Esperança
1 Em uma época distante
Notas iniciais
Eu fugi. Mais uma vez. Mais uma vez ferido, mais uma vez sem saber o que eu fiz de tão mal, mais uma vez sem saber onde eu errei, mais uma vez levando apenas ódio e mágoa junto comigo, mais uma vez... Certo de que meu mais grave pecado era ter nascido.
Eu não entendia as coisas muito bem. Eu sabia o que eu era, mas não quem. Seria eu uma pessoa má? Talvez eu fosse tão ruim que nem ao menos percebesse isso...
Esses pensamentos iam e voltavam na minha mente, carregados de dor e raiva, enquanto eu corria pela floresta. Todo o meu corpo doía, eu havia sido apedrejado sem dó nem piedade. Não me ouviram, não questionaram, logo quando viram minha marca, me atacaram como se eu fosse a pior das pestes. Não era a primeira vez, mas decididamente seria a última.
Só me faltavam mais três anos para completar a maior idade, que era dezessete anos, no mundo dos demônios. Até lá, eu era apenas um humano normal... Não, não normal, até lá eu era uma criatura humanoide que parecia ter sido projetada para suportar toda a frustração, a fúria, e a tristeza da humanidade.
Minhas pernas fraquejavam, eu caia no chão com freqüência, me levantava desesperado e voltava a correr. Não queria morrer, não assim. Não sem nenhum motivo. Eu sou sim filho de um demônio, do rei deles na verdade, e me tornarei um eventualmente, mas isso faz de mim automaticamente culpado por tudo de ruim que acontece aos homens?! Não são os humanos vitimas da própria maldade?! Com o tanto de ódio irracional que carregam em seus corações, não era como se nós demônios precisássemos fazer algo.
Por motivo que tenho certeza que nunca vou compreender ao certo, nossas espécies viviam em pé de guerra. As vezes parecia uma disputa, de quem era mais forte, quem dominaria o planeta, quem matava mais da espécie inimiga, era repugnante. Mas de uns tempos para cá, a situação ficou ainda mais caótica, agora não era mais uma questão de sobrevivência. Os humanos haviam declarado guerra, e para isso, utilizavam métodos sujos para justificar suas ações brutais contra minha espécie.
A humanidade cavou a própria cova, se afundava cada vez mais na própria ruína, e agora, um corja de humanos estúpidos que comandavam os outros humanos estúpidos usando de argumentos retirados de um livro, citando um Deus tirano que não existia, ordenava que perseguissem e queimassem na fogueira qualquer demônio. Benigno ou maligno, fosse uma besta ou uma fadinha inocente, não importava. Qualquer coisa que não fosse puramente humana merecia a morte.
Nem sempre foi assim, todos conviviam em harmonia no passado, e foi pensando nisso, acreditando que ainda existiam humanos que não haviam sido contaminados por esse ódio insano, que eu resolvi sair pelo mundo e visitar cidades. Grande erro... Até os anjos tinham virado as costas para os homens! O que um pirralho como eu, quem nem ao menos um demônio formado era ainda, podia fazer?!
Meus olhos queimavam, e não demorou pra que eu começasse a chorar copiosamente enquanto corria, gritando meu desespero a plenos pulmões. Eu não queria que fosse assim, não mesmo... Eu fugi pra procurar humanos “puros” justamente para não ter que matá-los no futuro, como havia sido decidido na última lua de sangue. Os humanos não teriam mais direito de habitar o planeta, não enquanto destruíssem tudo a sua volta como se fossem donos de tudo.
Eu mal respirava de tanto chorar. Não eram meus machucados que doíam, era meu coração. E doía tanto! Mas tanto! Eu mal podia acreditar que podia sentir tanta dor...
Me distrai do caminho, tropecei em uns galhos e, dessa vez, o que eu encontrei não foi o chão duro, mas sim um barranco que eu desci direto, batendo a cabeça em vários pontos. Quando por fim eu cheguei ao final da descida, estava tão tonto que mal podia levantar a cabeça, aliás, até manter os olhos abertos estava difícil... E minha última visão foi um par de botas humanas se aproximando... Ah, que ótimo...
X --- x --- x
Acordei em um lugar quente e confortável. Das duas, uma: Ou algum demônio da floresta me resgatou, ou eu devo ter sido vendido como bichinho de estimação para algum nobre. E sinceramente, eu preferia morrer do que passar pela segunda opção.
Mas para minha total surpresa, quando abri os olhos não me vi em nenhuma jaula, e nem ao menos numa cela. Nem sequer estava preso! Me levantei com cuidado, sentando na cama e olhando o espaço ao redor, era uma pequena casa de madeira, simples, mas muito bem organizada. Continuei sondando o espaço com os olhos e resolvi me levantar.
Seja lá quem for que me trouxe pra cá, havia cuidado dos meus ferimentos, então só poderia ter sido outro demônio... Mas, a casa tinha cheiro de humano. Não só isso, era um cheiro inebriante... Não sabia bem explicar, apenas me levantei e me pus a segui-lo. Será que tinha algum humano preso ali? O que eu faria? Não poderia simplesmente soltá-lo, uma vez que eu havia sido acolhido ali...
A surpresa foi tão grande, que todos os meus pensamentos se calaram de uma vez só. A origem do cheiro que eu vinha seguindo estava sentada em uma poltrona em frente a lareira, polindo uma longa espada das que eram usadas pelos povos asiáticos, uma katana.
