Espion Noir
31 XXXI.
A porta da mansão abriu rangendo absurdamente alto, permitindo a luz exterior adentrar dentro da sombria construção, trazendo consigo Arabella, que fez uma careta pelo barulho, entrando rapidamente.
O velho sentado no sofá sorriu ao vê-la, com um copo de whisky na mão e seu usual charuto na boca.
A atmosfera era a mesma: uma sala soturna e exageradamente decorada. Alguns empregados que se mantinham no local saíram com a chegada da jovem que bufou em seus primeiros passos no cômodo.
— Já voltou? Pensei que fosse demorar um pouco mais dessa vez. Eram dois, não eram?
— Podiam ter sido cinco – respondeu a garota sentando com tudo no sofá – me livraria de todos.
Bill a observou atento e imperceptivelmente suspirou. Podia ver o cansaço estampado na cara da neta, junto aos arranhões que havia ganhado durante os confrontos ao longo da semana.
— Você está se desgastando demais.
— Calado – ela fechou os olhos – nosso acordo não envolve preocupação parental.
Bill riu, tomando um gole de sua bebida, deixando Arabella recuperar-se lentamente.
— Não preciso de acordo para isso – manifestou-se o homem – me afeiçoei um pouco por você esses dias, digamos assim.
Arabella abriu os olhos e encarou o avô, erguendo instintivamente a sobrancelha.
— Você lembra a mim na sua idade – explicou-se tragando o fumo – não vá se acostumando – retrucou o mesmo lançando a fumaça para fora.
A garota sorriu e se acomodou no sofá, encarando os quadros na parede.
— Fiquei todos esses dias pensando em como ele deve estar. O que deve estar sentindo, o que pensa sobre mim.
Bill assentiu, voltando seu olhar para o mesmo lugar que a jovem.
— Amor mexe muito com a gente.
— Você já amou alguém na sua vida?
O velho abriu um sorriso de lado sem desviar o olhar do quadro.
— Sim, uma vez. Ela parecia com você. Era sempre a primeira a pensar nas possibilidades e se adiantava todas as vezes. Autonomia era seu sobrenome e ela parecia estar sempre na frente de tudo, tomando todas as responsabilidades. Era uma grande mulher.
Arabella observou de soslaio o avô e percebeu o mesmo limpar os olhos, que ficaram suavemente avermelhados. A percepção de que aquilo indicava um choro fez a jovem refletir sobre o passado dele.
Era bem verdade de que ela não sabia nada sobre ele, assim como ele dela. As únicas história que sabia de seu avô vieram de sua mãe, que o xingava sempre que podia, então além de ser um maluco por adrenalina com um gosto exótico por arte, Bill ainda era uma caixinha de surpresas para a jovem.
— A verdade é que ela nunca soube que eu a amava – ele tomou mais whisky – e eu, claro, nunca o consegui dizer.
— Por que não?
— Ela morreu.
Silêncio se acomodou entre a dupla. Ambos os olharem continuavam sobre o estranho quadro ao longe, de um lobo dourado.
O breve momento se acabou quando Bill tossiu com sua própria fumaça.
Arabella virou-se para ele e sorriu tímida, sendo recebida por um sorriso do avô. Havia algo entre eles além do sangue de sua mãe e, mesmo sem saber o quê, a jovem sentia isso em seu âmago.
— Por isso sei o quão importante é esse garoto para você – Bill jogou as cinzas do charuto num cinzeiro – às vezes acho que por isso aceitei entrar nesse seu plano.
— Você entrou porque era contra a organização.
— ...por isso também aceitei entrar nesse seu plano, soa melhor?
Ele lhe sorriu de lado e a jovem riu, assentindo.
— Mas sou eu quem deve protegê-lo.
Era responsabilidade dela.
— É admirável essa sua forma autodidata, mas saiba que estamos com você nisso tudo, pode contar com toda a minha guarda cem por cento treinada para chutar traseiros.
Arabella riu novamente, seguia de Bill.
— Acionarei ela quando precisar, agora se me dá licença vou cuidar desses machucados.
— Deveria cuidar de si mesma ao invés de só dos machucados.
— Os machucados fazem parte de mim – ela levantou.
Bill deu de ombros de forma infantil.
— Você quem sabe.
