Eu despertei lentamente e demorei alguns instantes para me lembrar de onde eu estava e porque eu não estava em minha própria casa... Lembrei-me do acidente que por muito pouco não terminara de uma maneira trágica...

Encarei em silêncio o teto da pousada que por um milagre estava muito próxima de onde eu me acidentara. Só de pensar na sorte que eu tinha, eu me sentia aflito.

Lembrei-me da pousada em que passei aquela noite, do senhor bondoso que aparecera de repente pra me ajudar e me conduzir pra dentro daquele lugar... Lembrei-me da linda garota a quem eu beijara antes de voltar ao meu quarto e conseguir dormir tranquilamente... Parecera tão natural, tão certo, que eu nem hesitei, mas, por mais que ela tivesse correspondido, por mais que ela tivesse correspondido na hora, agora eu não sabia como ela reagiria comigo...

Finalmente decidi me levantar da cama e me espreguicei, olhando pela janela para o dia que nascia alaranjado e morno como se não tivesse acontecido nada de extraordinário na noite anterior. Eu sempre achava fascinante o nascer do Sol e desde criança gostava de assistir o mais lindo espetáculo do mundo...

Admirando o horizonte, me lembrei novamente da noite anterior... Eu tinha encontrado na noite um espetáculo que conseguia se equiparar àquele nascer do Sol: o sorriso de Mari-chan! Era quase impossível me apaixonar por alguém que eu mal conhecia... Não trocamos mais do que cinco palavras... Mas meu coração se aquecia de uma maneira completamente nova pra mim... E por causa dela... Como isso podia ser possível?

— Ohayou, Uke-san! – como se tivesse conhecimentos dos meus pensamentos, a linda garota, por quem eu me sentia atraído e a quem eu tinha beijado na noite anterior, entrou pela porta de meu quarto, trazendo uma farta bandeja de café da manhã. Dormiu bem? – ela perguntou, dando uma risadinha como se achasse graça minha completa falta de reação.

— Ohayou, Mari-chan! – eu respondi, me forçando a me virar para encará-la. – Dormi bem sim. E você? – perguntei, antes de tomar ciência do que estava fazendo. Eu podia perguntar?

— Dormi maravilhosamente bem, arigato por perguntar! – ela novamente riu e eu desviei os olhos pra baixo, coçando a cabeça sem jeito. – Eu lhe trouxe o café da manhã! – seu sorriso se abriu, ocupando o lugar do Sol, amanhecendo meu quarto e disparando meu coração.

— Arigato – só agora eu percebia que estava faminto e novamente ali estava ela para me amparar. – Tudo parece delicioso – observei.

— Ora, então não faça cerimônias! – ela brincou. – Comprove se o gosto faz jus à aparência!

Seu tom de voz tornava até mesmo o que podia parecer autoritário uma frase doce e apaixonante. Eu me sentei na cama, diante da bandeja e comi um pedaço da torta de maçã. Tinha um sabor único, diferente de qualquer coisa que eu já tivesse provado em minha vida... Era como retornar ao passado, retornar à infância, para as férias que eu passava na casa dos meus avós, para os dias mais felizes que eu conseguia me lembrar de ter tido... Para a liberdade de uma vida sem preocupações, sem riscos, quando eu só me ocupava de comer os doces da minha obaa-chan, brincar na rua, deitar na grama sob o Sol se ponto e sonhar!

— Isso tem um gosto divino! – exclamei tão infantilmente quanto as lembranças que a torta me trazia e a garota pareceu se surpreender.

— Se você quiser, eu pego mais pra você – ela soou lindamente empolgada e eu ri.

— Se me deixar, como essa torta inteira – brinquei, levando outro pedaço à boca.

Se estiver falando sério, não vejo problema nenhum em deixar – seus olhos se fixaram intensamente em mim e eu ofeguei como se a tivesse beijado novamente.

— Quero tudo que eu puder hoje – respondi, sem desviar minha mente de um novo beijo e, com um sorriso, ela saiu do quarto, me deixando sozinho, comendo.

Terminei meu pedaço de torta e tomei um pouco de chá de camomila que ela também tinha me trazido. A bandeja também tinha torradas, pães de queijo e ovos mexidos e tudo era delicioso, mas não como a torta...

Mariana retornou trazendo o prato com a torta de maçã nas mãos e se sentou diante de mim, cortando um novo pedaço e me servindo. Ao invés de levar o pedaço até minha boca aproximei-o da dela, lhe oferecendo.

— Que tipo de idiota seria eu se tivesse uma torta tão deliciosa e não dividisse com uma companhia tão linda como você?

Pude ver suas delicadas faces coraram docemente, mas ela não desviou os olhos dos meus e aproximou-se mais, aceitando a tora que eu lhe oferecia.

— Existe realmente algo intrigante em você, Yuk-chan – ela deu risada e eu sorri, encantado com a maneira carinhosa com que ela se referira a mim.

— Por que diz isso?

— Pessoas costumam ficar em choque em experiências como a que você teve ontem... – ela explicou calmamente. – Mas você não... Parece até que o que lhe aconteceu não passou de um pesadelo – eu inspirei, reflexivo, franzindo o cenho e avaliando o que ela dizia.

— Você descreveu exatamente a sensação... É estranho, mas é realmente como se minha cabeça não acreditasse que foi mais do que um sonho... Eu sempre fui bastante cético... – brinquei.

— É sempre assim tão racional? – ela riu.

— Menos ontem – eu sorri inevitavelmente malicioso e ela desviou os olhos. – Mas eu não me surpreendi por você despertar um sentimento assim em mim...

—É alguma coisa daquelas situações de vítima e herói? – ela brincou.

Afaguei sua face delicada, olhando-a intensamente e colocando uma mecha do seu cabelo atrás de sua orelha. A garota diante de mim ofegou e eu sorri, satisfeito.

— Não, é claro que não... Como você mesma disse, eu tendo a ser muito racional!

— Mas e quando tudo vier à tona? De uma vez só? – sua mão tocou a minha face, parecendo muito preocupada.

Eu nunca tinha parado para pensar que talvez eu estivesse apenas adiando o momento de lidar com os problemas e que todos pudessem vir esmagadoramente de uma vez...

— Acho que você não é tão racional quanto pensava, gatinho... – Mariana riu de minha expressão abobalhada.

— Acho que eu preciso de ajuda – dei risada também, prendendo sua mão na minha e puxando-a para mim.

Mariana se sentou ao meu lado e eu passei o braço por sua cintura, aconchegando-a em meu peito. Ela me encarou com um sorriso mais lindo que a manhã.

— Foi exatamente por isso que você veio parar aqui!

— Destino? – arrisquei.

— Claro – ela respondeu rápido demais e eu franzi o cenho, estranhando. Parecia que sua resposta escondia alguma coisa. – Por quê? Continua racional demais para acreditar em Destino? – ela deu uma gargalhada divertida.

Com os olhos fixos nos dela, eu refleti por uns momentos e, sem deixá-la pensar muito, uni nossos lábios como na noite anterior.

— O Destino soube ser convincente!

Notas finais
mereço reviews?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!