Então, está pronta? Você sabe que não irei ajudá-la a encontrar o caçador que cuida da floresta, não é? — Ethan resmungou, muito mal-humorado. Hialina apenas assentiu com a cabeça de maneira indiferente. Depois da Guerra em que participara, sua pupila não fora mais a mesma. Com um suspiro, o Atirador de Elite ajoelhou-se, ficando da mesma altura que a garota e sorriu, afagando-lhe a bochecha de maneira carinhosa. — O que eu disse sobre a Guerra?

Ele não morreu... — A Arqueira murmurou baixinho, desviando o olhar. Toda a vez que o mais velho lhe dizia aquilo, parecia ser cada vez menos verdade.

Hey, lembra a Arena de Batalha onde o Alexis te leva e você também derruba muita gente? — O moreno buscou o olhar da jovem de cabelos esverdeados, que anuiu com a cabeça novamente.

Depois que caem de exaustão, eles são imediatamente teleportados para a sala de espera e lá ficam por quatro horas para se recuperarem. — Hialina balbuciou, sem muita vontade de ter aquela conversa. Uma semana se passara desde a Guerra em que se metera e, desde então, Ethan havia tentado esclarecer as coisas para a mais nova, sem sucesso. Ela era muito evasiva.

A mesma coisa acontece durante esses períodos de Guerra do Emperium. Os guerreiros caídos são teleportados para uma sala especial, onde se recuperam e depois voltam para a luta se bem entenderem. É um sistema complexo, não posso entrar em detalhes. — O Atirador de Elite deu de ombros, suspirando pesado. Agora ele finalmente tinha a atenção da Arqueira. — É bem provável que você encontre aquele Ferreiro novamente e ele ainda lhe elogie pelo tiro certeiro.

Mas... Gwen disse...

Não se incomode com o que ela lhe disse... Venha, quero lhe dizer uma coisa antes de você partir. — O moreno caminhou até uma das cadeiras de vime e sentou-se nela, esticando as pernas preguiçosamente para apoiá-las sobre a cerquinha de madeira. Em seguida olhou para a garota, que ainda estava parada. — Será que vou ter que ensinar você a sentar também?

A mais nova pareceu acordar com aquilo, ficando ruborizada. Logo encaminhou-se para a outra cadeira e sentou-se também, um tanto desconfortável, mas, é claro, curiosa para saber o que o rapaz queria lhe dizer.

Há muito tempo atrás, quando eu era apenas um Caçador, a mesma coisa me aconteceu. Eu não era exatamente o modelo de soldado que o líder do clã queria. Era novo e irreverente. Gwen não ficou muito contente por isso. — O jovem sorriu sem humor algum. Antes mesmo de continuar, foi cortado pela pupila.

Espera. O que Gwen tem a ver com o líder do clã? — A jovem piscou confusa, agora sim parecendo um pouco mais ela mesma. Ethan suspirou exasperado pela intromissão, mas nada falou.

Gwen é filha do líder do clã. Pouco depois de sua primeira Guerra, foi nomeada como nova comandante e também líder após a morte do pai. Não, ele não morreu em uma guerra, foi morto por um Baphomet. — O Atirador de Elite emendou rápido, para que a visão do pandemônio criado pelas batalhas nem sequer viesse à mente da mais nova.

E o que aconteceu com você?

Quase o mesmo que você. É assim que Gwen tenta ensinar àqueles que não obedecem, e não lhe tiro a razão. Apesar de ser um método radical, funciona melhor do que qualquer outra coisa que eu já tenha visto. Alguém que não segue seus instintos e nem às ordens acaba morto. — O mancebo suspirou novamente, passando as mãos pelos seus cabelos rebeldes. — Quem me ajudou na minha recuperação foi a própria Gwen. Se serve de consolo, ela não irá mais convocá-la para as Guerras. Você apenas participará das reuniões e missões que lhe forem designadas.

N-Não! — Hialina logo exclamou um tanto exaltada, arrancando um olhar surpreso do mais velho. Corada novamente, baixou o tom de voz. — Eu só... Vou precisar me acostumar com a ideia, só isso...

Agora sim o mais velho sorriu. Foi um sorriso curto e quase imperceptível. Mas um sorriso. Então ele logo apontou com a cabeça para a floresta, indicando para a pupila o caminho a seguir. Ela tinha um teste pela frente e demoraria pelo menos uma semana para voltar. Seria um tanto solitário ficar sem a garota por perto, mas necessário.

~*~

A Arqueira não teve maiores problemas para encontrar o tal Caçador. O mesmo a guiou em silêncio para uma estranha construção no meio dos bambus, bem escondida. Ela mesma teria dificuldade de encontrar aquela casa sozinha. Era grande, e parecia embutida na pedra. As paredes eram feitas de madeira corrida e pintada de verde, o que apenas a camuflava ainda mais entre os bambus. As janelas não possuíam vidro e, junto com a grande porta dupla, era a única parte da construção que era feito de bambu descascado, tendo uma cor meio branca.

Hialina demorou-se alguns momentos observando aquela casa modesta. Estava a apenas uns poucos passos de tornar-se uma Caçadora e só de pensar nisso já sentia um arrepio pelo corpo. Prendendo a respiração, a jovem abriu a porta dupla. O primeiro cômodo da residência era uma recepção mais do que simples. Havia um balcão perto da parede de madeira nobre com a imagem de alguns Salgueiros entalhados. O chão era de madeira corrida e a decoração nas paredes era composta basicamente de arcos antigos e raros, penas coloridas de Peco Peco e uma grande e belíssima pele de Lobo Errante. No canto da recepção havia uma mesinha com um abajur e uma cadeira de bambu de cada lado.