Arabella riu novamente e rumou em seguida para a escadaria da mansão. Ela era grande e espaçosa, ocupando o tamanho de dois grandes sofás. Sua constituição, de madeira pura, rangia a cada movimento e em passos doloridos a jovem a subiu, entrando pelo corredor da direita, abrindo em seguida a porta da sala que lhe foi disponibilizada.
Lá dentro o tom soturno da casa se mantinha, porém os móveis eram claros, dispersos em sofás, mesas pequenas adjacentes, uma grande mesa próxima a parede e uma estante, do chão ao teto, preenchida de armas diversas e outros itens.
Arabella entrou e se agachou próximo a estante, tirando de lá uma caixa de primeiros socorros. Depois de tratar todos os seus arranhões com líquidos dolorosamente eficazes, ela sentou ao sofá com o braço enfaixado na extensão do cotovelo.
Havia conseguido aquele ferimento enorme quando rolara junto a uma das agentes enviadas pela organização atrás de Alex, ao longo do asfalto, e fora atingida pela lâmina da garota.
Foi um bom movimento, pensou Arabella sentada na sala, mas na hora ironizou o pequeno corte e lhe retribuiu com uma cabeçada e uma chave de braço.
As mãos da garota inconscientemente tocaram sua cabeça e ela sorriu lembrando-se da dor horrenda após a briga. Estivera durante todos os dias depois que abandonou a missão se dedicando a proteger Alex, lutando contra os outros agentes enviados para eliminar o garoto.
Ela se atracava com eles em qualquer rua, qualquer esquina, pronta para defender com garras e dentes o garoto que, despreocupado, sempre estava logo a frente, caminhando para casa.
Sempre tão próximos e ainda assim tão distantes.
Arabella suspirou sentada na sala, sozinha, e encarou a mesa grande a sua frente preenchida por seus fuzis desmontados. Conseguia visualizar, ali na sua frente, a agente que havia sido. Pronta para cumprir tudo que lhe impusessem, como que numa competição contra sua própria mãe, tentando mostrar o quão competente ela era.
Mas ali, naquele exato momento da sua vida, já não era a mesma. Não se importava mais com aprovação de sua mãe ou com sua reputação na organização. Só se importava, genuinamente, com Alex e com o perigo que o rondava.
Preguiçosamente ela levantou e se inclinou sobre a mesa, montando lenta e gradualmente a arma. A cada encaixe as lembranças vinham a tona, nublando seus pensamentos. Sua primeira missão a mão armada, os tiros que trocou contra seguranças e guardas, as lutas contra agentes de outras organizações em busca de um mesmo alvo.
Um suspiro escapou de seus lábios.
E, de repente, lá estava Alex de novo.
Durante toda a semana ela também viera pensando sobre ele, sobre suas palavras, sobre suas ações. O acompanhou de casa para a escola e da escola para casa tantas vezes, nas sombras, que sorriu consigo ao vê-lo novamente sorrir no terceiro dia.
Dentro de Arabella algo a fazia esquecer-se de si mesma quando o assunto era Alex. Ela, intimamente, depois de tanta dor que o havia causado, só queria poder realmente sumir como ele a havia pedido. Mas não conseguia, e sempre pelas sombras, o acompanhando e protegendo, desejava que ele melhorasse.
Que pudesse, pelo menos, voltar a sorrir como o fazia.
A porta do quarto abriu, acordando a jovem de seus devaneios, e Arabella sorriu para a empregada que entrou, trazendo consigo uma bandeja com chá.
A mulher era jovem, em seus trinta anos, e através da touca era notável os cabelos aloirados em contrate a pele bronzeada da mesma, com seus olhos castanhos calorosos.
— Pensei que estivesse precisando de um pouco de... calma – ela sorriu acenando com a cabeça para o bule de chá com camomila.
— Muito obrigada Sônia, você é realmente a melhor.
Gentilmente a mulher depositou a bandeja próximo a jovem, já servindo-lhe o líquido.
— A senhorita sabe que precisa descansar, está sempre indo de um lado para o outro, não a vejo sequer dormir.
Arabella sorriu ao comentário encarando a arma montada a sua frente.
— Eu descansarei quando for a hora certa.
A empregada assentiu oferecendo a xícara à Arabella, que lhe sorriu aceitando a bebida, degustando de dois goles rápidos.