A princípio não entendi. Era um humano, não tinha cheiro de mais nada ali... Era iria me matar? Então por que cuidou de mim? Iria me vender? Então por que me deixou solto?
Peguei uma faca de caça que havia lá perto e comecei a me aproximar sorrateiramente, porém, mal consegui avançar três passos e sua voz rouca e imponente soou pelo cômodo.
– Não vou te cozinhar nem nada do tipo pirralho, solte isso. — Um arrepio correu pelo meu corpo, ele tinha me ouvido? E que voz era aquela? Era um tom calmo e forte ao mesmo tempo... – E o que faz em pé? Tem noção do tamanho da queda que você levou? – Ralhou se levantando e andando até mim.
A primeira reação foi choque. Eu havia sido ajudado por um humano... E que provavelmente deveria pertencer ao exército, pelo porte físico forte e intimidante, e os músculos bem trabalhados do abdômen desnudo. Não sei se mencionei, mas o exército era encarregado de caçar os demônios que se escondessem.
Depois, veio uma onda de um sentimento confuso que unia alívio e decepção quando reparei no brilho fosco dos seus olhos puxados. Acontece que ele era cego, por isso não tinha percebido meus olhos e cabelo de cor incomum, ou a marca nada discreta no meu rosto. Não era um soldado ajudando um demônio, para ele, eu era só um garoto qualquer.
E logo em seguida veio aquela sensação de ter levado uma facada no peito. Eu deveria dizer a verdade? Se eu dissesse, ele poderia me atacar, mas... Se eu não dissesse, eu estaria o enganando... Optei por escolher o que me mantivesse vivo pelo menos por hoje.
Passei tanto tempo perdido nas minhas divagações, que “acordei” quando ele me ergueu em seus braços como se eu fosse uma criança, e voltou a caminhar em direção a cama.
Acontece que... Eu nunca havia sido abraçado por um humano antes.
E ele era tão quente...
– Q-Qual seu nome? – Perguntei incerto, enquanto ele me deitava cuidadosamente na cama.
– Kanda. – Respondeu somente.
Sua voz era tão boa de se ouvir, me acalmava...
– Me chamo Allen. – Falei sorrindo sem nem perceber.
– Humpf, tá certo. Agora fique ai que eu vou buscar algo pra você comer, dava pra ouvir seu estômago lá da sala enquanto dormia. – Ditou já saindo do quarto, tirando uma cordinha do bolso e prendendo os longos cabelos negros.
Não demorou muito pra que voltasse com um prato de sopa, e estava simplesmente delicioso! Quis perguntar como alguém que não enxerga podia cozinhar tão bem, mas achei que seria grosseria, então fiquei calado. Ele não parecia ser muito chegado a conversas, apenas se sentou em uma cadeira no quarto e voltou a polir a katana enquanto eu comia. Aproveitei para observá-lo durante esse tempo.
Ele aparentava ter por volta de uns vintes e cinco anos... Não sabia dizer ao certo. Seus cabelos eram realmente longos e bem lisos, sendo mais curtos na frente, provavelmente ficavam caindo no seu rosto e ele cortou. Sua pele era levemente bronzeada, o que lhe dava um toque meio selvagem, seu rosto tinha traços delicados e masculinos ao mesmo tempo, sua expressão parecia não mudar, e por mais que sua voz fosse meio ríspida e suas sobrancelhas estivessem sempre franzidas, ele sempre me aparentava serenidade. Seus braços eram bem fortes, seu tronco também, ele deveria ser um ótimo guerreiro, e pelos músculos bem trabalhados, ainda praticava bastante, e que músculos falando nisso e... H-Hey, por que eu to corando?! Sopa Allen, concentre-se na sopa...
– Se você continuar me encarando desse jeito, vou começar a temer ser abusado enquanto durmo... – Comentou em um tom sarcástico. Minha cara deve estar parecendo um tomate agora.
– C-Como você...? – Comecei a indagar pasmo, mas ele foi mais rápido.
– Não pense que só por que não to te vendo, não sei o que está fazendo. – Falava com um ar zombeteiro, sem virar o rosto na minha direção, se concentrando na katana. – Aposto que deve estar com a cara da cor de uma pimenta agora.
– Você é um gênio. – Murmurei desistindo de entender como a percepção super aguçada daquele ser funcionava.
– Tch, apenas escuto bem. E seus batimentos cardíacos não são nada discretos. – Deu de ombros distraidamente. – Falando em barulho, tavam tentando te estuprar ontem por acaso?! Por que você tava gritando que nem...
– KANDA! – Exclamei sem querer nem imaginar a cor que a minha cara deveria estar agora.
– O que foi? Não é a primeira vez que eu escut...
– Eu não estava sendo estuprado, ok? Só... Estavam... Atrás de mim. – Murmurei sem saber bem o que dizer.
– Hm, historinha complicada pelo visto. – Comentou se levantando.
– Nem imagina o quanto... – Falei terminando a sopa;
– Tch, pra mim tanto faz. – Respondeu alongando os braços, e eu respirei aliviado vendo que ele não iria me pressionar por explicações.
– Aonde vai...? – Perguntei sem pensar quando o vi caminhar até uma porta que parecia dar pra fora da casa.
– Treinar. Se quiser vir, tanto faz, faça o que quiser. – Saiu simplesmente, e eu fui atrás.
