que aprender.
- Eu nunca disse isso, garota. – O moreno revirou os olhos, voltando a andar. Porém, para o seu desgosto, a Arqueira não havia desistido. Continuava a segui-lo como Poring que segue Maçã Verde. E, pelo visto, ela não iria deixá-lo em paz. Com novo grunhido, virou-se uma última vez tão repentinamente que assustou a menor, fazendo com que esta quase caísse sentada. – Tudo bem, tudo bem! Você ganhou! Eu ensino você a usar o arco e você me deixa em paz, certo?
- Palavra de Arqueira, senhor! – A garota respondeu entusiasmada, batendo uma continência típica dos Cavaleiros. Ethan revirou os olhos e baixou os ombros, visivelmente desanimado com aquilo. Teria um longo caminho pela frente ao ensinar aquela menina.
~*~
- Muito bem, vejamos o que você sabe fazer! – Ethan caminhava à frente, sempre usando a capa verde manchada e surrada. Nem parecia um Atirador de Elite com aquilo, sua profissão apenas se salvava com as roupas de baixo, iguais a de todos os outros.
Hialina vinha logo atrás, andando muito mais devagar do que o rapaz. Tomava cuidado com cada passo que dava, pois equilibrava uma Maçã de Guilherme Tell na cabeça. E Ethan havia dito que, caso a maçã caísse, algo não muito agradável aconteceria com a menor.
- Essa maçã é mesmo necessária? – A garota choramingou logo depois de tropeçar em uma pequena pedra. O sangue gelara quando a fruta oscilara perigosamente sobre sua cabeça, fazendo com que a jovem suasse frio. O Atirador de Elite apenas deu de ombros. Seu silêncio havia respondido a pergunta de Hialina. Ethan também usava uma maçã dessas na cabeça, mas a fruta nem tremia quando ele andava. Hialina percebera então que o equilíbrio era fundamental para um Arqueiro, mesmo que ela ainda não soubesse o porquê.
Os dois já estavam andando a pelo menos uma hora. A cada cinco minutos o Atirador de Elite precisava diminuir o ritmo de seus passos para que a Arqueira com a maçã pudesse alcançá-lo. O moreno não demonstrava, mas era certamente divertido ver a garota desesperar-se sempre que escorregava ou tropeçava em algo. Haviam dado quase uma volta em Payon e a caminhada com certeza iria se estender pelo resto do dia. A menor quase nem agüentava mais de tanto andar, mas era persistente e, sempre que recobrava o equilíbrio depois de uma quase queda, voltava com ânimo renovado. Aos poucos foi ficando mais fácil andar com a maçã sobre a cabeça e ela podia dividir sua atenção entre onde pisava e o quanto a fruta balançava com cada passo seu. Logo a pequena já estava observando o chão e a paisagem, não se preocupando muito com a maçã.
E gostou de onde estava. Sabia que ainda se encontravam perto de Payon, pois era possível ouvir o som das cornetas do Palácio indicando o pôr-do-sol. As árvores eram todas altas e algumas possuíam até frutas. A maioria das pedras eram cobertas por musgos devido a pouca luz que havia naquele lugar. Logo o bosque foi abrindo-se em uma pequena clareira e, no centro dela, havia uma cabana de madeira com varanda no mesmo estilo. Um pequeno riacho cortava a grama ao lado da moradia e pequenos arbustos de frutas silvestres cresciam por ali.
- Até que aprenda a manejar um arco, vai ficar por aqui. Tenho um quarto de hóspedes. – Ethan dizia enquanto subia os dois pequenos degraus que separava a grama da madeira corrida da varanda. Hialina visualizou duas cadeiras de vime recostadas logo abaixo da janela e abriu um sorriso. Talvez não fosse tão ruim assim.
- Sua casa é muito bonita... – A menor sussurrou logo atrás do Atirador de Elite, que apenas grunhiu algo baixo. E estava longe de ser um agradecimento. A jovem estava tão distraída em analisar a varanda que só voltou a si quando sentiu um leve roçar nos cabelos. E depois um baque surdo no chão, seguido de mais dois e um quarto mais abafado. Virando-se, viu a maçã rolar um pouco mais na grama antes de parar por completo. Desceu tranquilamente as escadas, pegou a fruta e voltou-se para a cabana. Encontrou o rapaz com um olhar zombeteiro. Ela encarou-o de volta com uma expressão confusa.
- Parece que o castigo vai começar, garota...
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