— Está ótimo, você acertou de novo.
Sônia sorriu e agradeceu com um gesto. Arabella encarou o líquido amarronzado a sua frente e suspirou, usando seu assopro para esfriar o chá.
— Você acha que estou fazendo o certo?
A mulher ficou estática por breves segundos com a pergunta da jovem, mas recebendo seu olhar imediatamente a respondeu.
— Não sei do que a senhorita está falando.
Arabella riu melodicamente.
— Claro que sabe – tomou um gole de chá – todos nesse casarão sabem o motivo do porquê estou aqui.
— Para se vingar da organização?
Arabella negou com a cabeça. Sônia suspirou, se recriminando internamente pelo que diria.
— Pelo garoto?
Os olhos esverdeados pousaram sobre a mulher, mas ao invés de repreensão eles lhe transmitiram pura tristeza. A empregada deu um passo na direção da jovem impulsivamente ao senti-la, recuando logo em seguida.
— Acertei?
— Sim Sônia, acertou. Mas me responda, o que acha sobre isso?
— Muito nobre de vossa parte – ela respondeu de imediato, recebendo um suspiro pesaroso como resultado.
A mulher se endireitou em sua postura, inclinando-se para Arabella, que sequer percebeu sua aproximação.
— Você quer protegê-lo, não é? Isso é muito nobre.
Arabella a fitou de lado bebendo o chá.
— Eu não queria ser nobre ou qualquer coisa do gênero.
— Me desculpe as palavras então senhorita.
Arabella sorriu e balançou negativamente a cabeça.
— Não se preocupe com isso. Saber que ao menos você não me julga, já basta.
— Quem lhe julga?
Sônia falou sem pensar, arregalando os olhos após sua pergunta, e tentando negar a mesma em seguida com a cabeça, mas tarde demais.
— Todos, todos. Se bem que – Arabella riu pondo a xícara de volta na bandeja – todos que conheço não compreendem um terço do que estou fazendo.
Arabella sentou com tudo sobre o sofá disposto no local com os olhos fixos no fuzil sobre a mesa.
— Minha mãe me ligou – continuou ela – e disse que o que eu estava fazendo era uma bobagem, que eu estava sendo infantil. Que era para ir imediatamente me retratar com a organização e pedir desculpas pelo “mal” comportamento.
A jovem riu novamente.
— Minha mãe disse que eu trazia desgosto a ela, que destruí uma vida inteira por causa de um maldito garoto. Ela me ameaçou, sabia? Dizendo que pagaria pelo que estava fazendo. Que não só eu como ele também.
Arabella esticou o braço deixando visível as ataduras, permitindo a empregada encarar as mesmas.
— E eu estou realmente pagando por isso.
Ela suspirou novamente.
— Obrigada pelo chá Sônia, estava maravilhoso, como sempre.
A garota lhe sorriu e a mulher assentiu apressada, retomando a bandeja em mãos e rumando até a porta, fechando-a silenciosamente em seguida.
Arabella suspirou mais uma vez sozinha e se levantou com dificuldade, voltando-se a mesa.
Ela sofreria todas as consequências para que Alex não se machucasse. Nem que isso lhe custasse a vida.
•••
— Essa é sua decisão final?
— Sim.
[risos]
— Você é muito boba criança. Tudo isso por amor? Você nem sabe o que é isso.
— Não vou discutir isso com você.
— Sabe que está errada, não é? Lhe daremos uma segunda chance se vier se retratar, só precisa pedir desculpas pelo seu... comportamento inadequado.
— É só isso que tem para dizer? Estou desligando.
— Vai bancar a teimosa então? Está cometendo um grande erro.
— Eu decido se é ou não um erro.
— Isso não vai sair impune, tem consciência disso?
— Tenho e estou pronta para tudo que estiver por vir.
[risos]
— Eu tenho nojo de ter você como filha, você é uma desonra.
— Puxei exatamente a você.
— Sua...
— Vou desligar, tenho coisas mais importantes para fazer.
— Eu lhe dei uma segunda chance, você vai se arrepender do que está fazendo.
— Estou desligando... [deboche]
— Sua maldita! Vou fazer você sofrer as consequências! Você e esse garoto maldito! Vocês dois vão pagar! [raiva]
[chamada encerrada]
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