Era como se a casa perdesse todo o clima aconchegante quando ele não estava lá. E também, fazia tanto tempo que eu não conversava com um humano! E era a primeira vez que eu fazia isso sem ter que me disfarçar ou me esconder, tudo bem que de certa forma eu estava me escondendo sim, mas... Ele mesmo que disse que não ligava, não é?
Sentei-me em um dos degraus da varanda para assistir seu treino. Nunca tinha visto um soldado treinando antes, e pelo tipo de espada que ele usava, deveria ser um dos guerreiros da elite, que só saiam da base em casos extremos.
E mais uma vez naquela mesma noite, eu voltava a ficar pasmo com aquele homem. Não que ele fosse bom com a espada... Era só que meus olhos mal podiam acompanhá-lo! Era fascinante... Seus movimentos eram rápidos, fortes e precisos, o som da lâmina cortando o ar numa velocidade absurda chegava a me arrepiar. Não lutava como a maioria dos homens do exército, que se focavam em matar da forma mais bruta que encontrassem, ele tinha uma técnica impressionante, mais parecia dançar com a espada em mãos, uma dança veloz e letal.
Fiquei observando-o até o dia amanhecer. O sol nascia por entre as nuvens e a luz tocava sua pele delicadamente, refletindo em cada gota de suor, criando uma verdadeira aura a sua volta. Embainhou a espada em um movimento preciso, como todos os seus pareciam ser, e se voltou em direção a casa.
– Não tá cansado, Moyashi? – Indagou se encostando a parede do meu lado.
– Não, fiquei vendo você lutar e... Espera, o que é Moyashi?!
– Uma hora você descobre... – Comentou com um risinho de canto. – Pirralho, você luta alguma coisa? Faz tempo que não treino com nada vivo... – Indagou distraidamente, dando mais atenção aos raios de sol que lhe beijavam calmamente a face.
– Quem me dera... Não machuco nem uma mosca. – Respondo rindo da minha própria desgraça.
O olhar que ele me lançou foi, no mínimo, cômico.
– Heh?! E como uma coisinha que nem você sobreviveu esse tempo todo? – Perguntou parecendo realmente confuso. Apenas ri da pergunta.
– Coisinha?
– É, coisinha. Pequeno, miúdo, bracinhos fininhos... Parece até de dá pra quebrar com a mão. – Começou a exemplificar e eu não sabia se ficava feliz por, pela primeira vez na vida, alguém me achar inofensivo, ou bravo por ele me considerar assim tão... Delicado.
– Não sou assim tão frágil. – Respondi fazendo bico.
– Ah, não é? – Seu tom era pura ironia. – Se você diz Moyashi...
– Por favor, o que diabos é Moyashi? – Perguntei já sem muita paciência.
– Vá até a lateral da casa, é uma planta. Tem um canteiro delas lá. Você vai entender o por quê do apelido quando as vir. – Explicou entrando na casa.
Como meu fraco sempre foi a curiosidade, corri para olhar. Não sabia bem que lateral da casa era, então demorei um pouco, mas quando achei...
– KANDA! EU NÃO SOU UM MALDITO DE UM MOYASHI! – Eu podia jurar que saia fumaça das minhas orelhas.
Ele se acomodou melhor na cadeira da varanda, bebericando um pouco do seu chá antes de virar o rosto calmamente na minha direção.
– Tá certo... – Comentou irônico.
– Eu falei sério! – Protestei. Eu podia ser pequeno, mas ainda tinha minha dignidade! Eu não era tão miudinho e fraquinho assim...
– Tudo bem, se você tá dizendo... – Ainda mais irônico. – Moyashi...
Que cretino!
Sério, eu não conseguia entender como alguém despertava tantos sentimentos em mim de uma só vez. Talvez seja o fato de eu nunca ter experimentado sentir quase nada antes... Não sabia dizer.
Primeiramente eu me sentia mal por enganá-lo, depois encantado pelo seu temperamento e habilidades, e agora bravo com seu gênio complicado. E olha que isso foi só em um dia.
– Eu posso te ensinar algumas coisas se quiser. Assim você pode se defender se tentarem te estuprar outra vez...
– Mas não tentaram me estuprar! – Exclamei batendo o pé, e ele apenas deu um risinho de canto.
– Admito que fazia tempo que não me divertia assim... – Comentou passando a mão pela minha cabeça, bagunçando meu cabelo numa espécie de cafuné. – Vamos. – Passou direto por mim e eu o segui sem dizer nada.
Alguém... Gostava da minha presença! Eu mal podia acreditar.
No início, eu só planejava ficar ali até me curar da maioria dos ferimentos e depois continuar na estrada, tentar a sorte na próxima cidade, ou quem sabe voltar pra casa... Mas as coisas foram mudando com o passar do tempo.
Eu não estava apenas encantado por aquele humano diferente de todos os outros... Eu havia me apaixonado perdidamente.
E assim se passaram quase três anos. E durante esse tempo eu aprendi muito sobre Kanda, e mais ainda com ele. Aprendi a usar uma espada, e a lutar também, trocamos algumas receitas de comida, e continuo preferindo as dele, aprendi a aproveitar melhor meus outros sentidos, sem depender tanto da visão, o que nos deu ótimos momentos no bosque á noite, ou na cachoeira.