Oh! Perdoe-me a demora!

A jovem Arqueira só não se assustou pela aparição repentina da moça, pois, no momento em que ela surgira por uma porta lateral, o chão rangera suavemente.

Não se preocupe, acabei de chegar também. – Hialina murmurou, sorrindo levemente.

Ah, que bom! Então posso seguir minha função devidamente. Ahem, bem-vinda à Guilda dos Caçadores. Em que posso ser útil? – Exclamou animada a recepcionista loira de cabelos curtos e olhos escuros.

Eu vim prestar o teste... – Murmurou a Arqueira meio constrangida. A ansiosidade estava começando a crescer em seu peito e não queria demonstrá-la de forma alguma.

Claro, que cabeça a minha. Um momento, vou buscar uns papéis e poderemos começar o teste. – A jovem comentou alegremente, sumindo pela mesma porta lateral de onde viera. Porém, poucos segundos depois, a loira voltou. – A propósito, meu nome é Dejiko. – E voltou a sumir antes da Arqueira de cabelos verdes pudesse se apresentar devidamente.

Mais uma vez sozinha, a jovem passou a observar os arcos pendurados na parede. Pareciam ser feitos de madeira bem antiga e todos eles já estavam gastos pelo tempo, mas tinham a aparência de serem ainda bem poderosos. Depois passou a analisar as penas coloridas. A maioria era de Peco Pecos e Grand Pecos, mas havia algumas amarelas e vermelhas que não sabia identificar ainda. E, por fim, pairou o olhar sobre a pele de Lobo Errante. Sabia que era um pois era muito maior do que qualquer outro que vagava pelas florestas de Payon. E o pêlo do animal era de um azul royal magnífico.

Era um lobo belíssimo e deveria ter dado muito trabalho para ser derrubado. Se não fosse tão feio matar um animal, poderia ser considerado um troféu.

Uma pena e, ao mesmo tempo, uma beleza, não é? – Dejiko suspirou, observando a Arqueira, já recostada no balcão.

Deve ter dado muito trabalho para matá-lo... – Hialina murmurou, aproximando-se da recepcionista mais uma vez.

E como. Mas Ethan conseguiu fazê-lo sozinho quando havia acabado de se formar como um Caçador.

A jovem de cabelos esverdeados engasgou-se com a própria saliva, recebendo um olhar confuso de Dejiko.

So-Sozinho? – A menor gaguejou e a loira assentiu.

Sim. Você o conhece? Ah, que tolice a minha perguntar, claro que conhece. Ele é o ídolo de todos os Arqueiros, como sou boba. – A recepcionista riu-se sozinha.

Na verdade... Ele é meu mestre... – Hialina murmurou envergonhada, baixando o olhar pelo constrangimento.

Você quer dizer... “O” Ethan é seu mestre? De Luna?! – A loira quem ficou embasbacada. Ao ver a menor anuir com a cabeça, alargou ainda mais o sorriso. – Isso será interessante... Acho que podemos começar. Siga-me.

E, sem dizer mais uma palavra, a garota sumiu pelo corredor curto, sendo seguida de perto pela jovem. O corredor estava iluminado pela luz de fora, que entrava pela porta no fim deste. Dejiko entrou na primeira porta da direita. Era uma sala comum, com uma mesa feita da mesma madeira que o balcão e duas cadeiras de bambu, uma atrás da mesa e outra de frente para esta. A recepcionista tomou a cadeira que ficava atrás da mesa e de frente para uma grande janela, enquanto Hialina sentou-se polidamente na cadeira restante.

Ahm... Como será?

Primeiro irei lhe entrevistar, para ver se seu psicológico está apto para seguir mesmo este caminho. Depois irei explicar o resto. Não queremos que esquente essa cabecinha agora, não é? – A moça riu. – Podemos começar?

~*~

A entrevista e a parte prática havia sido um sucesso. Agora precisava provar suas técnicas reais de caça. Por isso o Caçador de Demônios lhe enviara em busca de certos itens. Já havia pego as três Ervas Brancas, os cinco Troncos e quatro das cinco Garras de Lobo do Deserto.

Pela terceira vez enxugava o suor que escorria pela sua testa. Apesar da capa idêntica a de Ethan proteger-lhe do castigo do sol, o calor não lhe dava trégua. O deserto de Sograt era um mar vasto de areia, cheio de elevações e depressões e alguns poucos oásis espalhados. Ao longe viu alguns pontinhos de cor marrom correrem, destacando-se na areia. Lobos do Deserto. Era exatamente disso que precisava. Porém, fora tirada de seus devaneios por uma suave movimentação na areia logo atrás de si. Sem pensar duas vezes, virou-se e atirou uma flecha, com uma rapidez e precisão tão alta que deixaria um Justiceiro com muita inveja. Porém, a flecha foi seca no tronco de um coqueiro.

Estreitou os olhos ao notar que não havia ninguém ali. Resmungou baixo, já imaginando que aquele sol estava fazendo muito mal aos seus miolos. Aproximou-se da flecha para tirá-la dali e usá-la devidamente ao invés de atirá-la em coqueiros inocentes. Foi quando notou um pequeno pedaço de tecido escuro preso junto à ponta de aço do projétil. Novamente sentiu uma movimentação atrás de si e uma sombra projetou-se acima de si. Sem ter como atirar uma nova flecha e encurralada contra o coqueiro, apenas gritou.

Notas finais
Eu inverti a ordem de algumas partes do teste para que ficasse melhor encaixada na história. Mas é basicamente a mesma coisa: entrevista, parte prática da caça, arena e talz... Só coloquei a parte prática antes para fazer suspense. A_A