Muitas vezes ficávamos na varanda sem fazer nada, só aproveitando o sol de manhã cedinho, ele gostava de ouvir minhas histórias de todos os lugares onde estive, das diferentes culturas e crenças, que pareciam ter apenas a caça aos demônios em comum, e vez ou outra ele me contava uma das suas, eram sempre fascinantes. Ele havia lutado em várias guerras, ás vezes só pra treinar seus conhecimentos em artes marciais, e outras por concordar com os ideais de um dos lados, mas nunca havia sido derrotado.
Até que certa vez, uma legião de demônios — não apenas demônios, mas bestas devoradoras de carne humana — atacou a vila onde vivia com seus pais e seu irmão mais novo. Todos morreram. Ele jurou sobre o sangue da família que iria se vingar, e perseguiu os demônios pelos quatro cantos do mundo, e quando os encontrou, enfrentou a todos sozinho, mas por azar um deles sabia usar magia, e foi assim que ele perdeu a visão.
Desnecessário dizer que depois de ouvir isso, eu decidi que nunca contaria a ele quem eu realmente era.
Eu não conseguiria viver se ele me odiasse.
Mas o tempo é um carrasco implacável, e a cada lua, meu aniversário de dezessete anos terrestres chegava, e com ele, a minha maioridade no mundo dos demônios e meus poderes. E pensar que no passado eu queria tanto que esse dia chegasse, e agora eu só desejava ardentemente que ele não existisse.
Mesmo que eu apenas conseguisse meus poderes, Kanda iria notar a diferença, mas além disso, quando eu despertasse como demônio, eu teria chifres, asas e uma cauda. Não havia forma alguma de disfarçar esses “pequenos” detalhes... E eu não teria escolha senão deixá-lo.
Por tudo é há de mais sagrado, eu não queria ir embora! Por que quando finalmente as coisas na minha vida parecem estar dando certo, isso acontece? Por que quando finalmente eu encontrei alguém para amar...
Suspirei pesadamente, atraindo a atenção do moreno ao meu lado.
– Moyashi, você tá estranho. Já faz tempo, e dessa vez eu não vou engolir um “Não é nada” como resposta. – Falou sério, naquele tom incontestável que usava quando estava preocupado comigo.
Estávamos deitados perto da cachoeira, eu relaxava observando as estrelas que pareciam brilhar mais intensamente naquele lugar e Kanda meditava ouvindo o som forte e constante da queda de água.
Faltava uma semana para o meu aniversário.
– Mas eu... – Me sentei na relva, começando a ficar nervoso. O que eu diria?
– Desembucha pirralho...
Pense Allen... Pense em algo que não seja mentira, ou ele perceberia, mas que também não seja sua identidade.
– E-Eu... Promete que não fica bravo comigo?
– Que seja. Só diga logo o que diab...
Não o deixei terminar a frase. Usei aquela chance para expor os sentimentos que sempre demonstrei como apenas amizade, quando na verdade iam muito alem... Ataquei seus lábios com uma sede que eu mesmo desconhecia, embrenhando minhas mãos pelos seus cabelos molhados e puxando-o mais para mim, buscando mais contato.
Ele apenas permaneceu imóvel por uns instantes, claramente surpreso, antes de me separar gentilmente de si, mas me mantendo em seu colo.
– Então... Esse era o problema...? – Indagou ainda com o rosto excessivamente próximo.
– Er... E-Eu... – A sensação do seu gosto na minha boca não me deixava formar nada de coerente na cabeça.
– Tch, por que não disse antes... – Resmungou me deitando repentinamente na relva macia, e atacando meus lábios em um beijo avassalador, desesperado, e, sobretudo, apaixonado.
Eu não sabia mais o que pensar... Na verdade, nem mesmo pensar eu sabia naquele momento.
Suas mãos percorriam meu corpo sedentas, seus toques me provocam de uma forma inédita, gemidos escapavam pela minha garganta sem que eu me desse conta... Era como se um mar de fogo circulasse pelas minhas veias.
Seu beijo era intenso, forte, mas ao mesmo tempo carinhoso e gentil, seus lábios reivindicavam os meus possessivamente, sua língua explorava cada canto da minha boca, muitas vezes se encontrando com a minha em uma batalha prazerosa que fazia meu corpo esquentar ainda mais.
Quando nos separamos em busca de ar, eu tinha certeza que não pararíamos por ali. Eu necessitava dele, queria que suas mãos tocassem todo o meu corpo, eu queria senti-lo de todas as formas possíveis, queria me entregar a aquele que tinha me ensinado que mesmo esse mundo sendo cruel, ele também pode ser lindo.
Suspirei de alívio quando finalmente estávamos livres das nossas roupas, e agora finalmente eu podia sentir cada centímetro daquele corpo imponente- que me arrancava suspiros secretos e fazia minha imaginação delirar – no meu, me envolvendo, me esquentando, me excitando, me possuindo...
Eu passava minhas pernas em volta da sua cintura, colando os corpos ao máximo, arranhando suas costas enquanto seus lábios beijavam e marcavam meu pescoço, e logo desciam por todo o meu corpo, me acariciando, me enlouquecendo. Minha mente era um turbilhão de sensações, eu o queria perto, mais perto do que era humanamente possível, queria me fundir a ele, queria que meu corpo fosse uma extensão do seu, queria que fossemos um só. Para sempre.
Era incrível como Kanda me fazia descobrir lados de mim mesmo que eu desconhecia. O mesmo instinto enlouquecedor que me fazia querer ser dele, fazia com que eu o quisesse pra mim. Meus lábios percorriam famintos sua pele, deixando algumas marcas, mordendo as vezes, quando ele fazia um movimento mais brusco no meu interior, me fazendo ver estrelas e me tirando do ar por alguns instantes.
Ele fazia questão de me tocar em cada cantinho, me despertando sensações indescritíveis, meus olhos giravam nas órbitas de tanto prazer, suas costas quase sangravam dos meus arranhões e minha voz há muito já estava rouca de tanto gemer e por vezes realmente gritar de tão enlouquecedora que era aquela sensação.
Nossos beijos se tornavam cada vez mais selvagens, as carícias mais urgentes, suas mãos marcavam minha cintura e eu adorava quando ele me segurava e me possuía com força, apagando minha consciência com o prazer avassalador... Nossos corpos se encaixavam com tanta perfeição que era impossível não acreditar que havíamos sido feitos um para o outro
O destino havia nos unido de forma tão improvável... Não podia ser somente o acaso.
– Allen... Meu Allen... – Sussurrou no meu ouvido, sua voz grave causando um arrepio descomunal pelo meu corpo que me fez alcançar o ápice mais uma vez naquela noite, trazendo-o junto comigo.
– Te amo tanto... Yuu... – Lembro-me de ter murmurado antes de desmaiar de exaustão em seus braços, adormecendo a sentir todo o seu calor a minha volta.
Não sai de seus braços por toda a semana.
Até que o dia finalmente chegou.
Fugi de casa na calada da noite, correndo desesperadamente logo que sai pela porta, pois sabia que ele daria pela minha falta. Corri desesperadamente, corri para o mais longe que eu pudesse alcançar, acabando em uma clareira onde a luz da lua cheia me atingia em cheio.
Foi terrível.
Foram sete noites de agonia enquanto meu corpo sofria aquela semi metamorfose, onde cada nova transformação parecia mais dolorida que a anterior. E no meio de tanta dor, acabei apagando por uma semana inteira.
E para começar a controlar meus poderes, foram cinco meses.
Passaram-se oito meses ao todo.
Oito malditos meses. Decididamente os meses mais torturantes da minha vida.
E também os meses em que eu decidi que sobreviveria mesmo que Kanda me odiasse, desde que eu pudesse vê-lo pelo menos uma última vez.
Voltei a casa, e para minha surpresa e decepção, estava vazia.
E se alguma coisa tivesse acontecido? E se Kanda tivesse ficado tão magoado que não quis mais ficar naquele lugar cheio de lembranças nossas, ou então aconteceu o pior e ele não está mais no mundo dos vivos?!
Me desesperei completamente. Sobrevoei todos os quatro cantos do mundo em busca de pelo menos uma nuance daquele cheiro inebriante que ele tinha e que eu jamais apagaria da minha memória. Procurei, procurei, procurei incessantemente e quando o encontrei, já quatro meses depois... Foi um dos piores choques de realidade da minha vida.
Durante todo o tempo em que passei com Kanda, esqueci totalmente o objetivo com o qual eu saí de casa para explorar o mundo dos humanos. Eu deveria encontrar um humano que não tivesse sido corrompido pelo ódio até a próxima lua de sangue, ou então, meu pai, o Senhor dos Demônios, iria revidar o ataque dos humanos com força total, e esses seriam dizimados do planeta terra.
Hoje era a lua de sangue.
E como só agora eu me dei conta desse fato?
Simples, os humanos perceberam as legiões de demônios se agrupando e formaram um contra ataque. Havia um enorme exército humano acampado em um vale, vale este que seria a linha frente da guerra, por onde os demônios começariam a atacar. Sobrevoei a região preocupado com a quantidade de humanos ali presentes, eram muitos, e estava bem armados. Haveriam muitas mortes de ambos os lados, e isso me despedaçava o coração.
Mas nada, nada se comparava ao choque de ver quem estava no comando.
Eu já deveria esperar... Pelo que eu ouvi dele, e olha que tinha sido pouca coisa, eu tinha perfeita ciência de que Kanda não era um guerreiro normal. Ele havia enfrentado uma legião inteira de demônios sozinho e mesmo tendo perdido a visão, só tinha saído com algumas cicatrizes, era simplesmente óbvio que o rei já deveria ter conhecimento de seus atos e iria convocá-lo para lutar, e outra, o próprio fato de não enxergar, o tornava perfeito para aquela batalha, que aconteceria á noite.
Mesmo assim, quando senti seu cheiro vindo da grande tenda de comando, quase caí do ar com o choque.
Ainda era cedo, o exército ainda se preparava.
Eu ainda tinha uma chance de vê-lo. Por mais suicida que fosse...
Se meu pai aparecesse, eu seria obrigado a lutar de qualquer forma, e não sei se suportaria lutar contra Kanda em uma situação que não fossem nossos treinos. Eu era perfeitamente incapaz de vê-lo como inimigo, e assim sendo, eu preferia morrer pelas suas mãos.
Usei alguns feitiços para me encobrir e fiquei sobrevoando a área até que ele estivesse sozinho na tenda. Respirei fundo, me preparando para o que quer que eu fosse encontrar lá e desci em total e completo silêncio, camuflando até mesmo meu cheiro.
Entrei sorrateiramente na tenda e foi a primeira vez que ele não me percebeu logo de cara. Veja bem, eu disse logo de cara. Eu já tinha desistido da teoria de Kanda ser um ser humano normal, por que mesmo eu encobrindo minha presença por completo, ele ainda ficou em alerta quando eu avancei mais uns passos na tenda.
– Oe, quem está ai? – Sua voz soava séria e ameaçadora. – É melhor aparecer...
Era agora.
Eu iria me revelar naquele exato segundo, mas ele simplesmente baixou a guarda com um suspiro cansado e virou de costas para mim, indo até um sofá e levando uma mochila consigo. Esperei para ver o que ele faria, se tiraria alguma arma, ou as facas que ele até tinha me ensinado a atirar... Porém, ele tirou um cobertor. Não um simples cobertor, mas o cobertor que eu dormia quando morávamos juntos.
– Só posso estar enlouquecendo... Não tinha como o pirralho estar justo aqui... – Murmurou pensativo, aspirando o cheiro do cobertor.
Meus olhos arderam e eu não sabia se ficava feliz por ele ainda pensar tanto em mim, ou triste por ele ter sofrido tanto com a nossa separação quanto eu.
Com ele era sempre assim, eu nunca sabia o que sentir.
Me aproximei vagarosamente, e agora com meus olhos de demônio eu podia ver, não somente seu corpo, mas também sua aura. Kanda emanava uma luz azul intensa e poderosa, maculada somente em alguns pontos, que eram onde ficavam as cicatrizes de quando lutou com os demônios, e em seus olhos.
Agora, eu também podia ver o encanto que o maldito que o cegou havia lançado, e tinha poder mais do que suficiente para retirá-lo. Aproveitei que ele estava deitado quietinho no sofá – tão adorável abraçado àquele cobertor – e comecei a sussurrar um contra feitiço.
Eu sempre tive curiosidade em saber qual era a cor real dos olhos de Kanda, as vezes eu tentava ver por trás da película acinzentada e achava que eram azuis, um azul escuro, mas não sabia dizer ao certo que tom.
Quando terminei, provavelmente ele sentiu algo de diferente, já que logo abriu os olhos, exibindo inicialmente um olhar surpreso por estar enxergando e logo em seguida um olhar verdadeiramente chocado quando me viu. E foi aí que notei que tinha esquecido de me manter encoberto.
Mas meu plano não era morrer pelas suas mãos desde o inicio?
Apenas sorri admirado, seus olhos eram belas jóias azul cobalto. E possuíam brilho determinado e intimidador que combinava com a sua postura altiva e imponente, simplesmente lindo.
Eu tinha certeza de que ele não me reconheceria sem me ouvir, uma vez que meu cheiro deveria estar diferente e que eu parecia mais demônio do que humano agora. Mas estava perfeitamente enganado.
– M-Moyashi... – Sussurrou realmente pasmo. Coisa rara, para não dizer inédita.
– Kanda, eu... – Mal comecei a frase um tremor de terra nos interrompeu.
Era o exército demoníaco que se aproximava.
Um rugido soou tão alto que até mesmo eu tive que tapar os ouvidos.
Um rugido furioso de um enorme dragão de fogo.
Nada mais, nada menos que a forma demoníaca do meu pai.
E que com certeza estava me procurando... E eu estava com Kanda...
Voltei meu olhar para o moreno que me encarava impassível. Impassível e furioso.
Sorri amargamente, Kanda era um dos únicos humanos que tinha verdadeiros motivos para odiar demônios, por que diabos uma parte de mim ainda esperava que ele fosse me aceitar assim mesmo?
Desembainhou a katana rápido como uma flecha e pegou uma corda, vindo na minha direção. Por sorte, por pura e maldita sorte, ele mesmo tinha me treinado, e eu fui um bom aluno assim como ele um ótimo professor. Desviei rapidamente, escapando pela entrada da tenda e subindo aos céus no mesmo instante.
Se meu pai me encontrasse com Kanda tentando me atacar, eu tinha absoluta certeza que o moreno não sobreviveria a essa.
Eu já o tinha visto, já sabia que ele me odiava, agora eu tinha que sumir de perto dele antes que...
Um puxão realmente forte na minha perna quase me fez cair direto no chão, e quando olhei para baixo, vi o olhar mais irado que eu já tinha visto em um humano no rosto de Kanda, e direcionado a mim.
– VOCÊ NÃO VAI FUGIR DE MIM MOYASHI MALDITO! – Praticamente rosnou.
Olhei para frente e vi o corpo imenso da forma demoníaca do meu pai se aproximando, e acompanhado de umas cinco legiões.
O exército demoníaco só atacaria á noite, mas isso não queria dizer que meu pai não viria até aqui acompanhado dos meus irmãos, os outros cinco príncipes demoníacos.
Ou seja, a coisa estava feia.
E eu no lugar de pensar em uma solução, ainda estava meio lerdo pensando que Kanda com aquele olhar irado ficava realmente um convite ao pecado...
Pessoas apaixonadas tem sérios problemas mentais, acabo de comprovar.
Senti outra corda, dessa vez em um dos meus chifres, e não teve jeito de eu me manter no ar. Cai direto no chão de terra, e quando meu pai viu aquilo, uma coluna gigantesca de fogo cortou o céu.
– Kanda! Você tem que me ouv...!
– Calado! Nenhuma palavra! – Berrou realmente irritado, me imobilizando com uma facilidade humilhante, prendendo minhas asas e meus braços nas minhas costas, e fincando a katana no chão, bem próxima do meu rosto, levantando minha cabeça por um dos meus chifres, para que eu pudesse encará-lo.
– Kanda! Meu pai va...!
– TEM IDEIA DO QUANTO EU TE PROCUREI, MOYASHI MALDITO?! – Ele ainda parecia muito irritado, mas agora eu podia perceber que seus olhos estavam úmidos.
– K-Kanda...? – Seus olhos me transmitiam dor, alívio, raiva, carinho, desespero, amor... Tudo ao mesmo tempo, me deixando totalmente sem reação.
– Eu sai quem nem um maluco atrás de você seu desgraçado... Eu vim parar no exército procurando você! Pensando que algum grupo tinha te capturado ou coisa do tipo... Sabe como foi imaginar que queimaram você numa fogueira?! Tem idéia?! Eu deveria te socar até você desmaiar!
Havia juntado uma multidão de soldados a nossa volta, tanto para pedir orientação quanto ao dragão gigante que se aproximava, quanto esperando pra ver como seria o comandante deles executando um demônio. Até eu mesmo esperava ser executado na verdade, e quando comecei a ouvir as palavras de Kanda... Foi como se o mundo parasse para nós dois por um momento.
– V-Você... – Eu tentava formular uma frase coerente, mas tantas coisas passavam pela minha cabeça no momento que era impossível.
– Se eu sabia?! É obvio que eu sabia que você era um demônio! Não sou idiota Moyashi, naquela noite eu ouvi os soldados que estavam perseguindo você do mesmo jeito que ouvi você gritando que nem uma cachorra louca. – Respondeu minha pergunta não concluída, secando uma lágrima que escorreu pelo meu olho sem que eu nem ao menos percebesse, e dando um leve sorrisinho de canto.
Um tremor extremamente forte balançou o chão. Eu sabia que era meu pai pousando, junto com ele vinham meus irmãos, que tinham uma forma como a minha, um corpo humano, mas com asas, chifres e cauda; e os vassalos, que tinham várias formas, desde humanoides até feras.
O exército de humanos paralisado, sem saber como reagir, apenas abria espaço para o enorme dragão vermelho que parecia tão atento a minha discussão com Kanda quanto a maioria dos soldados. Ninguém atacava. Ninguém reagia. O mundo realmente parecia ter parado. Ou talvez a situação fosse tão absurda que nenhum dos lados sabia como reagir.
Vivíamos tempos de ódio e rancor. Tempos de uma perseguição despropositada e violência gratuita. Tempos de caos, tempos de guerra entre demônios e humanos. Então, quão inusitada deveria ser a cena que eu e Kanda deveríamos estar protagonizando sem nem mesmo nos dar conta de que estávamos em público?
– Mas... Se você sabia que eu era um demônio, por que me salvou? – Indaguei perplexo, me sentando, agora que ele viu que eu não ia mais fugir e saiu de cima de mim.
– Você era um pirralho de quatorze anos, machucado e sendo caçado por nenhuma razão em particular, por que eu não salvaria você? – Devolveu a pergunta, quase fazendo meu queixo cair.
– Mas os demônios mataram sua família... – Murmurei tentando entender, mas ao mesmo tempo com medo de que ele acabasse mudando de idéia ou que guardasse algum rancor de mim...
– Aqueles que fizeram isso já tiveram sua punição pela minha espada. – Declarou resoluto. – E você não tem culpa de nada do que aconteceu...
– COMO NÃO?! – Uma voz soou no meio da multidão. Um dos soldados atravessou a multidão e parou de frente a Kanda, que permanecia de joelhos no chão, me segurando como se ainda temesse que eu alçasse vôo e fosse embora. – Não vê que essa fera te fez perder a razão Comandante?! Essa coisa seduziu o senhor e está claramente impedindo que lute em favor da sua causa! Da sua espécie! Não caia nas artimanhas do diabo! – O soldado me olhava com tamanho ódio que cheguei a estremecer levemente. Sinceramente, eu não acreditava que tinha feito nada para merecer tal coisa.
Percebendo meu desconforto, Kanda soltou calmamente as cordas que me prendiam e me puxou para seus braços, em um abraço protetor e aconchegante.
– Soldado, você perdeu o respeito por acaso? Quantos anos acha que eu tenho para simplesmente ser seduzido e manipulado contra a minha vontade?! Não sou nenhuma criança, e nem mesmo um adolescente irresponsável que se deixa levar assim tão fácil. – Sua voz tinha um tom autoritário e impassível que intimidava qualquer um, e aliando isso a um olhar assassino, pude perceber até mesmo alguns demônios da guarda dando um passo para trás. – Cresça, seu porco imundo, aprenda a ser homem e a admitir seus próprios erros e suas próprias fraquezas ao invés de jogá-las para cima de outros seres que nada tem a ver com a sua vida.
Nem preciso explicar como foi que eu me apaixonei, não é?
– Então... Você não me odeia...? – Murmurei levantando o rosto na sua direção, ainda com seus braços a minha volta.
– Você é retardado? – Resmungou fazendo uma cara mal humorada, suas bochechas assumindo uma perceptível coloração rosada. – Eu te amo Moyashi, quantas vezes eu vou ter que diz...
Não deixei-o terminar a frase. Roubei-lhe um beijo apaixonado no calor do momento, passando os braços em volta do seu pescoço e o envolvendo com minhas asas, trazendo-o para mais perto de mim.
Nossos lábios se encontraram sedentos, ansiávamos por esse contato, haviam sido doze longos meses longe da presença um do outro, estávamos desesperados, famintos... Necessitados.
Nos separamos muito a contra gosto, mas não era como se pudéssemos simplesmente ficar matando as saudades com dois exércitos confusos e de sangue quente prontos para se enfrentarem bem a nossa frente.
Kanda se levantou, me trazendo junto, mas quando pensei em começar a andar na direção do meu pai e tentar explicar alguma coisa, ele me puxou de repente, me jogando por cima do ombro.
– Kanda! Mas que diabos....?!
– Vai ficar preso, não quero correr o risco de te perder de vista de novo. – Falou sério. – Essa lagartixa gigante é seu pai? O chefão? – Indagou displicente, ouvindo um rosnado sonoro do meu pai em resposta.
– Mais respeito BaKanda! – Exclamei socando as suas costas como eu podia.
– Tá... Que seja. – Suspirou entediado e logo em seguida foi andando calmamente em direção ao meu pai, com um olhar determinado e um meio sorriso irônico. – Oh grande lagartixa vermelha. – Começou em um tom irônico. Kanda realmente não tem muito amor á vida... – Eu não vim até esse fim de mundo pra lutar com você, vim atrás de seu filho por que sabia que ele acabaria metido nessa luta de um jeito ou de outro. Então qualquer assunto que você tenha a tratar, é acima daquela colina, na tenda onde está o Rei, o líder da igreja e todo o conselho. – Falou simplesmente, se virando na direção contrária para ir embora, quando uma enorme pata coberta por escamas escarlates tomou sua frente.
– Meu filho... Humano insolente...
– Vai comigo pra longe de toda essa confusão. Vocês que se resolvam. – Respondeu curto e grosso.
– Hey, e minha vontade, onde fica? – Protestei.
– Fica caladinha dentro da sua cabeça, desde a vez que você teve a ideia de sumir da minha vista. – Falou subindo no cavalo e me arrumando confortavelmente em seu colo.
– E de quem foi a culpa? Você bem que poderia ter dito que sabia de tudo! – Reclamei. Ele já tinha começado a galopar.
– Eu perguntei um milhão de vezes o que merda você tinha... Quem mentiu foi você. – Retrucou já se distanciando de toda a confusão.
– Se você já sabia, por que diabos ficou perguntando, bastardo? – Devolvi já começando a discutir.
– Esperando você me dizer a verdade. – Respondeu acabando com meus argumentos.
Apenas cruzei os braços e me acomodei melhor no seu colo, fazendo bico e sentindo meu rosto formigar um pouco.
– Me desculpe. – Murmurei desviando o olhar e para minha surpresa, senti um toque rápido e carinhoso dos seus lábios nos meus.
– Realmente tenho que te agradecer por me devolver a visão... – Sussurrou no meu ouvido. – Não acredito que perdi todas as vezes que fez essa cara... – Mordiscou minha orelha de leve, me arrepiando por completo. – Tão comestível...
– BAKANDA! – Acertei um tapa forte na sua perna. – Quando chegarmos em casa, sim? – Sorri maliciosamente, lhe lançando um olhar cheio de segundas intenções.
– Sim... Casa. – Devolveu meu olhar e acelerou a cavalgada.
Dali em diante, nunca mais nos separamos.
Naquele mesmo dia, meu pai e o Rei dos humanos fizeram um acordo de paz. Na verdade as coisas não foram tão fáceis assim, aparentemente um dos últimos anjos que ainda não tinham abandonado totalmente a Terra, intercedeu, e os dois tiveram que se acertar de um jeito ou de outro. Pelo que um dos meus irmãos me contou depois, em uma das inúmeras visitas da minha família a minha casa, o Anjo só se meteu por causa do exemplo de mim e Kanda, de que as duas raças podiam muito bem esquecer suas diferenças, passar por cima das suas limitações e superar seus erros em nome de um sentimento maior. Nunca vi um Anjo, mas fiquei achando eles super adoráveis depois disso, ainda quero ver um.
Eu e Kanda voltamos a morar na cabana onde tudo começou, e depois de quase um ano separados, demorou bastante tempo pra que pudéssemos receber visitas, digamos que estávamos... Matando a saudade. E quando meu pai foi nos visitar, em sua forma humana dessa vez, eu fiquei realmente surpreso em ver que, apesar do temperamento forte de ambos, ele e Kanda acabaram se dando surpreendentemente bem.
Por muito tempo a paz durou... Continua durando até hoje. Graças a essa trégua forçada, as duas espécies pararam de se matar, mas em compensação os demônios se isolaram nos locais mais remotos do planeta, os grandes dragões adormeceram dentro de montanhas, as ninfas foram para as florestas mais fechadas, os lobisomens e feras para as cavernas mais profundas, as sereias e monstros do mar, para as águas abissais...
Até que em uma época, a humanidade se esqueceu da existência desses seres, lembrando-os apenas em lendas e contos, mas algo que nem os humanos e nem o demônios nunca mais se esqueceram, foi da lição que aquele Anjo enxergou em nós no meio de toda aquela discórdia.
Que mesmo quando o ódio reinar soberano nos corações, o amor não morrerá, sempre irá haver uma ilha de paz em meio ao caos, uma luz, mesmo que pequena, em meio a escuridão.
Mesmo em meio a tragédia, mesmo quando todos virarem as costas, e mesmo quando tudo parecer perdido, sempre vai haver uma esperança.
Sempre haverá também alguém que lute para manter essa chama acesa.
E enquanto essa chama não apagar.
A batalha nunca, jamais, estará perdida.
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